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Do Atlântico ao Pacífico

Rodovia Interoceânica aproxima o Brasil do Peru e ajuda a atrair mais empresas brasileiras para o país vizinho

LILIAN PRIMI
A Rodovia Interoceânica sobe os Andes peruanos

A inauguração, em 2006, de uma ponte sobre o Rio Acre, na fronteira com o Peru, abriu os horizontes da pequena Assis Brasil, cidade acreana na floresta amazônica com pouco mais de 6 mil habitantes. “Agora almoço todo dia em Iñapari”, conta a professora Meire Dantas de Araujo, funcionária da prefeitura da cidade. “É um luxo.” Iñapari fica do lado peruano do rio e tem pouco mais de 4 mil habitantes, que ganharam energia elétrica 24 horas por dia e viram o movimento do comércio crescer desde a abertura da ponte. Segundo o Itamaraty, o posto de controle da Polícia Federal em Assis Brasil registrou, no ano passado, 50 mil travessias nos dois sentidos. Em 2006, tinham sido apenas 3 500.


Tudo vai mudar novamente com a inauguração, esperada para breve, de outra ponte − desta vez sobre o Rio Madre de Dios, na cidade peruana de Puerto Maldonado, pouco mais de 200 quilômetros adiante. A ponte Billinghurst, de estrutura metálica e porte elegante, é a peça que falta para completar a Estrada Interoceânica Sul, uma ligação rodoviária entre os oceanos Atlântico e Pacífico que atravessa o Brasil e o Peru. É um projeto de 30 anos que finalmente vai se realizar, uma vez encerrada a construção da etapa peruana da rodovia, com a participação de empresas brasileiras. A nova estrada parte de Iñapari, junto à fronteira, atravessa a densa floresta amazônica peruana, corta as montanhas andinas, subindo a quase 5 mil metros de altitude, e cruza um deserto de 500 quilômetros antes de baixar à costa do Pacífico e chegar aos portos de Ilo, San Juan e Matarani, 1,4 mil quilômetros depois. “Podemos conhecer todos os biomas da Terra nesta estrada. É um lindo passeio”, diz a professora de Assis Brasil.


A rodovia é uma das evidências das grandes transformações por que passa o Peru. Empresas brasileiras, que investiram ali mais de 7 bilhões de dólares, nos últimos cinco anos, ajudam a desenhar esse novo perfil do país (veja quadro na pág. 43). As empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão construíram três dos cinco trechos da etapa peruana da Interoceânica, além de outras duas estradas no interior do país. Odebrecht e Camargo Corrêa tocam ainda dois projetos de desvio do leito de rios por meio de túneis que atravessam os Andes. O objetivo é levar água a regiões áridas; a primeira em Olmos e a segunda em Piura, ambas ao norte de Lima. A Camargo Corrêa toca, também, a construção de um sistema de tratamento de água que irá abastecer a capital, Lima. Na área de mineração, siderurgia e petróleo, as multinacionais brasileiras Vale, Votorantim, Gerdau e Petrobras investem pesado. Mais recentemente, o setor de consumo e serviços, que já contava com operações estabelecidas da Ambev e da fabricante de cosméticos Natura, foi reforçado com a chegada da Totvs, da área de TI.


A razão de todo esse interesse está no renascimento que a economia peruana experimenta. Refeito do trauma da guerrilha do Sendero Luminoso, o Peru cresce a taxas superiores a 5% desde 2004. Em 2010, o PIB peruano avançou 8%. A expectativa é de que aumente mais 6,5% este ano. Sob a proteção de um marco regulatório amigável, impostos baixos – a carga tributária foi de 14,5% do PIB em 2010 – e um clima favorável aos negócios, o Peru divide hoje com o Brasil e a Colômbia as atenções dos investidores internacionais na América Latina. Em 2009, os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) no país cresceram 28,1%, o terceiro melhor desempenho no mundo, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). O estoque de IED no país chegou a 20,7 bilhões de dólares em 2010, mais de 1,3 bilhão de dólares a mais que no ano anterior. Segundo a agência da ONU, o Brasil seria o quinto maior investidor no país, com um total de 1,207 bilhão de dólares no ano passado, atrás de Espanha, Estados Unidos, África do Sul e Chile. A embaixada do Peru no Brasil trabalha com números bem maiores. O embaixador Ricardo Ghibellini garante que nos últimos dois anos a participação do Brasil dobrou, em razão, sobretudo, de investimentos feitos pela Vale e pelo grupo Votorantim. Se novas intenções de investimentos forem confirmadas, esse estoque deverá dar um salto. A petroquímica Braskem avalia, juntamente com a Petroperu e a Petrobras, as possibilidades de um projeto de produção integrada de eteno e polietileno a partir de gás natural - um negócio de 2 bilhões de dólares.


