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Aventura no Nilo

Produtor rural de Mato Grosso leva tecnologia agrícola brasileira ao Sudão para cultivar algodão, soja, milho e feijão às margens do grande rio

Polyanna Rocha, Cidade do Cabo
Pinesso com sudanesas: feijão-branco contra a fome

Há cerca de dois anos, uma comitiva de produtores rurais, pesquisadores, consultores, agrônomos e técnicos agrícolas de várias regiões do Brasil vem cruzando o Atlântico e a África em direção à cidade de Ad-Damazin, no Sudão. um país pobre e conflituoso no nordeste do continente africano, voltado para o Mar Vermelho e a península Arábica. Alguns voltam logo, outros passam longas temporadas lá. A missão de todos é elevar a produção de grãos e fibras do país, que dispõe de terras férteis atravessadas pelo Nilo, um dos grandes rios do mundo, mas se ressente da falta de conhecimentos e tecnologia moderna para desenvolver seu formidável potencial agrícola. A história desses empresários e técnicos pode ser vista como um capítulo da contínua migração de famílias de agricultores do sul do Brasil para outras terras, iniciada pelas regiões mais próximas do Centro-Oeste e Sudeste brasileiros. Depois de alcançar o Nordeste e a Amazônia, ela cruza o Atlântico e chega às margens do Nilo Azul, um dos braços formadores do caudal principal do Rio Nilo. O outro é o Nilo Branco, e a capital do Sudão, Cartum, foi construída na confluência deles (Ad-Damazin, a principal cidade da região onde se desenvolve o projeto, é a capital do estado sudanês do Nilo Azul, e fica a 750 quilômetros a sudeste de Cartum). Trinta e dois brasileiros e 100 sudaneses trabalham, atualmente, na região, tendo à frente o produtor rural Gilson Pinesso, nascido no Paraná numa família de produtores de café. Antes de chegar à África, Gilson plantou seus negócios em Mato Grosso, em Mato Grosso do Sul e no Piauí, onde o Grupo Pinesso administra 11 fazendas de soja, algodão, milho, sorgo, arroz e pastagens.


No empreendimento sudanês, o planejamento para este ano contempla o cultivo de 22 mil hectares de terras, dos quais 16 mil de algodão, 3,5 mil de girassol, 2 mil de feijão e 500 de soja. "Esperamos a colheita em janeiro e fevereiro de 2013 com rendimento de cerca de 3,5 mil quilos por hectare, e o faturamento de 60 milhões de dólares", prevê Pinesso.


A fertilidade das terras encantou os brasileiros já no primeiro cultivo experimental, feito em 2010. Foram plantados 400 hectares de algodão, outros 100 de soja e mais 60 de milho. "Confesso que fiquei surpreso com os resultados, principalmente com a beleza e a qualidade do algodão", diz Pinesso. "No Brasil, por exemplo, não conseguimos, no primeiro ano de plantio, a mesma qualidade do algodão sudanês".


Além da qualidade, o rendimento dos cultivos também encheu os olhos dos recém-chegados à África. "Com a tecnologia que levamos, obtivemos quase dez vezes mais produtividade do que eles conseguiam; acho que Deus passou por ali e abençoou as terras", diz Pinesso. Mas nem sempre foi assim. O produtor encarou com ceticismo as primeiras propostas de parceria, feitas no fim de 2009 pelo ministro da Agricultura do Sudão, Ismail Abd Elhalim Elmotafi, que visitava fazendas do Grupo Pinesso em Mato Grosso.


"Ele obteve informações sobre as técnicas agrícolas brasileiras, ficou encantado com a nossa produção de algodão de 4,5 mil quilos por hectare e me procurou para uma proposta de parceria público-privada naquele país", relembra o empreendedor. Pinesso, inicialmente, recusou o convite, alegando que a África ficava longe e o Brasil ainda tinha muitas terras para plantar. Mas o ministro insistiu, argumentando que o Sudão oferecia muitas facilidades para a agricultura; era necessário conhecer o país e fazer uma análise antes de dar a resposta. E assim foi feito: em fevereiro de 2010, um grupo precursor, Pinesso à frente, embarcou pela primeira vez para o Sudão, com o bjetivo de orçar um projeto piloto e avaliar se seria possível replicar na savana sudanesa o cultivo bem-sucedido dos cerrados do Centro-Oeste brasileiro (o Sudão é desértico no norte, mas ao sul é coberto por savanas e florestas tropicais).


