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O trunfo Brasil

Enquanto as múltis estrangeiras redobram seus investimentos no país, as brasileiras, adolescentes, capturam, aqui e lá fora, ativos de primeira qualidade enfraquecidos pela crise mundial

POR RICHARD HOUSE
Canavial paulista: as múltis de olho no etanol

Em 1808, fugindo à turbulência napoleônica que assolava a Europa, um exército de quase 15 mil aristocratas, administradores e investidores em potencial, fez do Brasil seu lar temporário, apropriando-se de usinas de cana-de-açúcar, das melhores propriedades agrícolas e de outros troféus econômicos. Levou mais de uma década para que eles se sentissem suficientemente confiantes para voltar ao Velho Mundo, quando Napoleão estava morto e D. João VI novamente ocupava o trono de Portugal.


Avanço rápido de 200 anos: uma nova flotilha de investidores que chega às praias brasileiras foge de um terror tão grande quanto Napoleão − o prenúncio da dissolução da economia unificada europeia. E, exatamente como seus antepassados, os investidores europeus contemporâneos estão de olho nos troféus mais vistosos. Energia, etanol, comunicações (não nos esqueçamos de que Pedro II foi o primeiro monarca no mundo a possuir um telefone).


A robusta economia brasileira está se revelando uma tábua de salvação para os setores econômicos europeus, atualmente em sérias dificuldades, enfrentando a sombra de colapso em seus mercados domésticos. O frágil sistema bancário espanhol, por exemplo, onde 45 cajas, ou bancos de poupança, hoje lembram bêbados apoiando-se uns nos outros. Acima deles paira, imponente, o Banco Santander, cujo robusto lucro de US$ 8,9 bilhões, no ano passado, foi obtido graças a um forte crescimento no Brasil. Por seu turno, a Telefónica e a Portugal Telecom estão engajadas numa encarniçada disputa envolvendo 6,5 bilhões de euros pelo controle da Vivo Participações, operadora brasileira de telefonia sem fio, hoje reconhecida como sendo de valor estratégico crucial para as empresas de telecomunicações ibéricas, ambas em dificuldades em seus próprios países.


Investidores em ativos no exterior injetaram dinheiro nos setores produtivos do etanol e do açúcar brasileiros: em 2008, a BP investiu US$ 560 milhões na Tropical Bioenergia. Em 2009, foi a vez de a Bunge, comercializadora mundial de grãos, investir US$ 860 milhões na usina Moema. O asiático Noble Group, de perfil semelhante ao da Bunge, também realizou um investimento de US$ 300 milhões. O mesmo fizeram a Shell e a Louis Dreyfus. Em apenas três anos, os investimentos no setor bioenergético brasileiro triplicaram.


Mas, em termos psicológicos, não há mais expressiva demonstração de crescente confiança no Brasil − e de não confiança no futuro da Europa − do que a extraordinária migração empresarial planejada pela francesa Tereos. O grupo está seguindo exatamente nas pegadas de D. João e de seus portugueses fujões, mas planeja permanecer para sempre.


Essa enorme cooperativa tem um faturamento anual superior a 3 bilhões de euros, suas raízes remontam à era napoleônica e ela cultiva as duas culturas mais subsidiadas na Europa – trigo e beterraba sacarina. Na primeira “realocação intercontinental pós-crise” dessa natureza e porte, a Tereos irá transferir o núcleo de suas operações para o Brasil após uma gigantesca oferta pública inicial de ações (IPO, a sigla em inglês), planejada para o segundo semestre de 2010, após o que a companhia passará a ter ações negociadas nas bolsas de São Paulo e Paris. Uma administração brasileira supervisionará parte de seus ativos remanescentes na Europa.


Para agricultores e acionistas franceses da Tereos Internacional existe um futuro mais confiável a ser desfrutado colhendo dividendos no lucrativo setor açucareiro brasileiro do que penando nas lamacentas plantações de beterraba, na dependência de caridosos subsídios da Política Agrícola Comum europeia e em meio a uma economia em declínio. A Tereos Internacional já convenceu a Petrobras a investir US$ 920 milhões em suas atividades com o etanol, que serão absorvidas pelas usinas de cana-de-açúcar Guarani.


Mas assim como os mimados aristocratas portugueses passaram a maior parte de seu exílio napoleônico nas proximidades do Rio de Janeiro e revelaram limitado interesse no que realmente estava acontecendo no Brasil, os analistas contemporâneos que acompanham os movimentos de capitais internacionais não se deram conta do que realmente está acontecendo abaixo da superfície da efervescente economia brasileira.


Playground tropical


O Brasil não é simplesmente um playground tropical conveniente, no qual investidores fatigados podem tranquilamente evitar uma recessão e (com exceção da Tereos) voltar para casa quando os problemas na UE tiverem passado. Trata-se de uma superpotência econômica emergente pronta para ir ao ataque, com empreendedores agressivos e capazes que já estão arrebatando ativos desvalorizados em todo o mundo. O fato de estrangeiros estarem investindo no Brasil é notícia requentada. O que há de novo é que as empresas brasileiras estão começando a atacar redutos das atividades econômicas americanas e europeias, agregando e adquirindo ativos negligenciados com supreendente vigor.


