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Fala-se português

Cada vez mais estrangeiros estudam o idioma falado no Brasil, para vir trabalhar ou atender viajantes brasileiros lá fora

Tania Menai
Cristhiane, com alunos da Brazil Ahead, em Nova York: demanda em alta

Na edição de março passado da revista Intelligent Life, uma publicação da britânica The Economist, correspondentes estrangeiros escreveram ensaios sustentando por que alguém deveria aprender o idioma dos países onde trabalha. Um repórter manifestou-se a favor do árabe, outro disse que o chinês era o melhor, e um editor até defendeu o latim. Coube à repórter Helen Joyce, que chefia a sucursal da revista em São Paulo desde 2010, convencer os leitores de que o português (do Brasil) é a melhor língua para se aprender hoje. Em defesa do argumento, listou suas razões: com 190 milhões de falantes e projeção de crescimento econômico sólido, o Brasil abriga não só a floresta amazônica, como também a maior diversidade de fauna e flora do mundo. Possui belíssimas praias, um clima sempre agradável e uma cidade como São Paulo, a capital financeira da América Latina. Além disso, ela lembrou que apenas 10 milhões de brasileiros falam um inglês razoável, e concluiu dizendo de seu orgulho  de, no futuro, seus filhos  hoje com 10 e 5 anos  poderem estampar nos currículos sua fluência em português.


A jornalista retratou uma percepção cada vez mais comum em várias partes do mundo. Há um novo interesse pela língua portuguesa falada no Brasil. Nos Estados Unidos, a descoberta do português contribui para alterar uma situação que parecia imutável há décadas: o espanhol, respaldado pela proximidade do grande vizinho México e pelas ondas repetidas de migração tanto mexicana quanto centro-americana e caribenha, monopolizava o interesse profissional e acadêmico dos americanos. O português, evidentemente, ainda permanece em segundo plano, mas o fato é que nunca esteve tão em evidência como agora. A mudança nesse quadro certamente guarda relação com o volume cada vez maior de americanos que vão ao Brasil. De 2010 para 2011, o número de vistos de turismo e negócios concedidos pelo consulado brasileiro em Nova York deu um salto de 14,7%  foram emitidos 56.403 vistos no período. Entre 2009 e 2010, esse aumento havia sido de modestos 5%.


O fenômeno é observado de perto pela carioca Cristhiane Vieira-Rozenblit, fundadora da escola Brazil Ahead, em Nova York, que desde 2006 ensina português e hábitos culturais brasileiros para estrangeiros.  Quando começamos, a procura pelo português era mais por lazer; alunos interessados em viajar ou que tinham algum romance com brasileirosQ, afirma ela. O perfil de interessados começou a mudar na metade de 2009, quando a economia americana se viu em sérios apuros com a quebra do mercado das hipotecas subprime, enquanto o Brasil saía mais forte da crise que assombrava o mundo todo. ,Tanto as empresas quanto as pessoas físicas começaram a enxergar que o português era a próxima língua a ser aprendida, tendo em vista que o inglês não é fluentemente falado no Brasil e eles precisavam entender o idioma para poder fazer negócios no paísT, diz Cristhiane.  


A Brazil Ahead atende hoje cerca de 275 alunos, tanto na escola quanto em empresas. ,Minha intenção é falar português quase tão bem quanto o inglêsM,  diz o advogado americano William Crosby, que trabalha em uma agência de propaganda e marketing nova-iorquina com participações em empresas no Brasil. Aluno particular de Cristhiane, ele tem entre suas atribuições lidar com litígios e disputas corporativas. Pelo menos uma vez por ano, viaja ao país para conversar com advogados brasileiros. Crosby estuda português há quatro anos e avalia que já se sai melhor do que o inglês dos brasileiros com quem ele trabalha. Ele já havia estudado espanhol na escola e diz que a língua portuguesa é mais difícil de aprender por causa das nuances da pronúncia e de certas regras gramaticais.


,Estou mais interessado em aulas de conversação do que em textos ligados ao DireitoE, afirma ele. ,Há sempre alguém disposto a ajudar quando leio um contrato, então prefiro focar no meu vocabulário e na minha compreensão em geralH, explica o advogado, atento às peculiaridades do Brasil. ,Trata-se de uma cultura difícil de entrar, e sinto que os brasileiros apreciam muito o fato de eu tentar falar na língua deles e perceber as diferenças  eles se surpreendem quando me ouvem falando português.  Crosby chama a atenção para um equívoco comum entre americanos: diferentemente do que muitos acreditam, falar espanhol não é suficiente para se virar no Brasil, diz ele.  Nunca pensei que um dia eu iria aprender português, e hoje sei que é um ponto positivo para colocar no meu currículo.N


A professora Aparecida Teixeira, dona de outra escola nova-iorquina, a Brazil Station, também detecta mudança importante no perfil dos alunos. Quando ela criou a escola, em 2003, a maioria dos alunos queria aprender português para viajar ao Brasil a turismo. tHoje, a maioria de nossas aulas é para empresas que querem que seus funcionários aprendam português para poder fazer negócios láH, diz Aparecida, que emprega 12 professores. ,A maioria de nossos alunos tem alguma relação de negócios com o Brasil: trabalham em bancos, empresas de investimento, escritórios de advocacia e financeiras.A


Na Brazil Ahead, localizada na Avenida Lexington, no centro de Manhattan, 7o% dos alunos são jovens entre 25 e 32 anos que trabalham para empresas com interesses no Brasil.


