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Siesta em plena crise global

Atingida em cheio pela crise que balançou o mundo em 2008, a Espanha – um dos países menos competitivos da União Europeia – começa a acordar para o desafio de superar suas limitações

ADRIANA SETTI, BARCELONA
Festa da Copa em Madri: breve respiro na crise

Ao mesmo tempo em que os jogadores da seleção espanhola de futebol desfilavam para uma multidão sem precedentes em Madri, outro fenômeno inédito – cuja predição, neste caso, dispensava a astúcia de qualquer cefalópode adivinho – to­mava as ruas do país que acabara de arrematar a Copa do Mundo pela primeira vez na história: as cami­sas oficiais do time vencedor, pro­duzidas pela marca alemã Adidas, tornaram-se o suvenir mais procu­rado na Espanha. Não há dúvidas de que o campeonato mundial organi­zado pela Fifa é o melhor pretexto para fazer disparar as vendas dos caríssimos uniformes das equipes participantes (um exemplar com o nome do craque Andrés Iniesta, por exemplo, não sai por menos de ¤ 75). Ainda assim, em uma Espanha imersa numa grave crise econômica, a oportunidade de engordar o caixa escapou das mãos dos comerciantes. Na fase final do torneio, o produto desapareceu do mapa por semanas a fio, deixando na mão tanto os orgu­lhosos torcedores da roja, como os milhares de turistas que, em pleno mês de julho, aproveitavam o verão ibérico com dinheiro no bolso.


Para conseguir, de uma hora para outra, inundar as ruas com as cami­setas do time campeão, os comer­ciantes espanhóis precisariam ter superado uma de suas deficiências mais criticadas – a falta de jogo de cintura para converter uma oportu­nidade inesperada em um bom ne­gócio. A chance perdida pode não significar muito para os negócios do país, mas é exemplar de uma condu­ta que vem retirando dos espanhóis pontos importantes na comparação com economias de outros países desenvolvidos. Um dos efeitos da prolongada crise foi ter escancara­do as fragilidades decorrentes, entre outros fatores, de uma atitude que os próprios espanhóis reconhecem ser acomodada diante das dificuldades, além da inapetência para o risco e do grande apego a tradições econo­micamente ineficientes.


Alguns detalhes do cotidiano espanhol são, nos dias de hoje, ini­magináveis num país que pretende ser competitivo. Mesmo em cidades cosmopolitas, como Madri e Barce­lona, uma entrega de pizza pode demorar até duas horas, as agên­cias bancárias só funcionam até as duas da tarde, e encontrar alguém dando expediente numa sexta-feira à tarde pode não ser tarefa fácil. Aos domingos, os únicos estabelecimen­tos abertos são os mercadinhos de imigrantes. Durante o mês de agosto, auge do verão, inúmeros restauran­tes, lojas, farmácias, bancas de jornal e escritórios simplesmente fecham as portas em férias (ainda que mi­lhares de turistas estejam ávidos por consumir). Serviços importantes são sumariamente interrompidos.



Vida de rico


Nessa engrenagem enferrujada, práticas e hábitos tradicionais de uma sociedade pouco urbanizada se chocam com o ritmo turbinado da economia do século 21. A famo­sa siesta, o costume de tirar uma soneca depois do almoço, segue firme e forte. Até mesmo em Ma­dri ou em Barcelona, a maior par­te do comércio nos bairros menos centrais tem seu horário de funcio­namento interrompido entre duas e cinco da tarde. Mas o impacto da crise forçou o país a reavaliar velhas certezas. Os traços de conservado­rismo empresarial são hoje tema recorrente de debate na imprensa espanhola, no qual se aponta o des­compasso entre o padrão de consu­mo alcançado nas últimas décadas e o adormecimento do espírito em­preendedor no país. Recentemente, o presidente do Conselho Geral da Associação de Economistas da Es­panha, Valentí Pich, resumiu bem o problema: “A Espanha tem de parar de viver como um país rico”.


