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05/05/2010

O último Eldorado

Empresas brasileiras já são players dominantes em Angola e Moçambique e disputam com os chineses os mercados promissores da África

Marco Antônio Rezende
Compradora em Maputo: produtos brasileiros para um mercado em expansão

São 8 horas da noite e faz um calor abafado na capital de Angola, quando o velho Boeing 707 da FAB, conhecido como Sucatão, estaciona no pátio do aeroporto de Luanda. É a primeira escala de uma viagem de quatro dias que o levará a pousar também na capital de Moçambique, Maputo, e na cidade de Johannesburgo, África do Sul. O primeiro a descer a escada é o ministro da Indústria, Comércio e Desenvolvimento, Miguel Jorge, seguido por funcionários do BNDES, Petrobras e quase uma centena de empresários e executivos de empresas brasileiras de todos os setores e portes.


No grupo estão representantes de gigantes como Embraer, Brasil Foods e Usiminas e pequenas e médias empresas aguerridas e inovadoras. Alguns exemplos: Boutique de Aromas, fabricante de cosméticos e aromatizadores de Panambi (RS), Green Winds, que produz móveis com madeira certificada em Belém (PA), e Brastex, da cidade de Paulista (PE), uma tecelagem de panos de chão e cozinha fabricados a partir de descartes da indústria têxtil e de confecções. Também integram o batalhão, armados de projetos, amostras e catálogos, executivos de algumas das maiores empreiteiras do país – pesos pesados como Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Corrêa e Odebrecht.


O objetivo de todos, estimulados pelo governo brasileiro, é estar na linha de frente da ofensiva para conquistar espaço precioso na última fronteira econômica relativamente inexplorada no mundo: a África. Um mercado em crescimento acelerado e pronto acolher quem tiver os produtos, tecnologia, serviços e financiamentos de que o continente precisa.


 


A África austral decola


Terminadas as guerras civis em Angola e Moçambique e enterrado o apartheid na África do Sul, a África Austral começou a decolar. Com o PIB se aproximando dos US$ 100 bilhões, Angola vem crescendo perto de 20% ao ano desde 2005, graças às grandes reservas de petróleo, que lhe garantem 2 milhões de barris diários. A economia de Moçambique, segundo dados do Banco Mundial, é a segunda a crescer de modo mais rápido e sustentável em toda a África, com média de 8,2% nos últimos dez anos. A África do Sul, por fim, um país no centro das atenções por sediar a Copa do Mundo de Futebol deste ano, é a maior economia africana, com um PIB per capita praticamente igual ao brasileiro – quase US$ 10 mil. A


Odebrecht, pioneira em Angola (chegou em 1984, em meio à guerra civil), é hoje uma potência local: país praticamente sem rede de água maior empregadora do país, com quase 30 mil funcionários, a companhia está presente em setores tão diversos quanto construção pesada, projetos imobiliários, supermercados, mineração de diamantes e etanol. A mineradora Vale é, em Moçambique, o que a Odebrecht é em Angola. Perto da cidade de Tete, no norte do país, a Vale está investindo na mina de carvão mineral de Moatize, a maior reserva do hemisfério sul, US$ 1,3 bilhão, o equivalente a um sétimo do PIB do país, de US$ 9 bilhões. Na África do Sul, onde chegou em 2001, a gaúcha Marcopolo tem duas fábricas de ônibus, já exporta para outros países africanos e teve o prazer de vender os 460 ônibus que serão usados na Copa 2010 pelas delegações e grupos vips da Fifa. Nessa disputa, a Marcopolo teve como concorrente a coreana Hyundai, uma das patrocinadoras oficiais do evento.


“A estratégia do governo Lula de aproximação efetiva do Brasil com a África e demais países em desenvolvimento é reconhecida como um acerto da nossa política externa”, disse a PIB o ministro Miguel Jorge. “O sucesso econômico dessa integração é evidente.” O presidente Lula visitou 19 países africanos desde 2003, e o próprio Miguel Jorge organizou três missões com centenas de empresários a 11 países do continente em 2009. O objetivo é estimular exportações e apoiar investimentos diretos na África. Segundo estimativa do jornal Financial Times, empresas brasileiras investiram US$ 10 bilhões na África desde 2003. E o fluxo comercial entre o Brasil e os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (conhecida pela sigla SADC, em inglês) passou de US$ 1,8 bilhão para US$ 8 bilhões entre 2004 e 2008.


