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Os sete trabalhos da ApexBrasil

Agência promove a marca do país, apoia a internacionalização das empresas brasileiras e investe para convencer o mundo da qualidade dos produtos made in Brazil

Xangai: fila para entrar no pavilhão brasileiro

Quem visitou a Exposição Universal de Xangai ou foi à Copa do Mundo da África do Sul − os dois grandes eventos globais deste ano − teve a chance de conhe­cer o pavilhão brasileiro da Expo 2010, na China, e a Casa Brasil 2014, em Johannesburgo. Inaugurada em meados de julho deste ano, a Casa Brasil foi o pontapé inicial para a divulgação do país como sede da próxima Copa do Mundo. Com projeto do arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia, ela serviu de vitrine para empresas brasileiras de tecno­logia, alimentos e design. Durante a Copa, foram promovidos eventos como o Sabores do Brasil − feira de alimentos e gastronomia −, uma mostra de filmes sobre o futebol e outra de livros. Da mesma forma, o pavilhão brasileiro da Expo Xangai 2010 combinou exposições e even­tos destinados ao público em geral com a promoção de negócios entre empresários dos dois países (veja mais na pág. 48).


O traço comum a ligar essas vi­trines para o mundo é um braço do governo federal que a maioria dos brasileiros mal conhece: a Agência Brasileira de Promoção de Exporta­ções e Investimentos − ApexBrasil, para os iniciados em comércio ex­terior −, responsável por planejar e concretizar a participação brasileira nos dois eventos. A missão atribuída à Agência pelo Ministério do Desen­volvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), ao qual é ligada, não foi obra do acaso. Participar de feiras e eventos internacionais faz parte do trabalho diário da Agência, que se dedica a promover a exportação de bens e serviços, atrair investimentos e apoiar a internacionalização das empresas brasileiras. Só neste ano, o número de eventos organizados por ela no país e no exterior deve passar de 900 (veja quadro acima). Em um mesmo momento, a Agência pode estar mostrando o Brasil e seus produtos na Anuga (a feira de alimentos de Colônia, na Alemanha), no festival de cinema de Cannes, na França, e numa Exposição Universal, como a de Xangai.


A ApexBrasil dedica atenção especial às empresas pequenas e médias que não têm os meios para fazer os pesados investimentos necessários na hora de dar o salto para competir fora do Brasil. “O trabalho que a agência vem fazendo é hercúleo”, afirma Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), cujas associadas vêm tentando recuperar as posições perdidas pelo Brasil no mercado mundial (leia mais na pág. 50). “A ajuda dada por ela não tem preço.” Criada há 12 anos de uma “costela” do Sebrae, a Apex sofreu uma transformação a partir de 2007. A Agência cresceu em tamanho e ambição e ampliou o leque de suas ações, hoje consolidadas em torno de sete eixos principais.**


O pavilhão brasileiro na Expo Xangai foi uma das faces mais vistosas dessas mudanças, que provocaram uma guinada da Agência na direção dos países emergentes. “A China estava, cada vez mais, assumindo o papel de locomotiva do mundo, mas encontramos aqui uma falta total de ações para esse país e a Ásia em geral”, relembra Ricardo Schaefer, diretor de Gestão e Planejamento da Apex, um dos gaúchos que vieram engrossar o time da administração integrado, desde 2007, pelo também gaúcho Alessandro Teixeira, presidente da Agência, e pelo mineiro Maurício Borges, diretor de Negócios. O resultado foi a criação de uma força-tarefa voltada para o continente asiático, que se consolidava como a locomotiva comercial do mundo e era a região para onde o crescimento apontava. A guinada para os mercados emergentes veio quase em cima da recessão brusca do mundo rico, deflagrada em 2008 pela crise financeira global. Para o presidente da ApexBrasil é importante perceber que há outros mercados em expansão, e o Brasil não pode perder tempo. “É preciso abrir a África. A China já está fazendo isso; o mercado que cresce a 4,5%, 5,5% por ano não é a Europa, é a África”, afirma Alessandro. “Pergunte a um empresário brasileiro qual é a população da Malásia e Indonésia juntas − poucos sabem que está acima dos 120 milhões, assim como a Nigéria tem 120 milhões de habitantes.”


E o novo governo que toma posse em janeiro de 2011, o que pensa disso? Para Alessandro, as questões ligadas ao comércio exterior e à internacionalização das empresas brasileiras vão ter um papel cada vez mais importante. Não se trata de mera especulação ou desejo pessoal. Próximo à presidente eleita Dilma Rousseff desde os tempos em que ambos trabalharam no governo de Olívio Dutra (PT-RS), ele se licenciou da presidência da ApexBrasil para trabalhar na campanha da candidata do PT e foi um dos coordenadores de seu programa de governo. De outro lado, Alessandro ganhou proximidade com o empresariado nacional e entre seus pares internacionais na função de presidente da Waipa – entidade que congrega as agências de promoção de investimentos de 162 países. O que ele fará a partir de janeiro? “Vou trabalhar dentro ou fora da Apex para que o comércio exterior ganhe maior prestígio e relevância”, limita-se a dizer diplo­maticamente.


