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A savana vai virar cerrado

Brasileiros e japoneses repetem em Moçambique a parceria que revolucionou a agricultura no Brasil

Cecília Pires
Lichinga, no interior de Moçambique: ponto final do corredor de produção que começa no Índico

Cento e cinquenta moçambicanos recém-treinados no Brasil pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estão atravessando o Atlântico de volta a seu país. Lá, eles ensinarão a seus compatriotas as técnicas agrícolas que aprenderam no Centro de Estudos e Capacitação em Agricultura Tropical, em Brasília, tornando-se multiplicadores do conhecimento trazido da América do Sul. Enquanto isso, 80 cientistas e técnicos japoneses vão e voltam entre o Oriente e a África Austral, cruzando o Oceano Índico para estudar solos e cultivos na savana africana.


No meio desse redemoinho, um veterano pesquisador brasileiro anima-se: “Esse projeto pode ser a segunda independência de Moçambique”, prevê Alberto Santana, o coordenador, pela Embrapa, do Projeto ProSavana JBM (de Japão, Brasil e Moçambique), a iniciativa trinacional que provoca toda essa movimentação entre continentes. O ProSavana — cujo nome oficial é Programa de Desenvolvimento Agrícola das Savanas Tropicais de Moçambique — pretende transformar num celeiro de alimentos a região do norte do país, conhecida como o Corredor de Nacala. Ela é atravessada por uma via rodoferroviária que parte do Porto de Nacala, no Índico, rumo ao oeste, e chega à cidade de Lichinga, no interior do continente.


O programa é o passaporte para garantir a segurança alimentar dos 20 milhões de habitantes da ex-colônia portuguesa — hoje um dos países mais pobres do mundo, forçado a importar da vizinha África do Sul 60% dos alimentos que consome. É também um esforço para replicar na África os resultados do Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (Prodecer), que revolucionou a agricultura brasileira nas décadas finais do século 20 e a converteu num dos celeiros do mundo. Os pesquisadores do Prodecer estudaram e corrigiram os solos do Centro-Oeste brasileiro, até então considerados estéreis, e desenvolveram sementes adaptadas ao clima tropical. Conseguiram, assim, abrir os vastos cerrados do Planalto Central às culturas de exportação, principalmente de grãos como a soja, criando as bases para o desenvolvimento do agronegócio em grande escala no Brasil.


As savanas do Corredor de Nacala guardam grandes semelhanças com o cerrado brasileiro. E para completar o parentesco entre os dois projetos, só falta falar dos japoneses. A Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), participante do programa moçambicano, foi a fornecedora de assistência técnica e financiamento para o Prodecer. Agora, a parceria se repete na África, com duas diferenças: a Embrapa, que lá atrás recebeu a assistência japonesa, assume desta vez o papel de coprovedora da cooperação técnica para um terceiro país; e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) entra como parceira da empreitada ao lado da Jica. Trata-se do exemplo mais cristalino da transformação do Brasil de receptor em doador de assistência internacional.  


“A intenção é que este programa seja um modelo para ser implementado em outros países, como foi o caso da cooperação japonesa para o cerrado brasileiro”, afirma o representante da Jica no Brasil, Satoshi Yoshida.  As razões do Japão para manter e ampliar a parceria iniciada há mais de 30 anos no Prodecer decorrem da excelência alcançada pelo país na área agrícola, que, por sua vez, resulta de experiências acumuladas tanto no campo como nos laboratórios de pesquisas em agricultura tropical.


Lá em Moçambique, enquanto isso, as primeiras sementes de mandioca, sorgo, milho e feijão já começaram a ser semeadas nos campos de experimentação nas províncias de Nampula, Niassa e Zambézia. Ali, assim como nos campos do Centro-Oeste brasileiro, o início do plantio coincide com as primeiras chuvas de outubro. Foram selecionadas, inicialmente, três áreas — uma em cada província — somando 120 mil hectares. Em parte delas, os governos provinciais assentaram ex-combatentes da guerra civil moçambicana, deflagrada logo em seguida à independência de Portugal, em 1975. Outra parte poderá ser cedida para a instalação de projetos produtivos, para comunidades de agricultura familiar ou associações de produtores.