Muitos empresários colheram frutos desse incremento. “A África é um continente praticamente powerless, diz Wilson Poit, que fundou a sua Poit Energia em São Paulo, há dez anos, e já tem filiais na Argentina, Peru e Chile. A Poit fornece infraestrutura temporária – aluga geradores, galpões e contêineres refrigerados. “Vamos ser os maiores na América Latina e queremos estar também na África”, diz. Há um mercado e tanto a sua espera. Só 12% do território angolano dispõe de eletrificação, e o sistema é tão precário que ocorrem apagões diários.


Energia é também o negócio da Romagnole, de Curitiba, que fatura quase R$ 400 milhões por ano produzindo transformadores de distribuição e equipamentos elétricos. Até aqui, apenas 10% das vendas eram feitas no exterior. Essa porcentagem crescerá com a África. Em Moçambique, a Romagnole assinou contrato para iniciar, já em 2010, a produção de transformadores, inicialmente com partes produzidas 100% no Brasil. Parceiros locais têm 20% do negócio. Em Angola, a empresa procura vender não só produtos como também sua expertise em gestão e treinamento, segundo Flávio Izzo, da área internacional da empresa.


Na região de Catumbela (terra da morena que, segundo Chico Buarque, “traz o chocalho amarrado na canela”), a empresa Pipe Sistemas Tubulares, de Contagem (MG), vai iniciar, em 2011, a produção de tubos a partir de aço brasileiro. Começa com 50 empregados, num projeto que conta com apoio da ApexBrasil e financiamento do BNDES. “A empresa já estava consolidada no mercado brasileiro, era hora de internacionalizar”, diz Luiz Lapa, diretor de operações na África. A Pipe começou exportando para Angola. “Mas exportar tubos é como exportar ar, não agrega valor”, diz Lapa.


 


Água mineral Xuá, de Juiz de Fora


 


Quem também decidiu apostar no surpreendente mercado africano para agregar valor à marca foi outra empresa mineira, a produtora de água mineral Xuá, de Juiz de Fora. Até agora, ela exportava para Angola 20 contêineres por mês repletos de garrafões plásticos de 20 litros. Num país praticamente sem rede de água potável, cada um deles é vendido no varejo a US$ 25. Durante a visita da missão comercial brasileira, Giancarlo Nardy, gerente de marketing da empresa, alinhavou um acordo com um sócio angolano para produzir in loco. “Conseguimos um parceiro dono de uma fonte comprovadamente mineral e temos também o apoio do Banco Popular de Crédito, que financiará o empreendimento.” Segundo Nardy, “a África é um mercado promissor para quem tem experiência na gestão do negócio”.


Em 2001, um ano antes do acordo que formalizou o fim da guerra civil, o engenheiro pernambucano Antonio Carlos Perruci criou sua própria empresa – ATP Engenharia – em Luanda. Não se arrependeu. “Angola é um país de grandes oportunidades: é comum que empresas de porte médio, subcontratadas de grandes empreiteiras, tenham em seu portfólio contratos de US$ 80 a US$ 200 milhões”, diz ele. E as brasileiras são, obviamente, beneficiadas pelas afinidades entre os dois países – entre elas, ainda segundo Perruci, o fato de o Brasil ser um país rodoviário e de Angola estar seguindo a mesma trilha.


As maiores afinidades, porém, são a língua portuguesa comum e a própria história. Quase metade dos 3 milhões de africanos trazidos para o Brasil como escravos, entre os séculos 18 e 19, saíram de território angolano. “Os angolanos gostam do jeito brasileiro, aquela história de churrasco e violão”, diz Perruci. “Além disso, os brasileiros falam primeiro de família, a seguir de futebol e só depois de negócios. Os demais estrangeiros só falam de negócios e depois vão embora.”


