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Parceria para o Mundo

Embaixador diz que os EUA reconhecem o crescente papel global do Brasil e procuram abrir espaços para a atuação do país no mundo

Nely Caixeta
Embaixador Thomas Shannon

Para o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, está mais do que na hora de se estabelecer um novo paradigma de cooperação política entre o Brasil e os EUA. Na visão dele, a conjuntura internacional permite que os dois países deixem de lado, neste momento, uma visão de curto prazo, meramente “transacional”, e construam uma relação estratégica de longo prazo. “Temos de ver que tipo de relação queremos em dez, 20 ou 30 anos”, afirma Shannon, numa entrevista concedida em meio aos agitados preparativos para a recente visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Brasil — a primeira desde que foi eleito, em 2008. O embaixador acredita que Brasil e Estados Unidos têm a oportunidade de criar uma parceria importante não só para os dois países, e sim capaz de ter valor além das relações bilaterais. Shannon é peça importante nesse quebra-cabeça diplomático. Há um ano no posto e falando português fluente — já serviu no Brasil ao longo de sua carreira —, o ex-subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental tem se esforçado para que o governo norte-americano reconheça a nova posição do Brasil no mundo e o trate de igual para igual. Ele falou à PIB sobre os desafios de ambos os países para transformar o discurso em realidade.


Estamos vivendo momentos de manifestações no Oriente Médio, que já chegam à Arábia Saudita, grande parceiro dos EUA . O que pode resultar disso?


O que o mundo está experimentando no Oriente Médio é um momento de expressão popular em regimes em que, por muito tempo, o povo tinha pouca voz e pouco espaço. Não vou prever nada sobre países específicos. Mas a secretária Hillary Clinton, em um discurso no Cairo, falou recentemente sobre a necessidade de uma abertura política para se criar espaço para o povo. Obviamente esta é uma linha que os países daquela região têm de seguir.


A linha da abertura?


Sim. No Egito, são muitos anos de regime fechado e de um intento da sociedade de se expressar em diferentes momentos e diferentes canais ou mídias.


Em 1979, a queda do Xá do Irã despertou entusiasmo logo transformado em apreensão com o regime fundamentalista do aiatolá Khomeini. O senhor não receia os descaminhos que podem ocorrer no Oriente Médio?


Sempre existe essa possibilidade, mas não devemos ter medo do novo. Cada sociedade vai encontrar a sua maneira de estruturar ou canalizar esse novo “ator” da política nacional. Acho que democracias como a dos EUA e a do Brasil têm que respeitar outros países e atuar com cautela. Só que também temos de articular nossos valores de democracia e de direitos humanos.


Que perspectivas o senhor vê para as relações entre Brasil e Estados Unidos no quadro mundial pós-crise financeira?


A visita do presidente Obama é uma viagem de parceria para o século 21, uma oportunidade para o Brasil e para os EUA articularem uma visão de parceria não somente nas relações bilaterais, mas na maneira como as duas maiores democracias das Américas tendem a se lançar no mundo. Discutimos o papel que os dois países podem desempenhar no mundo para o benefício de nossos cidadãos, americanos e brasileiros, como também a ideia de que temos algo para oferecer em diferentes áreas.


Nessa nova relação do século 21, em que áreas os EUA e o Brasil podem fazer diferença?


São muitas as áreas. Os grandes desafios deste século, como segurança alimentar, segurança de energia, luta contra os crimes transnacionais, tráfico de drogas, destruição em massa e luta contra a pobreza e desigualdade, são lutas que precisam de combinação e coordenação entre países. Os EUA e o Brasil já deram os primeiros passos para construir uma parceria interessante. Temos que dar outros para aprofundá-la.


Os EUA, o Japão e o Brasil (com a Embrapa) são parceiros no projeto de desenvolvimento agrícola do corredor de Nacala, em Moçambique. O objetivo é incorporar uma nova área de produção de alimentos nas savanas, semelhante ao que ocorreu no Cerrado brasileiro. O que mais está na mesa?


Temos projetos interessantes nas áreas de biocombustíveis, de saúde pública, de governança democrática, na área agrícola e de segurança alimentar. Alguns estão mais desenvolvidos que outros. A convergência de nossas experiências e capacidades tem um valor especial para alguns países em desenvolvimento. Na luta contra o crime transnacional, o Brasil, hoje, reforça sua capacidade para combater o tráfico de drogas e de armas provenientes de vizinhos da América do Sul. O modelo de cooperação nessa luta está mudando. O Brasil, sobretudo com a Polícia Federal, pode ser um parceiro importante, trabalhando para aprimorar a capacidade técnica em países que precisam de ajuda para combater esse tipo de criminalidade.


