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Remessa porta a porta

Pequenas e médias empresas usam serviços expressos de couriers para desburocratizar exportações

ANTÔNIO CARLOS SANTOMAURO
Pacotes passam por scanner na Fedex: exportação expressa

Em março último, a indústria cearense de pedras decorativas Frontera contratou a retirada, na cidade de Fortaleza, de 400 quilos de seus produtos: pagou aproximadamente 4 mil reais e, em dez dias, a mercadoria estava na cidade chinesa de Xiamen, onde seria exposta em uma feira programada para dali a três dias. Quase ao mesmo tempo, pagou 2,5 mil reais pelo envio de outros 200 quilos de suas pedras para Las Vegas, nos Estados Unidos.


As duas remessas foram feitas pela empresa de logística alemã DHL, um dos nomes de um mercado hoje em acelerada expansão, beneficiado pelo aprofundamento da globalização e pela entrada em cena de novos canais de venda, como o comércio eletrônico. Trata-se dos serviços de entrega de encomendas de volume e valor relativamente pequeno (para os padrões do comércio exterior, 400 quilos de pedras são pouco mais do que uma amostra). Nele, consolidaram-se multinacionais presentes em mais de 200 países, como a própria DHL e as americanas FedEx e UPS, entre outras. Todas têm presença no Brasil, onde enfrentam a concorrência dos Correios, que também oferecem serviços de exportação facilitada (a DHL integra o conglomerado Deutsche Post, surgido da privatização do serviço postal alemão).


Esse tipo de serviço desempenha papel importante para o desenvolvimento da economia globalizada: embora atenda, também, grandes corporações, que por meio dele enviam amostras para distribuidores, lojistas e eventos, a remessa de pequenas encomendas é fundamental para a inserção de empresas de menor porte no mercado internacional. O benefício não decorre apenas da conveniência de contar com um sistema ágil de entregas globais, que marca a hora para retirar a mercadoria na porta do remetente e a entrega na porta do destinatário. O serviço vai além disso; pode funcionar como uma espécie de fiador informal para a empresa exportadora, muitas vezes desconhecida no mercado comprador. Ao ter suas mercadorias entregues por empresas que são referência em todo o mundo, o pequeno exportador acaba pegando carona na confiabilidade dessas marcas diante do importador, observa Paulo Alvim, gerente de acessos a mercados e serviços financeiros do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Esses serviços removeram um gargalo para quem não tem condições de manter estrutura própria de distribuição internacional”, diz ele.


Valem-se dessa possibilidade empresas como a paulista Araretama, que remete essências e cosméticos de sua sede, na estância climática de Cunha, na Serra da Bocaina, via Correios - e eventualmente UPS - para países como a República Tcheca, a Inglaterra, a Alemanha e a Áustria. “Para encomendas pequenas, essa forma de envio tem burocracia menor e custo que vale a pena”, avalia Daisy Braun, gerente administrativa e comercial da Araretama. Também trabalha com serviços de logística expressa a marca de moda de praia ViX, cuja trajetória é singular: foi criada em San Diego, na Califórnia, no fim dos anos 1990, pela designer capixaba Paula Hermanny, para difundir nos Estados Unidos a moda de praia brasileira, e começou a vender seus produtos no Brasil em 2006, quando abriu uma fábrica própria em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro — ViX, a propósito, é a abreviatura, no jargão internacional da aviação, do aeroporto de Vitória, a capital do Espírito Santo e cidade natal de Paula.


De um começo modesto, a ViX tornou-se conhecida nos Estados Unidos ao passar a fornecer biquínis para a cadeia de lojas Victoria’s Secret e aparecer na imprensa modelando (e revelando) o corpo de cantoras, atrizes e modelos, como Beyoncé, Cameron Diaz, Sarah Jessica Parker e Kate Moss. Da fábrica brasileira, em Nova Friburgo, a produção da ViX - excetuando-se os 30% destinados ao mercado brasileiro - segue para um centro de distribuição em San Diego, de onde alcança o território norte-americano e outros países por meio da UPS ou do serviço postal local. “Serviços de Correios e remessa expressa podem constituir hoje uma alternativa interessante de exportação de produtos mais segmentados”, destaca Bernardo Hermanny, irmão de Paula e diretor industrial da ViX, que comanda a operação da fábrica em Nova Friburgo.  