Outros brasileiros que empreenderam em Angola também se deram bem. Lincoln Nunes, ex-funcionário da Odebrecht, abriu em Luanda um restaurante por quilo chamado Panela de Barro, que hoje tem várias filiais. Como Lincoln, muitos outros engenheiros e executivos deixaram seus empregos em empresas brasileiras em Angola para abrir seus próprios negócios. Hoje eles estão presentes em setores tão diversos quanto o de limpeza pública, transporte urbano e importação de produtos de qualidade. Outros emigraram para empreender. Paulo Emmanuel de Albuquerque trocou Santa Cruz do Capibaribe (PE) por Luanda há seis anos para criar a rede de lojas populares Brasuca, abastecida com trajes e calçados comprados em São Paulo. Já tem oito lojas e pretende levar sua marca a todas as 18 províncias angolanas.


Sonolenta e com pouco mais de 400 mil habitantes até a independência, nos anos 70, Luanda hoje abriga mais de 5 milhões de habitantes por conta do afluxo de pessoas que fugiam dos combates no interior do país. A repentina riqueza do petróleo inundou a precária malha viária da cidade de SUVs e milhares carros particulares, que agora provocam engarrafamentos intermináveis. No trânsito permanentemente congestionado, ambulantes vendem água mineral, óculos escuros, celulares e até tênis aos motoristas e passageiros – há tempo de sobra para experimentar cada pé e ainda regatear o preço.


Certa sensação de caos, desorganização e precariedade paira sobre praticamente toda Luanda, uma cidade dividida entre a vida opulenta e segregada da pequena parcela dos muitos ricos – retratada semanalmente na revista Caras Angola – e a pobreza da maioria, que vive em barracos nos musseques, favelas insalubres, que proliferaram desordenadamente durante a guerra. O ponto de encontro dos ricos é o Miami Beach Club, restaurante e discoteca de luxo na chamada Ilha de Luanda, península diante da litorânea Avenida 4 de Fevereiro. O local é propriedade de Isabel dos Santos, filha mais velha do presidente, José Eduardo dos Santos. Isabel é considerada uma empresária de grande sucesso. Há alguns meses, a primeira-dama Ana Paula Santos organizou no Miami uma grande festa beneficente, com dois convidados trazidos do Brasil: os atores Grazi Massafera e Cauã Reymond. A revista Caras Angola, controlada por Tchizé dos Santos, outra filha do presidente, deu ampla cobertura. Nas ruas, boa parte do transporte público é feito de modo anárquico pelos candogueiros (perueiros). Nas calçadas, os quínguilas (ambulantes) vendem frutas e todo tipo de mercadoria, dividindo espaço com podólogos que cuidam dos pés de clientes ao ar livre.


Ouvidos pela revista PIB, diplomatas e executivos brasileiros que vivem em Angola asseguram que não há mais problemas de violência ou crime em Luanda do que nas cidades brasileiras. Como no Brasil, diante de cada edifício comercial, loja ou residência há um segurança – lá chamado de “o tropa”. Enquanto esperavam o ônibus diante do hotel, na Avenida Comandante Ginka, alguns membros da missão comercial testemunharam o ministro angolano do Turismo, Pedro Mutindi, caminhando tranquilamente do outro lado da rua a caminho de casa – sem seguranças e mancando por causa da prótese que substituiu um pé perdido na explosão de uma mina durante a guerra civil.


 


Em Angola, parcerias com empresas do governo


 


Um consultor brasileiro que presta serviços a empresas de engenharia em Luanda atesta que também o ambiente de negócios é positivo, com pleno respeito por contratos e segurança jurídica. “Até os pagamentos suspensos no auge da crise mundial, no primeiro semestre de 2009, já foram normalizados”, ele diz. Os angolanos gostam de fazer as coisas no ritmo deles – “nas calmas”, como costumam dizer. Ainda segundo o consultor, o caminho dos negócios sempre envolve parcerias locais, em geral com empresas estatais ou autoridades do governo do presidente José Eduardo dos Santos. No poder há 30 anos e prestes a ser reeleito para mais um mandato, o presidente José Eduardo conseguiu encerrar a guerra civil em 2002, quando morreu o líder rebelde Jonas Savimbi, dando aos seus principais seguidores postos no governo angolano.


