Revista PIB

Faça da Revista PIB a sua home page Quarta, 15 de Agosto de 2018

 

A um clique do mouse

Jovens empresários digitais entram no mercado global de serviços para o comércio eletrônico e já ganham prêmios e reconhecimento.

Suzana Camargo
Klien, da Predicta: rastreando os compradores na internet

Há não muito tempo, para uma empresa se internacionalizar precisava instalar uma unidade de produção em outro país, ou pelo menos exportar produtos físicos. Com a chegada da internet, no começo da década de 1990, esses pré-requisitos caíram. O mundo passou a ser interligado por meio do clique de um mouse, e os novos negócios nascidos em torno da universalização das tecnologias digitais já surgem, por assim dizer, quase prontos para saltar as fronteiras nacionais. Três jovens companhias brasileiras são exemplos dessa mudança: a Predicta e a boo-box (em minúsculas mesmo), de São Paulo, e a Samba Tech, de Belo Horizonte (MG). São nomes ainda poucos conhecidos fora do mundo da mídia digital, mas vêm chamando a atenção de investidores e publicações estrangeiras, e não precisaram de muito tempo de maturação para encarar o mercado global.


As três fincaram suas bandeiras no mundo em explosivo crescimento do comércio e da publicidade nos meios digitais. Um estudo recente realizado pelo IAB Brasil (Interactive Advertising Bureau) revelou que só no país foram gastos 3,1 bilhões de dólares com publicidade on-line em 2011, uma participação de 10% do mercado total de propaganda. Espera-se uma taxa de crescimento de 25% em relação a 2010. “A publicidade on-line já passou outros meios tradicionais, como revistas e televisão a cabo, e em breve será a vez dos jornais”, afirma Edvaldo Acir, diretor do IAB e mestre em Multimeios pela Unicamp. A internet foi o meio que mais ganhou na atração de investimentos em publicidade. Entre 2009 e 2010, a publicidade na rede cresceu 27,9% nos mercados globais.


Nesse admirável mundo novo, empresas jovens, como as três citadas, não esperaram ficar grandes no Brasil para se tornarem globais — à medida que cresciam aqui dentro, já começavam a buscar clientes internacionais para seus produtos e serviços. Os softwares da Predicta, por exemplo, estão presentes hoje em mais de 100 países ao redor do mundo. A mineira Samba Tech, criada há oito anos, começou a prospectar os mercados vizinhos há algum tempo e abriu, no ano passado, um escritório em Buenos Aires, enquanto a boo-box tem negócios com mais de 50 parceiros internacionais e também fincou pé na Argentina.


Com sede em São Paulo, onde ocupa dois andares de um prédio moderno no bairro da Vila Olímpia, a Predicta desenvolveu tecnologias utilizadas por gigantes multinacionais, como GM, Visa e Banco Santander, entre outras. Em 2010, especulou-se que o faturamento da empresa teria chegado a 22 milhões de reais, o que os sócios não confirmam nem desmentem. “O que posso afirmar é que temos registrado um crescimento de 50% nos últimos três anos e esperamos manter esse ritmo”, limita-se a revelar Marcelo Marzola, diretor-geral e um dos sócios-fundadores da empresa. A Predicta também foi listada como uma das dez empresas mais inovadoras no Brasil pela prestigiosa publicação americana Fast Company, ranking em que figura ao lado de nomes como Embraer, Petrobras e Stefanini. Mas nesse ramo sempre é bom perguntar: o que são, exatamente, os produtos que a Predicta oferece?


Para os leigos, não é tão fácil de explicar. “Já trabalho há dez anos com isso e até hoje minha mãe não conseguiu entender o que a gente faz”, conta Marzola, rindo. De uma maneira simples, diz ele, a Predicta facilita a comunicação de marcas (leia-se empresas) e pessoas (consumidores) dentro do ambiente digital. Para isso, cria tecnologias e plataformas para a internet capazes, por exemplo, de monitorar a navegação e o comportamento dos consumidores num site de compras. Com isso, reúne informações valiosas, que podem ajudar o anunciante a planejar melhor sua comunicação e estratégia de vendas. “As marcas anunciam na internet e querem saber qual o retorno que estão tendo dessa publicidade”, explica o diretor. “Foi nisso que focamos ao criar nossos produtos.”


