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Made in Minas

Os mineiros triplicam, em cinco anos, o valor dos produtos que o estado vende no exterior e superam a velha sina de só exportarem paisagem

José Maria Furtado
Muito além do minério: produtos mineiros atraem compradores externos

Numa tirada, digamos, maldosamente bem-humorada, alguns mineiros costumavam dizer que Minas Gerais só exportava café e paisagem. A piada referia-se às exportações de minérios, em especial o ferro, cujas escavações sistemáticas desfiguraram muitas das icônicas montanhas do estado. Duas décadas atrás, era comum que veículos de Belo Horizonte exibissem em seus vidros um adesivo que dizia: “Olhe bem as montanhas”, deixando nas entrelinhas a conclusão óbvia: “Antes que acabem”.


Passados 20 anos, Minas Gerais ainda exporta paisagem, uma vez que o grosso de suas vendas ao exterior continua vindo dos minérios. Muita coisa, no entanto, mudou no curso dessas duas décadas. Em especial nos últimos anos, a economia mineira vem crescendo acima da média no comércio exterior, e sua pauta de exportação experimentou uma diversificação notável. Hoje, 12,7% das exportações brasileiras têm origem em Minas, tornando-a o segundo maior estado brasileiro em volumes exportados no ano passado.


Essa evolução fica patente nas estatísticas (veja tabela 1). Trata-se de um movimento que começou há algum tempo, no sentido de diversificar as exportações e, em paralelo, evoluir do fornecimento de produtos primários para outros de maior valor agregado. Até 1970, Minas exportava basicamente café, minérios, ouro, pedras preciosas e alguns poucos produtos siderúrgicos. Hoje, os mineiros exportam autopeças, automóveis (da Fiat e Mercedes-Benz), helicópteros (da Helibras, instalada em Itajubá) e produtos sofisticados de biomedicina, como válvulas artificiais para o coração e insulina.


Mas talvez um exemplo mais significativo seja o do ouro e das pedras preciosas – minerais que se confundem com a história e a identidade profunda das Minas Gerais do tempo da colônia portuguesa. Minas exportou e continua exportando muito ouro (US$ 884 milhões em 2009) e pedras preciosas. Mas os joalheiros do estado são um exemplo da mudança de perspectiva. Se antes eram exportadas apenas as pedras preciosas em bruto, agora elas são lapidadas. Muitas viram joias. O valor ainda é pequeno (US$ 20 milhões em 2009), mas as vendas tendem a aumentar.


A Vancox, de Belo Horizonte, é uma das joalherias mineiras que despontaram no comércio exterior. Dona de design reconhecido por reputadas publicações internacionais, a Vancox, de acordo com Ricardo Bronfen, seu proprietário, exportou em 2009 algo em torno de US$ 3 milhões para países árabes, os Estados Unidos, a Rússia e a América Latina (as joias da Vancox custam de US$ 1,5 mil a US$ 75 mil a peça).


Para chegar ao mercado externo, a empresa cercou-se de distribuidores em pontos estratégicos. Um deles fica em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Conquistamos mercado e até nos distinguimos perante o Conselho Mundial do Ouro por causa, também, do desenvolvimento de novas técnicas”, diz Bronfen. “O entrelaçamento de fios de metais preciosos muito finos é uma delas.” O Oriente Médio e os Estados Unidos são também mercados importantes para outra empresa de Belo Horizonte, a Talento Joias, que há oito anos tomou o rumo do exterior. Suas joias, artesanais e confeccionadas em ouro 18 quilates, têm preços que vão de US$ 100 a US$ 100 mil.


Este ano a empresa, que não tem distribuidores – as vendas são feitas apenas durante feiras internacionais –, espera exportar US$ 100 mil, praticamente o mesmo valor do ano passado. "Não crescemos, mas também não reduzimos, o que já é ótimo, tendo em vista a crise no mercado americano", diz Maria Tereza Géo, diretora da Talento.


Para sustentar a vice-liderança nacional e manter o impulso de crescimento das exportações, o governo estadual criou, em 2004, a Central Exportaminas (veja texto na pág x.), que oferece programas de atendimento às empresas exportadoras ou que queiram se lançar no mercado externo, em particular as pequenas e médias. Os resultados ainda são tímidos: os 100 principais produtos de exportação continuam a responder por cerca de 90% das exportações. Mas começam a aparecer: os 2 758 produtos que respondem pelos 10% restantes do total exportado já somam US$ 1,5 bilhão em vendas externas – em 2003, esse grupo somava apenas US$ 724 milhões. O esforço resultou na ampliação da base dos municípios exportadores. Quase um terço (266) das 853 cidades mineiras exportaram algum produto em 2008, 16 municípios a mais que no ano anterior. A renda das exportações, ainda que pareça pouca em valores absolutos, ajuda a manter a dinâmica das economias locais. Alvinópolis, na Zona da Mata, é um exemplo. Com cerca de 15 mil habitantes, a cidade tem hoje 27 produtos de exportação. Os artigos de beleza respondem por 90% dos US$ 162 mil exportados em 2009.


Alfredo Vasconcelos, também na Zona da Mata e com 6 000 habitantes, exportou US$ 62 mil em rosas. Águas Vermelhas, no norte, de 13 mil habitantes, exportou US$ 166 mil em granitos. Outros produtos estão ganhando o mundo, assim como a moda mineira, frutas, alimentos industrializados, produtos biotecnológicos e fármacos. Alguns desses itens podem ser um tanto bizarros para os padrões de consumo brasileiros. Que o diga a Pif Paf, fornecedora de pés de frango para as mesas de Hong Kong.


Consumidos como iguaria pelos chineses, contribuíram para turbinar as exportações mineiras para a China – em dez anos, elas passaram de US$ 162 milhões para US$ 4 bilhões, um crescimento de inacreditáveis 2,373%. O preço pago pelos chineses pelos melhores pés de frango é praticamente o mesmo pago pelo peito, corte nobre da ave para os paladares ocidentais. E o sabor, como fica? Os chineses fazem pratos específicos, diferentes. “O processo usado deixa o osso muito crocante, saboroso mesmo”, garante Gustavo Henrique Dias Untar, gerente comercial da Pif Paf.


No passado, por exigência do Ministério da Agricultura, os pés iam para a graxaria. Agora, só a Pif Paf exporta cerca de 3 400 toneladas por ano, o que resulta em receitas de US$ 4,7 milhões. Mas o talento do abatedouro para ocupar nichos de mercado pouco usuais não para por aí. A empresa equipou-se para tirar proveito da demanda dos costumes diferentes de outros povos. Por exemplo, o vergalho do boi, que também é muito apreciado pelos orientais. Ou o reto suíno, a parte final do intestino grosso, outra iguaria para os chineses. São exemplos capazes de convencer até os mais céticos de que Minas deixou de exportar apenas paisagem.



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