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Com que Roupa?

O que falta para que a indústria brasileira da moda se transforme num sinônimo mundial de qualidade

Suzana Camargo, De Milão
Carlos Miele: loja-conceito em Paris

Poucas cidades no mundo encarnam tão bem o mundo da moda quanto a italianíssima Milão. Um dos pontos mais famosos e concorridos de seu circuito fashion é o chamado Quadrilatero D´Oro. Neste quarteirão, delimitado pelas vias Monte Napoleone, Borgospesso, Sant’Andrea e Spiga estão localizadas as maisons mais famosas da alta-costura, como Gucci, Armani, Dolce Gabbana, Prada e Luis Vuitton. A região, sofisticadíssima, abriga também algumas lojas brasileiras. Uma é a Osklen. A marca carioca tem lojas próprias em Milão, Nova York, Tóquio, Lisboa e Roma. Próxima à Osklen, na via della Spiga, a vitrine de uma loja de moda infantil se destaca por suas cores alegres e vibrantes. É a Lilica Ripilica, do grupo catarinense Marisol. A empresa investiu US$ 5 milhões na abertura da loja italiana. Outras de suas franquias estão presentes em outros países da Europa e do Oriente Médio.


O crescimento das exportações da moda e design brasileiros se deu na última década – em que o setor se profissionalizou a ponto de poder começar a competir nos mercados internacionais. Em 2003, foi criada a Associação Brasileira de Estilistas (Abest), com a missão de promover e fortalecer o segmento dentro e fora do país. No primeiro ano de atuação da Abest, seus associados exportaram US$ 1 milhão. Em 2008, esse valor saltou para US$ 20 milhões. Hoje, a entidade conta com 54 associados − 44 deles exportadores. “Com o atual câmbio desfavorável, as empresas precisam de muita estratégia para vender lá fora”, afirma Evilásio Miranda, gerente de projetos da Abest. Alguns têm sucesso. O estilista Carlos Miele, por exemplo, tem uma movimentada flagship store em Nova York e há pouco inaugurou outra em Paris. Alexandre Herchcovitch tem uma linda loja em Tóquio, no Japão. Com a crise de 2009, as exportações dos associados da Abest despencaram para US$ 12 milhões. No primeiro trimestre de 2010, eles já venderam US$ 4 milhões. A previsão é de que vendam US$ 15 milhões até o fim do ano.


Por mais que vários nomes já despontem internacionalmente, no entanto, eles ainda são poucos, se comparados à capacidade do setor no país. Como explicar esse descompasso? “O Brasil tem grande potencial, mas, na minha opinião, ainda precisa melhorar o modo como divulga a própria identidade”, diz Arturo Dell’Acqua Bellavitis, diretor dos departamentos de desenho industrial, comunicação e moda da Universidade Politécnica de Milão. “O problema é que, no próprio Ocidente, muita gente ainda não conhece o país ou tem uma ideia errada a seu respeito, associando-o somente às praias e ao futebol.”


Bellavitis, que já esteve algumas vezes no país, tem uma visão bastante crítica do mercado brasileiro. “Conheci a São Paulo Fashion Week e acredito que ainda há muito para ser melhorado, se compararmos com os eventos de moda em Milão ou Paris”, ele diz. “É preciso mais que desfiles − organizar conferências, discussões sobre o mercado da moda, por exemplo. Também acho que as empresas do setor precisam investir mais em comunicação.” Outro especialista italiano em moda, o economista e professor Enrico Cietta, é da mesma opinião. “Os brasileiros têm tudo para fazer sucesso em qualquer lugar do mundo”, diz. “O que me parece, contudo, é que alguns designers não acreditam no próprio potencial e acabam fazendo a mesma moda da Europa e dos Estados Unidos.”


Para ambos, entre uma boa peça brasileira de uma marca pouco conhecida e uma da Ralph Lauren de igual preço, o consumidor vai preferir a segunda. “A Osklen, por exemplo, tenta vender uma imagem europeia em Milão”, diz Bellavitis. Procurado para responder à crítica, Oskar Metsavaht, dono da grife, alegou estar “sem tempo na agenda para entrevistas”. Ainda de acordo com Bellavitis, o ideal é trazer o espírito brasileiro para a moda de uma maneira que os consumidores de outros países possam entendê-lo. “O Brasil não é só Copacabana, Rio e Nordeste. A moda brasileira precisa promover a diversidade do país e tirar proveito dela”, diz.


Um bom exemplo positivo parece ser o da marca Isabela Capeto. A estilista estudou três anos na Accademia di Moda de Florença. “Há quase 20 anos, ainda eram pouquíssimas as escolas de moda no Brasil. Ter morado na Itália me trouxe referências de arte e cultura que mudaram a minha vida”, afirma Isabela. De volta ao Brasil, a estilista trabalhou com grandes grifes nacionais, como Maria Bonita, Amor Perfeito e Lenny – e, em 2003, partiu para o voo-solo. Poucos meses depois da abertura da loja Isabela Capeto, surgiu a oportunidade de participar de um showroom em Paris. “Um agente viu jaquetas minhas e pediu para mandar algumas peças para Londres. “Os ingleses adoraram”, conta. Desde então, a exportação das roupas da marca nunca mais parou. Hoje, Isabela vende seus modelos para cerca de 20 países, em lojas badaladas, como a americana Barneys e Jeffreys, as francesas Collete e Le Bon Marche ou a Saks e a Harveys Nichols nos Emirados Árabes. Atualmente, 20% de sua produção é exportada.


