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Inovar para internacionalizar

A Finep, agência federal de fomento à pesquisa, quer apoiar empresas brasileiras dispostas a investir em ciência e tecnologia para ganharem melhores condições de competir nos mercados internacionais

Nely Caixeta e Armando Mendes
Arbix: a qualidade da nossa indúsria é um ativo importante

Competir com base na tecnologia pode ser uma alavanca importante na internacionalização de empresas brasileiras. É por essa razão que a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a agência federal de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológicos, quer ampliar seu raio de ação para apoiar fusões e aquisições de empresas estrangeiras de base tecnológica por multinacionais locais.


Para tanto, precisa ganhar o reconhecimento pleno como instituição financeira, um passo que está sendo discutido com o Ministério da Fazenda, o Banco Central e a Presidência da República. Quem está por trás dessa tarefa é o presidente da Finep, o sociólogo paulista Glauco Arbix, professor livre-docente da USP e especialista em inovação e competitividade. Ele vê um apetite crescente pela inovação e pesquisa tecnológica nas empresas brasileiras, refletido na ampliação da carteira da Finep, que passou de cerca de 2 bilhões de reais para 14 bilhões de reais em um ano e meio. Arbix falou à PIB em sua casa em São Paulo, numa escala entre o Rio de Janeiro, onde fica a sede da agência, e uma viagem ao Japão.


Que tipo de apoio a Finep pretende dar à empresa brasileira que se internacionaliza?


Quem trabalha com internacionalização, hoje, é basicamente o BNDES, que faz isso muito bem e vai continuar fazendo. A nossa perspectiva é um pouco distinta. Gostaríamos de estimular um trabalho de aquisição ou fusão de empresas, desde que o objetivo primordial fosse tecnologia. Ou seja, uma empresa que se funde ou adquire outra para ganhar competências que não tem. Ainda não podemos fazer isso, mas gostaríamos de poder fazer, seja no mercado interno ou, numa segunda etapa, ao estimular o mesmo movimento para fora do Brasil.


A Finep não pode apoiar empresas brasileiras no exterior?


A Finep não pode fazer isso hoje. Não podemos trabalhar com empresas que realizem investimentos fora. Então, já apresentamos ao governo uma série de sugestões que dizem respeito à maleabilidade das nossas fontes e à nossa caracterização como uma instituição financeira plenamente reconhecida pelo Banco Central, com uma série de procedimentos adequados a essa condição.


Por que a Finep precisa desse reconhecimento?


A Finep é uma instituição financeira, nasceu como tal. Talvez seja a única instituição financeira que não é supervisionada pelo Banco Central. Nós emprestamos recursos para as empresas fazerem tecnologia e inovação. Essa é a nossa prioridade – pesquisa e desenvolvimento. Mas por não ter a fiscalização do BC, não ser reconhecida pelo Conselho Monetário Nacional e não estar submetida a uma série de regras e normas que regem as instituições financeiras, a Finep tem dificuldade de trabalhar com as fontes de recursos que tem para apoiar empresas interessadas em expandir suas atividades via fusão e aquisição, dentro e fora do Brasil. No caso da expansão para fora, trata-se de uma internacionalização muito dirigida, com um foco muito claro – adquirir competências, do ponto de vista de tecnologia, que a empresa ainda não possui.


As empresas brasileiras podem competir globalmente com base em tecnologia?


A internacionalização é um processo difícil, como vocês bem sabem. Mas a competição na tecnologia pode dar a essas empresas um diferencial muito grande. Nem sempre elas competem lá fora com base nesse diferencial. As empresas brasileiras não têm medo de disputar mercados sofisticados, como o europeu e o americano, mas é preciso turbinar isso. Temos de colocar aditivos e apimentar sua ousadia. Por isso, estamos discutindo a possibilidade de financiarmos fusões e aquisições de empresas no exterior quando a operação for voltada para a tecnologia.


Que trunfos o Brasil teria nessa competição?