Ainda que a resistência em ado­tar o estilo de vida capitalista tenha seus defensores, a Espanha começa a acordar para o desafio de reconhe­cer suas limitações e tentar superá-las. Trata-se de um profundo esforço de mudança de menta­lidade nesse país que é um dos Estados menos competitivos da União Europeia, segundo ranking do Fórum Econômico Mundial. Atingido em cheio pela crise que balançou o mundo em 2008 − assim como nos Estados Unidos, a Espanha também cultivava espessa “bolha” imobiliária e teve seu setor de construção paralisado −, o país governado pelo socialista José Luis Rodríguez Zapatero passou da con­dição de um dos mais promissores do cenário mundial – crescia entre 3% e 4% nos anos que antecederam o tsunami financeiro – para, ao lado da Irlanda, da Grécia e de Portugal, ingressar na lista das economias problemáticas do Velho Mundo. Atualmente, mais de 4,5 milhões de pessoas estão desempregadas no país, o equivalente a 19,8% da po­pulação. Entre os imigrantes, a taxa é de 29% e, entre os jovens de 15 e 24 anos, o índice sobe para as­sustadores 40%, o tri­plo da média global, segundo a Organiza­ção Internacional do Trabalho.


“A crise se proje­tou sobre uma estru­tura que não estava adaptada, em termos de competi­tividade, ao panorama atual”, afir­mou à emissora de televisão CNN o ex-presidente Felipe González, que governou entre 1982 e 1996 pelo mesmo partido de Zapatero. “Vive­mos durante muitos anos com um padrão que estava acima das nos­sas possibilidades, sem o respaldo de uma produtividade capaz de nos inserir em um modelo de eco­nomia global.” Com uma pirâmide demográfica invertida devido ao baixo índice de natalidade (22% da população está acima dos 60 anos, enquanto apenas 15% têm menos de 15 anos), um quadro de pensões insustentável e um sistema educa­tivo e de criação de capital humano ineficiente, o país no qual González implantou um duro plano de estabi­lização econômica no passado está, segundo ele, “dez anos atrasado em termos de reformas estruturais”.


A Espanha alardeia uma possí­vel luz no fim do túnel com parco 0,2% de crescimento em relação ao terceiro trimestre do ano passado, enquanto países como Alemanha e Holanda já dão indícios de que a recessão ficou para trás. “A Ale­manha está em via de recuperação porque se apoia sobre a chamada estrutura da eficiência, que só de­manda alguns ajustes; já a Espanha precisa se reinventar”, diz o escri­tor Alex Rovira, autor de La Buena Crisis, (Ed. Punto de Lectura). “A mamata acabou. A única saída é uma ética baseada no compromisso, na visão a longo prazo e na cultura do esforço”, completa.


Timidez X competição


Ainda que a Espanha tenha uma admirável história de superação (afinal, o país se refez de uma guerra civil, atravessou uma ferrenha dita­dura e viveu um milagre econômico em pouco mais de meio século), os espanhóis foram pegos de surpresa pela crise. Atônito, o país foi tomado por um clima coletivo de derrotismo e baixa estima que nem a conquista do Mundial da Fifa tratou de aba­lar. E que desconsidera até mesmo o sucesso de empresas espanholas capazes de chegar, em poucas déca­das, ao primeiro time das grandes multinacionais − como exemplo o banco Santander, a Telefónica e al­gumas outras.


Essa apatia generalizada, entre­tanto, parece ter raízes nos hábitos econômicos tímidos e conserva­dores do dia a dia miúdo, longe do mundo acelerado e ultracompeti­tivo das grandes empresas globais. Enquanto o Brasil, num passado recentíssimo, empreendeu uma epopeia por incontáveis pacotes econômicos, adaptou-se a oito mu­danças de moeda e conviveu com altos índices de in­flação, os espanhóis mal se habituaram a lidar com o euro, vigente no país des­de 2002. Os preços em pesetas − a fina­da moeda pré-euro − ainda aparecem frequentemente em letrinhas pequenas ao lado das cifras na moeda comum europeia, tanto nas lojas quanto em supermercados ou imobiliárias. Quando se trata de somas mais pomposas, o espanhol médio não consegue ter noção de caro ou barato sem fazer a conver­são. É lógico, portanto, que a mes­ma falta de jogo de cintura faça com que a maioria dos grandes afetados pela recessão, os desempregados, entregue seu destino, no piloto au­tomático, à ajuda do governo. Ser demitido tinha, até pouco tempo atrás, o seu lado bom. Para alguns, por mais estranho que pa­reça, era inclusive um objetivo. O chamado paro, o seguro-desempre­go, permite que se fique até um ano sem trabalhar ganhando um teto de cerca 80% do último salário, depen­dendo do tempo de contribuição. Os tempos mudaram, mas nem todos se acostumaram com o fim da cultura do corpo mole. “Desde o começo da crise, recebemos, em mé­dia, 300 currículos por dia”, conta a paulistana Cristina Mesquita Nogueira, 30, chefe da recep­ção do hotel butique Camper. “Alguns can­didatos tinham a cara de pau de me pedir para tirar uma cópia, porque só tinham um exemplar; outros, me entregavam folhas sujas e amassa­das”, conta a hoteleira, que se for­mou na Suíça e vive há dez anos na capital catalã. No entanto, uma vez que o fim dos meses cobertos pelo seguro-desemprego se aproxima para milhões de espanhóis (muitos já estão sem renda alguma), e que as medidas de austeridade impostas pelo governo em resposta às diretri­zes da União Europeia não alimen­tam esperanças de mais subsídios, a necessidade de reação começa a ser levada mais a sério.


