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O caçador de ventos

Piloto e ambientalista, Gérard Moss tenta convencer o Brasil de que o país inteiro depende da Amazônia para produzir alimentos e viver

Andressa Rovani e Armando Mendes
Moss na cabine de pilotagem

Há dez anos, ao dar sua segunda volta ao mundo de avião, Gérard Moss, hoje com 56 anos, deparou-se com uma verdade: ao contrário do que a humanidade sempre acreditou, os recursos naturais são finitos. Gérard pilotava um motoplanador, um pequeno avião que “surfa” nas correntes e nos bolsões de ar quente da atmosfera usando o motor como propulsão auxiliar. Ao sobrevoar o planeta em baixa altitude, numa demorada viagem sobre 50 países, ele viu de perto como é frágil o ambiente que o ser humano ocupa na superfície da Terra e as agressões sem fim que sofre. Ao voltar ao Brasil, onde mora desde 1983, Gérard – nascido na Inglaterra e criado na Suíça – tinha duas certezas: de que este é seu país e de que era preciso mudá-lo.


Formado em Engenharia Mecânica, Gérard chegou ao Brasil para trabalhar com  afretamento marítimo na exportação de soja. Quando se desfez da empresa que mantinha no Rio de Janeiro para financiar sua primeira volta ao mundo, em 1989, o homem de negócios deu lugar ao ecologista. Naturalizado brasileiro, o empresário que ajudava a vender a soja brasileira passou, então, a catequizar produtores de grãos sobre a importância da Amazônia. “Eu sentia a necessidade de mostrar o Brasil como um país de águas”, afirma. “Lá fora, ele é mais conhecido como o país do futebol e do Carnaval, apesar do potencial que temos” (o território brasileiro abriga a maior reserva de água doce do planeta). Criado em 2003, o projeto Brasil das Águas foi o primeiro fruto dessa mudança. Preocupado com a degradação dos rios, Gérard idealizou uma forma de coletar amostras de água do Brasil todo a bordo de um avião anfíbio. Apoiado por instituições de ensino e pesquisa e empresas comprometidas com as questões ambientais, voou 120 mil quilômetros – o equivalente a mais de duas voltas em torno da Terra – para coletar 1.160 amostras de água doce em 524 rios e lagos espalhados por todo o território do país.


Os resultados funcionaram como um raio X da saúde dos rios do Brasil. Seguiu-se o projeto Sete Rios, voltado para a conscientização das comunidades ribeirinhas sobre a preservação dos recursos hídricos. Mas foi em 2007, em conversas e discussões com pesquisadores do clima amazônico, que tomou forma a ideia de mais um projeto, juntando a água e a atmosfera. “Começamos a olhar para o vapor d’água, que é tão importante quanto a água de superfície”, diz Gérard. Com uma pergunta provocadora – você sabe de onde vem a chuva que cai na sua cidade? – nasceu a expedição Rios Voadores, que está hoje em sua segunda etapa.


O conceito de “rios voadores” é a chave para o projeto. O termo é usado para designar as rotas percorridas pelo vapor d’água formado sobre a Amazônia, como se fossem invisíveis cursos de água atmosféricos que passam pelo céu transportando umidade para áreas mais ao sul. Empurrados para oeste pelos ventos que vêm do Atlântico, esses “rios voadores” se chocam com o paredão da cordilheira dos Andes e são desviados para o sul. Grosso modo, portanto, é a floresta amazônica que sustenta, por meio dessas correntes de vapor d’água, parte da umidade que provoca as chuvas em outras regiões do continente e torna férteis as terras de um vasto quadrilátero que vai de São Paulo e Mato Grosso a Buenos Aires e ao pampa argentino – exatamente o celeiro da produção agrícola dos dois países.  