Os objetivos do ProSavana cobrem um horizonte de 20 anos. O primeiro é transferir tecnologias e reforçar as capacidades de pesquisa do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique. Nesta etapa inicial, o investimento será de 13,48 milhões de dólares, dos quais o Brasil entra com 3,67 milhões de dólares. Em sua última etapa, o programa vai desenvolver um plano diretor agrícola para a região. Será possível identificar as áreas com maior vocação para a agricultura familiar e aquelas com potencial para o agronegócio de grande escala, entre outras diretrizes técnicas e econômicas. “Um dos maiores exportadores de banana do mundo, a americana Chiquita, recebeu uma concessão de 2 mil hectares dentro da área do projeto”, relata Alberto Santana, o coordenador brasileiro do ProSavana. “Um agricultor que quiser uma área em concessão não terá problema. Há muita terra para produzir.”


Do outro lado da África, a 6 mil quilômetros das savanas moçambicanas, o pesquisador José Geraldo Di Stefano, também da Embrapa, ocupa-se de um cultivo crucial para a sobrevivência dos pequenos agricultores de quatro países da África subsaariana — o algodão. Di Stefano vive há pouco mais de um ano no Mali, um dos sete maiores países do continente africano, mas, mesmo assim, um dos mais pobres do mundo. O projeto que levou Di Stefano  à África, da mesma forma que o ProSavana, tem o apoio da ABC e é executado pela Embrapa (sem a contraparte japonesa). Batizado de Cotton 4 (Algodão 4), seu propósito é  aumentar a produtividade e a qualidade da produção dos quatro países que participam do projeto: além do Mali, os vizinhos Chade, Benin e Burkina Faso (conhecidos, no jargão da Organização Mundial do Comércio, como o grupo Cotton 4 ou C-4, por sua dependência econômica do algodão).


Pelo telefone celular, em ligação precária e entrecortada, Di Stefano disse à PIB que dez variedades de algodão da Embrapa já foram testadas e comparadas com cultivares locais. As instituições de pesquisa da própria região estão agora verificando quais são mais aptas para a produção nas condições africanas. “Tudo isso é muito novo” explica ele. “Começamos agora.” O núcleo das atividades do programa é a Estação Experimental do Centro de Pesquisa Agrícola de Sotuba, em Bamako, a capital do Mali. Lá, são testadas variedades de algodão e feitas as avaliações de solos.


A Embrapa ainda oferece cursos para pesquisadores dos países do C-4 sobre o melhoramento genético da planta — passo indispensável para que os agricultores desses países, que têm no algodão sua principal fonte de renda, consigam competir em melhores condições no mercado mundial. O Brasil tem a tecnologia para isso e interesses comuns com os quatro países: há dois anos, ganhou na OMC uma ação contra os subsídios oferecidos pelo governo dos Estados Unidos aos seus produtores, que despejam no mercado mundial algodão a preços deprimidos e prejudicam os agricultores africanos e brasileiros.


Foi assim que Di Stefano foi parar em Bamako, onde deve ficar até 2012, vendo a família no máximo dois meses por ano. Na difícil ligação por celular, ele conta que estava na estação experimental, verificando a câmara fria, a sala de beneficiamento de sementes e o laboratório de criação de elementos naturais contra pragas.  Di Stefano conta que os pesquisadores acabaram de iniciar a adubação dos cultivos usando um equipamento que reflete bem a criatividade de quem tem poucos recursos e precisa encontrar soluções de baixo custo, mas eficientes. Garrafas plásticas de refrigerantes com o fundo cortado e um cabo de madeira adaptado tornam-se uma espécie de funil para distribuir os adubos e as sementes no solo. “Elas homogeneizam a distribuição e, melhor ainda, diminuem o cansaço das pessoas”, diz.


O projeto tem uma postura de “troca de saberes”, diz ele, o que pressupõe o respeito pelo conhecimento local acumulado pelos agricultores africanos há muitos anos. “Queremos melhorar a base genética do algodão, não é uma substituição de modelo”, afirma. “Usamos o que existe aqui: o trabalho da Embrapa avança passo a passo, para não expô-los a uma mudança drástica.” 





 



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