Revista PIB

Faça da Revista PIB a sua home page Sexta, 24 de Novembro de 2017

 

De vilão a mocinho

Multinacionais brasileiras exportam boas práticas socioambientais para conquistar novos mercados

Arnaldo Comin
Bioquerosene:voos verdes em jatos da Azul

Um item muito sensível vem sendo gradativamente adicionado à pauta de exportações brasileiras. As boas práticas socioambientais. Nos últimos anos, multinacionais como Odebrecht, Vale, AmBev e Embraer têm levado a vários países do mundo uma cultura que alia sustentabilidade e os próprios negócios com extrema eficiência. Tais avanços atenuam bastante a percepção das empresas brasileiras com operações no exterior como vilãs do desmatamento e das agressões à biodiversidade.


Aos poucos, nossas multinacionais revelam uma adesão consistente à chamada economia verde. A comunidade de Curundú, uma favela da Cidade do Panamá, começa a viver os efeitos práticos dessa pequena revolução. Há dois anos, seus 5 mil moradores foram removidos para residências provisórias pela companhia brasileira Odebrecht. A empresa toca um projeto de reurbanização do local, vizinho à área de patrimônio histórico da capital panamenha.


A Odebrecht incluiu no amplo pacote viário e urbanístico de 100 milhões de dólares, contratado pelo país centro-americano, a derrubada dos barracos e palafitas do Curundú, para, em seu lugar, erguer novas moradias com infraestrutura e suporte adequados: energia, pavimentação, saneamento, áreas de lazer e apoio na formação profissional dos moradores.


As primeiras das 1,2 mil famílias que agora começam a ser trazidas de volta já encontram uma paisagem muito diferente da anterior. “Essa comunidade era tão estigmatizada por suas péssimas condições de vida, que seus moradores mentiam ao procurar emprego, negando viver lá”, diz Sérgio Leão, diretor de sustentabilidade da Odebrecht. “Hoje, a população começa a sentir orgulho do bairro.” O grupo brasileiro, que registrou, em 2011, uma receita de 42,5 bilhões de dólares, gerada em mais de 20 países, tem larga experiência na construção de moradias.


Um de seus projetos mais destacados foi o reassentamento das vítimas da guerra civil de Angola na zona periférica da capital, Luanda. Agora o Curundú começa a ser visto como um novo marco na história da companhia. "É o projeto urbanístico mais ambicioso que já fizemos do ponto de vista social e ambiental", diz Leão.


A experiência da Odebrecht na Cidade do Panamá é apenas uma entre as diversas boas práticas socioambientais que multinacionais brasileiras estão exportando para várias regiões do mundo. Essas iniciativas alcançam tanto os mercados avançados, como Canadá e Estados Unidos, quanto regiões carentes da África e da América Latina.


Nas duas décadas que separam a conferência ambiental Eco-92 e sua herdeira, a Rio+20, realizada neste ano, muita coisa mudou no Brasil. O país adquiriu estabilidade econômica, resgatou quase 40 milhões de pessoas da linha de pobreza e fez avanços visíveis na preservação e no marco legal do meio ambiente. "Há 20 anos, éramos vilões globais do desmatamento. O pico de devastação da Amazônia foi em 2004, quando foram eliminados 27 mil quilômetros quadrados de floresta”, afirma Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda. “Em 2011, esse número caiu para 6,5 mil quilômetros quadrados. É um marco significativo".


Ônus e oportunidades


Por mais efetivas que sejam as políticas públicas relativas ao meio ambiente, a chamada economia verde é um conceito que inverte a lógica da preservação, transformando-a, aos olhos das companhias, de "ônus" em oportunidade de negócios. Ela, portanto, só se viabilizará se as empresas também se portarem como agentes da mudança. Na verdade, o Brasil ainda tem uma longa jornada até que a percepção de suas multinacionais mude no cenário internacional.


Uma única empresa brasileira, a Petrobras, figura no ranking do Reputation Institute, que mede a imagem das 100 marcas globais que mais se destacam em critérios como credibilidade, qualidade e responsabilidade socioambiental. A estatal aparece apenas na 98ª colocação. No ano passado, a Valepassou pelo constrangimento de ser eleita, pelo Greenpeace, a “pior empresa do mundo”. A razão foram os conflitos da empresa com comunidades onde mantém operações e o desrespeito ao meio ambiente.


Esse cenário, no entanto, começa a mudar. Gigantes industriais e grandes players do agronegócio, cujas atividades têm relação sensível com a natureza, passaram, nos últimos anos, a investir em modelos de gestão sustentável muito mais integrados à atividade produtiva. Tais companhias são a face mais visível de um movimento que começa a se propagar entre as empresas nacionais. Levantamento divulgado em junho pelo Uniethos junto a 250 das mil maiores empresas brasileiras mostra que 69% delas já incorporaram a seus planejamentos estratégicos objetivos como a preservação dos recursos naturais e a busca de novas oportunidades de negócios por meio da inclusão social.


