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Hora de ir às compras

Depois da retração pós-crise, multinacionais brasileiras voltam a investir no mercado mundial

Suzana Camargo
A catarinense WEG: expansão na China, Europa e Américas

Em novembro passado, a empresa catarinense WEG, fabricante de equipamentos elétricos, anunciou a aquisição da Watt Drive, companhia austríaca especializada no setor de power transmission, com planta fabril próxima a Viena e unidades de montagem na Alemanha e Cingapura. Estima-se que a receita líquida da Watt Drive, em 2011, tenha sido 30 milhões de euros. Além dessa aquisição, no mesmo período a WEG adquiriu a Electric Machinery, unidade da GE Converteam, nos Estados Unidos, e a Pulverlux, na Argentina, especializada na fabricação e comercialização de tintas em pó. Assim como a WEG, poucos meses antes, a gaúcha Iochpe-Maxion comprou a americana Hayes Lemmerz International, fabricante de rodas e autopeças, um negócio de 725 milhões de reais. Ainda no segundo semestre de 2011, a Brasil Foods (BRF) – fusão da Sadia com a Perdigão, também investiu em duas novas aquisições no exterior. A companhia brasileira adquiriu dois terços da Avex, grupo avícola argentino e, juntamente com a nova sócia, a Flora Dánica, fabricante de produtos alimentícios. No mercado financeiro, o banco Safra anunciou, no fim de novembro, a compra de participação no banco suíço Sarasin pelo valor de 1,13 bilhão de dólares.


Esses não foram casos isolados. Votorantim, Gerdau, Vale do Rio Doce, Petrobras, Bradesco e Camargo Corrêa foram outras companhias brasileiras que realizaram aquisições em países estrangeiros na retomada pós-crise global. Várias delas fizeram grandes negócios, com valores acima de 100 milhões de dólares. “Houve uma pequena retração em 2009, em razão da crise econômica mundial, mas em 2010 as empresas brasileiras voltaram a investir, aumentando ativos, receitas e funcionários no exterior”, avalia Lívia Barakat, professora do Núcleo de Negócios Internacionais da Fundação Dom Cabral. Lívia foi uma das pesquisadoras responsáveis pela 6ª Edição do Ranking das Transnacionais Brasileiras, elaborado pela fundação. Para ela, houve uma clara retomada do processo de expansão das companhias nacionais no exterior. “As empresas voltaram a acelerar o processo de aquisição, fusão e abertura de subsidiárias lá fora.”


Divulgado pelo Banco Central em dezembro último, o resultado da pesquisa de Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) comprova que nos últimos três anos houve crescimento nos estoques de ativos no exterior pertencentes a pessoas físicas e jurídicas residentes no Brasil. Realizada desde 2001, a atual edição compreende o período entre 2007 e 2010. Foi declarado um volume de ativos de 228,9 bilhões de dólares por pessoas jurídicas. Segundo o Banco Central, houve expansão de 23% nos ativos totais do ano-base 2010 (274,6 bilhões de dólares), se comparados com o ano anterior. Os investimentos brasileiros diretos no exterior atingiram 189,2 bilhões de dólares. Paraísos fiscais como as Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas e Bahamas continuam atraindo investidores e, juntos, receberam algo em torno de 34% dos investimentos brasileiros, o que torna imprecisa qualquer estimativa realista do destino efetivo desses capitais – muitas vezes, investimentos externos fazem “escala” num paraíso fiscal antes de chegar ao destino real. Os setores que receberam as maiores injeções de capital brasileiro no exterior foram a agricultura, a pecuária e a mineração, a indústria de petróleo e gás natural e os setores financeiro e de alimentos.


Um dos grandes destaques no ranking das transnacionais mais internacionalizadas do estudo (veja lista na pág. 38) foi a empresa de tecnologia Stefanini IT Solutions. Da 17ª posição que ocupava no ranking do ano anterior, a companhia saltou para o segundo lugar, com um crescimento de 223% em seu grau de internacionalização, segundo o índice da transnacionalidade calculado pela fundação. O salto foi conseguido graças à aquisição de três empresas no exterior em 2010, uma delas na Colômbia e duas nos Estados Unidos. A compra da americana TechTeam, que já possuía uma forte presença em dez países, levou a Stefanini a ganhar, de uma só vez, alguns novos mercados. “As empresas brasileiras internacionalizadas que se fortaleceram nos últimos anos se tornaram mais competitivas globalmente”, afirma Marco Stefanini, fundador e presidente da empresa. “A Stefanini se tornou mais competitiva porque melhorou os processos de produção e de divulgação e investiu na força de vendas.”


