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Não é preciso ser grande para ser internacional

Beleza natural

Cupuaçu, muru-muru, picão-preto, angico-branco — a Chemyunion extrai da natureza brasileira os bioativos que exporta para clientes globais das indústrias de beleza e nutrição

Antonio Carlos Santomauro

Publicado em 29 de setembro de 2018, 9:23:20

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O picão-preto e o angico-branco fazem uma dupla contrastante, não é mesmo? Nem sempre. Hoje, os dois são fontes de ativos utilizados pela indústria cosmética brasileira. O primeiro é uma planta muito comum nos campos e terrenos baldios do país, a partir do qual se deriva um ativo antienvelhecimento, enquanto o angico-branco (acima) é uma árvore da região amazônica e dos cerrados da qual se extrai uma substância benéfica para a pele.

Tanto o picão-preto (ao lado) quanto o angico-branco são, também, alguns dos espécimes da flora brasileira utilizados em produtos exportados para vários países pela Chemyunion, fabricante de ingredientes e ativos para produtos de beleza e de nutrição com sede em Sorocaba, no interior do estado de São Paulo.

Hoje com operações próprias nos Estados Unidos e Colômbia e clientes do porte das multinacionais L’Oréal, Avon, Johnson & Johnson e Unilever — além das brasileiras Natura e O Boticário —, a Chemyunion faturou cerca de 100 milhões de reais em 2017.

Entre 20% e 25% desse bolo resultaram de negócios de exportação para mais de 50 países, entre os quais a China, a Índia, a Coreia, a Indonésia, a França, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o Chile, a Colômbia e a Argentina. Mas nem sempre foi assim.

Em 1992, quando a Chemyunion foi fundada por quatro empreendedores de São Paulo, sobrava para as empresas brasileiras a fatia menos desejada do mercado de ingredientes e ativos para produtos de beleza, formada por produtos de baixo valor agregado. Multinacionais com sede nos Estados Unidos e na Europa dominavam as faixas mais cobiçadas (e rentáveis).

O que deveria fazer um novo competidor, como a Chemyunion, que ambicionava entrar para esse mercado? A saída mais promissora, ainda que improvável e quase impensável no Brasil de há um quarto de século, seria procurar um diferencial que lhe permitisse concorrer em qualidade e atratividade com esses conglomerados e suas grandiosas estruturas de pesquisa, produção e distribuição.

Foi o que fizeram os quatro fundadores da empresa (três dos quais continuam na companhia), partindo para uma consistente pesquisa da biodiversidade brasileira como matéria-prima para os produtos que iriam fabricar.

“Vi que essa era uma das formas de me inserir no mercado internacional”, lembra Marcelo Golino, um engenheiro químico que, antes de fundar a Chemyunion, atuou por sete anos em multinacionais desse mesmo ramo. Os produtos inovadores gerados por essa pesquisa foram os pilares da estratégia que alavancou os negócios da empresa no Brasil e no mercado global.

Cupuaçu (ao lado), muru-muru, buriti, andiroba e babaçu — além do angico-branco e do picão-preto —, são algumas das plantas e frutos da flora brasileira utilizados pela Chemyunion para a obtenção dos ingredientes que produz. Trata-se de óleos e extratos empregados principalmente em produtos para cuidados com o cabelo e a pele, bem como na indústria da nutrição.

Para desenvolvê-los, a Chemyunion trabalha de forma colaborativa com uma rede de pesquisadores de diversas universidades brasileiras: a USP (Universidade de São Paulo), a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a Unesp (Universidade Estadual Paulista) e a UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), entre outras.

“As ideias básicas dos projetos são nossas, mas buscamos nas universidades os caminhos para viabilizá-las”, conta Golino, que hoje é diretor-presidente da Chemyunion e divide em partes iguais 75% do controle acionário com José Norberto Lopes da Silva (que já não está na gestão diária da empresa).

O terceiro sócio, Marcio Antonio Polezel, detém os 25% das ações restantes. Os pesquisadores que participam daqueles projetos podem ser remunerados por serviços de assessoria ou ganhar participação nos resultados de seus esforços.

A Chemyunion dedica à pesquisa e ao desenvolvimento um percentual de seu faturamento bastante alto para os padrões de mercado: 7%. Trabalha nessa área um contingente também expressivo de sua equipe de 135 colaboradores: são 25 pessoas, todas elas com mestrados ou doutorados. Da colaboração entre essa equipe própria e os pesquisadores externos parceiros já resultaram mais de 20 patentes (duas delas no exterior).

