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Kit inspirado nos escoteiros ajuda vítimas de catástrofes

Dedicada às vítimas de desastres naturais, a ONG ShelterBox reúne escoteiros de todo o mundo. Com a ajuda da brasileira Melissa Casagrande

Suzana Camargo
A Gincana de Londres

Por culpa do aquecimento global, de uma coincidência geológica improvável ou de uma maior cobertura da mídia, os desastres naturais hoje parecem proliferar com uma frequência um tanto assustadora. Inundações no Peru e nas Ilhas Fiji. Enchentes e deslizamentos no Brasil. O tsunami na costa japonesa. Terremotos na Itália... A ShelterBox, uma ONG britânica, esteve presente em todos esses locais, levando um alívio muito singular para as comunidades afetadas pelas tragédias. Não na forma de comida e remédios, e sim por meio da própria ShelterBox (caixa de abrigo), que deu nome à ONG: uma espécie de baú plástico verde em cujo interior há um kit com uma barraca que pode abrigar uma família de até dez pessoas e todo o equipamento necessário para amparar os desabrigados por mais tempo após o desastre, enquanto reorganizam suas vidas.


A ShelterBox foi criada em 2000, pelo inglês Tom Henderson, ex-oficial da Marinha Real Britânica. Durante sua carreira militar, Henderson percebeu que a ajuda levada aos sobreviventes de desastres vinha, na maioria dos casos, em forma de comida e medicamentos que evitassem uma tragédia maior no curto prazo. Pouco se levavam em conta os dias, semanas e meses subsequentes à catástrofe.


A ShelterBox é integrada por voluntários e escoteiros de todo o mundo. Detalhe: a ONG, hoje, tem entre seus expoentes a advogada curitibana Melissa Casagrande, que hoje vive em Londres. Tendo sido quase toda a vida uma bandeirante (versão feminina do escoteiro), ela é a coordenadora global das parcerias com escoteiros da ShelterBox International.


A ShelterBox foi a resposta de Henderson à maneira pela qual o socorro vinha sendo prestado. O produto é um robusto baú de plástico verde. Além da tenda customizada, cujo material resiste a temperaturas extremas, altas ou baixas, há na caixa um fogão portátil, panelas, louças, cobertores e ferramentas (para reconstruir o que for possível). Para as crianças, um kit com lápis de cor, canetas e blocos de desenhar. O objetivo é que, na medida do possível, essas pessoas voltem a ter uma rotina normal e a vida em família restabelecida. "A ideia da organização é proporcionar abrigo a essas famílias e facilitar esse momento tão difícil para pessoas que acabaram de perder tudo num desastre", afirma Melissa. "É difícil manter a unidade familiar, a privacidade e a dignidade em abrigos comunitários". Foram um hobby e a formação acadêmica que levaram Melissa, de 33 anos, para a ShelterBox. Formada em Direito pela Universidade Federal do Paraná, ela se doutorou em Direito Humanitário na Universidade McGill, situada na cidade de Montreal, no Canadá. Nos seis anos em que viveu nessa cidade, Melissa deu aulas na universidade e prestou consultoria para tribunais internacionais. “Prestei consultoria sobre Serra Leoa e Camboja, regiões de conflito onde os limites jurídicos não estão tão claros.” Além de advogada da área, Melissa sempre esteve ligada ao escotismo. Já aos 10 anos aderiu ao movimento. "Sempre participei de serviços comunitários e voluntariado e, já como adolescente, fiz diversas viagens internacionais relacionadas à Organização Mundial do Movimento Escoteiro e as parcerias da entidade com organizações governamentais e a própria ONU”, diz. “Meus pais sempre me motivaram muito a viajar e a conhecer coisas novas, a sair do convencional.”


Melissa fala da ShelterBox com visível paixão. Na ONG, a brasileira, que ainda ostenta um forte sotaque curitibano, coordena o trabalho e as parcerias com os escoteiros. “A ShelterBox e o escotismo têm muito em comum”, afirma Melissa. "Os abrigos e objetos de sobrevivência da caixa são itens com os quais os escoteiros guardam muita familiaridade.” O trabalho dos escoteiros é auxiliar a montagem da tenda e ensinar as vítimas a utilizar os demais itens.


