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Dez 2009/Jan 2010

Alessandro Teixeira: “Acordamos para a internacionalização”

O presidente da Apex afirma que a internacionalização das empresas brasileiras se tornou uma política de governo

Nely Caixeta
Alessandro Teixeira: Brasil e China estão em patamares semelhantes de internacionalização

Ele é uma espécie de embaixador comercial do país. No comando da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e da World Association of Investiment Promotion Agencies (Waipa), Alessandro Teixeira roda o mundo para promover, de um lado, as exportações de produtos e serviços do Brasil e, na mão inversa, atrair investimentos estrangeiros para o país.

Debaixo do braço, leva um presente feito sob encomenda: um livro de história do Brasil, para que o interlocutor entenda de onde saímos e para onde vamos. “Temos comércio externo aberto há menos de 20 anos. Somos crianças. Mas nosso resultado já é o de um adulto”, diz esse gaúcho de 37 anos, doutor em Economia pela Universidade de Sussex, Inglaterra. Teixeira aposta que, em dez anos, a robustez das multinacionais brasileiras levará o país a investir US$ 70 bilhões em terreno estrangeiro – o triplo do verificado em 2008, ano histórico para o setor.

Ele lança mão dos dados chineses para afirmar que o Brasil e a China estão em patamares semelhantes de internacionalização. “Um pouquinho a mais, no caso da China”, ressalta. E é em terreno oriental que ele prepara o salto brasileiro. A Apex-Brasil abriu um centro de negócios em Pequim, há sete meses, e trabalha para fazer da Expo Xangai
2010 a maior apresentação já levada pelo Brasil ao exterior – momento estratégico para que o país se posicione no mercado asiático.

Mas não só os emergentes estão em sua mira. A unidade da Apex-Brasil em Cuba, lançada há um ano, já conta com seis empresas brasileiras de malas prontas para investir em uma das economias mais fechadas do globo, porém com as portas abertas para o Brasil.

*

Como o senhor avalia o desempenho das empresas brasileiras no exterior?
Os números do Brasil são estonteantes. Até 2002, o país praticamente não investia em negócios no exterior. A internacionalização da economia brasileira começa, para valer, a partir do final de 2003. Foi ali que damos o pulo. Antes, a média anual dos investimentos das empresas nacionais no exterior não chegava a US$ 1 bilhão. Em 2008, atingimos US$ 21 bilhões. Para este ano, eu calculo que, se conseguirmos investir entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões, estamos muito bem.

É esse o tamanho do estrago provocado pela crise financeira?
Segundo a Waipa, o fluxo do investimento direto estrangeiro em todo o mundo deve cair neste ano cerca de 40%. Em 2008, atingiu US$ 1,8 trilhão, um recorde. Trabalhamos com a expectativa de atingir US$ 1,2 trilhão neste ano e subir para 1,5 trilhão em 2010.

Que oportunidades o senhor enxerga para as empresas brasileiras nesse novo mundo pós-crise?
Com a rápida recuperação da economia brasileira, fala-se que o governo estaria examinando a possibilidade de usar parte das reservas cambiais, em alta, para incentivar a internacionalização das empresas nacionais.

Como está essa discussão?
Estamos discutindo várias possibilidades. Quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou em maio de 2008 a criação do Fundo Soberano do Brasil, com recursos do Orçamento, com esse mesmo propósito, havia um debate sobre o uso de parte das reservas. Há uma nova consciência sobre a importância de nossas empresas investirem no exterior. A internacionalização tem um efeito muito mais positivo a longo prazo para uma economia do que a simples atração de investimento. Claro, para quem atrai é muito bom, mas para quem investe é melhor ainda. Se o Brasil realmente quiser estar entre as cinco maiores economias dos próximos anos, tem de internacionalizar e fortalecer as empresas brasileiras. E, com isso, vamos ver nascer uma onda de empreendedores voltados para o exterior. A internacionalização é e vai continuar sendo uma política inovadora cada vez mais forte do governo brasileiro. Claro, eu só posso responder pelo meu governo. Mas acho que os que virão terão de seguir o que a gente vem fazendo.