No Brasil há o etanol de cana. Os EUA têm o etanol de milho. Em vez de a indústria de um se opor à do outro, não seria o caso de mostrarem ao mundo a opção comum por uma energia limpa?


É o que estamos fazendo. O entendimento sobre combustíveis tem essa visão de trabalhar em conjunto para construir um mercado global de biocombustíveis. E também para construir as regras, trocar experiências e ajudar outros países a estabelecerem sua própria indústria. Isso mostra o compromisso dos EUA e do Brasil com a energia renovável. Mas no futuro essa briga entre cana e milho será vista apenas como uma etapa no desenvolvimento de um biocombustível de terceira geração. Para ser realmente um produto mundial, não pode ser só de cana ou só de milho. São necessários recursos primários mais diversificados, e brasileiros e americanos trabalham para identificar outras matérias-primas. Esse é o futuro.


Outras tecnologias mais avançadas não poderão ser antecipadas?


O futuro da energia limpa renovável vai precisar de diferentes matrizes, sejam hidrelétrica, eólica, solar ou de biocombustíveis.


O Congresso americano parece não ter a mesma visão...


O Executivo e o Congresso estão trabalhando de maneira responsável para construir um consenso sobre o futuro da energia, de modo que podemos identificar uma política energética inteligente e duradoura.


Como o senhor avalia o governo da presidenta Dilma Rousseff em relação ao anterior?


Começamos bem, desde as conversas entre o presidente Obama e a presidente eleita, em Washington, até a visita da secretária Hillary Clinton para a posse e, ainda, a vinda agora do presidente. Há uma agenda muito ativa, com muitas oportunidades. Mas é importante lembrar que esse processo de transformação teve inicio nos oito anos do presidente Lula. Nossa ideia é consolidar o que logramos com essa relação, avançar e aprofundá-la no novo governo. Detectamos uma boa vontade e interesse brasileiros. O desafio dos dois países neste momento é transformar boa vontade em realidade de fato.


O que esperar do governo Obama em relação à pretensão brasileira em ter um assento no Conselho de Segurança da ONU?


A ambição do Brasil é legítima, e nós a respeitamos. Temos os mesmos valores políticos de democracia, de direitos humanos, de sociedade aberta, de ações de maneira pacífica. É preciso avançar em um debate dentro da ONU para identificar a maneira de promover essas renovações do Conselho de Segurança. Obviamente o Conselho precisa refletir as mudanças que ocorrem no mundo. Neste momento, ele é uma foto “Polaroid” do mundo antigo. Talvez precisemos de uma foto digital.


Quando o Brasil adota uma posição divergente da americana na política externa, isso ainda incomoda os EUA. Por exemplo, ficou a impressão de que o Brasil, quando divergiu da posição dos EUA no caso do Irã, teve um tratamento diferente daquele que a Alemanha e outros países europeus tiveram ao tomar posição contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque. Isso ocorre de fato ou seria um certo “complexo de inferioridade”?


Acho que esse “complexo de inferioridade” está simplesmente equivocado. Há fatos históricos, ou seja, desde o começo da República brasileira os EUA e o Brasil têm momentos importantes trabalhando conjuntamente no âmbito internacional, construindo as Nações Unidas, lutando conjuntamente na Segunda Guerra Mundial. Recentemente, foram os EUA que abriram as portas para o Brasil no G-20, para que tivesse um papel de liderança, e que atuaram dentro do Fundo Monetário Internacional para expandir seu papel ali. É  possível indicar vários momentos em que os EUA reconheceram o papel crescente do Brasil no mundo e atuaram para abrir espaço para o Brasil. A mudança climática seria um bom exemplo – a maneira que colaboramos em Copenhagen, a maneira que colaboramos em Cancún e o nosso próprio entendimento sobre mudança climática, tudo isso mostra um claro reconhecimento dos Estados Unidos sobre o Importante papel do Brasil.


Mesmo com eventuais diferenças de visão?


Há, é claro, diferenças entre os EUA e o Brasil, mas isso é natural entre nações. Nosso presidente e nossa secretária de Estado têm um bom entendimento das transformações que ocorrem aqui e no mundo e da importância de abrirmos um espaço para o Brasil. Há diferentes maneiras de ver a nossa relação. Algumas pessoas querem vê-la somente em termos transacionais. Em algumas circunstâncias isso tem valor, mas somos países de relações amigáveis, sem grandes choques ou conflitos, com uma conjuntura, agora, que nos permite ser menos transacionais, menos táticos, e mais estratégicos. Temos de ver que tipo de relação queremos em dez, 20 ou 30 anos. Devemos desenhar nossa diplomacia e nossa relação para lograr esse objetivo. Por isso, a visita de Obama é um momento de grande importância para a história do Brasil e dos EUA, para o futuro. A visita de Obama é um momento de grande importância para a história, para o futuro.



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