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Da Suíça à Faria Lima

Atraídos pelas perspectivas de crescimento da economia, bancos e corretoras internacionais reforçam operações no Brasil

SUZANA CAMARGO
Torres da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo

O que pensam os jovens que serão os futuros investidores globais e clientes de grandes bancos de investimentos? Ao se fazer essa pergunta, o Credit Suisse, uma das mais tradicionais instituições bancárias da Suíça, escolheu para respondê-la, por meio de uma pesquisa feita no ano passado, jovens dos Estados Unidos, da Suíça e do Brasil, numa demonstração da importância estratégica que seus dirigentes atribuem à economia brasileira no futuro próximo. E não e            stão sozinhos: outros grandes bancos de investimentos internacionais e corretoras de ações também estão olhando para o Brasil como um dos  mercados com maior potencial de crescimento em um mundo que tenta deixar para trás a crise financeira de 2008/2009.


Como outros mercados emergentes, o país, visto de fora, está na contramão dos problemas de superendividamento e estagnação econômica vividos pelas regiões que costumavam “puxar” o crescimento global até o começo do século 21 – Estados Unidos e Europa à frente. Essa nova mirada se traduz numa onda de expansão das operações e das equipes brasileiras dessas instituições, de maneira a prepará-las para o papel mais central que devem desempenhar agora. “O volume de entrada de capital de investimento direto no Brasil vai aumentar”, afirma Eduardo Centola, diretor executivo no país do UBS Investment Banking, o braço de investimentos de outro grande banco suíço. “E vai aumentar muito.”


    O UBS definiu uma estratégia de expansão mundial muito clara para os próximos cinco anos. “As regiões prioritárias são Brasil e China”, define Centola. “Esses dois países apresentam crescimento e áreas de negócios muito interessantes.” Do mesmo otimismo compartilha Louis Bazire, o presidente de outro banco global instalado aqui, o francês BNP Paribas Brasil. “Hoje em dia, todo mundo compra a história do Brasil”, diz ele. “Meu CEO em Paris tem confiança no país; temos potencial.”


A onda positiva explica a iniciativa do Credit Suisse de incluir os jovens brasileiros em sua pesquisa, feita para avaliar a perspectiva dos adolescentes sobre temas atuais e sua visão do futuro. Durante anos, o banco analisava apenas a opinião de suíços adultos. Em 2010, entendeu que precisava ampliar os próprios horizontes, reconhecendo a entrada no palco mundial dos grandes países emergentes, e começou querendo saber mais sobre o que pensam os jovens entre 16 e 25 anos que vivem no Brasil, além de americanos e suíços (leia mais sobre a pesquisa na pág. 40). A iniciativa do banco foi estratégica; afinal, os jovens de hoje são os futuros investidores e clientes. A escolha do Brasil se justifica pelo espaço que o país vem ganhando nas operações globais do banco, assim como a Índia, que deve ser incluída nas próximas edições do Youth Barometer (Barômetro da Juventude, o nome da pesquisa).


Também chama a atenção dos bancos globais o número crescente de bilionários no Brasil, o maior da América Latina, segundo a revista americana Forbes, que faz essa contabilidade anualmente. O Brasil ganhou 12 novos nomes na lista deste ano da revista, atingindo um total de 30. Entre eles, o empresário Eike Batista (Grupo EBX), bem no alto, em oitavo lugar, e outros nomes, como Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles (Inbev), Abilio Diniz (Grupo Pão de Açúcar) e Antonio Luiz Seabra (Natura). Para a publicação, esse crescimento se deve principalmente ao poder do real diante de outras moedas. O número de grandes fortunas segue crescendo, segundo Sérgio Kimio, responsável pela área de wealth management (administração de fortunas) do UBS. “É um mercado interessantíssimo para o UBS”, afirma ele. O Brasil, segundo o executivo, é um dos poucos países onde essas fortunas se concentram na mão de famílias e indivíduos, diferentemente de outros lugares, onde os patrimônios são mais pulverizados.


Segundo maior gestor de patrimônios do mundo, o UBS chegou ao Brasil em 1953, quando ainda era a Swiss Bank Corporation e não tinha se unido ao Union Bank of Switzerland. Passou por uma fase conturbada quando, em 2006, fez a compra do Pactual do banqueiro André Esteves (ele próprio também um dos bilionários da Forbes). Logo depois, em plena crise mundial de 2008, decidiu vender o braço brasileiro no mesmo momento em que se desfazia de ativos em várias partes do mundo. A decisão foi considerada precipitada por analistas do setor. No início de 2010, o UBS anunciou seu retorno ao país com a aquisição da Link Investimentos, a maior corretora independente do Brasil. Ainda no ano passado, relançou o serviço de gestão de fortunas no país. Na época, o banco afirmou que “só investia em países onde vislumbrava estar entre os cinco maiores players”. Em setembro, a matriz do banco suíço foi pega de surpresa pela descoberta de uma operação fraudulenta que causou grande prejuízo. O custo da fraude passou de 2 bilhões de dólares e o responsável, um operador do UBS, foi preso em Londres. O escândalo foi considerado um dos maiores da história financeira da Suíça.


