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Casas à moda brasileira

Meio século depois da geração dos mestres modernistas, a arquitetura brasileira volta a fincar pé em outros continentes.

Lilian Primi
Belas Park, em Luanda: duas gerações de arquitetura

Assim que se formou, em 1989, a arquiteta Débora Aguiar foi indicada por um amigo para uma família brasileira que queria construir em Orlando, na Flórida. A primeira reunião foi num hotel, em São Paulo, e Débora sentiu-se vulnerável. “Era uma mesa enorme e todos falavam em inglês, que eu mal dominava”, lembra. Hoje, ela tem 15 projetos realizados ou em andamento em países diversos e comanda uma equipe de 50 pessoas. E seus clientes não são mais apenas brasileiros. Entre outros trabalhos, ela desenha um condomínio em Palm Beach, na Flórida (EUA), e tem projetos em Nova York, Miami e Luanda (em Angola), além de África do Sul, Portugal, Uruguai e Argentina.


A história de Débora está se repetindo com outros arquitetos brasileiros nos últimos anos. De carona com as construtoras nacionais que passaram a atuar fora do Brasil ou pelas mãos de brasileiros que compram imóveis no exterior, eles começam, na maioria das vezes, atendendo clientes brasileiros, que funcionam como ponte para chegar aos estrangeiros. Para Miguel Pereira, diretor de Assuntos Internacionais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), a boa aceitação está fundamentada na história da arquitetura brasileira, que começou a se projetar no mundo ao criar uma versão tropical do movimento modernista, na metade do século 20. “Tínhamos relevância internacional com nomes de peso como Oscar Niemeyer, Lelé [João Filgueiras Lima] e Paulo Mendes da Rocha”, analisa o arquiteto (Niemeyer e Mendes da Rocha ganharam o Prêmio Pritzker, a mais importante premiação internacional da área). A natureza do movimento atual, no entanto, é diferente. “Está mais voltado para a prestação de serviços, beneficiada pela boa imagem deixada pelos mestres”, diz ele.


Nos anos 1960, segundo Miguel, os grandes arquitetos brasileiros eram convidados por governos e clientes de outros países em virtude da qualidade inovadora de seus trabalhos individuais. Hoje, arquitetos tupiniquins se aventuram principalmente em mercados que se abrem para uma presença maior de empresas brasileiras internacionalizadas: Miami, nos Estados Unidos; Luanda, em Angola; e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos; entre outros. As razões podem ser diversas. Em Miami, o chamariz é o grande número de brasileiros que compram casas e apartamentos lá – em 2010, houve um aumento de 5 pontos percentuais no número de brasileiros entre compradores estrangeiros de imóveis, segundo relatório da National Association of Realtors (NAR) dos Estados Unidos. Em Angola, a presença brasileira cresce por conta de fatores que se somam: a necessidade de reconstrução do país, saído de uma longa guerra civil, e as afinidades culturais entre países que falam a mesma língua e estão ligados em sua própria formação humana desde que o Brasil recebeu um fluxo massivo de africanos trazidos como escravos. “Em Luanda, é o Brasil que lidera no mercado de arquitetura”, diz Débora. Já em Dubai, o mercado se abre por ser a cidade um centro internacional de negócios que atrai profissionais e prestadores de serviços do mundo todo.


Mas os próprios arquitetos brasileiros detectam outro fator favorável, difícil de medir, mas perceptível no dia a dia com os clientes e em pesquisas de mercado: os brasileiros estão habituados a dar um atendimento pessoal e individualizado que não é tão comum em outros países, onde o projeto e a construção costumam seguir regras mais padronizadas e um ritmo industrial. “O nosso arquiteto escuta o cliente, adapta-se às suas necessidades, tem paciência e aceita mudanças em qualquer etapa do processo”, explica a gerente do projeto de internacionalização da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea) Carina Carvalho. “Sempre procuramos buscar uma forma de viabilizar a vontade do cliente”, resume Débora Aguiar.


Armados dessa inesperada vantagem competitiva, os brasileiros também começam a fazer incursões nos vizinhos da América do Sul (Chile, Uruguai e Argentina) e em mercados mais resistentes e difíceis, como Portugal e França, na Europa; ou a cidade de Nova York e o Canadá, na América do Norte. Uma pesquisa quantitativa feita pela Asbea mostra que, em 2010, cinco escritórios filiados fecharam contratos no valor total de 4,118 milhões de dólares em Angola, nos EUA, no México, no Líbano e na França. A maior parte desses trabalhos – cerca de 80% – é constituída de projetos comerciais. “A expectativa é que este número cresça 50% neste ano”, diz Carina. Mas há indícios de que os números podem ser maiores. “Estamos justamente tentando criar um banco de dados a respeito da atividade fora do Brasil, mas ainda encontramos muita resistência para levantar informações”, explica a executiva.


