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Minha Paulista

Marie-Gabrielle está há 25 anos no Brasil e conta como aprendeu a amar a avenida onde tudo acontece em São Paulo

Marie-Gabrielle Bardet*
Publicado em 17 de novembro de 2018, 12:00:41

A Paulista vista de seu começo, no Paraíso, com a Japan House à direita, em primeiro plano   Edson Lopes Jr.

Esta história — do longo encontro de uma francesa com a mais paulistana das avenidas —, inaugura uma nova seção, a ser publicada apenas na versão web da Revista PIB: a “Travelling in Brazil”, na qual expatriados e visitantes estrangeiros falam sobre seus lugares preferidos no país. A nova página complementa, como um espelho, a seção “Turismo Expresso”, publicada na edição impressa da PIB. Nesta, brasileiros — e, eventualmente, estrangeiros com ligações brasileiras — apresentam aos leitores roteiros de visita a cidades e lugares ao redor do mundo. Boa leitura, e bons passeios também pelo Brasil!

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Este artigo é composto de duas partes. Leia também o link abaixo:

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Marie-Gabrielle e a Peugeot vintage: domingo na avenida livre dos carros   MSilva

Ainda lembro como se fosse ontem a primeira vez que vi a Avenida Paulista. Era um domingo à noite, dia 3 de outubro de 1993, e lá se vão 25 anos!

Um amigo tinha ido me buscar em Guarulhos, no voo das 17h e o avião tinha aterrissado pouco antes da chuva torrencial, então muito comum no final da tarde. Hoje, com o aquecimento global, a chuva não respeita mais horário…

Lá fomos nós no carro dele — um modelo americano desconhecido na Europa,  como aliás, muitas coisas no Brasil dos anos 90. Pegamos a Marginal Tietê, em seguida a Pinheiros, e eu mal conseguia abraçar com o olhar essa cidade tentacular, ainda mais com a escuridão caindo e o brilho do asfalto molhado.

Antes de me levar para casa, o amigo fez questão de me mostrar a tal Avenida Paulista — a Champs-Elysées brasileira, com seus 2,5 km de comprimento!

A Paulista hoje, vista do terraço do Instituto Moreira Salles…   MSilva

Confesso que fiquei impressionada com os arranha-céus iluminados que  invadiam a calçada de ambos os lados, abrigando na sua maioria bancos estrangeiros que fugiam do Centro, já depredado. Mas daí a dizer que amei… São outros quinhentos!

Sete anos depois, já na virada do século, a Paulista mostrava outra cara. No  terreno vago da esquina da Alameda Campinas, onde costumava deixar meu carro para trabalhar, subia um prédio comercial com shopping no térreo e um hotel 3 estrelas ao lado.

Naquele mesmo ano 2000 resolvi fazer Belas Artes com especialidade em arquitetura e paisagismo, e foi então que descobri realmente como São Paulo tinha se desenvolvido — os barões do café, o eixo da Paulista, a artéria principal desse grande coração pulsando.

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…e a avenida em 1902: casarões, céu aberto e vista da serra    G. Gaensly via Wikimedia Commons/                                                                                                                                     Acervo Biblioteca Nacional

Comecei a prestar atenção aos casarões antigos que sobravam e aos principais marcos da avenida: a Casa das Rosas projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo, com seu jardim à la française; a casa colonial branca, transformada em agência do Banco de Boston, com sua fachada enfeitada todo Natal.

E mais: o parque Trianon, um oásis de verdura, mas ainda meio perigoso; o MASP da Lina Bo Bardi, com seu vão livre e sua visão espetacular sobre a Av. 9 de Julho; o paredão chanfrado da sede da FIESP, assim como o painel de pedra entalhado da TV Gazeta.

Mas ainda estava longe de cultivar uma relação íntima com a avenida e nunca sequer tinha passado um Ano Novo ali. Ou seja, a Paulista ainda não me pertencia!

O MASP e seu vão livre: praça para tpdas as tribos da cidade    José Cordeiro/ SPTuris 

Chega 2006. À procura de um pequeno estúdio, me mudo por mero acaso para a rua Bela Cintra, travessa da Paulista e paralela à Augusta, que, por sua vez, passava por uma série de transformações.

