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Expansão ao vivo

A produtora brasiliense Cinevideo conquista fatias crescentes do voraz mercado africano

Gustavo Marcondes, Brasília
A diretora Mônica: “Na África, você tem de mostrar a cara”

Sem que acalentasse muitas esperanças quanto ao futuro dessas conversas, em 2007, a empresária Mônica Monteiro, diretora executiva da Cinevideo, travou contato com uma rede de televisão de Moçambique na Mipcom, uma feira internacional da área. O futuro, no entanto, reservava uma grata surpresa. No ano seguinte, a produtora brasiliense foi chamada para um projeto de grande porte: treinar a equipe dessa rede para o projeto de gravar a primeira telenovela do país. Era o começo de uma trajetória que transformou a Cinevideo na empresa brasileira de produção de conteúdo audiovisual que hoje mais produz no continente africano. “Eles queriam que realizássemos um trabalho de formação de seu elenco de dramaturgia”, diz Mônica. “Decidimos, então, que a melhor forma de fazer isso seria gravando.” Com a participação de 25 profissionais brasileiros e mais de 100 moçambicanos, foi criada a minissérie N’Txuva, Vidas em Jogo, com direção de Alê Braga. O produto se transformou num sucesso instantâneo em Moçambique. Unindo, em 15 capítulos com duração de 15 minutos, teledramaturgia e serviços de utilidade pública, a novela tratou de temas como malária, cólera, AIDS e outras doenças, com o objetivo de sensibilizar a população local e estimulá-la a combater sua propagação.


O projeto, produzido com recursos da Embaixada dos Estados Unidos em Maputo, teve intensa participação do governo local, que, inclusive, fez a análise técnica do roteiro por meio de um consultor em saúde pública. “Foi tão impressionante o envolvimento dos moçambicanos nas gravações que essa empolgação nos contagiou. Decidimos, então, ficar no país para a edição da tele- novela”, afirma Mônica. De olho em um mercado com enorme potencial, a Cinevideo foi além. Decidiu abrir uma filial em Maputo, inaugurada em outubro de 2008 sob o nome Cine Internacional.


“O sucesso desse projeto nos abriu diversas portas no continente. Angola, hoje, é o principal mercado comprador, por causa do idioma português”, diz Mônica. “Mas outros países, como a África do Sul, também têm feito encomendas de filmes e documentários.” A filial moçambicana da Cinevideo tem dez funcionários, sendo apenas dois brasileiros, e serve de base para diversas produções da empresa, tanto naÁfrica quanto em outros continentes. “É um mercado de enorme potencial. Não falta qualidade  aos profissionais locais, apenas conhecimento técnico de como produzir. Uma vez resolvida essa questão, que é a nossa missão, a produção africana é tão boa ou melhor que a de qualquer outro lugar”, afirma a diretora, que abriu a Cinevideo, em Brasília, há 14 anos. Hoje, a empresa conta, também, com um escritório em São Paulo e colhe os frutos do pioneirismo de investir num mercado ainda visto com desconfiança. “Para se conseguir boas parcerias é necessário mostrar a cara, conversar muito, entender as tendências. Os estrangeiros não estão interessados apenas nas nossas praias e festas tradicionais”, diz Mônica.


Depois de N’Txuva, Vidas em Jogo, a Cinevideo emplacou outros projetos de vulto no continente afri- cano, sempre associando-os a causas sociais. Na opinião de Mônica Monteiro, uma das razões do sucesso da produtora na África é justamente buscar compreender e trabalhar com a realidade  local. “É preciso entender a cultura para trabalhar na África. Ali, faltam recursos, mas não oportunidades para desvendar o mercado”, ela diz. “Mas, para isso, é importante estar lá, conhecer o pessoal, saber quais são suas demandas.” No projeto seguinte à telenovela, a Cinevideo mergulhou ainda mais profundamente na realidade africana. Para produzir Mama África, a equipe viajou a dez países (Moçam- bique, Tanzânia, África do Sul, Senegal, Malawi, Marrocos, Suazilândia,  Guiné-Bissau, Cabo Verde e Gana) com o objetivo de mostrar uma visão diferente das que só ressaltam as mazelas do continente. Também dirigido por Alê Braga, o filme é construído com depoimentos de africanos anônimos e ilustres, como o saxofonista moçambicano Moreira Chonguiça, e sua luta para tornar a África um lugar melhor. O documentário teve uma carreira de sucesso em vários festivais. Hoje, a Cinevideo está em processo de gravação de uma nova série para televisão, sobre a vida de 15 presidentes africanos, um produto  previsto para chegar ao Brasil. Ainda de acordo com Mônica, é onde há menos know-how que estão as melhores oportunidades para as produtoras de audiovisual brasileiras.


“Na Europa ou nos Estados Unidos, é mais difícil concorrer com as produtoras locais, mas em vários outros lugares ainda há muito espaço para o crescimento”, afirma. Um dos projetos finalizados no ano passado pela produtora brasiliense representou um salto ainda maior. Tambores, um documentário produzido em parceria com a rede de TV árabe Al Jazeera, mostra a influência desse instrumento em diferentes culturas ao redor do mundo.Com uma equipe de apenas cinco pessoas (e direção de Sérgio Raposo), a Cinevideo rodou na China, Catar, Portugal, Brasil (no Maranhão) e em diversos países africanos. Depois de finalizado, a rede Al Jazeera garantiu a transmissão de Tambores para 43 países do Oriente Médio e do continente africano.