Uma das empresas brasileiras mais internacionalizadas, presente em duas dúzias de países, a Odebrecht tem em Angola um dos seus principais mercados, graças ao volume de negócios. “No que se refere à demanda, as oportunidades na África são infinitas”, diz Humberto Rangel, diretor de desenvolvimento de negócios do grupo em Angola. “Tudo está por ser feito”, diz. Mas adverte: “Os países africanos que realmente oferecem bom apelo a empresas brasileiras são os superavitários – leia-se vendedores de petróleo –, como Argélia, Líbia, Egito, Nigéria, Angola e poucos outros.”


O PAC de Angola se chama Plano Nacional de Reconstrução e, como o nome diz, é uma coleção de projetos milionários para reconstruir a infraestrutura do país, devastada pela guerra civil. Em Luanda, placas com o nome da Odebrecht anunciam a presença da empresa em inúmeros desses projetos – como o novo aeroporto internacional da capital, a nova avenida que o liga a Luanda, novas rodovias asfaltadas e hidrelétricas. “Antes, trabalhávamos principalmente para o governo”, diz Rangel. “Agora, a tendência de mais parcerias com agentes privados é crescente, embora o setor público continue importantíssimo.” A Odebrecht está entrando também em novos setores, como indústria e agricultura. A Biocom, joint venture da empresa com a estatal Sonangol (a Petrobras angolana) e o grupo privado local Damer, está implantando uma usina de cana-deaçúcar para produzir anualmente 30 milhões de litros de etanol, 250 mil toneladas de açúcar e 160 mil megawatts/h de bioletricidade. O plantio vai ocupar 30 mil hectares, e sua prioridade inicial será a produção de açúcar – um item hoje 100% importado em Angola.


Outro parceiro relevante da empreiteira brasileira é o grupo GAM, do bilionário e jet setter angolano Antonio Mosquito. As duas empresas estão juntas em empreendimentos imobiliários residenciais e comerciais. O primeiro shopping center angolano, o Belas Shopping de Luanda, foi construído pela Odebrecht. O primeiro condomínio fechado de alto luxo do país também. Casas de quatro suítes são comercializadas por US$ 5 ou 6 milhões, e o aluguel mensal não sai por menos de US$ 25 mil.


No projeto Catoca, dedicado à extração de diamantes na região nordeste de Angola, a Odebrecht (dona de 17% da joint venture) opera em parceria com a estatal Endiamo, o grupo russo Alrosa e o bilionário israelense de origem uzbeque Lev Leviev, o homem que acabou com a hegemonia da sul-africana De Beers no mercado mundial de diamantes. O Catoca terá receitas anuais de exportação de US$ 1 bilhão. Mesmo com a retração dos preços do mercado de diamantes gerada pela crise de 2008, a Catoca é importante em Angola porque emprega muita mão de obra numa região particularmente pobre do país. Até poucos anos atrás, o combustível para as obras no garimpo era levado de avião. Agora chega por uma estrada também construída pela Odebrecht.


 


Pacote completo das empresas chinesa


 


As empreiteiras e demais empresas brasileiras na África batem de frente com a concorrência crescente de empresas chinesas. “Estamos habituados, pois já enfrentamos russos, americanos, italianos e outros concorrentes fortes em várias partes do mundo”, diz Rangel, da Odebrecht. “A gente pode escolher praça, produto e cliente, mas concorrente não.” Rangel brande as armas da Odebrecht: conhecimento e tradição no mercado e maior capacidade de articulação e formação de parcerias locais.


O fato é que a influência crescente da China no mundo se mostra de modo particularmente visível na África. Depois de Lula, o estadista de peso que mais países africanos visitou foi o presidente chinês Hu Jintao. Entre 1992 e 2008, o fluxo comercial entre China e África disparou de US$ 4,1 bilhões para US$ 107 bilhões. Empresas chinesas constroem estradas, hidrelétricas, ferrovias, edifícios públicos e investem pesadamente em recursos naturais, sobretudo em mineração e petróleo.