As peças, feitas à mão, têm muitas aplicações de rendas, paetês, tules e passamanarias. Segundo Isabela, uma loja em Genebra, na Suíça, é sua cliente assídua desde a primeira coleção. A loja compra tanto a coleção de verão quanto a de inverno, e suas clientes buscam nas peças brasileiras um design original. Esse é um dos pontos que, segundo Enrico Cietta, fazem toda a diferença na hora de as grandes redes de lojas internacionais investirem numa nova grife. “Quando uma rede ou loja de departamentos decide vender a coleção de uma nova marca, ela faz um investimento de longo prazo. Isso significa que a grife precisa inovar constantemente em suas coleções e sempre com a mesma qualidade”, afirma.


A Salinas é outro nome que vende o Brasil com forte sotaque carioca. Desde 2002, a marca ampliou sua rede de distribuição nos Estados Unidos e na Europa, e ganhou maior notoriedade internacional. Hoje exporta para 42 países, e seus biquínis podem ser encontrados em lojas como Victoria’s Secret, Urban Outfitters e Anthropologie. Sãoaproximadamente 80 mil peças exportadas anualmente. O sucesso foi fruto de um longo aprendizado. “Começamos a exportar em 1983”, diz Jacqueline de Biase, sócia e diretora de estilo da Salinas. “Foi difícil aprender a lidar com diferentes culturas e gostos; mas, a cada ano, nossa experiência crescia”, diz. “A Salinas tem modelagens exclusivas para exportação, mas as estampas e cores são as mesmas comercializadas aqui no Brasil.”


Para o professor Enrico Cietta, as empresas precisam investir mais em marketing e comunicação – a fim de deixar clara a origem do produto. “Ainda tem gente que compra as sandálias Havaianas no exterior e não sabe que elas são brasileiras”, diz. Recentemente, o primeiro-ministro da Austrália elogiou as Havaianas e disse se orgulhar de elas serem um produto australiano. “Enviamos uma carta a ele agradecendo o elogio e esclarecendo gentilmente que a sandália é brasileira”, diz Rui Porto, consultor de comunicação das Havaianas. Há uma possível explicação para a confusão do primeiro-ministro. As sandálias fazem um tremendo sucesso na Austrália.


São vendidos, anualmente, 3 milhões de pares para uma população de 18 milhões de habitantes. Mas será que somente a marca Brasil e o estilo tropical bastam para levar um produto ao sucesso? “Não. O made in Brazil agrega, mas é preciso ter qualidade, design e uma boa imagem”, diz Rui Porto.


As tendências da moda ainda são ditadas pelas grandes maisons europeias, em especial italianas e francesas. O consumidor europeu é ávido por novidades, mas não compra uma roupa com tecido ou acabamento ruins. Qualidade é, sem dúvida, a senha para que a moda verde e amarela possa se firmar no mercado internacional. Infelizmente, segundo Isabela Capeto, nossa roupa ainda não consegue aquele acabamento perfeito que se vê lá fora. “Nós ainda não temos o maquinário para conseguir alguns detalhes, como a barra impecável dos italianos.”


Para Ricardo Ferreira, dono da Richards, outra grife que propaga o estilo de vida carioca em roupas masculinas e femininas, a questão tem raízes históricas. “Por muito tempo, o Brasil foi uma economia fechada. Essa política gerou indústrias locais focadas no mercado de massa, pouco exigente em termos de qualidade e serviços”, diz. As marcas brasileiras hoje abocanham apenas 0,5% do comércio mundial da moda, que movimenta US$ 600 bilhões anualmente. Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), também vê razões históricas para esse desempenho tão pífio. “O Brasil sempre foi muito mais voltado para si mesmo do que para o mundo. A abertura de nosso mercado só se deu a partir da década de 90 − o que, na história de um país, não é nada. As exportações do setor de moda têm apenas uns dez anos. “A chamada ida para o mundo deverá ocorrer paulatinamente”, diz Pimentel.


O italiano Arturo Bellavitis acredita ser possível acelerar esse processo com investimentos em qualidade, uma análise mais cuidadosa das demandas de cada mercado e o uso de apelos sociais, que costumam ser bastante atraentes para o consumidor externo. “Responsabilidade social sempre ajuda uma marca a vender melhor, principalmente na Escandinávia, Alemanha e França. Por que não usar mão de obra vinda das favelas?”, sugere. É praticamente unânime o entendimento de que o Brasil ainda engatinha no competitivo e glamoroso mundo da moda. Mas potencial é algo que, definitivamente, não lhe falta. “Aposto que, em mais cinco ou dez anos, veremos uma segunda geração de estilistas brasileiros fazendo grande sucesso no exterior”, diz Cietta. “Como sede das Olimpíadas de 2016, o país se tornará uma imensa vitrine para o mercado internacional.”



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