Para a maioria, a inovação com responsabilidade socioambiental tornou-se um sinônimo importante de competitividade. "Percebemos que as empresas brasileiras estão atingindo um terceiro estágio na discussão da sustentabilidade”, afirma Paulo Itacarambi, vice-presidente do Instituto Ethos."No início, só havia preocupação com a imagem e o respeito à legislação. Ao longo dos anos, essa postura evoluiu para uma visão mais pragmática, focada em cortes de custos. Agora há um interesse real em usar a sustentabilidade como ferramenta de negócios., diz Itacarambi.


O maior desafio é engajar as empresas para que as ações socioambientais se tornem um diferencial competitivo. "A mudança para o modelo de economia verde afeta as grandes empresas. No início, elas são as maiores prejudicadas, devido à pressão sobre os custos”, afirma David Steuerman, diretor do programa Empresas e Biodiversidade da ONU. “Logo, porém, elas gerarão um efeito multiplicador em toda a cadeia, atingindo pequenas e médias empresas, justamente as mais poluentes.”


Durante a Rio+20, a iniciativa privada brasileira cobrou dos governantes avanços concretos rumo a um modelo econômico mais sustentável. Com o apoio de 120 entidades e liderado por empresas brasileiras de atuação internacional, como a Natura, o Instituto Ethos endereçou aos líderes da conferência uma carta com nove princípios. Um deles diz respeito direto às empresas nacionais que atuam no exterior: o compromisso de operar em qualquer lugar do mundo dentro do melhor padrão global. “A economia verde nunca vai existir sem as empresas”, diz Itacarambi, “Por isso mesmo elas devem assumir a dianteira na discussão socioambiental.”


Do discurso à prática


O grupo belgo-brasileiro AB InBev busca um modelo de gestão global que privilegie as melhores soluções de negócios e sustentabilidade adotadas em todas as subsidiárias do mundo. Em abril, a subsidiária brasileira da AmBev foi premiada no encontro anual da companhia, em Londres, pela criação do Banco Cyan, um programa voltado para a redução do consumo de água. O projeto, tecido em parceria com as companhias estaduais de saneamento Sabesp (SP), Cedae (RJ) e Codau (MG), conseguiu economizar 90 milhões litros de água em um ano, premiando a população pela redução no consumo.


A iniciativa deve seu êxito à simplicidade. Basta o morador cadastrar sua conta de água no site do banco para acumular pontos de acordo com a redução em seus gastos mensais. Os pontos são trocados por produtos em grandes portais de comércio eletrônico, como Americanas, Blockbuster, Submarino, Shoptime e Abril.com. Inovador, o programa se tornou uma referência mundial e deve ser adotado por outras unidades da AB InBev.


O Banco Cyan é um exemplo do potencial da economia verde na gestão corporativa. A água é o principal insumo da indústria de bebidas e responde por 95% da matéria prima utilizada pela AmBev. Por essa razão, cada litro economizado representa retorno para o acionista. "Nós acreditamos que um projeto de sustentabilidade só terá sucesso se estiver diretamente relacionado à natureza do negócio. Caso contrário, será descontinuado", afirma Ricardo Rolim, diretor de relações socioambientais da AmBev.


Notória por sua competitividade e metas agressivas, a AmBev vem trabalhando a questão da água com extrema atenção. Em 2009, criou um programa para reduzir seu consumo global para 3,5 litros de água por litro de bebida produzida. Uma década atrás, esse volume era de 5,4 litros.


No Brasil, país em que o projeto se encontra em estágio mais avançado, a AmBev fechou 2011 em 3,75 litros. A empresa, também, exporta seu know-how noutras frentes em que lidera o desempenho global do grupo. Caso do reaproveitamento de resíduos, cuja meta para 2012 é de 99% e no Brasil já está em 98,3%. "A questão ambiental está muito associada à produtividade. Ela faz parte dos relatórios mensais de desempenho que estão disponíveis para qualquer subsidiária no mundo", explica Rolim. O desempenho notável da subsidiária brasileira tem uma explicação. No caso da água, o Brasil conta com 12% das reservas mundiais. Na biodiversidademaior: o país abriga 17% das espécies animais e vegetais existentes no planeta. Eis uma tremenda janela de oportunidade para indústrias como as de cosméticos, de medicamentos ou, vitrine brasileira, as de biocombustíveis, segmento em que o Brasil exerce forte liderança por meio do etanol.


Aviões verdes


O know-how brasileiro em combustíveis renováveis acaba de chegar ao mundo da aviação. No dia 19 de junho, o último da Rio+20, um modelo Embraer 195 da companhia aérea Azul, totalmente movido a bioquerosene obtida de cana-de-açúcar, sobrevoou a Baía de Guanabara.


O fabricante desenvolve, desde 2006, projetos de combustíveis alternativos com outras companhias. Esse projeto pioneiro tem como parceira a indústria de motores americana Amyris e representa o maior avanço da Embraer nesse campo desde o lançamento do Ipanema, o primeiro avião no mundo movido 100% a etanol.