A história mostra que subestimar a independência e a engenhosidade brasileira pode custar caro. A corte de Bragança – na distante segurança de seu lar, em Lisboa – tentou reintegrar o Brasil como colônia da coroa e foi humilhada, em 1822, pela declaração de independência de Dom Pedro. A atração exercida pelo Brasil imperial sobre interesses comerciais britânicos conduziu Portugal a um declínio econômico do qual, pode-se dizer, jamais se recuperou.


Hoje, é praticamente um consenso entre investidores estrangeiros que a economia brasileira se divide em três partes. Na primeira estão os grandes expoentes da economia. Nesse território, décadas de investimento estatal produziram “campeões nacionais”, como a Vale, a Petrobras e a Embraer. Depois vêm os setores industriais, em que são necessários capital ou competência externos – como a indústria automobilística ou o setor de bioenergia. Finalmente, vêm segmentos como a hotelaria, o comércio e a manufatura. Os investidores identificaram companhias nessas áreas – como a Votorantim ou a Suzano – que tinham sobrevivido a quatro décadas de turbulência econômica e política como “apostas seguras”. Com uma previsão de 6% para o crescimento do PIB, é difícil dar um passo errado.


As adolescentes


Essa análise, porém, ignora uma classe inteiramente nova de companhias brasileiras que atingiram a maturidade durante o período de desaquecimento econômico e que agora estão prontas para assumir uma presença mundial – a “mega-agregadora adolescente”. Muitas companhias que simplesmente não existiam uma década atrás são alvo de uma febre aquisitiva, movida a testosterona e disseminada por todo o mundo.


Concentradas em setores econômicos tradicionalmente negligenciados, tanto interna como externamente, as “mega-agregadoras” brasileiras estão agora em marcha, e seus investimentos estão bradando, desafiadores, enquanto disputam ativos hoje problemáticos. São essas as empresas que devem ser observadas de perto.


É verdade que o Brasil ainda não arrebatou um grande troféu, como na compra das operações da IBM no setor de computadores pessoais pela chinesa Lenovo, ou na aquisição da Jaguar Land Rover pela indiana Tata. As multinacionais adolescentes brasileiras simplesmente não necessitam desse tipo de dor de cabeça dispendiosa quando existem alvos mais tranquilos em abundância.


A captura, em 2008, da cervejeira americana Anheuser-Busch, por US$ 52 bilhões, pela InBev, e a emergência da maior companhia cervejeira do mundo foi o passo inicial da tendência das “mega-agregadoras” brasileiras. Afinal de contas, a Brahma somente adquiriu a Antarctica em 1999. A ABInBev pode ter sua sede na Bélgica, mas ninguém duvida que os brasileiros realmente ainda estão no comando.


Não há exemplo mais espetacular do que a Hypermarcas, a autodenominada “Procter & Gamble brasileira” − talvez “Unilever brasileira” fosse uma designação mais apropriada, tantos foram os ativos anglo-holandeses que ela devorou. A aquisição da marca de preservativos Jontex, da Johnson & Johnson, por US$ 221 milhões, no segundo semestre do ano passado, nem pode ser considerada um marco na estonteante na história de aquisições da Hypermarcas, grupo especializado em produtos farmacêuticos comprados sem exigência de receita médica, cosméticos e artigos para cuidados pessoais. Em apenas uma década, a companhia adquiriu 170 marcas e 4 000 produtos. Hoje, além de ser a maior anunciante do Brasil, a Hypermarcas patrocina a equipe de futebol do Corinthians.


O fundador da Hypermarcas, João Alves de Queiroz Filho, conhecido por Júnior, vendeu sua empresa, a Arisco, para a Unilever, em 2000, por US$ 760 milhões – e imediatamente passou a competir em toda uma linha de artigos de consumo doméstico e de cosméticos, terminando por recomprar alguns de seus antigos ativos. As operações de Júnior já são muitíssimo maiores do que as da P&G no Brasil, com um lucro de R$ 3,5 bilhões em 2009 e o título de a maior “compradora serial brasileira”. Em janeiro, o BNDES, banco estatal de desenvolvimento, anunciou que poderá converter dívida em participação de capital e assumir uma fração controladora na Hypermarcas para ajudar a companhia a assumir uma presença mundial, mediante aquisições nos EUA e na Europa. Comenta-se que Júnior estaria interessado em laboratórios farmacêuticos nos EUA.


Os brasileiros sofisticados podem considerar Goiás um estado caipira, mas a região produziu outro “mega-agregador”, ainda maior que a Hypermarcas. Considere a JBS Friboi – hoje a maior companhia no setor de carnes do mundo, com vendas anuais superiores a US$ 30 bilhões e presença em cada um dos continentes. A JBS é um verdadeiro “T. Rex” vasculhando os produtores de proteína animal em todo o mundo em busca de presas fáceis. No fim de 2009, ela adquiriu a Pilgrim’s Pride, segunda maior criadora americana de frangos, em um tribunal de falências, por US$ 2,8 bilhões. Era o pior momento da recessão econômica americana. A JBS tem interesses em carne bovina, suína, couro, ovos, laticínios – e agora também em frangos.


