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Pequenos, mas atrevidos

Os produtores brasileiros de vinhos finos disputam o crescente mercado mundial. Seu desafio: provar que o país da caipirinha pode, também, produzir garrafas de qualidade.

Suzana Camargo
Feira na Alemanha: divulgando o produto brasileiro

Vamos imaginar alguém que entre em uma loja de vinhos na Suécia, nos Estados Unidos, quem sabe na China ou no Japão (é na Ásia que o consumo mais tem crescido nos últimos anos). Diante dele ou dela, empilham-se garrafas com os rótulos quase míticos das grandes casas europeias, ao lado de outras de produtores renomados dos Estados Unidos, do Chile, da Austrália e da África do Sul. O que poderia levar esse consumidor a experimentar um vinho do Brasil, um país que ele provavelmente associa apenas a calor, cerveja e caipirinha? Este é o desafio enfrentado por um punhado de casas vinícolas brasileiras que há cerca de uma década tentam convencer o mundo de que no Brasil também se fazem bons vinhos.


É um trabalho duro desfazer a imagem preconcebida e tornar o produto conhecido — o resto do mundo, de maneira geral, mal sabe que existem vinhos brasileiros. Vale a primeira impressão, sem segunda chance. “A primeira garrafa de vinho será comprada por curiosidade; o consumidor quer experimentar o vinho brasileiro”, avalia a enóloga Juciane Casagrande, diretora comercial da Vinícola Casa Valduga, de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. “Já a segunda, ele só vai levar se tiver apreciado a primeira.”


Juciane fala com a experiência de quem exporta desde 2002, quando compradores americanos e europeus mostraram interesse por vinhos da Valduga em concursos internacionais. A vinícola — comandada por João, Juarez e Erielso Valduga, da terceira geração brasileira da família de origem italiana — produz hoje cerca de 2 milhões de garrafas por ano. Suas exportações mais que dobraram em 2011, enquanto as vendas internas cresceram cerca de 15%. Ainda assim, as vendas para o exterior não passam de 10% da produção total. Até 2015, a meta é chegar a 20%. O espumante Brut 130 e os tintos Gran Reserva Cabernet Sauvignon e Premium Cabernet Franc são alguns dos rótulos que têm vendido bem nas prateleiras do mundo.


O exemplo da Valduga, ao lado de outros produtores, mostra que o esforço das vinícolas brasileiras vem dando frutos, mesmo que numa escala ainda pequena. Juntas, as exportadoras brasileiras de vinho venderam lá fora, em 2011, pouco mais de 3 milhões de dólares, superando em 33,6% o valor de 2,29 milhões do ano anterior. Esses números representam cerca de 725 mil litros de vinhos finos e espumantes exportados. São volumes e valores ainda modestíssimos. Os Estados Unidos, por exemplo, exportaram 1,3 bilhão de dólares em vinhos em 2011. Na comparação de volumes, a Itália exportou 2,4 bilhões de litros de vinho e a França 1,4 bilhão de litros.


Mas é fácil entender a vontade de disputar uma fração desse mercado, que cresce a cada ano com a incorporação de novos consumidores em todo o mundo. E não se trata de um consumidor qualquer. “De forma geral, o mundo está bebendo mais e melhor”, diz Robert Beynat, CEO da Vinexpo, uma das maiores feiras mundiais do ramo. Projeções da International Wine and Spirit Research (IWSR) indicam que o consumo global de vinho deve aumentar 6,2% entre 2010 e 2015, atingindo 34,1 bilhões de garrafas — um crescimento de 2 bilhões de garrafas. No ano passado, foram consumidos 31 bilhões de garrafas, 4,5% mais que em 2006.


Nesse universo em expansão, o Velho Mundo ainda manda. Os europeus bebem 62% da produção global de vinho. Os italianos são os que mais exportam em volume, e os franceses os que mais gastam ao comprar uma garrafa, seguidos por italianos e alemães. Trata-se de um mercado exigente, dominado por tradicionalíssimas casas europeias e ferozmente disputado por aquele time de produtores emergentes das Américas, da África e da Oceania citado no primeiro parágrafo. É a esse segundo grupo que os brasileiros querem se juntar, com algumas modestas, mas importantes conquistas até agora. Mesmo sem grande volume de exportação, os rótulos nacionais têm aparecido honrosamente em concursos (veja quadro na página 30) e começam ser oferecidos em restaurantes exigentes.