A indústria de aviões é uma das mais pressionadas a aprimorar sua ecoeficiência. "A aviação já conseguiu reduzir em 70% suas emissões nos últimos 40 anos", diz Guilherme de Almeida Freire, diretor de estratégia e tecnologia para meio ambiente da Embraer. "Agora as metas são ainda mais ambiciosas: cortar pela metade esse índice até 2050". A companhia brasileira, primeira entre os fabricantes mundiais a conquistar o certificado de gestão ambiental ISO 14001, trabalha com uma plataforma integrada de sustentabilidade em todas as suas operações pelo mundo, seis no Brasil e 11 no exterior. "Nossa meta é aumentar a eficiência em 15% a cada nova geração de aeronaves. Isso inclui não só consumo de querosene, mas todos os materiais utilizados num avião", diz Freire.


A bola, portanto, agora está nos pés das empresas. "Um dos diferenciais já reconhecidos do Brasil é a criatividade organizacional. Encontramos soluções melhores na relação com comunidades e o governo. Precisamos usar essa experiência das empresas para elevar o nível do debate global", diz Itacarambi.


 


Triunfos e Entraves


O etanol é a nossa maior vitrine tecnológica, mas o mundo ainda não comprou essa ideia nove anos após o advento dos motores flex, a frota brasileira de carros movidos a etanol já alcançou 15 milhões de unidades, quase metade dos 32 milhões de veículos em circulação no país. Até 2020, essa fatia deverá superar a barreira dos 80%. Apesar de consumir grande parte da produção no mercado interno (a ponto de ter recorrido às importações nos últimos dois anos), o Brasil mantém uma carteira de vendas externas de 15 bilhões de dólares, que deve alcançar 26 bilhões de dólares em 2020, segundo cálculos da Unica, entidade que representa os produtores de cana do Centro-Sul.


Mesmo assim, ainda está longe de se realizar o desejo de transformar o etanol em uma commodity global — hoje, a principal bandeira da indústria canavieira nacional. Algumas conquistas importantes vêm sendo feitas nessa direção, mas barreiras políticas e econômicas não deixaram, até agora, que o combustível limpo brasileiro se tornasse uma verdadeira solução global. A principal conquista foi o fato de as autoridades americanas terem certificado o etanol como “combustível avançado” e derrubado, em 2011, a tarifa de 0,45 dólares por galão imposta ao produto brasileiro.


“Conseguimos mostrar que o etanol de cana reduz as emissões em toda a cadeia em até 70%, enquanto a média dos similares à base de milho, trigo ou beterraba está na faixa dos 40%”, afirma Geraldine Kutas, assessora sênior da para assuntos internacionais da Unica. O desafio mais premente agora é vencer a barreira tarifária de 0,19 euros por litro de etanol importado imposta pela União Europeia. A taxa não pode ser contestada na Organização Mundial do Comércio (OMC), e sua retirada depende da boa vontade dos agentes europeus.


“Estamos tentando mostrar que não faz sentido todo o petróleo do Oriente Médio entrar na Europa sem tarifa e, ao mesmo tempo, taxar um combustível que reduz as emissões de poluentes”, diz Geraldine. Assumir um perfil de liderança em soluções ambientais também vai obrigar o Brasil a fechar o cerco ao desmatamento provocado pela agricultura intensiva, cujo avanço desenfreado põe em risco, sobretudo, o cerrado e a fronteira amazônica.


Em cadeias produtivas mais centralizadas, como o caso da soja, que conta com poucos distribuidores globais, a defesa das florestas começa a dar resultados. Desde 2006, o Greenpeace desenvolve o projeto Moratória da Soja, com o apoio de grandes empresas que comercializam globalmente o produto, como a Cargill, e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O trabalho consiste em mapear por satélite o avanço do desmatamento e delimitar as zonas de expansão do plantio.


Caso um produtor avance sobre a floresta, estará sujeito a punições ambientais e também à suspensão da venda da produção. Pode ser que ainda leve certo tempo, mas não há muita dúvida de que, em breve, o Brasil figurará entre os grandes da economia verde global. (AC)



28/06/2016 -   FIESP destaca a importância da logística para a retomada do crescimento
02/05/2016 -   Movimat divulga detalhes da feira de setembro
03/10/2015 -   Restaurantes, galerias, praias e parques de Miami
03/10/2015 -   A Ásia são muitas
03/10/2015 -   De olho no mundo
03/10/2015 -   Voando sobre o mundo
03/10/2015 -   O mundo é Azul
03/10/2015 -   O caminho da diferença
01/10/2015 -   Um Calatrava no Rio
29/09/2015 -   Hungry and with a big appetite
29/09/2015 -   A bigger share, please?
29/09/2015 -   Passage to India
Totum Editora Revista PIB - 2009 © Todos os Direitos Reservados