 


Pequenas, porém relevantes


O trânsito internacional das mercadorias transportadas pelas empresas de entregas expressas beneficia-se de acordos internacionais para liberação alfandegária também expressa. Para a maioria dos produtos, remessas com valores inferiores a determinados limites (no Brasil, 5 mil dólares para exportação e 3 mil dólares para importação) enquadram-se nessa categoria. Caso seja necessário resolver algum problema para a liberação, as multinacionais desse setor oferecem serviços de despachantes, um sinal de como as prestadoras do serviço cuidam hoje atentamente do segmento das pequenas e médias empresas. A FedEx, por exemplo, mantém para esse universo empresarial o serviço PymEX, no qual oferece até ações de capacitação para exportação, na forma de consultorias e seminários educativos sobre comércio exterior, além de descontos nos custos de fretes e serviços. “Os grandes clientes globais ainda respondem pela maior parte de nossos negócios, mas o potencial maior de expansão está no segmento das pequenas e médias”, observa Claudio Fonseca, gerente sênior de operações da FedEx Mercosul. No Brasil, as mercadorias recebidas pela FedEx - com exceção daquelas destinadas a Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Peru e Bolívia - são embarcadas no aeroporto de Viracopos, em Campinas, de onde seguem para um centro de distribuição no aeroporto de Memphis, nos Estados Unidos. Segundo Fonseca, só na FedEx o movimento desses serviços no primeiro trimestre deste ano cresceu 11% em relação a 2010.


Na DHL, considerando-se apenas as remessas enviadas para países da América Latina, as exportações originárias do Brasil crescem em ritmo médio anual de 10%, conta Juliana Vasconcelos, diretora de marketing da DHL Express para o Brasil. “As pequenas e médias empresas representam 65% dos clientes de nossos serviços, e movimentam conosco cerca de 15 milhões de dólares anuais”, detalha Juliana. Um desses clientes é a Frontera, que embora exporte suas grandes encomendas usando contêineres convencionais, recorre à remessa expressa quando precisa de maior agilidade; por exemplo, para enviar material de exibição a feiras internacionais, vitrine indispensável para uma empresa que no ano passado obteve no mercado externo cerca de 90% de um faturamento total de aproximadamente 2 milhões de reais. Este ano, a Frontera participará de outras três feiras - no México, na Itália e na Espanha - às quais enviará suas amostras pelo mesmo prestador de serviço. A empresa usará também ações de marketing internacional individualizado oferecidas pela DHL: “Pretendo enviar amostras de nossas pedras com carta de agradecimento a quem nos visita nas feiras”, diz Alexandre Pedron, sócio-diretor da Frontera. “Só na China, foram mais de 400 visitantes.”


Atendimento diversificado


Presente no mercado das entregas expressas por meio de parcerias com seus equivalentes de outros países, os Correios registraram, em 2010, um  crescimento de 8,4% em relação ao ano anterior nas remessas realizadas por meio do serviço internacional Exporta Fácil. As exportações chegaram a 119 destinos, principalmente Estados Unidos, Hong Kong, Japão e Argentina. Sem presença direta em outros países, os Correios não oferecem alguns serviços presentes na carteira das multinacionais (por exemplo, os despachantes aduaneiros). “Mas estamos estudando a possibilidade de deixar o imposto que deve ser pago pelo destinatário quitado já pelo remetente”, conta Daniel Santos, analista de negócios internacionais.


No ano passado, insumos destinados à indústria farmacêutica foram itens importantes no conjunto de mercadorias enviadas para o exterior via Exporta Fácil, bastante utilizado também pelos mercados da joalheria e da indústria ótica, entre outros (veja quadro na pág. 65). Para Juliana, da DHL, setores que demandam logística específica ou mesmo customizada - como a indústria química e a de tecnologia de ponta - recorrem hoje, em larga escala, à entrega expressa, particularmente apropriada para os fornecedores de produtos mais caros, leves e pouco volumosos. Ela também nota crescimento no segmento do e-commerce. Já Fonseca, da FedEX, aponta como clientes relevantes as indústrias de autopeças e calçados. Esta última, ele explica, trabalha hoje em nichos específicos do mercado para escapar da concorrência chinesa nos artigos mais comoditizados, e para atendê-los precisou ampliar a frequência e os destinos de seus embarques.


Também a UPS, embora atue nos vários ramos da logística, hoje realiza, na modalidade porta a porta, a grande maioria de seus serviços, conta Kátia Tavares, gerente de marketing da empresa no Brasil. Ela cita a indústria de pisos cerâmicos como usuária habitual, especialmente para envio de amostras da entrega expressa. Segundo Kátia, comparada a 2010, a média de exportações diárias pelo serviço de courier da UPS aumentou 10%, com um crescimento notável do uso por pequenas e médias empresas. Armas de fogo e dinheiro, ressalva a gerente da UPS, não podem ser transportadas por esses serviços; há restrições também ao envio de bebidas em grandes quantidades. Mas não faltam produtos curiosos na lista das exportações brasileiras que chegam ao destino via serviços expressos, como cantáridas — tipos de besouros que secretam um veneno usado na produção de medicamentos e substâncias supostamente afrodisíacas — e glândulas de origem animal aproveitadas na indústria farmacêutica.



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