O desafio era constatar se a tecnologia e o modo de cultivar dos brasileiros iriam se adaptar ao clima e às condições de solo sudaneses. Essa fase inicial contou com dois agrônomos e a assessoria de técnicos da Associação Matogrossense dos Produtores de Algodão (Ampla) e do Instituto Matogrossense do Algodão (IMA). A Agropastoril Pinesso, do grupo familiar, participou com know-how, pesquisa, testes de sementes e a tecnologia agrícola, e o governo do Sudão entrou com recursos de cerca de 600 mil dólares.


Confirmado o sucesso da primeira colheita por análises de sustentabilidade e rentabilidade do projeto, foi criada uma empresa — a Brazilian-Sudanese Agrobusiness Corporation — para desenvolver a agricultura do Sudão com base na transferência de tecnologia brasileira.


A Agropastoril Pinesso é responsável pela administração e pelas vendas, além de fornecer o know-how técnico. Já o governo do Sudão é o investidor nessa iniciativa, juntamente com o grupo Arab-Sudanese Blue Nile Agricultural Company Ltd., afiliado à Arab Authority for Agricultural Investment and Development (AAAID), uma agência de investimentos em agricultura mantida por 12 países da Liga Árabe.


O investimento está estimado em mais de 70 milhões de dólares para plantar 100 mil hectares até 2014. As terras pertencem ao governo do Sudão, que cedeu a concessão gratuita por um período de 30 anos e oferece parte dos financiamentos para maquinários, adubos e sementes. A cooperação entre Brasil e Sudão projeta aumentar em até três vezes o volume atual da produção de algodão do país, que hoje está em 80 mil toneladas ao ano. Como o Sudão não possui indústria têxtil, toda a produção de algodão será destinada à exportação. Em contrapartida, a empresa precisa trazer divisas para o país. E que mercados


poderão importar a produção da binacional sudanesa-brasileira para gerar as divisas? Um destino certo é a Turquia, no vizinho Mar Mediterrâneo. "Também estamos conversando com a China, que já demonstrou interesse no algodão sudanês, até mesmo porque os chineses já possuem uma relação comercial estreita com o país na venda de máquinas e equipamentos", revela Pinesso.


Outros mercados importantes na região podem se beneficiar da posição geográfica privilegiada do país africano. A fazenda que abriga os projetos da Brazilian-Sudanese Agrobusiness Corporation fica a aproximadamente 1,2 mil quilômetros de Porto Sudão, uma cidade litorânea sobre o Mar Vermelho, distante apenas cinco horas de navio da Arábia Saudita e com fácil passagem para o Mediterrâneo pelo Canal de Suez, além de acesso direto ao Oriente por meio do Golfo de Aden e do Oceano Índico. "As estradas são pavimentadas, o acesso ao porto é rápido e ainda ficamos mais perto dos mercados consumidores de algodão, como a Turquia, a China, a Índia, Bangladesh e Paquistão", resume Pinesso. "Só para efeito comparativo; no Brasil, Mato Grosso está entre 1,8 mil e 2 mil quilômetros dos portos mais próximos, muitas estradas não possuem asfalto adequado, e estamos a alguns milhares de quilômetros da China e da Índia".


As perspectivas também são boas para os cultivos de feijão e soja, ainda que esta última demande melhor adaptação das sementes ao solo. O problema é que os chamados inoculantes brasileiros não apresentaram a performance esperada e terão de ser substituídos este ano por outros levados da Argentina e do Egito (no cultivo da soja, utilizam-se bactérias inoculadas nas sementes para estimular a assimilação, como nutriente, do nitrogênio retirado do ar, substituindo com vantagens econômicas e ambientais os fertilizantes nitrogenados industrializados). Resolvido esse gargalo, os sudaneses pretendem conquistar a autossuficiencia na produção da soja e, quem sabe, até começar a exportá-la (hoje, são importadores).