A ShelterBox tem sua sede na Cornuália e afiliadas em 21 países. Participa do socorro às vítimas de, em média, um desastre natural a cada duas semanas. Nos últimos 12 anos, auxiliou comunidades de 75 países em 200 catástrofes naturais. Muitos deles são os chamados forgotten disasters (desastres esquecidos), aqueles pouco divulgados pela mídia, mas em que pessoas precisam de ajuda. Cada ShelterBox tem um custo de aproximadamente mil dólares, e a organização depende exclusivamente de doações para realizar suas operações humanitárias ao redor do mundo. Ao financiar uma caixa, o doador pode acompanhar, por meio de um número, onde exatamente ela será entregue.


Assim que um desastre ocorre, os Response Teams equipes de respostas são acionados para, no máximo em 48 horas, estarem no lugar da tragédia. Em geral, quatro ou cinco pessoas fazem parte desse time, que vai supervisionar o trabalho de voluntários e escoteiros locais na entrega dos abrigos. "Essas pessoas são todas voluntárias, e muitas vezes usam as próprias férias para realizar ajuda humanitária", diz Melissa. Os voluntários passam por um treinamento especializado e não recebem nem um tostão pelo trabalho.


Nos últimos dois anos, a ShelterBox já esteve quatro vezes no Brasil. Em 2010, socorreu os desabrigados das enchentes em Pernambuco e Alagoas, enviando mais de mil caixas. No começo de 2011, os abrigos móveis foram mandados para famílias da região serrana do Rio de Janeiro. No fim desse mesmo ano, a ajuda seguiu para Rio do Sul, em Santa Catarina. Agora, no início de 2012, quando coincidentemente Melissa Casagrande estava no país, a organização trouxe abrigo para famílias afetadas pela chuva no interior de Minas Gerais e Rio de Janeiro. "Falar a língua local sempre ajuda muito", diz.


A ShelterBox teve presença marcante em desastres recentes de grandes proporções. Melissa cita o tsunami no oceano Índico e o terremoto do Haiti. Neste último, a presença da Shelter durou bem mais do que as usuais duas semanas ou, no máximo, um mês. "Foi uma das primeiras vezes que a organização teve uma participação contínua num local. A ShelterBox ficou mais de um ano no Haiti", afirma. Esse desastre foi, também, o que mobilizou mais pessoas. E, também, um dos mais efetivos. "O que mais sensibiliza as vítimas é saber que estão recebendo aquela ajuda de graça e que o equipamento poderá ser utilizado por quanto tempo for necessário".


Apesar de o abrigo ter como objetivo ser uma casa temporária, usada por seis ou sete meses, sabe-se que em alguns locais as tendas foram utilizadas por um longo período. No Afeganistão, por exemplo, dois anos após as equipes da ShelterBox terem estado lá, em 2001, famílias ainda viviam em tendas da organização.


Melissa está há pouco tempo em seu novo lar na Inglaterra. Mora num pequeno apartamento no basement (subsolo) de um prédio. Conhece pouco a cidade, mas vive organizando eventos com os escoteiros, como a edição 2012 da London Scavenger Hunt (Gincana de Londres), destinados a angariar fundos e a amplificar a visibilidade de sua organização. Mas a coordenadora da ShelterBox fica pouco tempo em Londres. Melissa viaja muito. Desde jovem é uma cidadã do mundo. Ela ri, mas concorda. "Eu gosto de viajar, conhecer gente do mundo inteiro. Tenho amigos nos lugares mais diferentes.” Esse gosto pelas viagens é uma competência vital na carreira que a jovem curitibana elegeu. “No Direito Internacional, a gente sempre tem de ser desbravador, deixar a zona de conforto e ir a lugares inusitados para, assim, fazer a diferença".




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