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Atalho chinês

O mercado que mais cresce no planeta atrai jovens brasileiros em busca de oportunidades para acelerar a carreira

Nely Caixeta
Giovanna, Kevin, Taís e Stephanie, com o distrito de Pudong ao fundo: acontecendo em Xangai

Que Londres, Paris e Nova York, que nada! O dinamismo das cidades chinesas tem atraído um número cada vez maior de jovens profissionais interessados em acelerar suas carreiras no outro lado do mundo. Com suas amplas avenidas, jardins recém-construídos e arranha-céus de linhas futuristas que abrigam empresas vindas do mundo inteiro, Xangai passou, em poucos anos, de uma cidade portuária no delta do rio Huangpu, no litoral leste do país, para a megalópole símbolo do estonteante crescimento da economia chinesa. É nessa cidade de 18 milhões de habitantes que um grupo crescente de brasileiros está se instalando em busca de oportunidades de trabalho e de um tipo de experiência cada vez mais valorizada nos escritórios de caçatalentos do Brasil ou de qualquer outro lugar do mundo. “É preciso estar aqui para realmente compreender a velocidade com que as coisas acontecem na China”, diz Rafael Nuñez Sá Freire, publicitário paulista de 27 anos, há três em Xangai. “É um privilégio acompanhar essas mudanças e tentar entender, de fato, juntamente com o resto do mundo, o que passa pela cabeça dos chineses.” Antes da China, ele viveu quase sete anos em Londres, onde se formou em Design Gráfico e em Publicidade. O ritmo que sua carreira estava levando ali não lhe agradava. “Em Londres, logo percebi que levaria anos até conseguir colocar a mão na massa e participar da criação de campanhas interessantes”, afirma Rafael. “Foi quando visitei Xangai a passeio e percebi que existiam ali ótimas oportunidades para jovens como eu.”


De fato, seu trabalho como publicitário sênior da multinacional da publicidade J.W. Thompson tem lhe dado alegrias e reconhecimento internacional. No ano passado, ganhou dois leões no festival de publicidade de Cannes, a principal premiação do setor. Além disso, está entre os três melhores redatores do mundo, segundo o relatório inglês The Big Won Report, que elege todos os anos os melhores em cada segmento da publicidade. No ranking da China é o redator número 1. “Acho que isso é prova suficiente de que o país me colocou no fast track de uma das profissões mais concorridas do mundo”, diz Rafael. Na agência, ele redige em inglês para as campanhas regionais da montadora Ford, muitas vezes em parceria com uma redatora chinesa. “O meu trabalho é internacional”, diz. “Tento sempre me adequar àquilo que estou fazendo, justamente por ter experimentado e conhecido tantas culturas diferentes.”


 


Vivem hoje na China cerca de 5 700 brasileiros, segundo a mais recente estimativa feita pelo Ministério das Relações Exteriores. Há três anos, eram 3 500. Esse número é pequeno se comparado aos 280 mil compatriotas que vivem no Japão ou ao contingente de 1,28 milhão com residência nos Estados Unidos, duas das maiores comunidades brasileiras no exterior. Ao contrário do que prevalece no fluxo migratório para países desenvolvidos, porém, quem parte para a China não vai com a intenção de fazer seu pé-de-meia com trabalho braçal ou na labuta de serviços modestos normalmente reservados aos imigrantes nos países ricos. Na China, não faltam braços para trabalhos de baixa qualificação. Na equação de muita gente e baixa especialização, o resultado é um mundo de oportunidades “tanto para jovens interessados em lustrar currículo como para empreendedores que farejam bons negócios.


