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Faça da Revista PIB a sua home page Terça, 21 de Novembro de 2017

 

Arquitetura de camaleão

Há cinco anos em Ho Chi Minh, no Vietnã, o designer brasileiro Maurício Alves vê suas empresas de arquitetura e design crescer em ritmo acelerado

Andressa Rovani
Maurício na Saigon Paper Chair: apelo ecológico

Mais lembrado pelos brasileiros por ter expulsado as tropas americanas de seu território há 36 anos, o Vietnã vem chamando a atenção mundial pelo rápido desenvolvimento econômico. À sombra de seu rival histórico, a China, o país do Sudeste Asiático implantou uma economia de mercado de orientação socialista turbinada desde que os Estados Unidos, antigo inimigo, suspenderam, em 1994, o embargo econômico imposto após a derrota na guerra, e restabeleceram relações comerciais em 2000. Com boa parte de sua população jovem — apenas 5,5% dos 90 milhões vietnamitas têm mais de 65 anos —, o país deixou para trás a antiga divisão entre o Sul, apoiado pelos Estados Unidos, e o Norte, apoiado pela então União Soviética, e se tornou um ímã de prosperidade e otimismo.


Há seis anos, quando recebeu uma proposta para trabalhar nessa parte do mundo, o arquiteto paulista Maurício Alves, 38 anos, tinha o Vietnã como um destino improvável. Até custou a localizar no mapa a capital econômica do país, a cidade de Ho Chi Minh  — a antiga Saigon, ex-capital do Vietnã do Sul, que combatia o regime comunista ao Norte. Ainda assim, aceitou o convite. Então professor havia poucos meses do Raffles Design Institute, em Cingapura  — para onde tinha ido depois de responder a um anúncio de emprego publicado em um jornal de São Paulo  —, Maurício topou o desafio de coordenar a instalação de um departamento de design na primeira unidade da escola no Vietnã, em 2006.


Lá, encontrou terreno fértil para crescer. O país em franco êxodo rural, que começava a experimentar um boom imobiliário, logo se revelou o lugar certo para um arquiteto internacional cultivar a carreira. “Quando comecei a dar aula em inglês no país, percebi que o Vietnã iria crescer ainda mais”, conta. A exposição como professor e um mercado carente de talentos se juntaram para criar as primeiras demandas de trabalho, que permitiram formar um núcleo de profissionais centrados na própria escola. Com um time de outros professores e ex-alunos do instituto, Maurício teve mão de obra suficiente para aceitar os projetos que apareceram. A dedicação integral às aulas foi, aos poucos, dando lugar ao negócio. Dois anos depois de sua chegada, nasceu a Gema Arquitetura. Como no instituto, onde o corpo docente vinha de diversos países, a Gema cresceu multicultural. “No início, éramos eu e os vietnamitas”, lembra Maurício. Mas logo vieram uma australiana, que contribuiu para desenvolver a atividade de artes gráficas do atelier, e um franco-suíço, que ajudou a estruturar a gestão da empresa. “O que fazemos frequentemente é subcontratar profissionais e empresas estrangeiras para melhorarem áreas específicas da empresa”, explica o brasileiro. Agora, por exemplo, dois professores de inglês, um canadense e um americano, dão aulas aos funcionários, e um advogado inglês presta assessoria jurídica.


O povo do Vietnã traz de sua conturbada história uma lista de nações não gratas, mas não faz restrições a expatriados no dia  a dia. Pelo contrário, afirma Maurício: os vietnamitas acolhem muito bem quem vem de fora e são simpáticos com os brasileiros – na prática, essa simpatia se traduz principalmente em curiosidade, uma vez que o Brasil é tão pouco conhecido lá quanto o Vietnã por aqui. Com uma população de quase 6 milhões de pessoas em Ho Chi Minh e outros 2,6 milhões em Hanói, a capital política, e um crescimento econômico de 7,2% ao ano, o Vietnã não pode se dar ao luxo de descartar profissionais qualificados. Estrangeiros são bem recebidos, e a Gema não negou serviço. Reflexo disso é o perfil dos três primeiros clientes que passaram pelo escritório assim que abriu as portas. O primeiro deles foi uma indústria de móveis, que encomendou o desenvolvimento de uma linha de produtos residenciais para exportação. O segundo, uma loja de shopping, que buscava um decorador de interiores, e o terceiro, o proprietário de um apartamento que precisava de um arquiteto. Todos vietnamitas.


