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Filantropia de resultado

O grande talento desta brasileira em Londres: ensinar as ONGs a atuar como empresas eficientes, que rendem, em vez de lucro, impacto social de alta qualidade

Nely Caixeta
Daniela Barone Soares

A mineira Daniela Barone Soares, de 41 anos, estava indo muito bem e ganhando bastante dinheiro no mercado financeiro em Londres quando resolveu dar uma guinada e ir trabalhar com Organizações Não Governamentais. Mas sem perder o vínculo com as origens: emprega no novo ramo, com muito sucesso, as lições que aprendeu no MBA da Harvard Business School e em passagens por instituições como o Citi, no Brasil, Goldman Sachs e o BankBoston. Há cinco anos no comando da Impetus, uma ONG inglesa empenhada em melhorar a eficiência e os resultados de outras ONGs, Daniela quase triplicou os recursos que ela arrecada, quadruplicou o número de organizações que atende e fez dela uma referência. Em 2008, integrou a Happy List, do jornal Independent, das 100 pessoas que fazem da Inglaterra um lugar melhor para se viver. E ainda escreve poesia e corre maratona.


Você aplica na Impetus técnicas típicas do mundo dos negócios?


Eu gosto de negócios, penso como uma pessoa de negócios, e a Impetus é gerenciada assim. A gente tem métrica, governança. A diferença é que nosso resultado é social, e não financeiro. Meu jeito de gerenciar a Impetus é totalmente focado em resultados, em eficiência, em entregar o que foi planejado. Os profissionais que trabalham na Impetus encaram nossas ONGs desse ponto de vista, empregando técnicas de gerenciamento, de monitoramento, de aferição de impacto, tudo isso. São avaliações que tornam o trabaho mais focado. Orientamos as organizações para que depois caminhem sozinhas nessa direção. Dessa forma, elas vão ficando cada vez mais eficientes.


Como é feito o trabalho?


Nós fornecemos recursos e assessoria para a implantação de planos de negócios de outras ONGs. Não para construir escolas ou coisa parecida. É dinheiro e trabalho aplicados em projetos para a organização como um todo, para desenvolver sua capacitação, sua infraestrutura organizacional, para que ela se prepare para alcançar objetivos sociais muito maiores. Ajudamos as ONGs a elaborar um plano de negócio, geralmente com duração de três a cinco anos, e depois acompanhamos a implementação de seu projeto. Por exemplo, uma das ONGs apoiadas pela Impetus trabalhava com crianças carentes, de famílias com pouca escolaridade e sem incentivo para continuarem a estudar além do segundo grau. A atuação dela era no sentido de estimular a ida para a universidade como forma de mobilidade social. Era uma estrutura bem pequena. Nosso trabalho com esta ONG foi ampliar o projeto e replicá-lo em seis bairros dentro de Londres. Implementamos todos os seis projetos em três anos, beneficiando um total de 5,5 mil jovens. Agora estamos exatamente negociando sua disseminação para o país todo. É este o impacto social que nossa metodologia de planejamento produz.


São funcionários próprios ou voluntários?


Os dois. A Impetus tem uma equipe contratada que coordena o relacionamento com a ONG parceira do começo ao fim. E monitora também. Temos o que chamamos de “key performance indicators”, uma espécie de contabilidade do desempenho das nossas ONGs nos três setores em que trabalhamos com elas – financeiro, operacional e social. Investimos em 23 ONGs, sendo que seis já completaram o ciclo conosco e não estão mais ativas no portfólio. E também contamos com especialistas em diversas áreas que nós, vamos dizer assim, convencemos a trabalhar conosco, a doar o mesmo serviço com que ganham a vida em seus escritórios. São, atualmente, 150 profissionais cadastrados, que fazem um trabalho consistente com as ONGs que apoiamos, além de várias empresas com as quais temos uma espécie de contrato para que doem serviços de forma significativa. São todos voluntários, gente de todas as áreas – advogados, executivos de bancos, pessoal de recursos humanos, de recrutamento. Não vamos atrás de voluntários para fazer trabalhos manuais e braçais, porque destes existem milhares. O que queremos é usar nas ONGs a expertise da pessoa, o que ela faz no dia a dia, comercialmente, para ganhar dinheiro. É esse tipo de trabalho que ela vai desenvolver, de graça, na ONG.


Fale um pouco de sua trajetória. Como você chegou à Impetus?


Bom, eu morei no Brasil até os 25 anos. Saí para fazer MBA em Harvard e fiquei nos Estados Unidos, trabalhando no mercado financeiro. Minha atividade principal, nesse período, foi na área de private equity, investindo em empresas às quais se davam assessoria e financiamento para crescer e multiplicar seu valor. Quando isso acontecia, a empresa era vendida. O que eu faço na Impetus é bem parecido.


Você já atuava em ONGs?


Faço voluntariado desde os 12 anos. Sempre fui muito engajada, sempre quis fazer a diferença. À medida que fui fazendo trabalho voluntário, fui vendo que meu conhecimento de business estava ajudando muito as ONGs das quais participava.


E qual foi o caminho de Nova York para Londres?


A  empresa de private equity me transferiu para Londres, e eu continuei trabalhando nela por mais uns três anos. Queria mudar de área, mas não sabia como. Finalmente, saí do mercado financeiro e, algum tempo depois, fui contratada pela Save the Children, uma grande ONG internacional, onde fiquei até 2008. Lá, eu tocava quatro áreas bem gerenciais. Foi quando tive certeza de que realmente poderia aplicar todo o meu conhecimento de business, de planejamento, de estratégia, de análise, para ajudar uma ONG a ter real impacto social. Da Save the Children eu vim para a Impetus.


A Impetus, então, já existia?