Entre as novidades do próximo governo, entretanto, é certo que está na boca do forno a implantação do Eximbank brasileiro − promessa tantas vezes adiada que depende agora de detalhes para ser concre­tizada, provavelmente com sede no Rio de Janeiro. Replicando modelo consagrado nos países desenvolvi­dos, ele centralizará as operações de comércio exterior hoje espalhadas pelo BB, BNDES, Tesouro Nacional e vários ministérios.


Esse é o futuro. Mas para chegar até aqui a ApexBrasil teve de literal­mente se reinventar, aprimorando seu principal instrumento de ação − os Projetos Setoriais Integrados (PSI), criados na época em que era dirigida pela ex-ministra Dorothea Werneck e que constituem a coluna vertebral de sua atuação. Em parce­ria com entidades empresariais, os PSI agrupam diversas ações promo­cionais, de acordo com as necessi­dade de cada setor − podem ser, por exemplo, missões a outros países, rodadas de negócios com empre­sários, apoio à participação de em­presas brasileiras em feiras inter­nacionais ou visitas de comprado­res estrangeiros ao Brasil (existem hoje 80 projetos setoriais agrupados em seis áreas produtivas − veja qua­dro na pág. 43). A agência passou, também, por uma reformulação da equipe. Há três anos, havia 60 pes­soas trabalhando ali. Hoje, são mais de 300 colaboradores qualificados – 96% têm curso superior e 56% pos­suem pós-graduação.


“Tivemos de virar a ApexBrasil de cabeça para baixo”, afirma Ales­sandro. Foram criadas novas car­reiras, os salários foram corrigidos nos níveis do mercado e a entidade, antes abrigada em dois andares na área central de Brasília, ganhou casa própria num prédio que é, por si só, uma vitrine dos projetos que ela toca adiante. E mais: muito da memória da instituição havia se perdido por conta da informatiza­ção precária. Hoje não é mais as­sim, diz o diretor Ricardo Schaefer. “A Apex não controlava resultados. Hoje é possível monitorar o volume exportado de cada uma das mais de 10 mil empresas que fazem parte de nossos projetos.”


A área de Inteligência Comercial, que se dedica a estudos de pros­pecção de mercados potenciais, foi reforçada com a contratação de no­vos analistas por meio de processo seletivo. “A Apex só poderá ter um desempenho superior se tiver pro­fissionais competentes”, diz Ricar­do. O problema é que um plano de cargos e salários pouco atraente le­vava a Agência a perder gente para a iniciativa privada e para outros órgãos do governo. No esforço de capacitação, uma vez por ano todos os funcionários da agência se tran­cam durante dois dias em um hotel perto de Brasília para uma reunião de alinhamento estratégico, na qual simulam, em jogos, o trabalho de prospecção de mercados, rodadas de negócios e outras situações do comércio internacional.


Algumas vezes, no entanto, não é necessário recorrer a estudos mi­nuciosos para detectar o potencial de um mercado. As oportunidades saltam aos olhos. Foi o que acon­teceu numa viagem que Mauricio Borges, o diretor de Negócios, fez à Rússia na companhia de Alessan­dro, anos atrás. “Descobrimos que as russas não conheciam as pedras brasileiras”, diz Mauricio. “Do nos­so lado, não sabíamos que havia ali um mercado ávido por joias de qualidade. Foi um casamento per­feito.” Para Hécliton Santini Henri­ques, presidente do Instituto Brasi­leiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM), o trabalho em conjunto com a ApexBrasil trouxe resultados. “As exportações cresceram mais de 80%”, conta ele. “Em 2009, com a crise mundial, houve uma redução de 26%, mas este ano já se espera uma alta em torno de 10%.” Na mes­ma viagem, Mauricio e Alessandro tiveram oportunidade de assistir a um desfile de moda local. “Tudo era muito básico”, relembra Bor­ges. Pouco depois, organizaram um evento em Moscou para mostrar as criações de estilistas como Alexan­dre Herchcovitch, Walter Rodrigues e Amir Slama, da Rosa Chá.


Além dos projetos setoriais, a Apex passou a investir em proje­tos especiais que usam o “gancho” de grandes eventos como platafor­mas de negócios. Tome-se o exem­plo do Carnaval no Rio de Janeiro. “É a maior festa do planeta, mas não a utilizávamos para promover ne­gócios”, diz Ricardo. Desde o ano passado, isso mudou. Nos dias de folia, a ApexBrasil passou a receber em seu camarote na Sapucaí poten­ciais compradores, importadores e tomadores de decisão do mundo todo. Alguns descem para a avenida e desfilam com as escolas de samba. Os resultados em negócios fechados são animadores, segundo a Agência. “Houve casos de empresas que iam investir em outros países e resolve­ram trazer o investimento para o Brasil”, diz Ricardo.