A crise financeira global iniciada em 2008, e que ainda hoje afeta a economia nos Estados Unidos e Europa, acabou ajudando a abrir as portas do destino chinês para os brasileiros. Uma delas recebeu Fabiano Ponce, 32, diretor executivo da Pangea International, empresa brasileira de comércio exterior e consultoria especializada em assistir empresários interessados em expandir seus negócios para a China. Ponce desembarcou em Xangai em 2008, após terminar o mestrado em Gerenciamento Internacional, em Grenoble, na França, onde trabalhava na área de compras da Hewlett-Packard. “Com a velha Europa sem grandes atrativos, decidi partir”, diz ele. Conseguiu uma bolsa de estudos e desembarcou em Xangai para fazer o curso Como Fazer Negócios na China, no Shanghai Institute of Foreign Trade, além, é claro, de aprender o mandarim. “Fui atrás de experiências que pudessem me agregar novos valores, pessoais e profissionais”, diz.


Se ele está de olho na China, o Brasil está de olho nele. Há pouco tempo, Ponce conta ter recebido a ligação de uma headhunter brasileira interessada em sua experiência internacional – e, sobretudo, na capacidade de gerir negócios, tanto no Oriente como em qualquer lugar do mundo. Ela oferecia a ele um posto gerencial em uma multinacional com sede no Brasil. “Recusei educadamente”, conta ele, acrescentando que não é hora de deixar Xangai. “Estou em uma empresa com excelentes perspectivas.”


As perspectivas parecem mesmo promissoras. Um estudo feito pela consultoria McKinsey aponta que, para crescer no ritmo que deseja, a economia chinesa precisará de cerca de 75 mil profissionais capacitadosaté o fim do ano. Há quatro anos, a China contava com algo entre 3.000 e 5.000 executivos. Só no último ano, o país recrutou 480 mil profissionais no exterior, de acordo com a AdministraçãoEstatal de Especialistas Estrangeiros.


Para jovens talentos, estar na China hoje é uma vitrine. Artistas, estilistas e caçadores de tendências elegeram Xangai como o destino da vez. Embora o país ainda carregue a pecha de copiar muito e criar pouco, é crescente o número de estrangeiros que chegam ali justamente para acompanhar as tendências de moda que brotam de suas ruas e lojas. A brasileira Stephanie Dubus é um desses olheiros em terreno chinês. Aos 25 anos, nascida no Ceará de mãe brasileira e pai francês, Stephanie está há quase dois anos na cidade, onde é responsável pelo desenvolvimento e produção das coleções da marca americana Bijoux Terner, com sede em Miami e 700 lojas espalhadas pelo mundo.


O carro-chefe da empresa são os relógios, seguidos por bolsas, carteiras e cintos. “Viajo pela China inteira atrás de fornecedores e tenho a incrível oportunidade de participar desde a criação dos produtos, passando pela produção e inspeção, até a sua exportação”, diz Stephanie, que estudou moda em Paris e trabalhou na M. Officer em São Paulo e no ateliê de Lino Villaventura antes de se render à China. “Nunca imaginei que um dia viria morar aqui”, diz ela.


Justamente o oposto de Giovanna Barbieri, uma paulista de 25 anos, que sempre teve a China em sua mira. Para convencer os pais de que valia a pena rumar para o Oriente, ela se inscreveu em uma bolsa de estudos do governo chinês para fazer um MBA. Hoje, ela é o que em inglês se chama cool hunter, uma caçadora de tendências de moda e comportamento nas vitrines e ruas das cidades chinesas. Presta serviços para empresas como a Tavex – uma das maiores indústrias de denim do mundo, do grupo Camargo Corrêa − e para a rede de lojas de moda feminina Le Lis Blanc. “Vim para a China na contramão das capitais da moda”, explica Giovanna na apresentação do blog “Tofu na China”, que ela abastece com experiências no país. Não se arrependeu da decisão tomada, apesar de o nível dos cursos ser, na sua opinião, inferior ao dos cursos do Brasil e de os professores não estarem preparados para dar uma aula em inglês. “A China nos leva a ser mais globalizados”, diz ela. “A competição é muito grande e, se não houver esforço para sermos os melhores, outros nos substituirão em uma questão de segundos.”