Em 32 anos de operação no Peru, a Odebrecht já investiu 30 bilhões de dólares no país, e pretende colocar mais 5 bilhões de dólares nos próximos anos. Desse total, 2 bilhões  de dólares destinam-se à construção de um gasoduto na região andina de Puno, às margens do grande Lago Titicaca. É o chamado Projeto Kuntur. “O Jorge Barata, nosso presidente, diz que é para contratar mais funcionários do que precisamos no momento e ir treinando, para aguentar o que vem por aí”, conta o diretor de investimentos da empresa, Eleuberto Antonio Matorelli. Num momento de commodities em alta nos mercados externos, os recursos naturais do Peru, abundantes e pouco explorados, despertam a cobiça dos investidores. Um


levantamento feito por Ariel Pares, subsecretário de Ações Estratégicas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, mostra que o país vizinho aproveita apenas 6% do seu potencial hidrelétrico. Este índice poderá crescer caso o acordo energético assinado no ano passado, para a construção de cinco usinas hidrelétricas, seja aprovado pelo Congresso peruano. O projeto, que deverá exigir aportes da ordem de 10 a 12 bilhões de dólares, é de responsabilidade da Eletrobras.


Ainda que alguns setores políticos mais nacionalistas manifestem preocupação com o peso que os investimentos brasileiros vêm ganhando na economia peruana, estes parecem encontrar no país um ambiente, em geral, favorável. As empresas brasileiras empregam majoritariamente trabalhadores locais; em média, 80% dos postos de trabalho diretos ou indiretos criados por elas são ocupados por funcionários peruanos. O professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUC-Peru) Alan Fairlie afirma que estes preferem os patrões brasileiros. “Na área dos minérios, por exemplo, aconteceram muitos conflitos entre trabalhadores peruanos e patrões mexicanos, chineses e norte-americanos, porém nenhum com os brasileiros”, conta ele.


A razão, segundo Fairlie, está nas condições de trabalho oferecidas pelas empresas brasileiras: elas seguem os padrões do Brasil, que, em geral, vão além do que exige a lei trabalhista peruana, muito flexibilizada pelo ex-presidente Alberto Fujimori (hoje preso por corrupção e crimes contra os direitos humanos). A Natura, por exemplo, oferece o mesmo pacote de benefícios dado aos brasileiros a seus 283 funcionários peruanos, que representam 99% do total da subsidiária. “Além disso, mantemos um programa social chamado Crer para Ver, de capacitação de professores”, conta o gerente-geral da empresa no Peru, Daniel Gonzaga. O programa já treinou 177 professores.


A Odebrecht é outra empresa que investe em capacitação. O assunto é parte da política de sustentabilidade da companhia, que faz diagnósticos socioeconômicos para identificar as potencialidades locais e apoiar programas de desenvolvimento. Em 2010, foram investidos mais de 3 milhões de dólares em programas sociais, que beneficiaram cerca de 25 mil peruanos. A economista Sandra Polónia Rios, presidente do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), detalha algumas razões da boa imagem das empresas brasileiras no país. “A maior parte das empresas opera em regiões afastadas dos grandes centros, onde está a maioria dos 36% da população que vive abaixo da linha de pobreza”, afirma. “Eles cobram das empresas o que o Estado não faz.”


Mais recentemente, os projetos de construção das hidrelétricas vêm encontrando resistência de parte da população local. Fairlie acredita que o novo presidente, Ollanta Humala, eleito em junho passado como candidato de uma coalizão de esquerda, apoiará a construção das usinas, porém com algumas modificações no projeto. Conflitos fazem parte do negócio, avalia o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Thomaz Zanotto. “Hoje não se toca um projeto de grande porte, como a construção de usinas hidrelétricas, sem negociar a questão ambiental”, afirma. “Isso vai acontecer e será enfrentado de forma responsável pelas empresas.”


Ligado ao populismo de esquerda e com um passado de posições extremas, Humala terá de mostrar trabalho cedo. A notícia de sua vitória provocou forte queda nas bolsas de ações do país, refletindo a desconfiança de setores do mercado. O embaixador Sergio Amaral, diretor do Centro de Estudos Americanos da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), no entanto, não acredita que as empresas brasileiras estejam correndo algum risco. “Ele deu sinais de que adotaria uma posição mais moderada e que se afastaria de (Hugo) Chávez, representante de um dos dois casos latino-americanos de vitória da esquerda”, afirma. O outro caso é o de Lula e Dilma Rousseff no Brasil. “Ele já pode comparar o resultado dos dois caminhos”, completa Amaral. “Certamente, tenderá à moderação.”


É nisso que acredita Marcos Stefanini, fundador e presidente da Stefanini IT Solutions, empresa brasileira de tecnologia de informação que abriu uma filial em Lima, em 2001. Stefanini diz que não se preocupou em avaliar o risco político do investimento no Peru porque tem uma visão de mais longo prazo. “Nem parei muito para elaborar”, confessou ele à PIB no dia seguinte à eleição. “Já passamos por outras eleições e estamos acostumados a mudanças.” Além do forte crescimento, o que levou a empresa a investir no Peru é o fato de o país ser sede das principais multinacionais com operações na região andina. A Stefanini tem hoje 32 contratos ativos no Peru, com empresas de médio e grande portes.