Laboratório da Chemyunion: pesquisa rendeu mais de 20 patentes   Divulgação Chemyunion

A dedicação à pesquisa permitiu à empresa ganhar degraus na cadeia produtiva da indústria de produtos de beleza: da condição de simples fornecedora de ingredientes — à qual se restringiu em seus primeiros anos — ela subiu ao patamar de desenvolvedora dos ativos que conferem a esses produtos suas características funcionais, cujo valor agregado é superior ao dos ingredientes.

Há dois anos, a Chemyunion montou um escritório em New Jersey, nos Estados Unidos, onde quatro pessoas desenvolvem atividades comerciais e de prestação de serviços no mercado norte-americano.

No início de 2017, inaugurou sua segunda operação internacional: em Bogotá, na Colômbia, de onde cinco profissionais desenvolvem as mesmas atividades nos países andinos e na América Central (os demais mercados latino-americanos são trabalhados por representantes).

Brevemente, essa estrutura internacional será ampliada. “Ainda este ano deveremos ter uma operação própria também na Europa, e até 2020 inauguraremos outra na Ásia”, adianta Sergio Gonçalves, diretor de marketing e negócios internacionais da empresa.

A Chemyunion mantém um armazém terceirizado na cidade belga de Antuérpia. “É importante para minimizar fatores — burocráticos, por exemplo — que podem gerar instabilidade em nosso fornecimento”, ele afirma.

Para dar os primeiros passos no mercado internacional, a companhia começou a participar, como visitante, de feiras internacionais do mercado da beleza. Isso foi na virada do século. Agora, ela própria é expositora de vários desses eventos, inclusive do principal: a versão mundial da feira in-cosmetics, da qual participa já há dez anos — a cada ano, ela é realizada em uma cidade diferente (em 2017 foi em Londres; em 2018 será em Amsterdã).

“Além disso, todo ano somos expositores de duas feiras nos Estados Unidos e outra na Colômbia”, diz Gonçalves, “Também participamos de feiras na Ásia em parceria com distribuidores.”

Quanto mais a Chemyunion se aprofunda nos mercados globais, entretanto, mais acirrada é a concorrência. Gonçalves observa que a disseminação das atividades de pesquisa e inovação pelo mundo expandiu a quantidade de players no mercado global de ingredientes para produtos de beleza.

Em vários dos países nos quais atua, a empresa brasileira hoje tem como competidores não apenas as grandes multinacionais, mas também marcas locais. Alguns diferenciais levaram o Brasil a atingir uma posição destacada nesse mercado. “No segmento dos produtos para cabelo, por exemplo, o país hoje está na liderança, até pela diversidade de tipos de cabelos aqui existente”.

Golino: aposta em ingredientes e produtos diferenciados   Divulgação Chemyunion

Há outras razões que permitem à Chemyunion posicionar-se melhor nesse mercado disputado. “Estamos entre as poucas empresas do setor a oferecer testes comprovando a eficácia e a segurança dos produtos”, afirma Golino.

Durante algum tempo, a companhia manteve uma operação especificamente dedicada a esses testes; os equipamentos, porém, foram posteriormente repassados a uma empresa especializada, que hoje lhe presta serviços.

Nas instalações da fábrica, a empresa mantém um herbário para o cultivo de plantas das quais extrai as matérias-primas para seus produtos. Adquiriu, também, uma fazenda no Amazonas, onde futuramente poderá ampliar a escala do plantio.

Por enquanto, diz Golino, o cultivo está sem prazo para começar porque a legislação brasileira ainda torna complexa a exploração econômica dos produtos da biodiversidade do país. “Atualmente, trabalhamos também com ingredientes da biodiversidade de países asiáticos e africanos”, afirma.

A estratégia de expansão da empresa no mercado global vai além da ampliação da estrutura física de suas operações (a ser fortalecida por uma unidade na Europa ainda este ano). Inclui, também, presença mais incisiva em outros mercados que não o dos ingredientes para produtos de beleza: é o caso dos alimentos funcionais, para os quais já disponibiliza ingredientes destinados à reposição de minerais, entre outros itens.

Faz parte, ainda, da carteira da Chemyunion a pesquisa de produtos inovadores voltados para mercados que apenas começam a se consolidar, como aquele dos produtos denominados ‘nutracêuticos’ (termo nascido da junção entre produtos ‘nutritivos’ e ‘farmacêuticos’).

“Já estamos pesquisando produtos capazes de prevenir problemas nos cabelos ou estimular a capacidade cognitiva”, afirma Golino. “Sabemos que não podemos competir com os volumes das empresas asiáticas e não temos grandes operações multinacionais, como as europeias e norte-americanas. Acima de tudo, apostamos na diferenciação.”

Uma versão desta matéria foi publicada nas páginas 36 a 39, seção Pequenas Notáveis, do número 38 da Revista PIB, de nov/dez/2017 e jan/2018.

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