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Sabor de Casa

Longe de família e amigos, expatriados brasileiros buscam matar as saudades do país comprando produtos nacionais. Quem diria que um Guaraná Antarctica pode ser comprado na lojinha de conveniência de um posto de gasolina na Suíça?

SUZANA CAMARGO
Ana Luisa (de blusa vermelho) e uma amiga em frente à Torre de Belém, em Lisboa: matando as saudades

Há não muito tempo, um brasileiro que vivesse no exterior chegava de férias ao Brasil com uma lista pronta: a das comidas e bebidas das quais iria ma- tar as saudades assim que pusesse os pés em solo verde-e-amarelo. Nela entravam feijoada, churrasco, pão de queijo, goiabada, tapioca, pastel de feira, coxinha... e guaraná.


A bebida produzida com o ex- trato de uma fruta amazônica pode ser consumida de muitas for- mas – xarope, refresco, refrigerante –, mas há que se admitir que uma delas virou objeto de saudades do- ídas dos brasileiros expatriados: o Guaraná Antarctica. Durante anos, encontrar guaraná em outros con- tinentes costumava ser um prazer raro e caro. Mas, de algum tempo para cá, está cada vez mais fácil achar as latinhas verdes – resultado da onda de popularidade do Brasil e seus produtos no exterior e também da iniciativa de alguns empreendedores estrangeiros atentos à demanda que não era atendida.


Casada com um português, a jornalista brasileira Ana Luisa Machado mora, desde 2005, na freguesia do Estoril, em Portugal. Desde que se mudou, encontra o Guaraná Antarctica em supermercados, lojas de produtos brasileiros e alguns restaurantes e lanchonetes. “É um sabor único e que realmente faz recordar o Brasil. Sempre que tomo, lembro da propaganda Pipoca com Guaraná (famosa campanha publicitária do Guaraná Antarctica veiculada no Brasil em 1991), conta Ana Luisa. “Os portugueses conhecem e sabem que se trata de um refrigerante original do Brasil, mas acho que ainda somos nós que o compramos mais aqui.”


Quem produz o Guaraná Antarctica sob licença em Portugal, desde 2001, é a Sumol + Compal, empresa com forte presença tanto no próprio país quanto em vizinhos europeus. A companhia portuguesa oferece a bebida em embalagens PET de 1,5 litro e em lata de 0,33 litro, e as vendas do Guaraná Antarctica em Portugal chegam a aproximadamente 5 milhões de litros anualmente. A parceria entre InBev e Sumol fez com que o refrigerante brasileiro se tornasse muito mais acessível em toda a Europa e barateou o preço ao consumidor. Nas lojas, o preço de uma latinha de guaraná varia de 2,40 a 3,40 reais. O preço do refrigerante em Portugal é praticamente o mesmo de outros da categoria, diz Ana Luisa.


Lançado originalmente em 1921, pela Companhia Antarctica Paulista, o refrigerante era chamado, na época, de Guaraná Champagne. Durante anos, a garrafa e, mais tarde, a lata verde com a frutinha vermelha no rótulo mantiveram-se inabaláveis no ranking das bebidas brasileiras preferidas. Em 1999, a fusão entre Brahma e Antarctica fez surgir a Ambev, nova detentora da marca. Em 2004, foi a vez da união entre a Ambev e a belga Interbrew, formando uma nova companhia, a InBev, uma gigante mundial na área de bebidas, especialmente de cervejas.


Mesmo depois de tantas fusões, o sabor do Guaraná Antarctica se mantém o mesmo. O fruto base para a produção do refrigerante vem das plantações da fazenda Santa Helena, em Maués, pequena cidade no interior da Amazônia. Segundo refrigerante mais vendido no mercado brasileiro há décadas – só perde para a Coca-Cola –, o Guaraná Antarctica está na lista dos 15 mais comercializados no mundo todo. Para chegar lá, um acordo comercial com a PepsiCo, em 2001, deu o pontapé inicial na internacionalização do produto. A empresa americana começou a fazer o envasamento e a distribuição do guaraná em alguns países.