O Brasil está ganhando uma grande dimensão nos fóruns internacionais. Essa imagem é desproporcional em relação às nossas empresas lá fora?
Não acho. O mesmo movimento acontece com a China, que já está sendo colocada como a segunda maior economia do mundo. Se observarmos o percentual de internacionalização da economia chinesa, vemos que, em 2008, a China recebeu cerca de US$ 92 bilhões em investimentos externos. Em contrapartida, investiu fora US$ 51 bilhões. Analisando essa relação, verificamos que é bem similar à do Brasil. É quase 50%. Um pouquinho a mais, no caso da China. Isso mostra que essas duas economias emergentes estão em patamares parecidos nesse processo, guardadas suas proporções.

Mas o senhor não acha que essa nova posição do Brasil no exterior, para ser consolidada, exige também mais empresas sólidas e identificadas com o país?
É isso que vem acontecendo. No caso brasileiro, são grandes companhias, como Gerdau, Vale, Embraer, Votorantim, as grandes empreiteiras nacionais. Essas já estão sendo associadas ao Brasil.

InBev entra nessa lista?
C
onsidero que sim, porque seus administradores, seus gestores, seu middle management é todo brasileiro. É vista no mundo inteiro, cada vez mais, como uma empresa brasileira. Os jornais americanos se referem a ela como Brazilian beverage company, e os europeus também. Vamos precisar cada vez mais de empresas consolidadas no exterior. E aqui entramos em outro ponto importante: como é a imagem comercial do Brasil? A imagem não pode ser construída só com o governo. Precisamos de empresas nas quais o setor comercial esteja refletido. Hoje, já temos.

Qual o papel da Apex-Brasil na identificação de oportunidades de comércio no exterior?
Os escritórios da Apex-Brasil são, na verdade, incubadoras de internacionalização. Por exemplo, temos cerca de 130 empresas brasileiras de porte médio no nosso escritório nos Estados Unidos. Elas estão lá subscritas como empresas americanas. Na verdade, esse é o primeiro degrau do processo de internacionalização. Quando montou esses centros, a Apex-Brasil não tinha a envergadura que tem hoje do ponto de vista internacional. Agora, somos a segunda melhor agência do mundo na recepção de investimentos. Somos respeitados inter- nacionalmente. Fazemos estudos de mercado e de investimento, além de rodadas de negócios e distribuição, mas cada centro opera com flexibilidade. Em Bruxelas, vamos fazer lobby técnico na União Europeia, tanto para investimento quanto para exportação. O que a gente quer é gerar negócios. Negócios de investimento ou de comércio exterior.

Há exemplos concretos?
Fizemos, por exemplo, o processo de internacionalização do Giraffa’s, rede de fast-food de Brasília, que deve entrar no mercado­ americano no ano que vem. Sou fã do Giraffa’s, como lá todos os dias. A carne é mui- to boa, o feijão está sempre quente. Em breve, o americano vai poder chegar lá, pagar US$ 6 e levar arroz, carne, feijão, farofa. E banana frita. Claro, não é um restaurante top de linha, mas para fast-food é melhor que qualquer outro. Na China, aju- damos a internacionalizar o Habib’s, que terá dez lojas no país. Quando lançamos o centro em Cuba, algumas pessoas diziam: “Cuba não tem possibilidade nenhuma”. Em um ano, a gente mostrou que tem.