Com essa constatação, Gérard busca convencer suas audiências no Sul e Sudeste do Brasil de que um problema aparentemente localizado na Amazônia é, na verdade, nacional e continental. Distante geograficamente, a população das demais regiões brasileiras tende a ver os problemas ambientais na Amazônia com certa indiferença. O empresário transformado em ecologista quer mudar isso. “O brasileiro do Sul precisa se dar conta de que está completamente ligado ao Norte, e, portanto, tem de se interessar muito mais pelas decisões sobre a Amazônia”, afirma. O Rios Voadores, que começou há quatro anos, depende de dois fatores para alcançar seus objetivos: o embasamento e a coleta de dados científicos e a abordagem educacional, que visa a transfomar a forma pela qual o Brasil encara a Amazônia. “A ideia é ajudar a ciência a avançar nesse conceito de rios voadores, mas também criar um conteúdo que seja entendido pela população como um benefício importante”, afirma o aviador e ambientalista. “É preciso mostrar a importância de cada árvore para o fornecimento de vapor em todas as regiões do Brasil.”


Enquanto Gérard viaja o país coletando amostras para estudar as correntes de vapor, cidades foram eleitas para receber o lado educacional do projeto, com programas em escolas locais. Foram formados 960 professores, e 50 mil crianças já receberam o material  explicativo do projeto. Cidades do interior em regiões agrícolas, como Uberlândia, em Minas Gerais, e Londrina, no Paraná, ganharam prioridade – por estarem tão longe do litoral, elas dependem muito mais desses aportes de umidade do Norte. “Estamos muito envolvidos em mostrar às pessoas que elas têm de levantar a cabeça um pouquinho e se sentir mais ligadas aos riscos que incorrem com as mudanças radicais da natureza”, afirma Gérard, que tem como parceira nas expedições a mulher, Margi. Nascida no Quênia, na África, Margi responde pela documentação escrita e fotográfica dos projetos. O Rios Voadores conta com patrocínio de 1,5 milhão de reais anuais da Petrobras.


Como resultado da segunda etapa, que se encerra em breve, o projeto se prepara para apontar um panorama da origem da umidade, nos últimos 12 meses, em cada uma das regiões do país. Com isso em mãos, será possível medir a importância dos fluxos de vapor d’água vindos da Amazônia – e, consequentemente, da própria floresta – para determinada região. Centro do agronegócio brasileiro, Mato Grosso deve liderar o nível de dependência do vapor amazônico, adianta Gérard. “O Brasil tem de estar ciente de que uma parte da fantástica produção agrícola do país se deve a dois acidentes geográficos: a cordilheira dos Andes e a presença da floresta tropical no Norte”, diz ele. O movimento em torno do tema tem feito com que grandes produtores rurais se rendam à constatação e passem a ver a preservação da floresta amazônica como uma necessidade para o próprio negócio. O objetivo principal do projeto, segundo seu idealizador, é exatamente a mudança de comportamento das pessoas – que, de contrárias ou neutras, elas passem a ser ativas na defesa da Amazônia e sua floresta tropical úmida.


Aos poucos, o trabalho de Gérard vai ganhando respaldo internacional. O mais recente reconhecimento ocorreu em novembro, quando ele recebeu das mãos do príncipe Charles, no Palácio de Buckingham, em Londres, a medalha e o título de Membro da Ordem do Império Britânico. A distinção é concedida por préstimos à sociedade que merecem reconhecimento público. Depois de passar 25 anos no Rio, Gérard e a mulher trocaram a cobertura na Urca por um sítio em Brasília, na região central do país, equidistante do Norte e do Sul. Hoje, o casal mora no bairro do Lago Sul e mantém no aeroporto, a apenas 2 quilômetros de casa, o avião usado nas expedições. “Meus amigos cariocas dizem que sou maluco”, conta ele. “Mas, depois de me visitarem, compreendem. Já identifiquei 160 espécies de pássaros no meu quintal.” Ainda assim, ele admite dissabores em Brasília . “Já identificamos uma mudança de pensamento na população, mas o poder público e os dirigentes parecem não tomar nenhuma atitude para mudar a situação da Amazônia”, lamenta o piloto-ecologista. “Esse é o lado frustrante do meu trabalho.” A próxima etapa, diz ele, é trabalhar para que esse elo da corrente também mude.



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