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06/05/2010

Entrevista: José Sergio Gabrielli de Azevedo

O presidente da Petrobras discute o impacto da descoberta do pré-sal nas novas estratégias da empresa para os mercados interno e externo

Nely Caixeta
Nossa meta é, até 2020, aumentar a produção brasileira de petróleo de 1,8 para 3,9 milhões de barris diários

As possibilidades abertas pelas gigantescas reservas de petróleo descobertas na chamada camada do présal na costa brasileira parecem, à primeira vista, ter colocado as operações internacionais da Petrobras em banho-maria. “É óbvio que um fato dessa magnitude nos faz rever prioridades”, diz José Sergio Gabrielli de Azevedo, presidente da empresa. “A produção no Brasil adquire agora uma importância redobrada.” A prioridade à frente doméstica, porém, não significa um retrocesso nos avanços alcançados pela empresa em sua atuaçao internacional, centrada, prioritariamente, na atividade de exploraçao e produçao de petróleo em águas profundas. Quando muito, a nova política congela os investimentos externos em um patamar elevado – cerca de US$ 15 bilhões deverão ser destinados, até 2013, às operações no exterior.


Petista histórico, Gabrielli, 60 anos, entusiasma-se quando se põe a descrever os avanços da Petrobras na arena internacional. “Somos hoje a maior empresa do mundo na atividade de exploração e produção em águas profundas”, diz ele, referindo-se, como de costume, à empresa sob seu comando na primeira pessoa do plural. “Em termos de valor de mercado, somos a segunda maior empresa de petróleo do mundo e a que tem o maior volume de ações negociadas na bolsa de Nova York, entre todas as estrangeiras.”


Economista formado pela Universidade Federal da Bahia, com doutorado pela Universidade de Boston, Gabrielli foi o único executivo latino-americano incluído numa lista recente dos 30 CEOs mais respeitados do mundo, divulgada por uma revista editada pelo jornal americano The Wall Street Journal. Foram selecionados executivos que conseguiram manter suas companhias longe da crise mundial e aproveitaram o momento para expandir seus negócios. No início de abril, Gabrielli recebeu a revista PIB na sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, para a seguinte entrevista, em que aborda, entre outras questões, o status global da companhia, sua presença crescente no continente africano e as implicações geopolíticas do pré-sal.


Como fica a expansão internacional da Petrobras, agora que o programa do pré-sal deve exigir muita atenção e recursos no mercado interno?


Em nosso plano estratégico 20092013, mantivemos um investimento em torno de US$ 15 bilhões para a expansão internacional. Isso porque os recursos que temos de aplicar no Brasil nas áreas de refino, transporte e logística, gás e energia e biocombustíveis são bastante grandes e concentram cerca de 90% dos nossos investimentos totais. Os 10% restantes serão investidos no exterior, pois temos de manter nossa atividade internacional, que se estende por 28 países. Nossa atividade lá fora era fortemente voltada para a atividade de exploração e produção. Na América do Sul, crescemos na área de distribuição e refino, além de já estarmos no gás. Mas vamos manter o investimento internacional em faixas bastante baixas em relação ao destinado ao mercado interno, mas não o diminuiremos. O investimento internacional no novo plano 2010-2014 será congelado nos mesmos valores anteriores.


Mas isso não é um retrocesso para uma companhia que tem a aspiração de ser uma das maiores petrolíferas do mundo?


Isso não significa que não estamos nos internacionalizando. Não só estamos presentes no exterior como somos hoje a maior empresa do mundo na atividade de exploração e produção em águas profundas. Detemos 22% da produção mundial em águas profundas. O segundo maior, a Exxon, tem 14%. Dos 252 equipamentos de produção flutuantes do mundo, temos 46, enquanto o segundo colocado nessa categoria tem 15. Em termos de valor de mercado, a Petrobras é a segunda maior empresa de petróleo do mundo. Somos a empresa internacional com o maior volume de ações negociadas na Bolsa de Nova York, entre todas as companhias estrangeiras. Apenas em 2009, captamos US$ 32 bilhões no mercado internacional. Em termos de reserva de produção, a Petrobras é a quarta maior. Em termos de refino, é a sétima. Em termos de produção, deve estar entre a oitava e nona posição. Portanto, ela já é uma das grandes empresas de petróleo do mundo.


Como a companhia pretende priorizar sua atuação no exterior a partir de agora?


Você não pode estar em todos os lugares do mundo, pois não há petróleo em águas profundas em todos os lugares. Estamos extremamente bem posicionados nas principais áreas de exploração em águas profundas, como o Golfo do México, nos Estados Unidos, onde possuímos mais de 200 blocos exploratórios, e a costa oeste da África – em Angola, Namíbia, Nigéria, Senegal. A Petrobras está também no Mar Negro, que é uma fronteira exploratória importante. Não estamos no Mar do Norte nem no Ártico. Estamos onde está o petróleo de águas profundas.


Qual é o peso da África para a Petrobras internacional?


Embora nosso principal investimento internacional seja nos Estados Unidos, nosso maior crescimento de produção vem da Nigéria, país em que operamos em parceria com a Chevron e a Total. Nosso crescimento de produção no período até 2020 deverá vir principalmente da Nigéria. Além disso, estamos ampliando nossa presença em Angola, na Namíbia, no Senegal e na própria Nigéria. Estamos presentes, também, na Líbia, nesse caso em terra, e temos atividade na Tanzânia. As perspectivas são promissoras em razão da similaridade geológica dos dois continentes (África e América do Sul), que se separaram 150 milhões de anos atrás.