 


De Portugal para a Europa


Na Europa, as iguarias brasileiras costumavam ser encontradas apenas em pequenos mercados que vendiam produtos típicos de países estrangeiros – no caso do guaraná, mercadinhos brasileiros, portugueses, indianos ou sul-americanos. Na Suíça, por exemplo, onde os portugueses representam a segunda maior colônia de imigrantes do país, proliferam restaurantes, bares e mercados para atender a comunidade. E, seguindo a tradição, costumam vender a bebida brasileira.


É o caso do Delícias de Portugal, aberto há um ano em Zurique e vendedor do refrigerante brasileiro desde o começo. Mas hoje não só os pontos tradicionais oferecem o guaraná. A pouco mais de 300 metros do Delícias de Portugal, por exemplo, a loja de conveniência de um posto Shell também tem nas prateleiras a marca e o sabor conhecidos dos brasileiros.


“Todas as distribuidoras de produtos portugueses têm Guaraná Antarctica”, conta Fátima Silvestre, dona do Delícias de Portugal. “Vendo principalmente para brasileiros, mas os portugueses e suíços também compram porque acham que é uma bebida diferente, gostam de experimentar”, diz. Os quase vizinhos da loja de conveniência estão de acordo. “É uma bebida que apresenta boas vendas”, afirma Ralph Gsell, representante da distribuidora que fornece produtos para as lojas Shell.


E não somente o pequeno varejista já enxerga no guaraná brasileiro um chamariz para vendas. Desde 2007, a segunda maior rede de varejo alimentício da Suíça, o Coop, comercializa o Guaraná Antarctica. “Estamos bastante satisfeitos com as vendas desse produto. Cerca de 600 dos nossos 800 supermercados, além das lojas de conveniência Coop, oferecem o Guaraná”, afirma Bernhard Studer, gerente de bebidas do Coop.


As vendas do refrigerante brasileiro superaram as expectativas da rede de supermercados suíça. Studer admite que a empresa não conhece o perfil exato dos consumidores do produto, mas acredita que sejam latino-americanos que vivem no país, suíços que já experimentaram a bebida em viagens à América do Sul ou simplesmente pessoas que se veem atraídas pelo nome guaraná. “Eu, pessoalmente, não conhecia o refrigerante, mas minha sobrinha, que é filha de boliviano, fica muito orgulhosa em encontrar guaraná nas lojas Coop”, revela o gerente da rede. “O refrigerante atrai consumidores que apreciam tanto uma bebida energética quanto doce.”


Outra grande rede européia que resolveu investir no sabor da bebida brasileira é a espanhola El Corte Inglês. Desde a abertura do primeiro supermercado da rede em Portugal, em 2001, o guaraná já estava presente nas gôndolas. No começo, era tido como um produto exótico, mas isso mudou. “Inicialmente, o consumidor do Guaraná Antarctica era predominantemente brasileiro, mas temos registrado um aumento do consumo por portugueses”, diz Sara Nogueira, gerente de relações externas do El Corte Inglês. É somente nos supermercados portugueses da rede espanhola que o guaraná faz parte da linha contínua de bebidas. Na Espanha, o refrigerante só é vendido em campanhas pontuais.


Um traço interessante dessa recente popularização do Guaraná Antarctica em alguns países europeus é que não foi feito nenhum investimento por parte da InBev. Não há campanhas publicitárias ou de marketing sobre o produto (procurada, a InBev respondeu que não tinha informações a dar sobre o guaraná no exterior). Em Portugal, a Sumol + Compal trabalha a marca essencialmente com o trade marketing. Para a companhia, o produto ainda está numa fase de crescimento e muito longe da maturidade.


Mas, ao que parece, a rede informal de divulgação formada pelos brasileiros expatriados supre com vantagens a falta de um trabalho profissional no mercado. Radicada há cinco anos na Europa, a baiana Adjane Selva apresentou o sabor da bebida amazônica para toda a família suíça. “Meu marido adora e meu cunhado toma como energético, quando pratica esporte ou está cansado”, diz ela. “Gosto, também, de comprar quando temos convidados e preparo algum prato bem brasileiro.” Uma das maiores fãs de guaraná na casa dos Selva é a pequena Elisa, de 3 anos, nascida em Zurique. “Ela sempre pede para tomar o guaraná ártica”, conta, rindo, Adjane.



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