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Um polo global de negócios

São Paulo trabalha para integrar o mercado de capitais latino-americano na BM&FBovespa e tornar-se centro de referência no continente

ELIANA SIMONETTI
Oliveira: investidores já escolheram o Brasil

Nova York, Londres, Hong Kong, Cingapu­ra são referência para investidores de todo o mundo. São como vitrines de bons negócios. Nesses polos são transacionadas ações das empresas mais valorizadas do mun­do e circula grande quantidade de recursos. “Pode-se dizer que essas cidades são propulsoras de desen­volvimento”, nota Abram Szajman, presidente da Federação do Co­mércio do Estado de São Paulo. “A América Latina não tem um polo de negócios que represente uma alter­nativa para suas empresas quando se internacionalizam e buscam se capitalizar.”


São Paulo quer ocupar esse pos­to. Levar adiante o projeto de fazer do Brasil e da BM&FBovespa o polo financeiro latino-americano é a mis­são da BRAiN – Brasil Investimen­tos & Negócios (www.brainbrasil.org), uma organização criada em março de 2010 por entidades do mercado financeiro e de capitais*. A BRAiN nasceu com 12 sócios, cada qual comprometido a contri­buir com R$ 1 milhão ao ano para concretizar objetivos que podem ser sintetizados assim: a consoli­dação do Brasil como polo interna­cional de investimentos e negócios na América Latina, a ampliação da projeção internacional do país e de suas conexões com outros merca­dos, e o reforço da competitividade brasileira – para encurtar o caminho dos investidores em ativos do Brasil e da América Latina, reduzindo cus­tos e riscos das transações.


O grupo pretende negociar com bolsas sul-americanas uma propos­ta de parceria e trabalho conjunto. A intenção é fazer com que a BRAiN seja uma ponte entre os mercados latino-americanos e mundiais. Para azeitar o caminho nessa direção, a entidade incentivará pesquisas e estudos, patrocinará fóruns de dis­cussão, participará de entendimen­tos com o poder público e buscará a aproximação de interesses em torno de suas propostas.


À parte a diferença do idioma e as resistências históricas dos paí­ses hispânicos ao peso do Brasil na região, alguns fatos novos parecem se alinhar em favor do projeto da BRAiN. Empresas brasileiras que partiram além-fronteiras já não são consideradas estrangeiras pe­los vizinhos, um sinal concreto de integração. Em novembro, os argen­tinos elegeram como melhor pres­tador de serviço bancário em seu país o Itaú Argentina. A Odebrecht Peru é considerada pelos peruanos a melhor empresa para trabalhar. No último ranking elaborado pela revista América Economia, das 500 maiores companhias latino-ame­ricanas, 226 são brasileiras (veja as 20 primeiras no quadro abaixo). Ou seja, empresas brasileiras estão por todo o continente e reforçam a percepção de liderança do Brasil na região por seu porte, valor do PIB e estabilidade política e econômica. Desde 2008, com o investment gra­de e o ganho de relevância do Bra­sil no cenário internacional, o país conquistou um público novo para suas empresas de capital aberto.


Capitalizar esse bom momento é importante para enfrentar as muitas dificuldades no caminho do projeto da BRAiN. Há, por exemplo, diferen­ças de toda ordem, quando se com­para o conjunto de leis dos países vizinhos, que terão de ser harmo­nizadas antes de qualquer entendi­mento concreto. São detalhes como as formas de pagamento, as regras de custódia, a liberdade de trânsito de capitais, as taxas e os impostos, entre outros. Colômbia e Chile, por exemplo, têm legislação muito mais transparente e desburocratizada que o Brasil. Desde novembro, as bolsas desses dois países firmaram acordo com a do Peru e passaram a atuar em conjunto. Dados da empre­sa de consultoria Economática mos­tram que os dois países formaram a segunda maior bolsa, em valor de mercado, da América Latina. Os em­preendedores brasileiros terão de se entender com ela para transformar São Paulo no principal polo de atração de investimentos e negócios na América do Sul.


Para Manoel Horácio Francisco da Silva, presidente do Banco Fator, a ideia é positiva – agrega serviços, volume, eleva o valor dos papéis e torna a bolsa menos vulnerável a ataques especulativos por parte de grupos estrangeiros. “Colômbia e Peru tendem a crescer muito. Hoje não há colombianos investindo no Brasil, assim como não há brasileiros investindo na bolsa de Bogotá”, diz ele. “São poucos os voos entre São Paulo e Bogotá. Com uma parceria ou uma fusão, as empresas se tornarão mais visíveis, haverá estímulo para novas aberturas de capital, o que será saudável para as empresas e para as economias.”


Já o economista Roberto Teixeira da Costa, sócio da Prospectiva Consultoria Brasileira de Assuntos Internacionais e ex-presidente do Conselho de Empresários da América Latina, tem duas preocupações: uma é a desconfiança dos vizinhos sul-americanos quanto às reais intenções do Brasil num processo de aliança; e outra diz respeito aos fundamentos da estabilidade econômica brasileira, uma vez que a falta de reformas fundamentais − como a do sistema tributário, por exemplo − continua emperrando os negócios no país. “É urgente a simplificação e a racionalização da estrutura tributária, a redução gradual da carga dos tributos”, diz Costa, que participa da BRAiN. “As dificuldades de implementação da integração dos mercados de capitais regionais não são desprezíveis, e a proposta da BRAiN é contribuir para superar os problemas.”