O projeto de internacionalização da Asbea é desenvolvido em parceria com a Apex-Brasil dentro do programa Brasil Casa Design, que divulga as empresas e os profissionais brasileiros de toda a cadeia de construção. Ainda em seus primórdios, a internacionalização é uma necessidade vital para os escritórios brasileiros, afirma Ronaldo Rezende, presidente da Asbea. “Há uma invasão de estrangeiros no Brasil que procuram fazer parcerias com escritórios brasileiros para executar seus projetos aqui”, diz ele. “É a globalização, e precisamos aprender a lidar com isso.” Sair em busca de oportunidades em outros países é uma forma de se defender dessa invasão. Segundo Ronaldo, este é ainda um processo recente, o que explica a falta de números confiáveis. “O projeto vai ao encontro de um movimento que tem ocorrido nos últimos dez anos de forma pontual”, diz o arquiteto. “Estamos aprendendo a nos apresentar.”  


Uma das maneiras de fazer isso é promovendo missões de exploração e abertura de mercados em países estrangeiros. Já foram enviadas delegações para Dubai, Colômbia e, em meados de novembro passado, Angola, África do Sul e Moçambique. Ronaldo tem no horizonte a experiência da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica (Anfacer). “Há dez anos, quando eles começaram a se internacionalizar com o apoio da Apex, o Brasil ocupava o quinto lugar entre os exportadores de cerâmica, e hoje só perdemos para a China.”


Mas como é trabalhar projetando residências e espaços comerciais em países tão diferentes? Depende da situação e do momento de cada mercado. Em Miami, no país mais rico do mundo, os brasileiros são vistos como estrangeiros cujos investimentos ajudam a enfrentar a estagnação da economia americana depois da crise financeira de 2008/2009. “Aqui somos chamados de happy Brazilian people”, conta Virgínia Mendes, corretora de imóveis brasileira que vive e trabalha em Miami durante seis meses no ano. “As pessoas gostam de se relacionar e trabalhar com a gente.” Virgínia comprou um apartamento na Trump Tower, marca de condomínio de alto padrão que está se espalhando pelos Estados Unidos, e chamou as arquitetas Fernanda Negrelli e Andrea Teixeira para decorá-lo, fazendo a ponte entre profissionais brasileiros e clientes estrangeiros. A dupla contratou um escritório local para executar o projeto, para facilitar as coisas. “É que a medida é diferente, em pés, precisa de autorização da prefeitura para tudo – tudo mesmo, até para trocar o local de uma luminária, e ainda há um problema com os objetos”, diz Fernanda.


Trata-se, mais uma vez, da padronização. Móveis e objetos de decoração nos Estados Unidos, embora de ótima qualidade, saem de uma linha de produção. Como os clientes querem exclusividade, diz ela, isso se torna um problema. “Tudo o que estiver fora do padrão é caro e complicado; acaba que fui obrigada a levar muita coisa do Brasil.” Nesse sentido, Fernanda afirma que ganha pontos porque é capaz de desenhar peças exclusivas em marcenaria, o que não é comum por lá. “Como nossos sistemas construtivos são mais artesanais, estamos acostumados com isso”, explica. “A maioria dos arquitetos brasileiros trabalha assim.” A arquiteta está em Miami há sete anos e conta que a concorrência aumentou muito ultimamente. “Tenho amigas que estão se mudando para cá para trabalhar como decoradoras”, conta.


Angola é outra realidade, com grande desigualdade social e uma população muito pobre, apesar da enorme riqueza mineral – o país é grande produtor de petróleo e diamantes. Segundo Débora Aguiar, há um certo ressentimento com os estrangeiros, que, ao lado da minoria local privilegiada, desfrutam de nível de vida inalcançável para a população. Angola ainda sofre com as marcas da guerra, explica Roberto de Castro Mello, administrador do escritório Botti & Rubin, de São Paulo, que tem projetos de centros comerciais em Luanda para a construtora Odebrecht. Ele ressalva que não se sente no direito de avaliar o comportamento de uma população que passou pelas dificuldades que enfrentaram e ainda enfrentam os angolanos. “Há, certamente, alguns conflitos com brasileiros que vão trabalhar lá, por razões compreensíveis”, afirma. “Muitas vezes somos vistos como invasores colonialistas, mas isso, com o tempo, certamente vai mudar.” Apesar de conflitos eventuais, Roberto ressalta a familiaridade entre os dois povos. “Somos irmãos”, constata. “As ruas de Luanda, apesar da destruição da guerra ainda visível, são bem familiares; nos reconhecemos nelas.”