Na área de infraestrutura, empresas chinesas oferecem pacote completo: projeto, execução, mão de obra e, sobretudo, financiamento. Dinheiro não falta: só em títulos do Tesouro americano estima-se que, no fim de 2009, o governo chinês acumulava em seus cofres cerca de US$ 2 trilhões. Apenas em Angola, o China Development Bank (o BNDES chinês) financiou no passado projetos no valor de US$ 8 bilhões, todos tocados por empresas chinesas.


Mas, segundo Rangel, a Odebrecht tem um diferencial importante: a inserção social. “Quase 95% da nossa equipe de colaboradores locais são angolanos. A curva chinesa é inversa: 95% da equipe vem da China”, estima Rangel. De fato, nos canteiros de obras chineses se veem quase que só chineses.


Do outro lado do continente, em Maputo, capital de Moçambique situada na belíssima costa do oceano Índico, a presença chinesa também é ostensiva. Na Avenida Karl Marx, uma grande placa em português, diante de um novo edifício em obras, anuncia: “Construção de alto nível em prol da amizade Moçambique– China”. Na Avenida 10 de Novembro, a nova sede do ministério das Relações Exteriores, construção moderna em estilo neossoviético, reluz como outra empreitada chinesa.


Apesar de 56% do orçamento moçambicano derivar de doações e da cooperação internacional, tratase de um “país pobre-rico”, como o define um diplomata brasileiro em Maputo. Tem grandes reservas minerais e enorme potencial petrolífero. A Petrobras, que já explora petróleo em Angola em parceria com a Sonagol, em Moçambique é parceira da ENH (a Petrobras moçambicana) na prospecção de petróleo e gás natural, pesquisa para produção de biodiesel a partir da jatrofa, oleaginosa abundante no cerrado local, além de álcool de cana-de-açúcar. Em sociedade com a poderosa Petronas, da Malásia, a estatal brasileira obteve um bloco de exploração de petróleo na foz do Rio Zambesi.


 


Tecnologia dos cerrados para as savanas


 


Outra estatal brasileira de peso presente nos dois países é a Embrapa. “Nossos desafios são similares e temos de crescer juntos”, diz o presidente da estatal, Pedro Arraes Pereira. “No Brasil, pelo menos 250 milhões de cabeças de gado têm como alimentação básica pastos tropicais, como a brachiaria, trazida da África. Agora, melhoradas, essas pastagens podem retornar ao continente africano”, diz Arraes. A Embrapa, cujas pesquisas foram decisivas para a expansão do agronegócio no Brasil, busca agora transpor seu enorme conhecimento e experiência em agricultura tropical para terras africanas – em especial nas regiões de cerrado, outro traço comum entre o Brasil e inúmeros países africanos.


O megaprojeto de extração de carvão mineral de Moatize será essencial para a entrada da Vale na siderurgia, a maior virada estratégica na história da empresa (veja quadro na pág 46). A onipresente Odebrecht é uma parceira importante da Vale no projeto Moatize, como encarregada de boa parte das obras de infraestrutura: do novo aeroporto internacional de Nacala, perto da mina de Moatize, ao terminal de carvão do Porto da Beira, único de águas profundas da costa leste africana, projeto em que a Camargo Corrêa tem uma participação de 50%. A maior obra da Camargo Corrêa em Moçambique é a barragem de Mphanda Nkuma, que praticamente dobrará a capacidade energética do país quando for inaugurada, em 2013.


“Moçambique tem um histórico de estabilidade política que é muito interessante para atrair inves-timentos”, diz Alexandre Ribeiro, diretor da Camargo Corrêa no país. A empresa desembarcou em Angola em 2005, com foco em infraestrutura pública e, no ano seguinte, instalou-se em Moçambique. “Com abundância de recursos naturais, o país oferece grande potencial na geração de energia hídrica, térmica e renovável, fontes cujo mercado se estende por toda a África Austral”, diz Alexandre.