Cenário Ideal
Nem sempre o produtor brasileiro teve o respeito que hoje exibe no mercado internacional. Na verdade, o país demorou a encontrar seu espaço no território do audiovisual. O cinema cumpriu um papel desbravador, mas foi por meio da publicidade que as produtoras construíram sua credibilidade. Antes dos anos 2000, o país ainda era visto com desconfiança, tanto pela fama de lugar inseguro quanto pelas dúvidas quanto à qualidade do serviço prestado. O baixo preço foi o primeiro fator de atração, mas logo a competência e a criatividade dos profissionais brasileiros foram determinantes para consolidar o mercado.   Hoje, o Brasil oferece uma série de vantagens às produções estrangeiras”, explica João Roni, produtor da Ocean Films, empresa catarinense estabelecida em 1999 - e premiada várias vezes por seus comerciais, documentários e videoclipes. A Ocean hoje tem uma filial em Buenos Aires, na Argentina.


“No Brasil, podemos reproduzir qualquer cenário do mundo, da China à África ou Europa”, diz Roni, que também é diretor do Sindicato da Indústria Audiovisual de Santa Catarina. “Nossas locações são facilmente adaptáveis. Com o elenco ocorre o mesmo, graças à nossa diversidade física.” Outro fator que impulsionou o crescimento das produtoras brasileiras no mercado internacional foi a parceria com o governo federal, especialmente por meio dos acordos feitos com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) a partir de 2005. A Apex trabalha separadamente com três seg- mentos do mercado (TV, cinema e publicidade) e procura tratar cada um de forma específica. No caso do cinema, por exemplo, a Apex realiza uma parceria consolidar o mercado.


“Hoje, o Brasil oferece uma série de vantagens às produções estrangeiras”, explica João Roni, produtor da Ocean Films, empresa catarinense estabelecida em 1999 e premiada várias vezes por seus comerciais, documentários e videoclipes. A Ocean hoje tem uma filial em Buenos Aires, na Argenti- na. “No Brasil, podemos reproduzir qualquer cenário do mundo, da China à África ou Europa”, diz Roni, que também é diretor do Sindicato da Indústria Audiovisual de Santa Catarina. “Nossas locações são facilmente adaptáveis. Com o elenco com o programa Cinema do Brasil, que promove a exportação de filmes brasileiros criados pelo Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo. A Apex promove diversas ações, como o apoio à participação em festivais, o estímulo a coproduções, o subsídio para a distribuição no exterior, a negociação direta com o agentes de venda e o agendamento de reuniões entre produtores estrangeiros e brasileiros. “Não é uma questão de difusão da cultura nacional, mas de promoção comercial do cinema brasileiro”, explica Christiano Braga, gestor de projetos de economia criativa e ser viços da Apex.


A Apex apoia as produções televisivas com projetos semelhantes, em que o objetivo principal é a venda de conteúdo. Já as ações no terreno da publicidade são realiza- das em parceria com a Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro), por meio do projeto Film Brazil. Nesse caso, a Apex trabalha para trazer locações e filmagens para o país mediante ações que salientam as vantagens de produzir no país.


Em maio, o convênio de dez anos entre Apex e Apro foi renovado, com  previsão de investimento de 4,5 milhões de reais nos próximos dois anos. Em 2011, a parceria atraiu ao país trabalhos que movimentaram 11,5 milhões de dólares com a gravação de comerciais estrangeiros no Brasil. “O segmento de produção publicitária brasileira é reconhecidamente um dos mais criativos do mundo, e nossa parceria com a Apro vem contribuindo para ampliar ainda mais essa reputação”, explica Rogério Bellini, diretor de negócios da Apex, exemplificando uma tendência que promete crescer, nos próximos anos, em todas as plataformas do conteúdo audiovisual.


A Série


Peixonauta abre os caminhos para a animação brasileira no exterior. Um dos produtos audiovisuais brasileiros que hoje mais atraem a atenção dos estrangeiros é a animação. Foi nesse nicho que a produtora paulista T V PinGuim conseguiu emplacar um grande sucesso no fim da década passada: o Peixonauta. Como ocorreu com a Cinevideo, foi preciso um espírito desbravador para marcar esse gol. “Por volta de 2004, o mercado praticamente não existia para nós.Íamos a feiras internacionais e as pessoas se surpreendiam ao ver que existiam animações vindas do Brasil”, diz o produtor Kiko Mistrorigo. Foi num desses eventos que a TV PinGuim construiu uma parceria com a Discovery Kids para a realização do seriado. Peixonauta estreou em 2009, e logo se tornou um dos programas mais vistos da TV a cabo brasileira.


Hoje, a T V PinGuim produz a segunda temporada do Peixonauta (52 episódios de 11 minutos) e, ainda, um longa-metragem com o premiado personagem. Outro projeto da empresa é o longa Tarsilinha, inspirado no universo visual da pintora modernista Tarsila do Amaral. “Tudo, ainda, é uma novidade, e o mercado está amadurecendo, mas o momento favorece o Brasil. Somos conside- rados bons parceiros de negócios”, analisa Kiko.



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