No fim de 2011, a Stefanini abriu uma nova filial na cidade de Jilin, no norte da China. A empresa, que já tinha um escritório em Xangai, está de olho principalmente nas multinacionais automobilísticas presentes naquele país. “O mercado de tecnologia da informação no exterior é muito grande, ainda há muita oportunidade de negócios”, diz Stefanini. A multinacional brasileira prevê um faturamento de 1,25  bilhão de dólares  em 2011. Desse montante, 40% foram gerados pelas operações internacionais.


Para o economista e professor da PUC-SP Antonio Corrêa de Lacerda, o fortalecimento das empresas brasileiras no exterior faz parte de um movimento estrutural que já vem de algum tempo, impulsionado por fatores diversos: a premência da competitividade, o acesso mais fácil aos mercados de capitais e a possibilidade de superar barreiras tarifárias e gerar receitas em moeda estrangeira. “O Brasil, que até a década de 1990 se caracterizou como um dos maiores absorvedores de capitais externos dentre os países em desenvolvimento, adicionalmente, desde então, transformou-se em um investidor no exterior”, explica o economista.


Com a evolução dos negócios internos, para algumas empresas o mercado nacional acabou se tornando saturado, como é o caso de gigantes como a JBS-Friboi, a Gerdau, a Camargo Corrêa ou a Vale do Rio Doce, que precisam buscar novas oportunidades em outros países. “Algumas companhias já têm a maior fatia do market share nacional e estão com dificuldade de crescer aqui dentro. Nesse caso, a empresa já tem presença em todos os estados brasileiros, atende a maior parte do consumo e para crescer precisa buscar oportunidades fora do Brasil”, avalia Lívia Barakat. Se, de outro lado, o mercado interno dessas empresas ainda tem potencial de crescimento, é preciso encontrar o balanço ideal entre as oportunidades externas e internas, levando em conta as regras concorrenciais que impedem uma concentração excessiva de poder de mercado nas mãos de uma empresa só.


“Quando falamos em crescimento via aquisições, as melhores oportunidades estão no mercado externo por uma restrição que vivemos no mercado interno brasileiro, em virtude da fusão da Perdigão com a Sadia”, explica Wilson Mello, vice-presidente de assuntos corporativos da Brasil Foods (que resultou da fusão). Entretanto, o mercado interno continua sendo importante para a empresa, principalmente por ser esse um setor – o alimentício – que cresce acima do PIB brasileiro há alguns anos. Para o executivo, um dos segredos do sucesso da BRF é o equilíbrio mantido entre os mercados externo e interno. Historicamente, diz ele, a companhia tem uma performance próxima a 45% do faturamento vindo de fora e 55% do mercado interno, o que dá a ela a chance de se adequar aos movimentos para melhor ou pior desses mercados. “O mercado internacional não é prioridade, mas sempre foi estratégico para a companhia, e nós estamos sempre olhando para isso”, afirma Mello. O próximo passo estratégico da Brasil Foods é terminar a construção de uma fábrica nos Emirados Árabes, prevista para começar a operar em 2013. Com capacidade produtiva de 80 mil toneladas/ano de processados de frango, ela vai atender todo o Oriente Médio e, se necessário, também o norte da África.


Outras empresas reforçam sua expansão no exterior em busca de uma meta estratégica. É o caso de uma das indústrias pioneiras na internacionalização de empresas brasileiras, a Eletromotores WEG, de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina – hoje uma das maiores fabricantes de equipamentos elétricos do mundo. “Estamos presentes em todos os continentes do mundo, e nosso objetivo é ter 20% da produção fora do Brasil”, revela Harry Schmelzer Jr., presidente da empresa. “Estamos caminhando nessa direção.” Segundo Schmelzer, investir cada vez mais na produção fora do Brasil é uma prioridade. “Queremos que as unidades fabris no exterior participem mais nos volumes de produção e nos resultados”, diz ele. Com um perfil de extrema discrição na imagem, a WEG mostra um comportamento empresarial agressivo e de muito sucesso: possui 15 unidades industriais no Brasil e oito no exterior, estando presente em países como China, Índia e África do Sul.


Para diversas empresas, o custo Brasil e a valorização recente do câmbio são fatores que impulsionam a compra ou a instalação de novas unidades fabris no exterior. “Produzir aqui tornou-se mais caro com a valorização do real”, afirma Marco Stefanini. “Além da taxa de câmbio, os encargos tributários pesam muito sobre o produto final.” Organizador e coautor do livro Multinacionais Brasileiras, ganhador recente do Prêmio Jabuti na categoria Economia, Administração e Negócios, o professor de economia da USP, Moacir de Miranda Oliveira Júnior, reforça essa percepção dos empresários brasileiros. “Pesquisas mostram que os principais desafios enfrentados pelas multinacionais não estão lá fora, mas no ambiente institucional brasileiro, principalmente associados a problemas de infraestrutura, de variação cambial e, de certa forma também, uma definição mais clara do governo sobre a política de internacionalização das empresas nacionais”. Oliveira Júnior afirma, ainda, que, invariavelmente, as empresas que têm posição nacional forte investem no exterior e, dependendo do setor de atuação e do modelo adotado, a produção lá fora pode se tornar mais barata. “O alto custo de produção no Brasil e a desvalorização do dólar podem afetar diretamente as exportações das empresas brasileiras, fazendo com que muitas se instalem fora do Brasil”, concorda Schmelzer Júnior, presidente da WEG.