O gosto pelos negócios e o fascínio pela tecnologia aproximaram os três sócios da empresa ainda como estudantes. Aos 20 e poucos anos, morando no Rio de Janeiro e estudando Administração, os amigos Marcelo, Phillip Klien e Walter Silva queriam criar um site que vendesse ingressos para espetáculos. O que hoje parece banal revelou-se muito complicado para a jovem internet de então, no fim da década de 1990. Os amigos descobriram que precisariam de um investimento muito alto para tornar o projeto viável. Para complicar, ainda faltava tecnologia para levar adiante o negócio. Entretanto, da tentativa frustrada surgiu outra oportunidade. Klien, Silva e Marzola perceberam que a venda de espaços publicitários on-line poderia ser um grande filão.


O fato é que, naquela altura, uma demanda por esse tipo de serviço começava a surgir, mas pouca gente no mercado, ainda aferrado aos canais tradicionais de informação, se dava conta dela e se dispunha a atendê-la. “Esse foi o estopim de tudo”, conta o diretor da Predicta. “Para fazer a comercialização de espaços de publicidade na internet precisávamos de tecnologia, e começamos a desenvolver novas ferramentas.” Logo os sócios perceberam que seria mais valioso ainda investir na avaliação do desempenho dos sites de vendas. Não se tratava apenas de facilitar e intermediar o investimento na propaganda digital, mas de medir sua eficiência — algo que a própria natureza da internet possibilita fazer melhor do que em qualquer outro meio. Se um banco decide vender cartões de crédito pela internet, por exemplo, é possível rastrear desde o momento em que os consumidores são expostos à campanha publicitária até sua entrada no site do anunciante. “Conseguimos informar ao cliente que a campanha foi vista por 1 milhão de pessoas, e 2,5%, efetivamente, contrataram o cartão de crédito”, exemplifica Marcelo Marzola (leia mais na pág. 59).


Se a carioca/paulistana Predicta — a empresa nasceu no Rio e mudou-se para São Paulo em 2001, para ficar mais perto das grandes agências concentradas na capital paulista — escolheu o vasto território do comércio na internet para se desenvolver e ganhar o mundo, a mineira Samba Tech demarcou para si outra área de crescimento veloz: o vídeo na rede mundial. Fundada em 2004, a Samba Tech oferece a infraestrutura digital necessária para gerenciar e distribuir arquivos de vídeo pela internet. “Não produzimos o conteúdo dos vídeos, mas fornecemos a tecnologia para que nossos clientes possam entregá-los de forma simples, dinâmica e segura”, explica Gustavo Caetano, sócio-fundador e CEO da Samba Tech. A companhia trabalha com tevê na internet, educação a distância, transmissão ao vivo e publicidade em vídeo — este segmento é gerenciado pela Samba Ads, nova unidade da empresa. Recém-lançada, ela já conta 50 milhões de visualizações de vídeos. Todo esse conteúdo fica hospedado “em nuvem” — a cloud computing, que permite o armanezamento de dados em servidores gigantescos acessados de maneira remota por meio de conexões pela internet.


Para Edvaldo Acir, do IAB, outro belo exemplo de companhia brasileira dessa área que está se tornando internacional é a boo-box. Ele explica: trata-se de uma empresa que mira a publicidade nas mídias sociais para atingir, por meio de seus anunciantes, 80 milhões de usuários de internet no país, segundo levantamento realizado pela Navegg, empresa de segmentação de audiência on-line. O trabalho da boo-box é fazer a ponte entre os candidatos a anunciantes e os publishers digitais (produtores de conteúdo de sites, blogs, perfis de twitter e outros, principalmente nas redes sociais). O mercado de atuação da companhia é o que, em inglês, chama-se de ad networks, uma rede que reúne anunciantes e websites.


Criada em 2006 por Marco Gomes, um jovem publicitário e ex-estudante de Computação de apenas 20 anos na época (Gomes não terminou o curso iniciado na Universidade de Brasília), a boo-box tem um um banco de dados contendo 40 mil publishers afiliados e cerca de 310 mil sites cadastrados. Esses sites abordam conteúdos dos mais variados, desde turismo e saúde até culinária e automobilismo. O que a empresa faz, na prática, é apresentar os sites que queiram ganhar receitas com publicidade aos anunciantes que querem vender seus produtos aos internautas leitores dessas páginas. Para os publishers, o cadastro no banco de dados da boo-box é gratuito. Os anunciantes pagam pela propaganda veiculada: um percentual do valor é repassado para os sites e o restante é a receita da boo-box. Por meio de cruzamento de dados on-line, a tecnologia de Gomes faz com que os anúncios se ajustem ao perfil do público buscado. Além de fazer o link entre os dois lados, a companhia responsabiliza-se pela colocação dos anúncios on-line e a implementação de plataformas para que eles funcionem da melhor maneira possível. A boo-box conta com um portfólio de grandes nomes, como Fiat, Brastemp, Itaú Unibanco, Intel, Claro e Unilever entre seus anunciantes. Marco Gomes estima que, por meio de sua rede de publicidade on-line, sejam exibidos cerca de 3 bilhões de anúncios por mês.