Possuímos uma base industrial de qualidade superior. É um ativo importante. Mas, na comparação entre empresas, vemos que a esmagadora maioria ainda guia sua expansão com base em estratégias defensivas, de nicho, e não em estratégias de expansão, ousadia e crescimento. Nossa atividade é ajudar as empresas que estão ampliando suas atividades. Foi para isso que implantamos uma conta permanente de pesquisa e desenvolvimento, como se fosse um “cheque especial” para essas empresas.


Como funciona essa espécie de cheque especial?


As grandes empresas brasileiras, mesmo aquelas que se preocupam com a inovação, investem “quase sempre”. É uma coisa intermitente: investem, não investem, investem, não investem... Brincamos que é a estratégia do soluço. Nossa ideia é a seguinte: em vez de aprovar projeto a projeto, o que aumenta a burocracia e os prazos, analisamos os planos de P&D da empresa e aprovamos uma estratégia de quatro anos. Ao longo desses quatro anos, vamos liberando os recursos conforme se desenvolvem essas atividades. Acompanhamos a evolução e damos uma série de prêmios do ponto de vista de oferta de financiamento.


Que tipo de prêmios?


Se, em um ano, por exemplo, as empresas aumentarem acima de 10% a média de qualificação dos trabalhadores no seu setor, elas terão direito a mais 5% (sobre o valor financiado originalmente). Se contratarem certo número de mestres e doutores em atividades de P&D, aí terão mais 5%. Se contratarem empresas pequenas de tecnologia na sua rede de fornecedores para esses projetos, terão mais 5%.


Qual é a principal fonte de recursos da Finep?


A Finep é uma agência do Tesouro Nacional, uma empresa pública com várias fontes. É a gestora dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), constituído por setores da indústria, que contribuem com 0,5% do seu faturamento e têm de investir outro 0,5% em projetos tecnológicos nas empresas. É uma estratégia inteligente e moderna.


Os recursos do FNDCT bastam?


Desde que chegamos à Finep (no começo de 2011), procuramos fontes alternativas de recursos. E encontramos isso num programa chamado Programa de Sustentação para Investimento (PSI), que foi criado, em 2008, pelo governo Lula para enfrentar a crise econômica. São recursos diretamente ligados ao Tesouro Nacional, equalizados pelo Tesouro Nacional, e que nos permitem oferecer juros negativos para a inovação.


Como isso ocorre?


Nós oferecemos, para muitos projetos, juros de 4% ao ano. Se a inflação é de 6% ao ano, os juros, evidentemente, são negativos. Nossa política operacional é: quanto maior o risco tecnológico do projeto, melhores são as condições que oferecemos. No limite, damos 4% ao ano e três anos de carência. Podemos chegar a até dez anos para pagar, com financiamento de 90% do projeto. São raros os países que oferecem condições como essas.


Nesses mecanismos para facilitar e propiciar a inovação, que setores o Brasil pretende apoiar?


Trabalhamos com as prioridades do governo. Vamos procurar alguns segmentos. Nossa cabeça está voltada para a biotecnologia e a nanotecnologia, duas áreas que oferecem atividades intensivas em conhecimento e às quais nem sempre conseguimos dar atenção. Temos todo um trabalho na área de nanomateriais, por exemplo. Existem pequenas e médias empresas que poderiam ser suscetíveis de ser adquiridas, de fundirem suas competências. A mesma coisa se dá na área de optrônica, que mexe com a óptica avançada, tanto para comunicação como para imagem.


Existem áreas em que o Brasil sai ganhando, nessa busca pelo avanço tecnológico?


Há áreas em que somos muito competitivos. É o caso do etanol de primeira geração; temos vantagens enormes; posso citar a mão de obra de 100 anos de pesquisa nessa área. Uma segunda área seria a biodiversidade. E não é só a Amazônia; temos vários biomas, como o Pantanal, com uma diferenciação de ingredientes muito forte. Temos gente qualificada para trabalhar nessa área e podemos dar grandes saltos. Nós criamos, nos últimos 20 anos, uma base científica muito sólida. A ciência brasileira existe, está no mapa. Somos o 13º produtor mundial de artigos indexados.


