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Os frutos da África

Agrícola Famosa, do Ceará, começa a cultivar melões no Senegal para atender clientes europeus

Andréa Flores
melões brasileiros: clima como o do Nordeste

Europeus e outros habitantes dos climas frios do Hemisfério Norte adoram melões no café da manhã. Mas as frutas exigem clima semiárido e pouca chuva para crescer saudáveis e saborosas — condições mais comuns em zonas tropicais do planeta. Para compensar esse descasamento geográfico entre plantadores e consumidores, a Agrícola Famosa, o maior exportador brasileiro da fruta, está começando a cultivar melões no Senegal, país na extremidade ocidental da África, a meio caminho entre o Nordeste do Brasil e a Europa. O trabalho no campo começou em setembro e já evoluiu para a preparação do solo e a remessa dos equipamentos de irrigação. A primeira colheita em terras africanas está prevista para fevereiro de 2012. Mas, até chegar a esse ponto, algumas decisões importantes tiveram de ser tomadas.


A Agrícola Famosa foi fundada em 1995 e exportou, na temporada 2010/2011, 100 mil toneladas de frutas cultivadas em fazendas irrigadas no Ceará e no Rio Grande do Norte — além de melões, melancias (a empresa não revela números de faturamento). Grã-Bretanha, Holanda, Itália, Portugal e Espanha foram os mercados principais. Mas o Nordeste brasileiro tem uma desvantagem para os fruticultores: as “águas de março”, a estação chuvosa anual entre fevereiro e abril, na qual a qualidade das frutas vai literalmente por água abaixo. Para continuar a atender seus clientes europeus sem soluços no fornecimento, os empresários brasileiros resolveram internacionalizar a produção e saíram em busca de regiões agrícolas com boas condições econômicas e clima favorável — era fundamental não chover no período do verão brasileiro.


Os agrônomos da empresa encontraram áreas favoráveis no Peru e no Chile, além de regiões da África. Mas nenhum candidato bateu o Senegal, escolhido por um conjunto de vantagens, segundo o advogado Luiz Roberto Barcelos, um dos sócios da empresa: a proximidade com a Europa, a semelhança climática com o Nordeste do Brasil e a ausência de guerras tribais ou religiosas em seu território. As contas são simples, ele explica. Depois de colhido, tratado e embalado, o tempo de vida de um melão é de 30 dias. Do Chile ou do Peru, pelo Oceano Pacífico, seriam 20 dias de viagem até o sul da Europa, o que reduziria a vida útil do produto a dez dias e aumentaria em 30% o custo do frete. “Já a partir do Senegal, o trajeto dura apenas dez dias, sobrando 20 dias para a comercialização da mercadoria”, arremata.


Decidido o país, a Agrícola Famosa escolheu o local ideal para o empreendimento — a região de Thilmakha, a cerca de 120 quilômetros da capital Dacar — com a ajuda do Ministério da Agricultura e da Agência de Desenvolvimento do Senegal (uma colônia francesa até 1960). Estimado em 9 milhões de euros, o investimento fixo total compreende a transferência de material e de tecnologia para a área de plantio. Como não há propriedade privada agrícola no país — a terra foi nacionalizada após a independência —, todas as licenças e permissões para o uso tiveram de ser diretamente negociadas com as comunidades locais. Estas outorgaram ao grupo brasileiro uma concessão de 20 anos para o cultivo de 600 hectares.


Segundo Luiz Roberto, a empresa brasileira, de sua parte, compromete-se não somente a empregar mão de obra local, mas também a estabelecer escolas e um centro de atendimento médico para a comunidade localizada próxima da fazenda. Já o governo senegalês vai investir em infraestrutura básica, como a construção de estradas e a instalação de energia elétrica perto da área onde serão cultivados os melões brasileiros. Distribuído por  três anos, o investimento da empresa brasileira será ascendente: no primeiro ano, serão plantados 150 hectares de terra, contratados 375 trabalhadores locais e gastos 2,25 milhões de euros no custeio do plantio; no segundo ano, a área sobe para 300 hectares, o número de trabalhadores locais para 700 e o custeio para 4,5 milhões de euros. E no terceiro ano, todos esses números dobram.


Para se lançar nessa aventura internacional, a Agrícola Famosa conta, exclusivamente, com recursos próprios. Apesar de o BNDES oferecer créditos para investimentos na África, Luiz Roberto, nascido no interior de São Paulo em família proprietária de terras, afirma não ter precisado recorrer a tal ajuda. “Os nossos clientes europeus não somente compraram inteiramente a primeira produção, como já pagaram 30% da fatura”, revela o empresário. “Não foi possível recorrer à Embrapa, porque a empresa pública de tecnologia agropecuária não oferece atualmente assistência técnica para o plantio de melão”, diz ele. A Agrícola Famosa banca, ainda, o treinamento dos funcionários locais, que deverão formar e dirigir as equipes responsáveis pelo projeto. Dez funcionários senegaleses passaram o mês de agosto nas fazendas nordestinas da empresa, dando início ao intercâmbio de formação.


“Não pretendemos manter uma equipe brasileira full time no Senegal”, prevê Luiz Roberto. Entretanto, para acompanhar o início das operações africanas, dez especialistas da empresa, chefiados pelo engenheiro espanhol Luis Alvarez, desembarcaram em setembro no país africano, onde deverão ficar durante seis meses. Para contornar a questão dos idiomas (na região são falados o francês e a língua local wolof), os supervisores senegaleses vão aprender o português. E os brasileiros expatriados precisarão se acostumar com as diferenças culturais e religiosas. “Nunca vou me esquecer do meu primeiro almoço no Senegal”, relembra Luiz Roberto. “O dono da casa tinha três esposas; as bandejas foram postas em cima de belos tapetes, no chão, e comemos com as mãos.”


 



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