Para as três empresas, a oportunidade de expansão internacional surgiu quase naturalmente, tanto pela facilidade de conexão da rede mundial da internet quanto pela visão “internacionalista” de seus criadores. “A gente soube que poderia ir para fora porque sempre desenvolveu tecnologia com um pensamento global”, afirma Marzola, da Predicta. “Nunca acreditamos em desenvolvimento de tecnologia restrita, para um mercado local, mas queríamos fazer a internacionalização de uma forma estruturada para termos êxito.” Em 2008, estimulados pela demanda de clientes multinacionais que solicitavam seus serviços em filiais no exterior, os três parceiros da empresa decidiram criar um site em inglês oferecendo os produtos da Predicta sem nenhuma referência à nacionalidade da companhia. O retorno, segundo a empresa, foi imediato. Clientes potencias de outros países entraram em contato solicitando orçamentos e buscando maiores informações. Mas, assim como não falam dos resultados gerais da empresa, os sócios também não revelam a parcela de faturamento gerada pelos clientes externos — revelam apenas aquele número dos clientes em mais de 100 países.


Gustavo Caetano, da Samba Tech, está acostumado a fazer contatos internacionais desde sua iniciação nos negócios. O jovem empresário tinha uma empresa que fazia a intermediação entre desenvolvedoras internacionais de jogos para celular e operadoras locais de telefonia móvel quando foi convidado por um diretor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, para participar de um programa da instituição. A experiência abriu novos horizontes para o brasileiro, e a parceria com o MIT continua até hoje. Todos os anos, durante quatro meses, alunos de MBA e pós-graduação do instituto auxiliam a Samba Tech a planejar e a implementar decisões estratégicas para a empresa naquele momento, numa espécie de intercâmbio profissional e cultural entre os estudantes do MIT e a companhia mineira. Além de abrir um escritório em Buenos Aires, no ano passado, a Samba Tech passou a ter um diretor comercial para a região — Argentina, Chile, Peru, Colômbia, México, Equador e Uruguai são os países onde ficam os principais clientes internacionais da empresa. “Temos também contratado resellers no continente para expandir nossa atuação na América Latina”, diz Gustavo, formado em Marketing pela ESPM.


Tendo entre os principais clientes nacionais o fabricante de cosméticos O Boticário, a operadora de telefonia celular TIM, as redes de televisão Globo, Bandeirantes e SBT e a revista Veja, nos últimos dois anos a Samba Tech cresceu 200%. Para 2012, a previsão é que 10% do faturamento previsto de 20 milhões de reais venha das operações internacionais. Já está em consideração a possibilidade de abrir um escritório em Miami para gerenciar a atuação continental da empresa.


Já a boo-box cultiva seus mais de 50 parceiros internacionais em países tão distantes como os Estados Unidos, a França, a Suécia, Israel, a China e os Emirados Árabes, afirma seu criador, Marco Gomes. Além disso, em dezembro de 2011, criou uma holding em parceria com uma companhia de tecnologia argentina, a Popego. Para ampliar a atuação no mercado latino-americano, a empresa brasileira contratou 15 funcionários para trabalhar no escritório argentino, em Buenos Aires (na sede em São Paulo, a equipe tem 60 pessoas).


A trajetória dessas empresas e os primeiros passos no exterior não passaram despercebidos por investidores do mercado. Recentemente, a companhia mineira recebeu injeção de recursos da FIR Capital, fundo brasileiro de venture capital subsidiado pelo norte-americano DFJ. Desde 2007, a boo-box também conta com investimento da Monashees Capital, e em 2010 recebeu recursos da Intel Capital. No mesmo ano, a Predicta já havia sido procurada por investidores e fundos de capital do exterior interessados em injetar dinheiro na empresa para que ela ganhasse porte ainda no Brasil, mas os sócios não se acharam prontos para o salto e recusaram o aporte naquele momento.