A esses se seguiram, ao longo de quatro anos, outros 37 projetos de arquitetura, design de interiores e desenvolvimento de produtos e marcas. Entre os clientes, restaurantes da moda, lojas, escolas, apartamentos e conjuntos residenciais de alto luxo. Hoje, cerca de 70% dos projetos são encomendados por clientes corporativos. A maioria dos clientes é vietnamita, mas a Gema também é requisitada por estrangeiros no país.


Instalado em um prédio centenário de arquitetura francesa, o estúdio termina por atender a uma demanda eclética própria de um país onde o mercado ainda é muito novo para suportar serviços especializados. Quando Valerie Gregori McKenzie, uma francesa que mora há 12 anos no Vietnã, procurou o trabalho de Maurício, foi clara: queria em sua futura loja de roupas, a Song, uma atmosfera que reproduzisse o filme "O Amante", filmado por Jean-Jacques Annaud com base no romance de Marguerite Duras. A paixão proibida de uma jovem francesa por um vietnamita de origem chinesa, nos anos 1930, deveria estar evidente na decoração, que ganhou ares de garçonière.


Das buscas pelo french style da Cochinchina colonial, Maurício pulou para o grafismo asiático. Contratado pela rede Sakae Sushi, de Cingapura, com 40 lojas pelo mundo, para formatar a primeira unidade no Vietnã, em 2008, o designer lançou mão da ideia dos mangás e das histórias em quadrinhos em estilo japonês, que rechearam as paredes do restaurante. “Acabamos nos tornando um camaleão, fazendo coisas muito diferentes”, constata o brasileiro.


Em paralelo, Maurício e sua equipe projetaram 255 residências do condomínio de luxo Casa Lavanda, na cidade litorânea de Mui Ne. Na área de 150 mil metros quadrados, com hotel e complexo de serviços, a Gema se encarrega do desenvolvimento arquitetônico e urbano, além de supervisionar a construção dos imóveis. Depois de projetar espaçosas casas de praia, o escritório trabalhou no design de interiores de um conjunto de 670 apartamentos voltados para a classe média de Saigon. “Fiquei muito contente por atingir um universo grande de pessoas e por poder tornar melhor a vida delas”, comenta Maurício, ao explicar que recomendou à construtora o redimensionamento da área interna dos imóveis. “Aqui há uma demanda muito grande por apartamentos, mas isso não quer dizer que eles são feitos pensando no design”, diz ele. “Foi preciso explicar que as janelas devem ter um tamanho confortável e a cozinha precisa de um espaço correto”, lembra.


O perfil do mercado imobiliário do Sudeste Asiático não difere muito do que é visto nas cidades brasileiras. Em geral, os novos apartamentos contam com tamanho entre 65 metros quadrados e 200 metros quadrados, a um custo médio que vai de 1.000 dólares a 4.000 dólares por metro quadrado. Mas, por lá, ao contrário daqui, as garagens dão lugar a estacionamentos para motos, que são presença avassaladora no país, e as áreas de lazer internas não mobilizam a atenção das construtoras.


 


Móveis por necessidade


Ao fazer projetos de interiores, a Gema esbarrava sempre no mesmo problema. Depois de pronto o projeto, o cliente enfrentava dificuldades com os fornecedores do mobiliário. Dessa necessidade – e da identificação de oportunidade – nasceu a Pepper Design, empresa de criação de produtos. “Quando criamos um projeto novo, acabamos fazendo também os móveis”, explica. “Entre fiscalizar a execução do trabalho e fazê-lo, preferimos montar um time paralelo e fundar a Pepper.”