Há pouco tempo, numa degustação às cegas em um programa especializado na televisão japonesa, um importante enólogo local escolheu um vinho Miolo Reserva Merlot, produzido pelo Miolo Wine Group, também do Rio Grande do Sul, como o melhor entre 20 concorrentes internacionais (numa degustação às cegas, a origem e a marca dos concorrentes só são reveladas depois da prova). Na Europa, restaurantes premiados pelo Guia Michelin oferecem em suas cartas de vinhos rótulos brasileiros. E, recentemente, o vinho tinto Quinta do Seival Castas Portuguesas 2006, também da Miolo, foi escolhido para ser degustado nos eventos oficiais dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. Entre os 18 rótulos escolhidos, foi o único brasileiro.


Os experts reconhecem a evolução. Para o chileno Eugenio Echeverria, diretor executivo da The Wine School (escola que forma profissionais para o setor no Brasil, Chile e Colômbia), o país já produz vinhos muito bons. Ele ressalta a qualidade dos espumantes. “São tão bons quanto os franceses”, garante. “Os rótulos da Cave Geisse são excelentes.” Ainda segundo Echeverria, os tintos brasileiros, especialmente os Merlot, também merecem elogios. “Um bom merlot brasileiro é melhor que um chileno ou argentino”, diz ele. Ainda assim, acredita que  as vinícolas brasileiras precisam investir mais em tecnologia e na educação formal de seus profissionais. Já um dos maiores importadores de vinhos do Brasil, o empresário Otávio Piva de Albuquerque, dono da Expand, nota que o vinho nacional de qualidade tem uma trajetória ainda curta que, segundo ele, foi muito beneficiada pela abertura das importações em 1990. “O padrão dos vinhos nacionais melhorou muito ao ter de concorrer com os importados”, diz Piva. “Entretanto, os vinhos importados ainda são melhores; a Europa produz vinhos há milênios, e o Brasil está apenas começando.”


O importador elogia a qualidade dos rótulos Valduga e, principalmente, dos espumantes brasileiros, que ele também compara aos melhores do mundo. A menção de Piva ao papel da competição na melhoria da produção nacional remete à polêmica que o mercado vive hoje. Em julho de 2011, quatro entidades do setor vitivinícola, entre elas o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), entraram com um pedido de salvaguarda comercial para o vinho brasileiro no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A alegação das entidades é que o produto brasileiro sofre concorrência desleal dos vinhos estrangeiros, o que afeta, principalmente, as pequenas vinícolas. Na prática, a medida não iria aumentar a taxação sobre os vinhos estrangeiros, mas estabeleceria cotas de entrada por países.


A salvaguarda temporária possibilitaria a produção de vinhos finos de melhor qualidade a custo mais baixo, argumentam os defensores da medida. Contra eles se uniram, em protesto indignado, importadores e consumidores receosos do impacto sobre seus bolsos. Antes mesmo da decisão do MDIC, alguns chefs, restaurantes e lojas já anunciaram que, se a salvaguarda for aprovada, vão tirar os vinhos brasileiros dos cardápios e prateleiras. “O mercado precisa estar aberto e livre de protecionismo para que haja estímulo à melhora dos produtores nacionais”, afirma Piva, da Expand. O empresário sugere que uma medida mais inteligente de estimular o consumo e aumentar a arrecadação seria reduzir os impostos. “Vinho é alimento, mas paga 25% de ICMS, quando deveria pagar 7%, como os alimentos da cesta básica”, diz Piva.


Para além das disputas comerciais, poucos negariam que o mundo dos consumidores de vinho é movido a avaliações subjetivas e lealdades passionais. Nele, a qualidade é importante, mas a marca e a imagem também são fundamentais. Para enfrentar o déficit brasileiro nesse quesito, uma especialista está trabalhando nos mercados internacionais: a consultora de marketing Angela Hirata, conhecida pelo trabalho de divulgação das sandálias Havaianas no mundo e pela façanha de transformar o plebeu calçado de borracha em um dos casos de maior sucesso de uma marca brasileira no exterior. Angela é consultora, desde 2009, do projeto Wines of Brasil, uma parceria entre a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e o Ibravin, entidade criada há 14 anos no Rio Grande do Sul, o estado brasileiro campeão na produção de vinhos. O objetivo era auxiliar produtores de vinhos finos e espumantes das regiões Sul e Nordeste a aumentar suas exportações em volume e valor agregado.