O mais novo big player brasileiro no rico mercado africano de matérias-primas é a CSN. Há dois meses, a empresa comprou 16,3% da Riversdale de Moçambique, mineradora de origem australiana na qual a Tata Steel indiana tem forte participação. “O Brasil tem um enorme capital de simpatia na África, é visto como o irmão mais velho que deu certo na vida”, diz o consultor brasileiro Eduardo Rio Branco, que trabalha há anos em Maputo. Os moçambicanos são fãs de produtos brasileiros. No novo Maputo Shopping, a loja Poko Pano vende disputados biquínis importados do Brasil. Em frente, uma franquia de O Boticário vende cosméticos e perfumes (o feminino Floratta in Blue custa US$ 40 e o masculino Quasar, US$ 45).


 


Ônibus da Marcopolo para a Fifa na Copa do Mundo


Nas mercearias e supermercados, outras marcas brasileiras brilham: Sadia (frangos), Kitano e Yoki (cereais), Bauducco (biscoitos e massas). A TV Miramar, controlada pela Rede Record brasileira, é popularíssima. Exibiu, recentemente, a novela Os Mutantes e, por causa dela, ainda é comum ver crianças brincando de zumbis em Moçambique. Todo moçambicano parece saber que o presidente Lula doou a Moçambique US$ 13,6 milhões em antirretrovirais, um alívio crucial para um país em que a aids é endêmica.


A 500 quilômetros de Maputo, em Johannesburgo, na República Sul-Africana, a marca brasileira mais conhecida é a gaúcha Marcopolo. Desembarcou no país há dez anos e hoje, com uma fábrica de ônibus, é uma das mais importantes empresas sul-africanas. Bastaria o fornecimento de ônibus para a Copa do Mundo como evidência do prestígio da empresa no país, mas há outra prova: seu diretor-geral tem assento no board da Business Unity South África (Busa), a CNI local.


A presença brasileira na África do Sul é menos vistosa que em Angola e Moçambique, mas é igualmente crescente. A Sadia – agora Brasil Foods – domina 14% do mercado de frangos consumidos no país. Na África do Sul, onde se tornou conhecida usando como ferramenta de marketing os concursos de beleza, O Boticário tem uma rede franqueada com várias lojas. A Busscar, outra empresa de ônibus, exporta ônibus completos para um importador local, ex-funcionário da empresa.


O fluxo comercial entre Brasil e África do Sul mostra que, nessa relação, o céu é o limite. O comércio bilateral passou de US$ 659 milhões em 2003 para US$ 2,5 bilhões em 2008, com superávit médio anual a favor do Brasil de US$ 1 bilhão.


O BNDES tem sido um protagonista discreto, mas decisivo, no processo de internacionalização das empresas brasileiras e na conquista de novos mercados, em particular na América Latina e na África. Apenas em Angola, o banco destinou US$ 1,8 bilhão a projetos e empreendimentos brasileiros. Segundo Luciene Ferreira Machado, chefe de seu departamento de comércio exterior, esse é um passo a mais numa jornada que começou há 20 anos, quando o BNDES passou a financiar exportações para mercados convergentes com a política externa brasileira. “Agora, na fase de internacionalização, a estratégia é apoiar empresas que possam se tornar players globais.” No caso de Angola e Moçambique, segundo Luciene, a instituição apoia os projetos de reconstrução da infraestrutura que beneficiem as exportações e empresas brasileiras, mas também que contribuam para o desenvolvimento da mão de obra local.


Que diferença da política externa de algumas décadas atrás. Em 1972, no auge da ditadura militar brasileira, o general Emilio Garrastazu Médici, então presidente, visitava em Lisboa o ditador português Marcelo Caetano para celebrar o sesquicentenário da independência do Brasil e uma pretensa “comunidade afro-luso-brasileira” – um pretexto retórico para o Brasil apoiar a política colonialista portuguesa da época, conduzida a ferro e a fogo. Pouco depois, sob a presidência de Ernesto Geisel, numa virada notável, o Brasil se tornou o primeiro país a reconhecer a independência de Angola e Moçambique. Agora é difícil achar em Luanda, Maputo e em toda a África Austral país que esteja melhor na foto que o Brasil.




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