A outra parte é de pessoas que amam o Brasil,  sua cultura, comida, músicaA, conta Cristhiane. ,Muitos querem se aposentar e morar lá.M Os serviços mais procurados são o português para negócios, o português para falantes de espanhol e os cursos de conversação, tradução e apresentações, úteis para quem está se mudando para o Brasil e precisa entender os hábitos e costumes dos brasileiros. Outro curso que vem crescendo em demanda é o preparatório para o Celpe-Bras, um certificado de proficiência na língua portuguesa, necessário para os estrangeiros que pensam em estudar no Brasil.


Há, também, alunos que são cidadãos de outros países, vivem em Nova York, mas planejam ir para o Brasil por motivos profissionais. De malas prontas para se mudar para São Paulo, o banqueiro japonês Tsuyoshi Yoneyama começou a estudar português com Cristhiane em fevereiro passado. Ele vive em Nova York com a esposa e três filhos desde 2006. O plano agora é levar a tropa toda para o novo país, onde espera morar de três a cinco anos. A decisão foi de seu empregador, um grande banco japonês em cujo departamento de América Latina ele trabalha.


 Não sou mais criança, então aprender um segundo idioma nesta idade não é uma das tarefas mais fáceisN, brinca ele, que tem aulas particulares duas vezes por semana. "É sempre melhor falar o idioma local, não só para fins de negócios, mas também para permitir aproveitar o país de forma muito mais plena.,  Ele confessa que, antes de morar em Nova York, nem sabia qual era o idioma falado no Brasil. Memorizar novas palavras é, a seu ver, a parte mais complicada do processo.  Pelo menos, meus filhos de 9, 7 e 4 anos vão aprender a terceira língua, além do japonês e do inglês, num ambiente naturalP, afirma.


A língua portuguesa começa igualmente a sair da sombra do espanhol nas universidades americanas, entre elas duas das mais respeitadas de Nova York. AHoje temos 100 universitários aprendendo português em diversos níveis, incluindo literaturaH, diz o professor José Antônio Castellanos, coordenador do curso no Departamento de Cultura Latino-Americana e Ibérica da Universidade Columbia. Castellanos, que leciona na universidade há 15 anos, notou um aumento na procura de alunos de graduação e pós-graduação nos últimos três anos. ,Temos gente que estuda Relações Internacionais e outras cadeiras, mas a maioria é formada por alunos de Direito e MBA que já falam espanholT, diz.


Além de oferecer cursos que tratam da cultura brasileira, a universidade iniciou um projeto que leva estudantes para aprender português no Rio de Janeiro por seis semanas. AEste ano levaremos dez pessoasE, diz o professor. Na Universidade de Nova York (NYU), a professora Daniela Zollo, que coordena o curso de extensão de idiomas estrangeiros,  também identifica um aumento na procura pelo português. ,Nossas turmas de iniciantes já estão lotadas e tivemos de aumentar o número de classes dos níveis mais avançadosN, diz ela. A NYU oferece um certificado em português aberto para qualquer interessado, não só para os universitários.


O ensino público americano também começa a acordar para a língua falada no Brasil. Aulas para crianças são oferecidas na escola pública Adda-Merrit, em Miami, que segue um currículo bilíngue em inglês e português. Esta é uma mudança notável, uma vez que o segundo idioma no ensino público dos EUA, em geral, é o espanhol  em particular em Miami, onde vive uma grande e influente comunidade de origem cubana. Numa entrevista ao jornal Miami Herald, a diretora da escola, Carmen Garcia, afirmou que o número de candidatos para o maternal bilíngue quase triplicou desde 2005. Naquele ano, a procura era de 50 alunos. Para o ano letivo de 2012, que começa em setembro, já há 130 inscrições. O objetivo da escola é transformar essas crianças em cidadãos bilíngues  e letrados com igual fluência  até a oitava série.


 Isso reflete o peso crescente que os brasileiros, a turismo ou a negócios, vêm tendo ultimamente no sul da Flórida, em especial no mercado imobiliário: eles têm comprado tantos apartamentos por lá que o piloto Cristiano Piquet, filho do campeão de Fórmula 1 Nelson Piquet, mudou de ramo e abriu na cidade a Piquet Realty, uma agência imobiliária. Cristiano garante que dentre seus 75 funcionários, os que mais vendem apartamentos são exatamente os que dominam o português. A propósito, nas lojas e nos restaurantes de Miami e Orlando, é curioso ver o esforço dos atendentes arriscando algumas palavras em português para se fazerem entender pelos visitantes brasileiros. Em Nova York, a mesma cena se repete, embora se restrinja a alguns setores e ambientes. Museus  como o Metropolitan ou Guggenheim, por exemplo, ainda não  incluem o português em seus materiais de divulgação e orientação aos visitantes. Mas já há pelo menos um serviço de helicópteros para turistas que percebeu a demanda e saiu na frente. Os aparelhos da empresa Manhattan Helicopters sobrevoam a cidade em voos panorâmicos oferecendo uma narração gravada do tour em português além dos habituais espanhol, alemão, francês e chinês.



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