Já a primeira produção de feijão tipo Caupi (branco), estimada em 240 toneladas, foi motivo de comemoração nas comunidades locais, que sofrem com a falta de alimentos. Estima-se que 40% da população viva abaixo da linha de pobreza. O grão foi distribuído para um projeto social e beneficiou cerca de 2 mil pessoas. "Neste ano, muitas crianças e adultos não vão passar fome; terão o feijão, que, além de saboroso, é uma fonte de proteínas, fibras e ferro", diz Pinesso. "A entrega nas comunidades


foi extremamente impactante". A meta para 2012, diz ele, é destinar 200 hectares de feijão ao projeto social. Metade dos grãos será doada e da outra parte serão feitas sementes, para que as comunidades locais aprendam a plantar e a colher seu próprio alimento.


De maneira geral, diz o produtor, o Sudão tem atrativos que reduzem os custos de produção: a fertilidade natural do solo, a topografia suave e também o baixo índice de pragas e insetos. "No Brasil, usamos 22 aplicações de agroquímico na plantação de algodão; já no Sudão, com cinco aplicações é possível tirar a lavoura", ele compara. O custo estimado do cultivo do algodão sudanês é em torno de 1,1 mil dólares por hectare, enquanto em terras brasileiras esse custo chega a 2,4 mil dólares. Além disso, a água não é problema, graças à abundância do Nilo.


Em relação aos cuidados ambientais no Sudão, o empreendedor garante que replica os mesmos cuidados aplicados a suas terras no Brasil. "Respeitamos as nascentes, as áreas plantadas foram desmatadas antes da nossa chegada e não temos objetivo de desmatar nada", explica. "Mantemos distância considerável dos locais onde os animais bebem água, para evitar qualquer tipo de contaminação com agroquímicos e,  mesmo assim, fazemos poucas pulverizações na lavoura porque o solo é muito fértil". Outros cuidados, segundo o produtor, incluem uma distância de 400 metros entre os cultivos para que os animais circulem tranquilamente. Para administrar um projeto desse porte e ambição, é indispensável cuidar atentamente do intercâmbio entre brasileiros e sudaneses. De acordo com Pinesso, não há problemas nesse campo, mesmo sendo o Sudão um país islâmico que fala árabe e inglês, com cultura e costumes muito diferentes. "O brasileiro é bem-vindo na África, provavelmente pela forma como o Brasil foi colonizado, e pela não interferência em conflitos e problemas internos nos países africanos", diz ele. Muitos brasileiros da equipe já falam frases em árabe, segundo o produtor, e frequentam os cafés, lojas e supermercados que a população usa. "Quando os sudaneses os encontram, já abrem um sorriso largo e gritam Cacá, Ronaldo", diz ele. "O futebol tem essa bandeira de paz".


O Brasil sempre foi um parceiro atraente para os sudaneses pela abertura para prestar cooperação e transferir tecnologia, confirma o embaixador do Sudão em Brasília, Abd Elghani Elnaim Awad Elkarim. No início do ano, 16 agrônomos sudaneses tiveram a oportunidade de estagiar por cinco meses na fazenda Água Limpa, do Grupo Pinesso, em Mato Grosso, com o objetivo de assimilar as técnicas agrícolas brasileiras. Além disso, frequentaram a Escola Agrícola EJAP . Eugênio José Antônio Pinesso, mantida


pelo grupo.


Na verdade, segundo Gilson, parte dos funcionários brasileiros no Sudão graduou-se como técnicos agrícolas pela EJAP, criada em 2006 para formar gratuitamente mão de obra para o mercado agropecuário e gerar oportunidades de trabalho para os filhos dos pequenos agricultores, dos assentados e trabalhadores rurais da região. "Quando o Lago de Itaipu foi construído, o governo brasileiro removeu as famílias do local para a região de Novo Ubiratã e praticamente abandonou esse pessoal", lembra Pinesso. "Ficamos felizes em ver que esses meninos estão ganhando o mundo com o conhecimento adquirido".