Nos primeiros sete meses de 2010, 55.575 empresas foram cria­das na Espanha (4,29% a mais do que no período correspondente em 2009, depois de um decréscimo de 36,16% em 2008). A de Jacinto Oliva Rodríguez-Palacios, 30, desempre­gado havia oito meses, é uma delas. Desde março, ele está no comando da Sevilla al Cubo, especialista em fa­zer o que ninguém gosta. Desde que uma lei determinou que os grandes receptores de lixo do centro antigo deveriam ser substituídos por con­têineres com hora certa para sair de cada edifício (evitando, assim, o mau cheiro na zona mais turística da ci­dade), criou-se um impasse. A qual condômino caberia a árdua tarefa? Prevendo a guerra iminente nos cor­redores dos belos edifícios históricos sevilhanos, Jacinto cobra ¤ 50 men­sais dos moradores que preferem não sujar as mãos. “Já atendo 30 condo­mínios e tenho meu salário garantido no fim do mês”, comemora.


Volta por cima


Histórias como essa fazem parte de uma crescente mobilização civil que tenta reverter a situação com esforço e otimismo. O vídeo que conta o caso do “lixeiro” sevilhano é um dos mais aplaudidos no site do movimento Esto Lo Arreglamos En­tre Todos (algo como “todos juntos daremos um jeito nisso”), uma ini­ciativa da Fundación Confianza, que ajuda a difundir histórias de quem enxergou oportunidade em meio ao vendaval. A iniciativa conta com o apoio de figuras importantes no país, como o chefe de cozinha Ferran Adrià, que detectaram a necessida­de urgente de mudar a mentalidade dos jovens.


“Os espanhóis na faixa dos 20 anos não estão se dando conta de que caberá a eles trabalhar duro nos próximos anos, uma vez que desfrutaram de muitos caprichos que seus pais não tiveram”, diz o empresário Jesus Aldana, 43, dono de uma agência de publicidade di­gital que tem como clientes bancos como Caja Madrid e a companhia aérea Iberia. “As oportunidades vi­rão. Se esse pensamento for difun­dido na sociedade, encurtaremos o tempo de recuperação.”


É com esse intuito que ONGs e instituições vinculadas à adminis­tração para o fomento do trabalho e à criação de empresas adquiriram um papel ainda mais importante, como é o caso da Barcelona Activa, que ministra cursos para empreen­dedores. O resultado é visível. A jor­nalista Ana Rey, 47, perdeu seu posto na XiZ Comunicación um mês após a quebra do banco americano Leh­man Brothers, em setembro de 2008. “Nunca tinha ficado desempregada e, de repente, a crise, a insegurança e o medo me invadiram”, conta. Mas a volta por cima não tardou. Ana matriculou-se em um curso gratuito da Associação de Mulheres Empre­endedoras de Barcelona, vinculado à Barcelona Activa e, em pouco tempo, associou-se a um designer gráfico para montar a empresa de comuni­cação Tactilestudio. Ali, divide-se entre serviços de comunicação va­riados, como criação de sites para atletas e artistas conhecidos nacio­nalmente e prestação de assessoria de imprensa. “Não podemos nos queixar, temos tido muitos proje­tos”, conta. “Além do mais, fazemos o que gostamos. Não é um privilégio hoje?”. Não restam dúvidas.



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