Além do câmbio favorável ao real, a crise nos países europeus também contribuiu para fazer surgir a oportunidade de novas fusões e aquisições, já que os ativos no exterior estão com os preços mais baixos. “O câmbio favorece bastante a expansão das empresas, uma vez que é desfavorável à exportação, e muitas companhias veem a produção no exterior como uma alternativa para não sofrer os efeitos do real supervalorizado para as exportações”, analisa Lívia Barakat, da FDC. “Algumas empresas que tinham receitas prioritariamente de exportações começam a abrir subsidiárias produtivas,  beneficiando-se com o real valorizado.” Mas na contramão desse efeito “a favor”, a crise econômica enfrentada hoje pelos países europeus e os Estados Unidos poderá afetar, também, de maneira negativa, a expansão global brasileira, de formas ainda não totalmente conhecidas. O fato é que os bancos europeus já diminuíram a oferta de crédito. E apesar de especulações no mercado interno de que as empresas brasileiras estariam de olho em futuras privatizações nos países endividados da Europa, como Itália, Espanha e Portugal – forçados a se desfazer de ativos estatais para cobrir seus “buracos” fiscais –, alguns empresários acreditam que esses negócios podem ser muito arriscados no momento. “Mercados americanos e europeus não estão bem, consequentemente as empresas daqueles países são moderadamente atraentes”, diz Marco Stefanini. Já o presidente da WEG afirma que a experiência com os anos de economia instável no Brasil fez com que a empresa aprendesse a explorar as oportunidades de crescimento que estão disponíveis, mesmo em momentos de menor crescimento. “Nosso modelo de negócios é baseado na diversificação de riscos”, diz ele. “Procuramos sempre diversificar nossa exposição, não ficando concentrados em um único setor, segmento, indústria ou geografia”, diz.


Para o professor Moacir Oliveira Júnior, as aquisições na Europa precisam mesmo ser muito bem avaliadas. “O quadro atual aponta para uma estagnação econômica que gera perda de competitividade”, alerta ele. “Não é só comprar porque está barato, mas para gerar valor, receita, inovação e conhecimento”, alerta. Na opinião do economista, uma solução para a crise europeia e a estabilização do euro não acontecerá ainda nesta década, e o enfraquecimento da moeda europeia afetaria a própria noção da União como uma comunidade supranacional, o que nunca havia ocorrido desde a criação do euro.


Menos interessada nos chamados mercados maduros, a Brasil Foods enxerga justamente nos emergentes as maiores oportunidades de crescimento no exterior. Todavia, esses países estão se saindo melhor na crise, e suas empresas não ficaram mais baratas – ao contrário, por isso mesmo vivem um momento de valorização. A BRF acaba de formalizar uma joint venture na China e tem grandes expectativas para a operação na Argentina. “A Argentina é muito parecida com o Brasil, tem um mercado interno que cresce, aliado a um custo muito competitivo na produção de alimentos” avalia Wilson Mello. “Nós acreditamos na Argentina como um mercado interno interessante e também como uma plataforma exportadora.” Para a BRF, o Brasil continua sendo um dos lugares mais competitivos para se produzir alimentos, juntamente com Argentina e Estados Unidos.


O que alguns especialistas discutem, entre eles Oliveira Júnior, é se a atual crise mundial não seria nada mais que um reordenamento do capitalismo global decorrente da perda de competitividade das empresas dos países desenvolvidos, que está associada a custos elevados e à dificuldade de se diferenciar em relação às multinacionais emergentes, o que acaba possibilitando a abertura de espaço internacional para novos competidores. “As empresas brasileiras tiveram a percepção correta de que é preciso fazer parte das grandes cadeias produtivas globais, até mesmo para não se tornarem alvos fáceis de aquisições por parte dos seus concorrentes”, afirma o economista e professor da PUC-SP Antonio Corrêa de Lacerda. Mas a desvalorização dos ativos internacionais e o real forte também criam um movimento preocupante em direção ao mercado interno brasileiro. “Isso atrai investimentos estrangeiros para cá, no chamado quintal das multinacionais brasileiras, e essas empresas precisam se proteger do avanço das multinacionais estrangeiras”, ressalta Oliveira Júnior, o organizador do livro Multinacionais Brasileiras. O economista dá como exemplo o setor financeiro, em que, nos últimos anos, o Brasil viu a chegada de diversos bancos estrangeiros interessados em abocanhar uma fatia desse disputado segmento, que vem crescendo muito rapidamente.



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