A consultora vê no Brasil alguns atributos vantajosos na luta pelo mercado global. O terroir local, para Angela, dá aos vinhos brasileiros traços peculiares, marcados pela bagagem cultural dos produtores, descendentes de imigrantes europeus (no jargão do ofício, terroir é um conceito que combina as características de clima e solo de uma região com as técnicas e tradições de seus vinhateiros). “Além disso, os vinhos do Brasil são menos alcoólicos, mais frescos e jovens, o que é uma tendência global”, diz ela. E lamenta que ainda se sustente no país o velho paradigma de que o Brasil não produz vinhos de nível internacional. “Há cerca de 15 anos, nossos produtores iniciaram fortes investimentos em tecnologia e estudo e hoje produzem vinhos de excelente qualidade, como provam os mercados que temos conquistado lá fora”, afirma Angela. “Precisamos aprender a valorizar os nossos produtos de qualidade.”


O projeto Wines of Brasil definiu alguns países-alvo prioritários para a investida internacional dos rótulos brasileiros: os Países Baixos, o Reino Unido, a Alemanha, a Polônia, a Suécia, o Canadá e os Estados Unidos — que acabam de assumir a liderança como o maior mercado mundial consumidor de vinhos. Para atrair a atenção sobre o produto brasileiro, a campanha nos Estados Unidos inclui, desde 2010, degustações para compradores de vinhos nos bastidores das corridas automobilísticas de Fórmula Indy, a convite do projeto. A cidade-estado chinesa de Hong Kong, que tem um regime econômico e político particular, também entrou na lista dos destinos prioritários.


O estudo da ApexBrasil levou em conta não apenas o consumo em cada país, mas também o peso dos vinhos importados — em especial os rótulos do Novo Mundo — e os preços alcançados em cada mercado. São 35 as vinícolas participantes — 20 delas já exportam e, em 2011, 14 fecharam negócios com importadores internacionais. “Foi uma grande vitória e um importante avanço, porque enfrentamos a forte crise que abalou a economia europeia e ainda tivemos como obstáculo um câmbio desfavorável”, celebra a gerente de promoção comercial do projeto, Andreia Milan.


A crise, aliás, atrapalhou a curva ascendente das exportações dos vinhos brasileiros. Em 2008, antes do desastre, o programa Wines of Brasil tinha alcançado seu recorde em valor de exportações até o momento: 4,7 milhões de dólares, que se reduziram à metade em 2009. O resultado de 2011, portanto, é um ponto positivo numa trajetória de recuperação que se revela também no número de países compradores — foram 31 em 2011, quatro a mais do que em 2010 — e na medida do valor agregado às exportações: segundo o Ibravin, o preço médio por litro exportado passou de 2,15 dólares em 2010 para 4,34 dólares em 2011 (sem taxas e fretes). Em geral, os vinhos brasileiros chegam ao consumidor final no exterior a um preço entre 15 e 20 dólares a garrafa, mas há rótulos que podem alcançar faixas superiores, de até 40 dólares.


O Wines of Brasil traça metas e faz estudos para o setor, mas produtores individuais têm suas próprias estratégias de exportação. No caso da Miolo, a internacionalização passou por investimentos em tecnologia e uma parceria com outra “cria” do Brasil que caiu no gosto do mundo: as churrascarias, em particular as espalhadas pelos Estados Unidos. Num primeiro momento, a vinícola levou seus produtos às brazilian barbecue houses, acompanhando o festim de carnes que espanta e encanta os estrangeiros. "As primeiras exportações sofreram com a barreira do desconhecimento", conta Morgana Miolo, gerente de relações internacionais do grupo. Foram necessárias muitas viagens, feiras e eventos de degustação para que o vinho brasileiro começasse a ser conhecido além do círculo dos brasileiros emigrados. O esforço deu resultado: em 2011, foram 320 mil garrafas exportadas, 40% mais que em 2010. A expectativa para 2012 é que sejam vendidas lá fora 400 mil garrafas.


As exportações da Miolo chegam a 10% da produção total, mas a meta é fazer esse número crescer para 30% até 2020, dentro de um plano estratégico definido em 2002. “Já nessa época queríamos nos tornar uma empresa internacional, mas não sabíamos exatamente o que deveríamos fazer”, revela Morgana. “Decidimos, então, contratar um enólogo francês, Michel Rolland, para ser nosso consultor” (Rolland é um especialista famoso e polêmico: enquanto alguns dão crédito a ele por ter ajudado a elevar a qualidade do vinho de vários produtores não tradicionais, outros o acusam de uniformizar os gostos e incentivar uma cultura vinícola padronizada e globalizada, que aplaina as diferenças locais e elimina as peculiaridades das regiões produtoras). A Miolo diz ter investido, em dez anos, 120 milhões de reais em tecnologia de ponta, mudas importadas, novas instalações e equipamentos. Tem hoje um portfólio com 100 rótulos e exporta para 32 países — a Inglaterra responde, sozinha, por 30% das vendas. Além do Quinta do Seival, escolhido para as Olimpíadas, os vinhos das linhas Reserva, Cabernet Sauvignon e Lote 43 são os rótulos da vinícola mais comprados no exterior.