No Brasil, para atender à crescente demanda de clientes e investidores, o UBS está investindo na aquisição de uma nova sede na Avenida Faria Lima, em São Paulo, uma espécie de Park Avenue paulistana onde se concentram os grandes bancos. Além disso, reforça o time no país. “Estamos contratando novos heads de negócios, e posteriormente suas equipes”, revela Cláudia Perrone, diretora de recursos humanos. Esses novos profissionais devem trabalhar nas áreas de serviços da filial brasileira que mais cresceram nos últimos anos: abertura de capital na bolsa, investimento direto (não somente de fundos) brasileiro no exterior e oferta de investimentos para grandes investidores. “O UBS quer ser o intermediador, estruturador e assessor dessas operações internacionais de fluxos de dinheiro no Brasil”, afirma Centola. Outro tipo de operação que tem aumentado são as transações crossborders (transfronteiriças). Para o diretor de Investment Banking do UBS, as instituições financeiras internacionais são as que têm mais conhecimento e experiência para realizar essas transações. E dá um exemplo do que está por vir. “O volume de investimentos diretos da China aqui em 2010 foi de 11 bilhões de dólares (quase duas vezes o dos Estados Unidos), e em 2011 esse número deve dobrar”, projeta ele.


Com uma trajetória mais linear no país, o BNP Paribas Brasil é a sede do banco francês na América Latina. Representa, hoje, de 2% a 3% das operações globais da instituição, mas tem mostrado crescimento contínuo nos últimos anos. “Todas as áreas de negócio estão crescendo no Brasil, é um crescimento orgânico”, diz Louis Bazire. “Temos reforçado nosso time, crescido nos rankings de emissão de bônus, progredido em financiamentos e projetos de exportação, realizado grandes transações crossborders.” O braço brasileiro registrou crescimento de 14% na administração de recursos de terceiros em 2010, tem 32 bilhões de reais sob gestão no Brasil, está entre as dez maiores gestoras de fundos de pensão e fundos offshore (março 2011) e tem uma área de asset management com 40 bilhões de dólares.


Os banqueiros coincidem em registrar que nunca antes se tinham visto tantos grandes negócios ser feitos no Brasil. “No meu mercado de investment banking, a sofisticação, o volume e o tamanho das operações lá fora eram sempre múltiplos de vezes maiores que no Brasil”, lembra Centola, do UBS. “De repente, isso se inverteu, e você começou a ver transações aqui mais interessantes e mais inovadoras que no exterior; a velocidade dos negócios hoje aqui é muito grande.” Ele tem como fazer a comparação. Voltou há quatro anos para o mercado brasileiro, depois de ter ocupado o cargo de vice-presidente do Goldman Sachs, em Nova York. Tanto Centola como Bazire são brasileiros que retornaram depois de acumular experiência internacional. O dirigente do UBS no Brasil trabalhou durante 16 anos no mercado financeiro em Nova York. Já Bazire, filho de pai francês e mãe americana, nasceu no Rio de Janeiro, deixou a cidade aos 12 anos, mas sempre foi visto como um carioca. Fez carreira no BNP, trabalhando no México, na França, na Espanha e na Bélgica. Antes de chefiar o banco em São Paulo, presidiu, durante quatro anos, o BNP Paribas na Suíça.


Assim como o UBS, o BNP Paribas não tem intenção de competir com os bancos de varejo no mercado brasileiro. Esses bancos internacionais querem uma fatia das transações vultosas que estão atraindo investidores estrangeiros e também brasileiros. Há um ano, o BNP lançou o serviço de institutional custody (custódia de títulos para investidores institucionais, com oferta offshore), criado para suprir a demanda dos clientes europeus e americanos no Brasil. Além desses serviços e produtos diretos, o grupo está investindo aqui na abertura e no crescimento de empresas subsidiárias, como a Arval (gerenciadora de frotas de veículos), a Cetelem BGN (especializada em crédito ao consumidor) e a Cardiff Seguradora. “Já temos 8 milhões de segurados ativos no Brasil”, afirma Bazire. “A Cardiff se beneficiou muito com o fortalecimento de compra da classe C, já que, entre outros produtos, trabalha com garantia estendida.”