E as empresas têm respondido aos incentivos?


Sim, este é o Brasil que está em movimento. Nós vamos às empresas. Em muitos casos, aumentamos a ambição da empresa. Se sentirmos que tem porte, ajudamos a tornar mais robusto o seu próprio projeto. Fazemos isso, também, com as universidades. Temos visitado as instituições e feito uma pergunta muito simples: “O que vocês querem desenvolver com o seu plano estratégico?" Esta é uma pergunta que tanto as empresas brasileiras como as nossas universidades têm dificuldade em responder — com exceções. Porque tanto uma como a outra foram acostumadas com um período em que os recursos de apoio e de financiamento eram pequenos. Em decorrência disso, seus planos tornaram-se modestos.


O senhor pode dar um exemplo?


Não cabe no sistema universitário brasileiro, hoje, pensar em um reator nuclear multipropósito, capaz de fazer radiofármacos. O reator que faz radiofármacos no Brasil está no Ipen, na USP, e é de 1954. E todo mundo sabe que radiofármacos são fundamentais para o tratamento do câncer, por exemplo. Um reator desses custa 500, 600 milhões – não cabe no orçamento. Se pensarmos no pré-sal, na possibilidade de o Brasil ser uma potência energética com o etanol e o pré-sal, que vai colocar o Brasil como um grande produtor de derivados de petróleo, veremos que tem um mundo pela frente. Este é o bom desafio: há quatro, cinco anos, tínhamos recursos, mas não havia projetos importantes nas empresas, e as universidades estavam fazendo projetos muito acanhados.


E isso está mudando?


Hoje, os projetos crescem em ambição de forma acelerada, o que nos obriga a repensar o sistema de financiamento – seja com a universidade, seja com as empresas. Vou dar um exemplo: lançamos, no ano passado, um projeto, com o BNDES, para o etanol de segunda e outras gerações, o PAISS. (N. da R. – o etanol de segunda geração é aquele produzido com base na celulose, o que permite o aproveitamento total da biomassa de diversas plantas.) O Brasil é o país com a maior competitividade e produtividade na primeira geração do etanol, mas na segunda geração ninguém tem vantagem, porque ainda não é comercialmente viável. Nós temos uma grande chance, mais uma vez, graças a essa planta que alguém nos deu — não foi só a natureza — que se chama cana-de-açúcar.


Por que essa vantagem não vem só da natureza?


O Brasil possui mais de 500 variedades de cana desenvolvidas pela Embrapa – ninguém mais tem isso. A qualidade da celulose da cana é fantástica. Assim, lançamos esse programa do etanol de segunda geração. E vejam como está nosso termômetro... Para 1,5 bilhão de reais nossos, sabem de quanto foi a demanda? Foi de 14,5 bilhões de reais de projetos de P&D apresentados por empresas. O que é que nós fizemos, com o BNDES?


Trouxemos essa carteira para 3,1 bilhões de reais – selecionamos os projetos excelentes. Falo isso com pena, porque, se tivéssemos mais recursos, tenho certeza de que esse valor dobraria. Há projetos de qualidade que estamos deixando de lado.


O que falta para completar o salto até uma economia baseada principalmente no conhecimento, e não em recursos naturais esgotáveis?


Temos, ainda, muita dificuldade para transformar o conhecimento gerado em tecnologia e inovação. Há mundos distantes que precisam se aproximar – o mundo da economia, o mundo das empresas e o mundo da pesquisa. Mas temos experiências fortes. Veja, a Petrobras só existe, com a capacidade que tem, porque montou uma rede de 2 mil, 3 mil contratos com empresas, universidades e institutos de pesquisa. A mesma coisa é a Embraer, que se apoia fortemente não só no ITA e no CTA, mas também em uma rede de universidades. Assim como todo o agronegócio brasileiro está baseado em pesquisa. Durante muito tempo se falou que o Brasil tinha competitividade por conta de trabalho infantil, de trabalho escravo. Isso é conversa! A competitividade do Brasil está na pesquisa.



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