Trata-se de um exemplo da diversificação em curso nos investimentos externos diretos no país, inicialmente concentrados na exploração de minérios. “Vieram primeiro os fornecedores e, agora, com as estradas quase prontas, começam a surgir empresas de comércio, serviços e de hotelaria”, diz Fairlie, da PUC-Peru. O incremento das obras de infraestrutura e o crescimento econômico vêm reforçar essa tendência, que tem efeitos no Brasil. “Os países da América do Sul funcionam como porta de entrada para a internacionalização de empresas de médio porte brasileiras”, afirma Sandra Rios, do Cindes. “Estas não são muito afetadas por mudanças políticas e não despertam sensibilidade com relação a questões ambientais; são vistas como empresas que cumprem suas obrigações.” No fim de agosto, cerca de 40 empresários dos setores de máquinas e equipamentos, casa e construção, moda e saúde irão a Lima para prospectar novos negócios. Eles fazem parte da missão organizada pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Itamaraty e Apex-Brasil para promover rodadas de negócios na capital peruana, em Bogotá e Santiago do Chile.


Um exemplo é a Artecola, fabricante de adesivos que produz no Peru desde 2007. Com 67 anos de existência, a empresa gaúcha deu início à sua internacionalização pela Argentina, em 1997. Chegou ao Peru em 2003, com uma operação comercial e de distribuição. “O custo tornou-se proibitivo e, em 2007, decidimos comprar uma empresa local”, conta a diretora executiva para a América Latina, Lisiane Kunst Bohnen. O plano B seria encerrar as operações no país e no Chile também. “A sorte é que encontramos uma empresa com unidades nos dois países e também na Argentina, onde gostaríamos de ampliar a fábrica”, conta a diretora. Hoje a Artecola emprega 45 trabalhadores no Peru e é o terceiro maior player do mercado local. A Totvs, empresa de tecnologia da informação sediada em São Paulo, também foi para o Peru em busca das oportunidades geradas pelo crescimento. Escolheu a franquia como modelo de comercialização. “Abrimos a franquia há três meses”, conta o diretor executivo de operações internacionais da empresa, Cláudio Bessa. A Totvs cria softwares para a gestão empresarial. É a maior empresa do gênero na América Latina, com um faturamento de 1,6 bilhão de reais.


A Interoceânica Sul talvez não venha a exercer um impacto direto sobre algumas das empresas brasileiras com negócios no território peruano. Da mesma forma, há dúvidas sobre a viabilidade logística e econômica da rodovia para o escoamento de commodities, tanto brasileiras – pelo Pacífico – quanto, no sentido inverso, as peruanas, pelo Atlântico (veja quadro abaixo). Mas ela certamente abre novas possibilidades de integração para regiões até agora condenadas ao isolamento nos dois países. Da mesma forma que o Peru litorâneo vivia de costas para a região amazônica de Madre de Dios, escondida pelos Andes, o Brasil segue de costas para o Acre, um estado de difícil acesso até hoje.


“Não é simples tirar produtos do Acre para os mercados domésticos, mesmo nas regiões Norte e Nordeste”, diz o secretário executivo do Conselho Nacional da Zona de Processamento de Exportações (ZPE), Gustavo Saboia Fontenele e Silva. “A rota inclui trechos de cabotagem e percurso em áreas de grande pluviosidade, e a BR-364 ainda fica intransitável durante as chuvas.” Com a abertura da etapa peruana da Interoceânica, a região de Madre de Dios fica integrada ao resto do Peru, benefício estendido também ao vizinho Acre, que ganha um mercado para seus produtos – e quem sabe fornecedores mais competitivos que os brasileiros distantes.


As ZPEs estão sendo implantadas pelo Ministério da Indústria e Comércio do Brasil em várias partes do país. Uma delas fica na cidade de Senador Guiomard, a 40 quilômetros de Rio Branco. “A Interoceânica Sul será a porta de saída para os produtos fabricados nesta ZPE, obrigada por lei a exportar 80% de sua produção”, diz ele. O edital chamando os investidores interessados está aberto, e Fontenele e Silva espera que no máximo até o primeiro trimestre de 2012 já existam empresas instaladas no polo. “De acordo com a vocação local, deverão ser, principalmente, indústrias de processamento de látex, madeira e castanha do Brasil.”


A estrada poderá viabilizar, ainda, o escoamento da carne produzida no Acre pelos portos do Pacífico. Pequenas e médias empresas brasileiras começam a investir na região de Madre de Dios. Produtores de milho do Mato Grosso estão abastecendo as comunidades da selva peruana, e o Expresso Araçatuba, empresa de transportes de São Paulo, transporta para a região motores de motocicleta, o meio de transporte mais difundido nas pequenas cidades amazônicas. São sinais das mudanças que a estrada poderá promover na sua área de influência, talvez muito maior do que se imaginaria inicialmente. “Vai até o oeste da Amazônia brasileira, passa por Rondônia e Roraima e desce até o Mato Grosso”, diz Fontenele e Silva, o secretário das ZPEs. “Essas regiões estarão irreconhecíveis daqui a cinco anos.”



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