A familiaridade aparece, também, para os arquitetos, em alguns traços culturais: o gosto pelas cores e a instituição da cozinha “de serviço”, instalada na área de lazer na parte externa das casas – exatamente como nas residências urbanas de sitiantes do interior paulista. Por conta do calor, essas cozinhas externas são avarandadas, como também acontece no sertão nordestino. “Eles usam essa cozinha nas reuniões familiares e para fazer a comida no dia a dia”, conta Telma Santini, do escritório Ravic, que tem sede em Luanda e filial em São Caetano do Sul, no Brasil. Telma conta que montou seu escritório em Angola há cinco anos, logo depois do fim da guerra civil, quando foi para lá acompanhando o ex-marido, que trabalhava para uma construtora. Voltou ao Brasil, quando se separou, e abriu a filial no ABC. O Ravic faz projetos em Luanda principalmente para investidores que financiam condomínios de alto padrão.


Na outra ponta da escala arquitetônica, o escritório Botti & Rubin foi um dos responsáveis pelo Belas Business Park, um complexo com 18 torres residenciais e comerciais e um shopping em Luanda Sul, lançado pela construtora brasileira Odebrecht em 2006. Além do Belas Business Park, a Odebrecht já lançou outros cinco projetos imobiliários em Luanda, com apartamentos e casas entre 120 e 490 metros quadrados. A região de Luanda Sul, onde está a maior parte dos projetos assinados por brasileiros, abriga os bairros de renda mais alta da cidade – Talatona, Ilha de Luanda e Miramar –, onde a renovação urbana está mais adiantada. Mas os angolanos que podem ter acesso a esses projetos são ainda pouquíssimos. O projeto do Belas Park, por exemplo, tem como público-alvo os expatriados residentes em Luanda. Segundo Roberto de Castro Mello, lá a maioria dos arquitetos trabalha para expatriados ou para a faixa de angolanos com renda alta, que somam apenas 5% da população. Débora Aguiar diz que não há classe média em Luanda. “Ou são milionários ou miseráveis.” Mas Telma Santini acredita que essa faixa da população começa a se recompor. “O governo está investindo em programas de habitação popular e há investidores angolanos, meus clientes, que começam a construir para a classe média”, diz ela. “Vendem tudo rapidamente, pois a demanda é muito maior que a oferta.” Projetos de decoração, no entanto, só para o público AA, o único em condições de contratar um arquiteto.


Mas nem tudo vai de vento em popa na internacionalização dos serviços brasileiros de arquitetura. A crise global provocada pelo derretimento do mercado imobiliário nos Estados Unidos, em 2008, tem sido um freio: enquanto o mundo emergente constrói, o mundo rico cancela ou adia investimentos. Débora Aguiar sabe o que é isso. Tem seis projetos em andamento lá fora, mas um outro em Dubai está paralisado – o cliente é um americano do mercado financeiro. Ela ainda começou a projetar lojas para uma rede de cafés em Montreal, no Canadá, com planos de expansão global. Mas o cliente também espera tempos melhores para ir adiante.


Uma saída para enfrentar a crise no mundo rico pode ser a ampliação dos serviços prestados. O arquiteto paulistano Maurício Queiróz, por exemplo, dirige um escritório especializado em projetos comerciais, voltado para design de produto. No momento, trabalha com a rede portuguesa de relojoarias Boutique dos Relógios. “Os executivos da rede vieram aqui fazer pesquisa e, além de contratar o meu escritório para redesenhar as lojas, levaram muitas ideias novas de como tocar seu negócio”, conta ele. Uma delas é a venda a prazo. “Eles adotaram o parcelamento e tiveram uma explosão de vendas”, afirma. Maurício afirma que os executivos portugueses se impressionaram também com a forma pela qual os vendedores atendem os clientes aqui. Por exemplo, oferecem uma mesa com cadeiras para que o cliente possa se sentar durante o atendimento e o acompanham até a porta, muito tempo depois de a compra ter sido fechada. Segundo o arquiteto, na Europa o atendimento tem regras rígidas, e nos EUA o varejo trabalha com sistemas e processos bem definidos. “O brasileiro tem mais jogo de cintura”, explica Maurício, lembrando que os executivos portugueses lhe revelaram ir a dois lugares para buscar novas ideias: Nova York, para os conceitos, e São Paulo para o atendimento.



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