O movimento de consolidação de bolsas tem ocorrido de forma acelerada em todo o mundo. Algumas das maiores bolsas abriram o capital e deram início a um processo de fusões e aquisições nunca visto − somente nos últimos dois anos, esses negócios movimentaram US$ 35,7 bilhões. A bolsa de Nova York fundiu-se com a Euronext, resultado da integração das bolsas de Paris, Amsterdã e Bruxelas. As bolsas da Suécia, Dinamarca, Finlândia, Estônia e Lituânia formaram o OMX Group, mais tarde comprado pela americana Nasdaq. A Bolsa Mercantil de Nova York foi adquirida pela Chicago Mercantile Exchange.


Nesse ambiente, a América Latina está atrasada. “Muitos negócios com ativos brasileiros ou latino-americanos que hoje são realizados em Londres e Nova York poderão ser fechados no cenário que a BRAiN pretende ajudar a construir no mercado brasileiro de capitais”, explica o diretor-geral da associação, Paulo de Sousa Oliveira Jr., exdiretor executivo da BM&FBovespa. Ele já está em conversação com as bolsas da Colômbia, do Peru e do Chile – em princípio, para uma operação em parceria. A ideia é que as informações sobre os negócios sul-americanos sejam centralizadas e enviadas por São Paulo aos mercados externos.


As estimativas de Paulo Oliveira indicam que o número de empresas listadas na BM&FBovespa poderá saltar de 470 para 5 mil em dez anos. Como a América Latina é grande produtora e exportadora de commodities, a BM&FBovespa poderá se tornar referência mundial para a formação de preços nesse segmento. “A BRAiN, e a consolidação do Brasil como polo de investimentos na América Latina, facilitará a internacionalização das empresas e seu acesso a recursos”, conclui ele.


A BM&FBovespa preparou-se para dar esse salto por meio de alianças estratégicas e investimento em recursos tecnológicos. A primeira aliança foi firmada com o CME Group, controlador das bolsas de Chicago. Desde setembro de 2008, clientes do CME Group em mais de 80 países passaram a negociar diretamente produtos, derivativos financeiros e commodities da bolsa brasileira. Seis meses depois, os clientes da bolsa brasileira puderam negociar diretamente os produtos de Chicago. Desde o início de outubro, investidores brasileiros podem também ter participação em companhias listadas nas bolsas dos EUA por meio de Brazilian Depositary Receipts (BDRs, os certificados de ações de empresas listadas em bolsas fora do país) − uma facilidade já disponível há algum tempo na Argentina e no Chile.


Há outras novidades no forno. Uma plataforma que vai permitir a negociação, por estrangeiros, de ações listadas no Brasil deve ser finalizada no primeiro trimestre de 2011. Um software fará a conversão das cotações para moedas de outros países, o que possibilitará o envio de ordens de negociação em moeda local. Assim, por exemplo, um investidor que estiver no Japão terá disponível a tela da bolsa brasileira e poderá comprar ou vender qualquer papel em iene.


A BM&FBovespa tem atraído investimentos estrangeiros em carteira (ações e títulos de renda fixa). De acordo com o Banco Central, os investimentos em ações negociadas no Brasil movimentaram US$ 21,628 bilhões, ante US$ 17,034 bilhões registrados em igual período de 2009. Investimentos em renda fixa mais que dobraram. “Os investidores já nos escolheram”, diz Oliveira, da Brain. “Precisamos assumir nossa posição e atuar como player internacional importante.” (veja gráfico nesta página)


O Brasil tem, portanto, uma bolsa moderna, uma economia robusta, uma posição de liderança no continente, empresas fortes que atraem investidores – e, para melhorar o cenário, ganhará grande exposição internacional com a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos, em 2016. Mas lamentavelmente, a atração de investimentos não depende apenas da excelência da bolsa brasileira, da saúde macroeconômica do país ou de eventos esportivos internacionais. Fazer negócio no Brasil ainda não é fácil. O relatório Doing Business 2011, do Banco Mundial (Bird), mostra que, entre 183 países, o Brasil caiu da 124ª posição no ano passado para a 127ª neste ano em termos de facilidade para negócios. Enquanto no Brasil são necessários 120 dias para abrir uma empresa, na Nova Zelândia basta um dia.


“Atrair investimentos para uma bolsa como a paulista, que os estrangeiros conhecem bem, não será tarefa complicada. Para boas empresas familiares sul-americanas, a abertura de capital também ficará muito facilitada”, avalia Juan Quirós, controlador do grupo Adventure, de construção civil, e ex-presidente da Apex-Brasil. “Há, entretanto, três questões prioritárias a resolver: a redução da carga tributária, o investimento em infraestrutura e a falta de pessoas prontas para o trabalho produtivo – formá-las é fundamental”, resume ele, lembrando a questão pendente da educação de qualidade. São barreiras para um crescimento vigoroso e sustentado. O desenvolvimento do polo de investimentos e negócios na bolsa paulista almejado pela BRAiN depende dessas reformas e, ao mesmo tempo, as incentiva.




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