O centro de formação em Mato Grosso também levou o governo do Sudão a desenvolver um projeto de capacitação agrícola com suporte brasileiro. A previsão é começar as atividades em 2013 e formar 60 alunos por ano. O Grupo Pinesso ainda vislumbra a criação de parcerias privadas com empresários locais, sem perder de vista a sociedade com o governo sudanês. "Acabamos de levar lá mais dois agricultores baianos, porque pretendemos ampliar os negócios no Sudão", explica Gilson.


Segundo ele, há ainda 8 milhões de hectares de terras de alta qualidade para ser cultivadas. Pinesso conta que, apesar da distância entre Brasil e Sudão, ele consegue gerenciar o andamento dos trabalhos via internet e com visitas a cada dois meses durante o plantio. "Os funcionários conseguem até levar o laptop para a lavoura, vejo tudo e passo as instruções a distância ou trocamos ideias", ele conta. "A qualidade do sistema de TI é muito boa, além de ser barato e, às vezes, melhor do que em Mato Grosso". E a África, afinal, deixou de ser aquele lugar distante e desconhecido de dois anos atrás, quando lá esteve pela primeira vez. Já não há mais dúvidas para o Grupo Pinesso em relação à viabilidade dos empreendimentos agrícolas no continente. Assim que os primeiros resultados foram colhidos no Sudão e a insegurança deixada para trás, o Grupo aterrissou em Moçambique. Em dezembro de 2011, um agrônomo brasileiro foi designado para visitar a província de Nampula, onde o grupo estuda a implantação de um projeto piloto. Sua tarefa foi conhecer peculiaridades como o comportamento das plantas, das pragas e das ervas invasoras. O objetivo do grupo é plantar ainda este ano 1,5 mil hectare de soja e milho nessa região de Moçambique.


O embaixador Elghani, do Sudão, está otimista com as perspectivas que se abrem. Ele vê possibilidades de negócios com grupos brasileiros no desenvolvimento da agropecuária, no cultivo de frutas e legumes, no fornecimento de sementes, no plantio de cana e na venda de equipamentos para a fabricação de açúcar e etanol (em que já existem casos concretos). "Há um imenso potencial de atração de empresas brasileiras do setor agroindustrial para iniciativas na África", conclui Pinesso. "Temos muito a acrescentar com know-how, tecnologia e o nosso jeito especial de fazer agricultura; se não fizermos isso, vamos perder espaço para outros países que já são muito presentes".


 


 


Separação e Conflitos


Pinesso tinha estimativa de cultivar 30 mil hectares no Sudão em 2011, distribuídos entre algodão, soja, feijão e milho. Foram contratados cerca de 50 brasileiros, entre agrônomos, técnicos agrícolas e operadores de máquinas, para tocar os preparativos na fazenda sudanesa, além de agricultores da região. Mas a área teve de ser reduzida para 8 mil hectares por conta dos conflitos internos nesse período, especialmente no Estado do Nilo Azul, onde os brasileiros deveriam trabalhar.


Grandes transformações políticas ocorreram nesse período, em particular a separação do Sudão do Sul, vizinho ao Nilo Azul, em julho do ano passado, após um referendo que decidiu pela independência da província sulista rebelada. Durante todo o ano, os combates se intensificaram para marcar posições nos acordos pós-independência sobre a divisão de recursos como o petróleo e a demarcação de fronteiras.


Um antigo conflito na outra região rebelde do país - Darfur, no oeste, mais distante do Nilo Azul - ampliou-se e acarretou a fuga de centenas de milhares de civis, segundo dados da Anistia Internacional (por causa das atrocidades cometidas por milícias aliadas do governo em Darfur, o presidente sudanês Omar al-Bashir teve sua prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional em 2009, o primeiro chefe de Estado no poder a sofrer essa sanção).


Toda essa instabilidade levou a equipe sudanesa-brasileira a buscar refúgio na capital do Sudão, Cartum. Depois de 23 dias afastados da fazenda, não foi possível recuperar os prejuízos. "A lavoura ficou bastante prejudicada, sofreu severos ataques de pragas e insetos, pois não os combatemos a tempo", conta Pinesso. Mesmo com prejuízo, o empresário acredita que a perspectiva é faturar algo em torno de 22 milhões de dólares com a safra de 2011/2012.



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