Quem consultar a lista dos maiores importadores do vinho brasileiro (veja quadro na página 23) notará que não constam dela os produtores mais tradicionais. É natural, pois países como França e Itália, com grande tradição de produção e consumo de vinhos, não são, nem poderiam ser, o alvo das vinícolas brasileiras. Seus orgulhosos consumidores preferem a bebida produzida em solo local, ou quando muito europeu. Entre os consumidores emergentes, entretanto, o continente asiático chama a atenção. Só na China, o consumo de vinho entre 2006 e 2010 cresceu 140%. Como é comum em sociedades que enriquecem rapidamente, comprar e conhecer vinhos estrangeiros — ou pelo menos afetar conhecer — tornou-se lá sinal de ascensão social, ao lado de grifes de roupas caras e carros importados. O país acaba de passar a Inglaterra e tornar-se o quinto maior consumidor mundial (é também, desde 2011, o segundo destino na lista dos compradores brasileiros). Seu mercado deve crescer 54% até 2015.


Outro destino asiático atraente é o Japão, o oitavo comprador do Brasil. Vinhos da França, Itália, Chile e Argentina dominam o mercado japonês, e Angela Hirata fez no país um trabalho de reposicionamento de marca, em particular da Miolo. Até então, os vinhos do Brasil estavam restritos aos locais frequentados por dekasseguis (trabalhadores migrantes) brasileiros. O esforço entre importadores locais resultou em uma maior exposição em locais estratégicos. Atualmente, os vinhos Miolo são encontrados em cerca de 200 pontos de venda nobres no Japão, e até em mangá japonês a marca apareceu recentemente. Além da Miolo, Valduga e Vinícola Salton também estão entrando no mercado japonês. “Esse é um trabalho de formiguinha; você vai, mostra, conversa...”, conta Angela. “Tem gente que ainda pergunta: no Brasil tem vinho?” Se o objetivo é abrir espaço para um vinho desconhecido, o primeiro passo — diz Ângela — é chegar aos sommeliers dos melhores restaurantes e hotéis e escolher lojas especializadas de renome. Os vinhos premium brasileiros, de qualidade e preço mais altos, não são vendidos em supermercados.


Esse é um caminho que a Casa Valduga também está percorrendo. Juciane, a responsável pela comercialização na empresa, conta que tem conseguido colocar seus vinhos em cartas de restaurantes famosos, com duas ou três estrelas no Guia Michelin, como o De Karmeliet, na Bélgica; o Aqua no The Ritz-Carlton de Wolfsburg, na Alemanha; e o Savoy, em Londres. “Isso é muito recompensador, prova que a qualidade dos nossos produtos está sendo reconhecida”, diz ela.


Entre os principais destinos de exportação da vinícola estão os Estados Unidos, o México e a Alemanha. “A Escandinávia tem se tornado uma região muito interessante, porque lá não se fala tanto em crise”, comenta Juciane. “Outra prioridade este ano é a China.” Na Alemanha, os rótulos Valduga são encontrados em 300 lojas e mais de 200 restaurantes, diz a executiva. Um vinho que tem vendido bem é o Marselan, feito  com a uva francesa do mesmo nome, um cruzamento entre Grenache e Cabernet Sauvignon.  As mudas cruzadas vieram da França e foram plantadas em Encruzilhada do Sul. “Tem feito um imenso sucesso, pois, além de ser um vinho do Novo Mundo, é ainda uma nova cepa” afirma Juciane. “Os sommeliers adoram esse tipo de novidade.”


Rosana Pasini, gerente de exportações da Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves, acredita que os vinhos brasileiros, jovens e fáceis de beber, já estão fazendo sua marca. “Têm uma identidade própria, com a cara do Brasil”, afirma Rosana. No jargão, um vinho jovem é aquele que pode ser bebido pouco tempo depois de produzido, sem necessitar de um longo envelhecimento; e fácil de beber se refere a vinhos leves e menos alcoólicos que se prestam a um consumo informal, em oposição aos vinhos envelhecidos e complexos mais associados aos rituais da alta gastronomia. Fundada há 81 anos por imigrantes italianos, a Aurora é uma grande cooperativa vinícola, reunindo a produção de 50 milhões de quilos de uvas cultivadas por 1.100 famílias. Os rótulos da marca estão em mais de 20 países, três deles conquistados no ano passado: Nova Zelândia, Taiwan e Finlândia. Os Estados Unidos são o maior importador dos produtos Aurora, seguidos pelo Japão. A expectativa para 2012 é de um crescimento de 50% nas exportações, com um aumento nas vendas de espumantes para os Estados Unidos e de vinhos tintos para a China.