Embora quando fundada, em 1953, a JBS fosse apenas um poeirento açougue em Goiás, em 2005 a companhia começou efetivamente a crescer. Em pouquíssimo tempo, ela devorou fatigados nomes da pecuária argentina, como Swift Armour, Bordon, Anglo, e, desde então, seguiu adiante, adquirindo tanto a marca americana Swift como as australianas National Beef e Smithfield. Incrivelmente, a JBS negociou simultaneamente a aquisição da Pilgrim’s Pride e a conclusão de uma fusão com a Bertin, sua maior concorrente brasileira.


As extremamente bem-sucedidas “multinacionais adolescentes” brasileiras parecem evitar “marcas troféus” ou de alta tecnologia, preferindo a isso nomes conhecidos já não mais na vanguarda, dos quais podem extrair enorme valor. Considere a Alpargatas, fabricante das Havaianas – a sandália de praia favorita no mundo inteiro. Em pouco tempo, a companhia poderá até mesmo abocanhar a Timberland, cujos produtos hoje licencia. Ou a Natura, uma fabricante e distribuidora de cosméticos, espécie de mescla de “Body Shop e Avon”, fundada há quatro décadas. Seu lucro líquido cresceu 32,1% (para R$ 683,9 milhões) no ano passado. A Natura mobiliza quase 1 milhão de vendedoras espalhadas por todo o continente (veja reportagem à pág 38). Ou a Braskem, produtora de derivados de petróleo, atualmente espreitando pepitas no mercado americano. Em abril, a Braskem pagou US$ 330 milhões pelas antigas operações da Sunoco com polipropileno. A siderúrgica Gerdau, cujos lucros cresceram seis vezes no primeiro trimestre deste ano, está desembolsando US$ 1,7 bilhão para assumir controle total da Ameristeel. Recente estudo da revista inglesa The Economist sugere que os bem capitalizados bancos brasileiros poderão, em breve, sair à caça de seus primos europeus mais frágeis.


Fontes de crédito


Mas quem está bancando essa onda titânica de aquisições? O vigoroso reaquecimento econômico brasileiro e o heroico financiamento do banco estatal BNDES simplesmente não têm condições de satisfazer todas as necessidades de dinheiro para bancar o crescimento nos setores público e privado. O financiamento, pelo BNDES, de 80% dos R$ 20 bilhões para a usina hidrelétrica de Belo Monte, deixa a descoberto necessidades em outras áreas.


Os mercados brasileiros de capital acionário tiveram um tórrido 2010, com uma série de IPOs a preços inferiores à faixa sugerida, e o lançamento de ações da OSX Brasil, de Eike Batista, levantou menos de um terço dos esperados R$ 9,9 bilhões. O “gorila de meia tonelada” que espreita os mercados acionários brasileiros é a planejada chamada de capital, pela Petrobras, para exploração da camada pré-sal, que engolirá toda a liquidez disponível entre os investidores institucionais brasileiros – e de fundos estrangeiros cautelosos em face da montanha-russa nos mercados mundiais.


Empréstimos de bancos combalidos a empresas em outros países não estão na pauta do dia e, de todo modo, o empresariado brasileiro é avesso a grandes alavancagens. Fundos de investimento em participações contam uma história ambiciosa, mas, em termos reais, os recursos financeiros que têm à sua disposição são pequenos: segundo a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), os fundos tinham apenas US$ 28 bilhões no Brasil no fim de 2008. É um incremento em relação aos US$ 6 bilhões em 2004 – mas ainda insuficiente para suprir as ambições mundiais. Alguns emissores – como os donos das marcas Viena e Frango Assado, que levantaram US$ 100 milhões em junho − estão tentando obter colocações privadas de investidores mais ousados, nos termos das Regras Americanas 144A.


Na pior das hipóteses, existe apenas uma fonte de capital suficiente para bancar o crescimento e as ambições das “mega-agregadoras adolescentes” brasileiras. Diante do morno crescimento das empresas americanas e de uma Europa estagnada, os fundos de pensão americanos se verão, eles próprios, tentados a financiar o crescimento de companhias brasileiras. Não apenas para ajudá-las a construir usinas de cana-de-açúcar no estado de São Paulo, mas também para adquirir ativos cada vez mais expressivos da indústria americana em seu próprio quintal.


Desse modo, é bem provável os guardiões dos mercados de capital americanos e legisladores protecionistas aprendam a pôr de lado seu orgulho quando o sino de advertência do início das sessões da Bolsa de Valores de Nova York (Nyse) for cada vez mais frequentemente tocado por empresários brasileiros. Dom João certamente reconheceria essa sensação.



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