Para Maurício, foi um retorno às origens. Apesar da formação como arquiteto pela Universidade Mackenzie, em 1997, sua carreira prévia no Brasil tinha sido moldada em experiências com desenho de mobiliário em empresas como Esfera e Etna, onde foi gerente de criação, e Artefacto, onde participou da coordenação das mostras de decoração. “Na Pepper, criei uma linha de produtos que unia tudo o que tinha desenvolvido ao longo dos meus 15 anos de trabalho”, resume ele. Entre as criações mais famosas está a Saigon Paper Chair, uma poltrona feita inteiramente de papel, com estrutura desmontável e dez tipos de design gráfico como acabamento. A leveza do produto e a facilidade no transporte, além do apelo ecológico, chamaram a atenção de uma distribuidora americana que negocia o direito de comercialização do produto nos Estados Unidos.


Juntas, Gema e Pepper somam hoje cerca de 30 funcionários e crescem a um ritmo acelerado de 30% ao ano. “É um momento único para o país, que ficou fechado por muitos anos depois da guerra”, define Maurício. “É um boom de desenvolvimento para todos os lados.” O grande desafio da empresa brasileira hoje é treinar e gerenciar a mão de obra local para a execução de projetos. “É um problema muito grande. Aqui, uma obra demora muito mais para ficar pronta do que em São Paulo. Por causa da guerra, o país tem uma geração que foi queimada, que não teve condições de receber uma educação adequada”, explica. A dificuldade exige novas soluções. Há técnicas que não podem ser utilizadas no país por falta de pessoal capacitado. É o caso, por exemplo, da estrutura do telhado de uma residência, que geralmente é feita de metal ou concreto, não de madeira, como no Brasil. É preciso, então, repensar e adaptar. Em contrapartida, há a criatividade local. Os andaimes, por exemplo, são feitos de bambu, mesmo para a construção de prédios. “Aprendemos com eles e eles aprendem com a gente.”


 


Planos de expansão


Inverter a mão e expandir o negócio para o Brasil é ainda uma possibilidade longínqua. Os próximos cinco anos, calcula Maurício, devem ser dedicados à expansão no próprio Vietnã. “Muita coisa mudou depois que eu deixei o Brasil”, diz ele. “Vejo-me aqui, estou comprometido com o meu time, com as pessoas que eu busquei para estar comigo.” Por isso, a expansão deve acontecer antes para a capital, Hanói, e o restante do país. “Vamos crescer pelo Vietnã. Temos feitos muitas cotações para Hanói e pensamos em abrir um escritório na cidade, que acaba de ganhar um novo plano diretor.” Depois, o sudoeste asiático entrará na mira, sobretudo o Camboja.


“Nesta região, tudo é muito perto”, explica Maurício. “Daqui a Phnom Penh (a capital do Camboja) é meia hora de voo. Para Bangcoc, na Tailândia, são 60 minutos.” O Brasil, por enquanto, pode esperar ações pontuais da empresa, a exemplo da consultoria técnica que a Gema prestou ao escritório da Singapore Airlines em Guarulhos, no ano passado. “O Brasil está muito competitivo”, justifica ele.


Com o crescimento da Gema, é cada vez mais fácil encontrar a arquitetura e o design brasileiros em Saigon. Só no primeiro semestre deste ano a empresa desenvolveu projetos para quatro restaurantes da cidade. Cada um deles guarda um pouco do Brasil, algo que já vem embutido em cada processo e cada projeto. “A Gema tem um estilo brasileiro de ser. É um poder de adaptação, de sincretismo, de aceitar o diferente”, explica Maurício. “Por isso, nesses quatro anos, acabamos nos tornando conhecidos por muita gente. Mas ainda temos muito para crescer, compartilhando nossa visão brasileira de futuro e progresso.”


 



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