As atividades lá fora vão responder por que fatia na produção de petróleo da Petrobras?


Não devem passar de 10% nos próximos cinco a dez anos. Nossa meta para 2020 é produzir 3,9 milhões de barris por dia no Brasil. Haverá um crescimento da produção doméstica em 1,8 milhão de barris por dia até 2020, elevando em 1,3 milhão de barris por dia o refino de petróleo no país. Ao crescer no refino, vamos ter maior capacidade de exportar derivados de petróleo e petróleo cru. Em suma: vamos produzir mais e exportar mais. A tendência é que, em 2020, estejamos exportando mais de 500 mil, 600 mil barris por dia líquidos.


A Petrobras planeja ter mais refi narias no exterior?


Não temos, neste momento, nenhum plano de comprar refinarias lá fora. Possuímos quatro refinarias no exterior: duas na Argentina, uma nos Estados Unidos e uma no Japão, na ilha de Okinawa. Essas refinarias precisam ser melhoradas operacionalmente, mas não há nenhum plano de aquisição de novas. Nossa prioridade é aumentar o refino no Brasil.


A Petrobras já entrou na distribuição de combustíveis na Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e Colômbia. Comprar postos, agregar valor ao produto, cuidar da marca – pode-se esperar mais disso da Petrobras no futuro?


Não necessariamente. Hoje somos uma empresa, na área internacional, fortemente concentrada na exploração e produção. Não somos uma empresa voltada para o varejo.


Mas pretendem ser, com todo esse petróleo que vai sobrar no Brasil?


Não necessariamente. O petróleo é uma commodity internacional. A nossa expectativa é que não haverá nenhuma dificuldade em colocar os produtos lá fora. É muito grande a necessidade de nova produção para atender à demanda futura. Hoje ela se situa em torno de 85 milhões de barris diários. Em 2020, será preciso adicionar novas áreas ou um novo tipo de combustível, pois a demanda deverá aumentar entre 35 milhões e 65 milhões de barris/dia. Portanto, a demanda mundial vai crescer, mas a oferta não. A produção de petróleo declina entre 7% e 10% ao ano. Temos, então, de encontrar novas áreas para substituir aquelas que declinarão. Precisaremos, a cada ano, acrescentar de 600 a 900 mil barris/dia à produção somente para repor esse declínio.


Empresários da indústria do álcool queixam-se de que a Petrobras não tem cumprido a promessa de investir pesado na produção de etanol. Como o senhor vê essas críticas?


Estamos analisando 30, 40 usinas para comprar, mas é preciso que haja condições ambientais, sociais, legais e econômicas para que possamos adquiri-las. Não podemos, por exemplo, entrar em uma indústria que esteja localizada em áreas ambientalmente não recomendadas. Não podemos entrar em uma indústria que tenha trabalho escravo ou em uma que esteja competindo com a produção de alimentos. Há uma série de restrições que precisamos levar em conta nessa nossa análise.


Mas essa análise não está levando tempo demais?


O importante é o seguinte: temos hoje, provavelmente, o programa de investimento mais agressivo na área de etanol no Brasil. Então, vamos crescer. O maior mercado consumidor de etanol combustível do mundo é o Brasil. Nenhum outro país tem hoje mais da metade do combustível para veículos leves vindo da cana. A nossa perspectiva é que, até 2020, o mercado doméstico consumirá dois terços de álcool e um terço de gasolina. Então, é evidente que no Brasil o álcool como combustível veio para ficar. Nós ainda não conseguimos fazer com que o mercado internacional cresça na mesma velocidade. Mesmo assim, ele já é muito grande. Nos Estados Unidos, o álcool já representa mais de 8% do combustível para veículos leves. É o maior mercado do mundo. Só que usa o álcool do milho. Os Estados Unidos são o maior produtor de álcool do mundo, mas produz mal, pois o álcool do milho é ineficiente. Então, nossa expectativa é de que haverá um crescimento internacional do uso do álcool extraído da cana. A Petrobras prepara-se para isso.


A boa notícia da descoberta de tanto petróleo na costa brasileira traz também inquietação. As principais regiões produtoras de petróleo mundiais costumam ser palcos de disputas e guerras. O Hemisfério Sul estará a salvo dessas confl agrações?


Ao longo de seus 150 anos de história, o petróleo sempre esteve ligado a questões geopolíticas. Durante muito tempo, foi produzido principalmente nos Estados Unidos, depois na Rússia, no Oriente Médio e, em seguida, espalhou-se para outros diferentes lugares. Estamos vendo surgir agora novas fronteiras de produção no mundo. Temos as areias betuminosas do Canadá, o petróleo extrapesado da Venezuela, o pré-sal brasileiro, o chamado shale gas nos Estados Unidos, o petróleo do Ártico. A maior parte da produção atual de petróleo está hoje em uma área muito conflagrada, política e militarmente, que é o Oriente Médio. Evidentemente, com o pré-sal, o Atlântico Sul adquirirá maior relevância geopolítica. O mais importante, porém, é que essa riqueza gerada pelo petróleo provocará impactos enormes na sociedade – e, quanto mais você criar mecanismos para que essa renda gigantesca que virá do petróleo beneficie a sociedade, menos problemas você vai ter. Acredito que a proposta que está no Congresso Nacional, de discussão do novo marco regulatório, terá um impacto enorme sobre elementos como educação, saúde, cultura, desenvolvimento tecnológico e programas de combate à pobreza. O impacto do pré-sal, portanto, será muito positivo.



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