A identidade própria de que fala Rosana é alimentada ainda pelo bom momento que o país vive. Hoje, tudo o que chega do Brasil é visto com bons olhos, registra Juciane, da Valduga. “Quando falamos em Brasil, as pessoas abrem um sorriso no rosto.” O que falta fazer, então, para aproveitar a onda e ampliar os nichos do vinho brasileiro no mercado mundial? Entre outras coisas, falta baixar os custos internos de produção e transporte. Em muitas lojas lá fora, o vinho nacional é mais caro que o chileno, ainda que o vizinho seja mais familiar e de qualidade já reconhecida.


Esther Bucher, gerente de produto da Mövenpick Wine, vive esse problema. A loja dela é uma das maiores da Suíça e preza pela qualidade do atendimento: os clientes recebem aconselhamento de funcionários com grande conhecimento em vinhos. “Houve uma grande melhora no marketing e na percepção dos vinhos brasileiros nos últimos anos”, constata Esther, que os vende desde 2010 e oferece atualmente um rótulo brasileiro, o Cabernet Franc Pequenas Partilhas, da Aurora. “São bons vinhos, com um toque exótico”, diz ela. Mas são caros em relação aos dos vizinhos sul-americanos, observa, especialmente quando se levam em conta os fatores preço e qualidade.


Uma das razões para tanto é que o produto brasileiro já deixa o país com um preço alto. “O frete de um contêiner de Bento Gonçalves até o Porto de Rio Grande pode custar mais que o frete que se paga do Rio Grande até a China de navio”, critica Morgana Miolo. Outro problema é a pequena escala da produção. Enquanto Chile e Argentina possuem, cada um, mais de 200 mil hectares de uvas plantadas, o Brasil tem 92 mil hectares. E, finalmente, alguns especialistas apontam que não há uma cepa brasileira emblemática, como a Malbec e a Torrontés na Argentina, a Shiraz na Austrália e a Pinotage na África do Sul. Vinhos produzidos com a uva-símbolo do país  vendem mais, e há quem aposte que esse lugar, no Brasil, será ocupado pela Merlot, que tem se destacado nas plantações da Serra Gaúcha.


É necessário, ainda, educar o consumidor estrangeiro sobre as origens do vinho brasileiro. Angela Hirata costuma contar a história do país e dos imigrantes italianos que trouxeram técnicas e expertise vinícola para o Sul do Brasil. Os vinicultores gaúchos já sabem que precisam levar o mapa do Brasil aos eventos de que participam — conta Juciane, da Casa Valduga — para mostrar que as regiões produtoras têm clima e geografia próprios, diferentes da imagem praieira do país. “Falamos sobre a altitude, a temperatura média, as estações do ano bem definidas e a localização próxima de outros países produtores”, diz ela. Para que o comprador internacional visualize onde é feito o vinho nacional, o Wines of Brasil criou material impresso que detalha especificidades de solo, clima e das uvas plantadas em cada região. “Sempre falo que o Brasil faz um vinho de qualidade, como o europeu, com um tempero tropical”, afirma Angela.


A exposição internacional também revelou outras áreas em que o produtor brasileiro precisaria dar um salto, como o visual das garrafas. “Fizemos uma grande reformulação da marca inspirados no que vimos em termos de embalagens e rótulos”, diz Juciane. E conta que as garrafas Valduga já receberam elogios por sua elegância numa feira na Alemanha, a ProWein 2012. Finalmente, o próprio consumidor brasileiro precisa olhar para o vinho do país de forma diferente, acreditam os produtores. Sempre houve um preconceito em relação aos rótulos nacionais, mas isso está mudando.


Para Angela Hirata, faltava deixar a timidez de lado e afirmar que o vinho brasileiro é bom.  “O mercado interno nunca foi tratado da maneira como deveria”, diz a consultora. “Eu achei bárbaro a presidente Dilma Rousseff, quando assumiu, servir para as autoridades internacionais vinho Valduga; a atitude dela valorizou o que é nosso”. Juntas, as vinícolas brasileiras estão provando que o vinho brasileiro pode ser uma bela surpresa entre os vinhos do Novo Mundo. As vendas e o reconhecimento demonstram isso. “Estamos escrevendo as primeiras linhas da história do vinho brasileiro no mercado externo”, arremata Juciane Casagrande. “É um momento de grande responsabilidade para todos nós.”   



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