Outro exemplo são as corridas de carro da Fórmula Indy, que viraram ferramenta para promover negó­cios do Brasil, com foco no merca­do americano. Ainda que a China, a Ásia e a África sejam os mercados em expansão, a Agência não quer perder de vista a importância dos Estados Unidos como parceiro econômico. A ideia é simples: um estande monta­do nos autódromos da Fórmula Indy promove contatos informais entre empresários brasileiros e CEOs de companhias americanas. Na Indy 300, em Indianápolis, a ApexBrasil promoveu rodadas de negócios e atuou à moda das comadres casa­menteiras, colocando frente a frente empresários dos dois países.


A ApexBrasil trabalha, neste momento, no olho do furacão. To­das as suas ações visam a aumentar a exportação de produtos manufa­turados com maior valor agregado, justamente o canto do comércio exterior que vem perdendo com o avanço das exportações de com­modities agrícolas e minerais. Vista desse ângulo, a estratégia pareceria não estar dando certo − afinal, as exportações de commodities não param de aumentar e as de produ­tos de alto valor agregado, de cair. Para Alessandro, não há paradoxo nisso, pois o Brasil nunca foi gran­de exportador de manufaturados. “Não tem varinha mágica que faça um país passar de exportador de café a exportador de avião, em ne­nhum lugar do mundo; pode pegar o Japão, a Coreia...”, ele argumenta. “O Brasil só vai chegar a isso se tiver uma política industrial-tecnológica forte, inovadora, que agregue valor, e política industrial no Brasil tem menos de sete anos.”


De outro ângulo, as ações da Agência têm reforçado a resistên­cia do país às crises. Em 2009, as exportações recuaram 22,7% ante 2008, mas o conjunto dos setores apoiados pela Apex sofreu um ba­que menor, com uma queda no valor exportado de 16,9%. Ou seja, apesar da crise, o desempenho geral das empresas apoiadas pela ApexBrasil foi superior ao da média nacional. O economista e empresário Rober­to Gianetti da Fonseca, diretor do Departamento de Relações Inter­nacionais e Comércio Exterior (De­rex) da Fiesp, afirma que o trabalho realizado pela ApexBrasil tem evo­luído de forma favorável. Para ele, tem havido um esforço de coorde­nação mais articulado com outros órgãos do governo. Mas há espaço para melhorias. “Os recursos são es­cassos. Para evitar a sobreposição de atividades, é importante aperfeiçoar a integração com equipes públicas e privadas que trabalham em siner­gia no comércio exterior”, diz. Há espaço, também, para uma atuação mais forte na área de serviços, hoje muito centrada nas empresas forne­cedoras de tecnologia da informação, segundo Gianetti. “O Brasil tem um potencial muito grande nas áreas de serviços técnicos, como arquitetura, medicina, direito”, afirma Gianetti. “Falta planejamento de médio e lon­go prazos para colocar esses serviços no centro da atenção.”


Mas há dificuldades a superar mesmo com produtos mais tradi­cionais, relacionadas, muitas vezes, à falta de conhecimento do pequeno e médio empresário sobre as arma­dilhas e os labirintos do comércio in­ternacional. Em uma análise, a Apex descobriu que metade das empresas envolvidas em programas setoriais não conseguia exportar. “Assusta­mos com esse número e passamos a nos perguntar o que estava aconte­cendo”, diz Ricardo. “Se a empresa possui um bom produto, se não há barreiras para sua entrada em outros países, se não tem problema de pro­moção, mas mesmo assim não está conseguindo chegar lá, talvez seja um problema de capacitação.” A partir desta conclusão, a ApexBra­sil passou a trabalhar em conjunto com as pequenas empresas por meio do Programa Industrial de Extensão Exportadora (Peiex).


Um caso representativo foi o da confecção de roupas fitness Bia Brazil, de Porto Alegre, que hoje exporta 1 200 peças por mês para 60 países, mas antes de conhecer a agência não sabia o que fazer com o dinheiro de uma venda para o exterior. “Antes de trabalharmos com a Apex, uma empresa da Costa Rica fez uma compra por nosso site e depositou o dinheiro na conta”, re­lembra Beatriz Willhelm Dockhorn, proprietária da rede. “Era uma óti­ma notícia que virou um enigma. Hoje é até engraçado, mas foi um corre-corre atrás dos documentos para pôr o dinheiro no caixa da em­presa.” Grandes empresas também fazem parcerias com a ApexBrasil para capacitar seus fornecedores. Em maio, a Olex Importação e Exportação (braço de logística da construtora Norberto Odebrecht) reuniu 16 das suas principais par­ceiras para apresentar e disponibi­lizar para elas o Peiex.


** Promoção e internacionalização, Atração de Investimentos, Estudos de Inteligência Comercial, Capacitação, Novas Plataformas de Negócios, Projeto Tradings e Apoio Estratégico e Logístico.



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