O número de vistos concedidos pela Embaixada da China no Brasil pode dar uma ideia do crescente interesse que o país vem despertando entre os brasileiros. Só no ano passado, foram expedidos 41,6 mil vistos para viagem, negócios ou trabalho, segundo o conselheiro Lin Xiaoyu, da embaixada em Brasília. Em todo o ano de 2006, esse número ficou em 20 mil. Ou seja, o número de brasileiros que tomaram o caminho da China – de passagem ou de vez – dobrou em quatro anos. Uma parcela desse crescimento deve-se a profissionais que, sem conexão com empresas brasileiras, decidiram arriscar o futuro profissional no maior dos BRICs.


Foi o que aconteceu com a arquiteta paulista Tais Cabral, 33, quatro anos em Xangai. “As chances na China são enormes”, afirma. “Aqui se é reconhecido e admirado pelo que se faz, independentemente de onde vem ou do quanto tem. O que importa aqui é o que você pode oferecer.” Depois de passar um longo período em Paris, Tais diz que estava cansada da falta de dinamismo da cidade francesa. “Então, ouvi de um amigo que Xangai era o laboratório da China”, diz. “O que tivesse de acontecer, seria aqui, enquanto em Londres ou em Nova York tudo praticamente já havia sido feito.” Ao chegar, trabalhou em dois escritórios de arquitetura, até abrir sua própria empresa, seis meses depois – a Tais Cabral Interiors. Hoje, ela trabalha como designer de interiores para a crescente classe média chinesa, além de se dedicar a projetos de clientes estrangeiros que passam por lá, inclusive brasileiros.


Recentemente, ajudou a montar um showroom para um casal de empresários gaúchos que divulga marcas brasileiras em Xangai (veja quadro na pág. 34). “Aqui tudo é para ontem”, afirma. “Projetos que normalmente demorariam seis meses no Brasil e dez em Paris são feitos em dois meses na China”, diz. Nesses anos todos, ela diz já ter incorporado parte dos hábitos orientais. “Tomo chá o dia inteiro, mesmo com calor escaldante, faço massagem frequentemente e fiquei viciada em comida chinesa”, diz. “Mas peguei o péssimo hábito de gritar para falar.” Dominar o mandarim, a principal língua falada no país, é ainda um desafio para poucos. A sorte é que, apesar de Xangai ou Pequim ainda estarem longe de ser tão internacionalizadas quanto as vizinhas Hong Kong, Cingapura ou Bangcoc, é possível sobreviver falando só o inglês. A própria legião crescente de estrangeiros nas grandes cidades chinesas faz com que o inglês sirva como uma espécie de rede de proteção para quem só arranha o idioma local. Mas a tendência é que a situação se inverta: “É crescente o número de estrangeiros que falam mandarim fluente nas ruas”, diz Tais, que conversa o suficiente para dar instruções a motoristas de táxi ou fazer compras.


O empresário Kevin Tang, 29 anos, lança mão de suas raízes multiculturais para fazer a ponte entre o Brasil e a China. Nascido em Nova York, criado no Rio de Janeiro, filho de pai chinês e mãe alemã, Kevin é formado em Economia e Relações Internacionais pela universidade americana de Cornell e comanda há três anos a empresa Transnational Resources, que se dedica a vender produtos chineses ao Brasil.


Ele passa quatro meses do ano na China – principalmente em Xangai − e o resto do tempo entre Rio e São Paulo. Vende máquinas, aço, material de construção, vestuário e acessórios. A seu ver, a China tornou-se um parceiro entre “importante e vital” para empresas e profissionais brasileiros com visão internacional. “Não se pode prescindir de estar com o maior parceiro comercial do Brasil, com mais de US$ 50 bilhões de comércio bilateral este ano”, diz ele. De fato, as perspectivas de negócios entre os dois países são mais do que promissoras. Para esse grupo de brasileiros que tomou a decisão de cruzar meio mundo para participar de perto da extraordinária transformação vivida hoje pela China, a ousadia da escolha promete boas recompensas.



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