Já. Ela fazia a mesma coisa que faz hoje, mas era muito pequena, com basicamente quatro pessoas trabalhando nela. Fui contratada para transformar a Impetus em uma organização capaz de se firmar sozinha. Hoje somos 20 funcionários e estamos tendo sucesso. Prova disso é que acabamos de ganhar uma licitação do governo para gerenciar um fundo de 125 milhões de libras durante 15 anos, destinado a melhorar o desempenho escolar dos alunos mais desfavorecidos e desprivilegiados, em todos os sentidos, no sistema educacional.


Você acompanha a situação das ONGs no Brasil?


Muito de longe.


Como você deve saber, têm surgido casos de desvio de recursos públicos administrados por essas organizações, o que afeta a confiança no setor. 


Pois é. O grande problema no Brasil é que não existe um órgão que tenha credibilidade para garantir: “Esta ONG é legítima”. E como tem muita gente que usa a estrutura de ONG para fazer falcatrua, todas acabam pintadas com o mesmo pincel. Ninguém confia nas ONGs, e isso é péssimo para um país como o Brasil, que não tem tradição de doação. Vira outra desculpa para ninguém doar. Deveria existir um órgão sério que vetasse as picaretas e atestasse quando a ONG fosse legítima e atendesse a seus propósitos. Na Inglaterra tem a Charity Comission que, bem ou mal, regulamenta o setor – 99% das organizações registradas nela são ONGs de verdade. Outro problema, que acontece, tanto no Brasil quanto aqui, é a proliferação de ONGs. Há 170 mil ONGs na Inglaterra. É um absurdo. Fui muito criticada quando disse, em uma entrevista, que nem toda ONG merece sobreviver. Acredito nisso piamente. A primeira coisa que quem começa uma ONG tem de descobrir é quem mais está fazendo isso e se ela é mesmo necessária.


Senão vira um punhado de gente duplicando, triplicando o mesmo esforço.


Exatamente. Acho que um dos papéis do órgão regulador deveria ser limitar a criação de ONGs. Qualquer um pode abrir uma ONG. Se eu disser que quero começar uma, a Charity Commission vai checar o motivo, quanto eu tenho, o que eu quero fazer. Verifica estatutos sobre o uso do dinheiro, inspeciona, fiscaliza. Isso dá legitimidade. Mas não há quem diga a quem decide abrir uma ONG para ajudar os sem-teto: “Já existem 100 dessas. Por que abrir a centésima primeira?” Também aí se aplica a lei do mercado.


Como assim?


É só comparar. Por que não existem infinitos números de cervejarias, por exemplo? Porque ninguém vai conseguir competir com as mais eficientes em marketing, preço e tudo mais. Existe certa regulamentação de mercado “natural” (entre aspas, porque não tem nada de natural) que falta ao setor social. Nada impede alguém de começar uma ONG e arrecadar um pouquinho de dinheiro, e continuar tocando aquela ONG com um pouquinho de dinheiro. Fica esse monte de coisinhas acontecendo, mas sem eficiência, sem impacto de verdade.


Existe alguma maneira de avaliar o impacto social de uma ONG?


Infelizmente, não chegamos ainda a uma metodologia que valha para todas. É muito difícil avaliar critérios na área social. Seria ótimo se existisse uma metodologia de avaliação do impacto social de uma forma mais uniforme, algo que nos permitisse comparar as organizações para decidir onde colocar dinheiro. Isso já faria naturalmente uma seleção, evitando a disseminação indiscriminada.  


Você já foi convidada a fazer alguma coisa no Brasil?


Já fui chamada várias vezes, mas não pude aceitar. Os convites foram ou para integrar alguma coisa que já estava funcionando, e que não achei interessante, ou para começar uma Impetus no Brasil. Sempre falei que tenho o maior interesse em apoiar alguém no Brasil que está começando, mas eu, pessoalmente, não começaria do zero de novo de jeito nenhum. É muito trabalho! Só agora consegui, aqui na Impetus, ter uma equipe, poder delegar funções. Não quero perder isso. Quero ir daí para cima.


Você tem dupla cidadania. Por que optou pela  inglesa?


Ah, porque fica tudo mais fácil. Eu moro aqui. Mas fiz questão de ter certeza de que não ia perder a minha cidadania brasileira. Isso eu não queria jeito nenhum. Mas eu moro aqui e quero votar, quero ter os meus direitos de cidadã.


E você acha tempo para sua vida particular?


Incrivelmente, agora acho. É meio na marra, mas acho. Tive um almoço com os donos da Impetus para comemorar meus cinco anos na organização e falei: “Agora quero ter vida própria”. Porque no começo era uma dedicação quase que exclusiva. Eu brincava com meu pai: “Trabalho como investidor no mercado financeiro e ganho salário de ONG”.


Como foi correr a maratona de Atenas, no ano passado? Você conseguiu fazer todos os 40 quilômetros?


Quarenta não – quarenta e dois quilômetros e duzentos metros. Foi para comemorar os 2.500 anos da primeira maratona. Era uma iniciativa grande, de 250 corredores, para arrecadar 2,5 milhões de euros para várias ONGs. Foi isso o que me fez participar, mas na hora que vi o percurso... Atenas é uma loucura! Quando me inscrevi, não tinha noção. Cheio de morros, temperatura a 30 graus... Foi pesado, mas valeu a pena. Eu estava com a cabeça boa. Correr uma maratona é 99%  cabeça. O corpo tem de ser treinado, claro, mas se a cabeça não funcionar... Porque dói tudo!


Você é uma chefe exigente?


Muito. Os meus funcionários sofrem. Mas eu sempre digo: sofrem porque contrato gente que é melhor que eu.





 



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