O apetite pelo mercado brasileiro se revela também em uniões e aquisições de instituições brasileiras. Já em 1998, o Credit Suisse comprou o banco brasileiro Garantia. Em 2007, a instituição suíça mostrou que queria ocupar uma posição ainda maior no país ao se associar à Hedging-Griffo, líder no mercado brasileiro de administração de recursos de terceiros e private banking, num negócio de 635 milhões de reais. Como acionista majoritário, o Credit Suisse ganhou uma carteira de clientes nacionais de altíssima renda. Agora o mercado financeiro espera a finalização da operação. A compra do restante das ações da Credit Suisse Hedging-Griffo já foi anunciada ao mercado e provisionada no balanço. A integração acontece a partir de janeiro de 2012. No mercado financeiro, circulam estimativas do valor aproximado do negócio – em torno de 1,25 bilhão de reais.


Mas nem só de europeus se faz o crescimento do mercado bancário brasileiro. De origem norte-americana, só há poucos anos o Goldman Sachs, lendária instituição nova-iorquina, montou uma estrutura mais sólida no Brasil. A área de asset management, que trabalha com gestão de ativos de renda fixa, ações e multimercados para investidores locais, começou a atender clientes em 2008. A corretora entrou em atividade no ano passado. Nesse pouco tempo, entretanto, o banco já sentiu a necessidade de aumentar o número de funcionários. De lá para cá, o headcount subiu de 200 para 300 pessoas. Segundo o próprio Goldman, a instituição registrou, em 2010, o maior crescimento dentre bancos de médio porte no Brasil, pelo critério de depósitos totais – 331,7% – e ficou em segunda posição no ranking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) de fusões e aquisições no primeiro semestre de 2011.


O fortalecimento, no Brasil, desses nomes de proa entre bancos de investimento e corretoras internacionais acirra a disputa pelo mercado interno. Outras instituições estreladas concorrem nesse nicho do mercado financeiro – JPMorgan, Société Générale, Morgan Stanley e Merrill Lynch/Bank of America, só para citar algumas. E logo a lista deve aumentar. Atualmente, há no Banco Central 20 pedidos de licença de instituições financeiras que esperam autorização para atuar no mercado brasileiro. Dados da Anbima mostram que só o setor de private banking possuía, até junho de 2011, quase 413 bilhões de reais sob gestão no país, um crescimento de 28% em relação aos últimos 12 meses. Desse total, 202 bilhões de reais estão investidos em títulos e valores mobiliários, e quase 187 bilhões de reais em diversos tipos de fundos.


Da mesma forma que no UBS e no BNP Paribas, os executivos que estão no comando desses bancos são, na maioria, brasileiros – muitos deles, como Bazire e Centola, estavam trabalhando em outros países e quiseram voltar. Foi-se o tempo em que profissionais estrangeiros eram considerados mais experientes. “O mercado brasileiro é desafiador e interessante e para ser um banco global é necessário ser local”, define Centola. Mas ser local no Brasil ainda quer dizer conviver com as incertezas de uma economia em transformação. Uma das grandes inquietações do momento é avaliar até que ponto o Brasil e outros emergentes sofrerão com a recaída da crise mundial que se prenuncia a partir dos problemas europeus e americanos.


“O Brasil não é uma ilha, deverá ser atingido, mas as commodities da cadeia alimentar dificilmente serão afetadas”, prevê Bazire. “Um certo refreamento na economia brasileira pode ser positivo para diminuir fluxos que não são bons”. Estima-se que até 2015, os BRICs originais (Brasil, Rússia, Índia e China – a África do Sul foi incluída mais recentemente no clube) devem ser responsáveis por um terço da economia mundial. Bazire acredita que o Brasil leva uma vantagem nessa corrida. Apesar de a China crescer a taxas maiores, é preciso olhar mais longe, diz ele. Tanto ela como outros BRICs ainda não atingiram a maturidade institucional e democrática do Brasil, fato esse que pode favorecer nossa economia a longo prazo.


Os investidores estrangeiros percebem isso, e têm escolhido como áreas mais atraentes as de infraestrutura, saúde (healthcare), agrícola, informática, automobilística e de tecnologia. “O Brasil foi percebido como um desenvolvedor de tecnologias”, aponta Centola. “Commodities também serão atraentes e lucrativas, sempre.” O executivo do UBS alerta, ainda, para outro motor de crescimento: o mercado interno brasileiro. “Há um mercado consumidor com potencial de compra e ávido por infraestrutura”, conclui ele.


 


 



 



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