O que Cuba tem a oferecer às empresas brasileiras?
É uma grande possibilidade de plataforma de comércio exterior. Lá, estamos trabalhando com seis investimentos. Um deles é a EMS, uma das maiores companhias do setor farmacêutico brasileiro. A empresa trabalha fortemente com a expansão da sua produção e precisa ganhar tecnologia. Cuba é totalmente fechada ao mercado farmacêutico e é um dos melhores mercados do ponto de vista de inovação e desenvolvimento tecnológico (do setor). Tinha uma fila enorme para entrar: indianos, chineses. Mas fomos nós os primeiros. Não só para produzir medicamentos em Cuba, mas também para fazer transferência de tecnologia. O que, sem dúvida alguma, vai melhorar o posicionamento da EMS no Brasil. Outro exemplo é a Fanavid, uma média produtora de vidros no Brasil. A empresa está investindo US$ 150 milhões em parceria com o governo cubano para instalar uma fábrica no país. Se fosse sozinha, provavelmente não teria condições de entrar.

Há uma mobilização em diversos órgãos do governo em favor da internacionalização. O Ipea anunciou recentemente que está criando uma diretoria de internacionalização para estudar esses processos. O Inmetro também está envolvido nesse processo, assim como a Embrapa, com o BNDES, que acaba de inaugurar um escritório em Londres e um em Montevidéu. O governo, enfim, acordou para a importância de fazer um trabalho articulado nesse sentido?
Sem dúvida. O Inmetro está auxiliando as empresas a se colocarem cada vez melhor no processo de internacionalização, via adequação dos produtos, padronização da produção e inovação. Por exemplo: uma empresa precisa fazer um teste químico de determinado produto porque só pode entrar em um país se tiver esses documentos. O Inmetro faz isso. Já o Ipea fornece dados e inteligência econômica ao processo. O ponto (crítico) para internacionalização hoje, na minha opinião, é menos de informação e mais de apoio financeiro no processo.

Voltando à questão das reservas cambiais, como elas podem ser usadas para esse fim?
Há várias opções. Nós devemos finalizar uma proposta mais concisa nos próximos meses. Mas o fato importante aqui é que o governo acordou para a necessidade de ter uma política específica para isso. Eu não gosto de plagiar o presidente Lula, mas pela primeira vez na história deste país vamos ter, e cada vez mais, uma política de internacionalização do setor produtivo.

Como o senhor imagina o posicionamento brasileiro no exterior daqui a dez anos?
Em dez anos, estaremos investindo pelo menos o triplo do que investimos hoje. Espero chegar a US$ 70 bilhões de investimento externo. Também espero ver empresas facilmente identificadas com o Brasil. Quem começou o processo de internacionalização das empresas brasileiras foi o setor de engenharia. O modus operandi desse mer- cado é extremamente valioso. Nós ajudamos essas empresas e tam- bém aprendemos com elas. Hoje, a Odebrecht leva mais de mil produtos brasileiros para a África. São botas, capacetes, calças. Um dos melhores cases de internacionalização do setor de alimentos brasileiros são os supermercados que ela tem em Luanda (em Angola).

Há algum setor especialmente promissor no avanço da internacionalização das empresas brasileiras?
O país tem capacidade de se consolidar em vários setores. Um nos quais eu aposto é o de comunicação, de empresas de publicidade. Essa área, com certeza, vai ser cada vez mais internacionalizada, graças à nossa competência. O Nizan Guanaes (do grupo ABC) já tem algumas empresas nos Estados Unidos. Ele leva a cultura brasileira para dentro da empresa. Ele cresceu no Brasil, ganhou musculatura. Agora, olha para o mercado e diz: “Tenho de ir para os Estados Unidos. É lá que vou competir”.

O que o Brasil está preparando para a Expo Xangai, em 2010?
Será a maior apresentação que o Brasil já teve na história. Queremos usá-la para o processo de internacionalização do país. E não estamos falando só de beleza física. Vai ter um impacto do ponto de vista de negócios. Hoje, a China é o maior país capitalista do mundo, o que cresce mais rápido, que gera emprego mais rápido. Eu não apostaria, acho que ninguém pode apostar, em como vai se dar a questão (sobre o futuro) da China, porque pouca gente entende a China da forma como devia ser entendida. Inclusive o próprio Brasil não entende. Se os empresários brasileiros entendessem a China, a gente já teria uma estratégia privada para trabalhar, em vez de reclamar. 


 


foto: Glória Flugel (interna e capa)



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