No ano passado, enfim, a Predicta buscou um investidor para poder crescer fisicamente no exterior. O escolhido foi o grupo gaúcho de comunicação multimídia RBS, que em dezembro último se tornou acionista minoritário (nenhum dos envolvidos revela o valor da negociação). A Predicta mudou muito desde o seu início, em uma sala de 30 metros quadrados no Rio de Janeiro. Trabalha, hoje, na sede da Vila Olímpia, uma centena e meia de funcionários, cercados pelas grandes empresas e agências de publicidade que ocupam a vizinhança. Nos próximos meses, a companhia vai contratar cerca de dez pessoas nos Estados Unidos para trabalhar num escritório em São Francisco, na Califórnia. A estratégia é estar próxima das maiores empresas de tecnologia do mundo, instaladas no vizinho Vale do Silício. Essa passará a ser a base para suas operações globais.


O que esses jovens empresários brasileiros do mundo digital globalizado têm em comum são a ousadia de entrar nesse jogo e a juventude, que talvez explique a ousadia. Os sócios da Predicta ainda não chegaram aos 40 anos. Caetano, o CEO da Samba Tech, tem apenas 30; e Marco Gomes, da boo-box, não passa de inacreditáveis 25 anos. Outra similaridade é o reconhecimento que vêm recebendo. A empresa mineira foi citada em matéria da publicação americana Time e já recebeu prêmios de inovação na China e nos Estados Unidos. A boo-box também é citada nas listas de empresas mais inovadoras da revista Forbes e da Fast Company. A Predicta recebeu o prêmio internacional WebAnalytics, em 2009, figura entre as Melhores Empresas para se Trabalhar pelo Guia Exame e o Great Place to Work Institute, além de, por dois anos consecutivos (2010 e 2011), ter sido a única empresa brasileira convidada a ser expositora no Google I/O, em São Francisco, um dos eventos mundias mais importantes na área de tecnologia.


As previsões para lá de otimistas sobre o crescimento das mídias digitais e da publicidade on-line e a confiança no próprio taco são o combustível para que esses empreendedores sonhem cada vez mais alto. “Ao mesmo tempo em que a gente queria criar uma empresa com produtos revolucionários, nós também queríamos criar uma empresa revolucionária”, resume Marcelo Marzola, da Predicta. É um bom programa para ganhar o mundo.


 


Estratégias para fisgar o consumidor


Uma simples ferramenta de avaliação dos resultados de uma campanha de vendas pela internet foi um dos primeiros produtos que a Predicta criou. Mas esse mercado cresceu e sofisticou-se rapidamente. Com o passar do tempo, a empresa passou a ter a capacidade de criar inferências sobre o comportamento do consumidor durante a navegação, inclusive sobre o que o levava a clicar para concluir uma compra ou, ao contrário, desistir e sair do site. Com base nessas observações, tornou-se possível identificar a estratégia correta para que mais consumidores finalizassem a compra. Hoje, uma das principais especialidades da Predicta é o campo do behavioral targeting, ou seja, a capacidade de acertar o alvo com base na observação dos hábitos de navegação e consumo dos usuários.


Com o amadurecimento do mercado, a Predicta acabou se especializando em três áreas de atuação: tecnologia, operações (gerenciamento de serviços de publicidade on-line) e consultoria. Comandada por Phillip Klien, a unidade de tecnologia controla as duas ferramentas que são os blockbusters da empresa: o Site Apps e o BTBuckets. O primeiro permite que pessoas sem grandes conhecimentos em programação de web adicionem a sites uma série de recursos. Com o Site Apps, um pequeno ou médio empresário não precisa contratar um especialista para fazer mudanças no site da própria empresa. Já o BTBuckets faz a segmentação comportamental. Entre os maiores clientes internacionais da ferramenta estão o Terra, empresa de serviços e conteúdos para a internet do grupo espanhol Telefónica (o BTBuckets é utilizado tanto no portal Terra Brasil como nos demais 16 países latino-americanos em que
a marca está presente, além dos Estados Unidos), grupo argentino de mídia Clarín e o blog de tecnologia readwriteweb.com.


 



28/06/2016 -   FIESP destaca a importância da logística para a retomada do crescimento
02/05/2016 -   Movimat divulga detalhes da feira de setembro
31/03/2016 -   Em 15 anos, a Votorantim e a Intercement chegaram ao grupo dos 20 maiores produtores do mundo
03/10/2015 -   Restaurantes, galerias, praias e parques de Miami
03/10/2015 -   O caminho da diferença
03/10/2015 -   O mundo é Azul
03/10/2015 -   Voando sobre o mundo
03/10/2015 -   De olho no mundo
03/10/2015 -   A Ásia são muitas
01/10/2015 -   Um Calatrava no Rio
29/09/2015 -   Passage to India
29/09/2015 -   A bigger share, please?
Totum Editora Revista PIB - 2009 © Todos os Direitos Reservados