Tinham arrancado a fiação aérea dos bondes elétricos que ainda circulavam nos anos 90, assim como os néons fluorescentes das casas de prostituição. Isso tudo contribuiu a valorizar a região do Alto Augusta e por consequência esse lado da Paulista.

Já me sentia à vontade no bairro, tanto que comecei a frequentar os comerciantes das redondezas e não tinha mais medo de andar a pé por essas bandas.

Em 2013, a Prefeitura refez os canteiros centrais da Avenida, que ganharam vida com azaleias rosas e brancas — infelizmente, não sobreviveram à poluição e à falta de água no ano seguinte, de grande seca. Sobraram os altíssimos postes de luz que dominam até hoje a avenida, iluminando até demais e meio que atrapalhando os fogos de artifício, quando tem.

A Paulista se reinventa: ciclistas diante do prédio do IMS   Pedro Vannucchi/ Instituto Moreira Salles

Dois anos depois, finalmente, começaram as obras para a ciclovia, cujo plano já estava no papel, engavetado, desde 2008. A inauguração aconteceu no dia 28 de junho de 2015 e as primeiras bicicletas surgiram timidamente.

Devo confessar que nem eu me atrevi. Foi preciso a iniciativa do Itaú e depois do Bradesco, de criar estações de bikes nos arredores para eu considerar a hipótese de deixar o carro em casa.

Mas as joias da revitalização da Paulista só vieram mesmo no ano passado, em 2017, quando dois empreendimentos culturais de alto padrão surgiram do asfalto, cada um numa ponta da avenida. Do lado Paraíso, a Japan House, inaugurada em maio; do lado Consolação, o Instituto Moreira Salles (IMS) que abriu em setembro e ainda nos presenteia com o restaurante Balaio, do chef Rodrigo Oliveira (uma estrela Michelin).

O terraço do IMS: debruçado sobre a avenida   Pedro Vannucchi/ Instituto Moreira Salles

Coincidentemente, viajei para o Japão naqueles três meses intermediários e andava 18 km por dia a pé e de bicicleta. Redescobri o prazer de pedalar;  quando voltei a São Paulo, isso tornou-se naturalmente uma evidência. Tive uma epiphany como dizem os Ingleses.

Comprei uma bike vintage, marca Peugeot, de um expatriado francês que a trouxe de Paris.

E lá vou eu, desde então, na minha magrelinha, dia sim, dia não, 2ª de manhã até Ana Rosa para um bate-papo com mulheres de executivos japoneses; 4ª à noite na Japan House para assistir a ótimas palestras; fim-de-semana no IMS para ver exposições de fotografia.

Exposição de moda na Japan House: desenho e tecnologia do século 21    Divulgação Japan House

E nem contei ainda do SESC Paulista, que reabriu as portas ao público em abril deste ano com seu excelente café no rooftop e sua biblioteca onde muita gente vai tirar uma soneca na hora do almoço. No último eclipse solar, em agosto, o terraço estava apinhado de gente!

Enfim, como apoteose, no lugar da antiga Maternidade Matarazzo, abandonada há anos, está sendo construído um hotel de luxo com direito a sala VIP de cinema e centro cultural. As obras andam em ritmo acelerado e o melhor é que preservaram a capelinha, que ficará como que “suspensa no ar” dentro do conjunto!

Enfim, cereja no bolo, o Conjunto Nacional — esse velho amigo do paulistano, que já completou meio século — vai ser completamente remodelado por dentro e abrigará marcas internacionais de luxo. O Blue Note, famoso clube de jazz de Nova York, vai abrir filial nas suas dependências até o Natal… What a treat!

Frevo no palco externo do Sesc Paulista: dança na rua   Divulgação Sesc

Pois é. Essa é a Paulista que eu vi crescer nesses 25 anos, que hoje eu A-MO de paixão, e da qual acabei me apropriando aos poucos… because she kind of grew on me. Então convido você, forasteiro, turista ou executivo, a percorrê-la devagar e descobrir seus segredos.

Maybe it will grow on you too!

*Marie-Gabrielle Bardet é jornalista free-lance, tradutora e intérprete. Até o ano 2000, trabalhou como secretária quadrilíngûe em empresas brasileiras e multinacionais.

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Doze lugares para conhecer na Paulista

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