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Dez 2009/Jan 2010

As marcas da floresta

O Brasil procura caminhos que possam transformar o apelo da biodiversidade amazônica em riquezas

Antonio Carlos Santomauro
Coletores de castanha do Pará na reserva extrativista do Iratapuru, no Amapá

Caso pudesse ser avaliado comercialmente, é provável que o termo Amazônia figurasse entre as marcas mais valiosas da atualidade. Afinal, ele remete imediatamente consumidores do mundo inteiro a uma região situada hoje no epicentro das preocupações globais com o meio ambiente.

Talvez não seja coincidência que a maior operação de e-business do mundo, a gigantesca loja on-line americana Amazon.com, tome emprestado seu nome.

Por lei, ninguém pode ter domínio exclusivo da palavra Amazônia. Mas seu poder de mercado é inegável. Uma busca no site do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) por marcas compostas com o termo – ou similares, como amazônica – gera mais de 1.300 respostas.

Muitas denominam empresas ali instaladas, várias delas na Zona Franca de Manaus. Mas aparecem também registros associados a vegetais, água, extratos e outros bens da enorme biodiversidade amazônica, e não necessariamente de empresas da região. Atentas ao mercado internacional, várias usam palavras em inglês, como day, flowers ou fruits.


Há, porém, quem veja no uso indiscriminado do nome um fator capaz de depreciar seu valor e defenda restrições a seu emprego comercial, de forma similar à proteção decorrente das indicações geográficas de procedência, como o italianíssimo presunto de Parma ou o champanhe francês.

Um sabonete, por exemplo, deveria poder incluir em seu nome o termo Amazônia caso produzido longe dali, com percentual ínfimo de insumos locais? “A melhor estratégia de valorização da Amazônia como marca é restringir seu uso a produtos originários da região e obtidos de modo sustentável”, argumenta Virgílio Viana, diretor-geral da Fundação Amazônia Sustentável.

Criada por meio de parceria entre o Bradesco e o governo do Amazonas, a Fundação é uma organização não governamental dedicada à sustentabilidade e à preservação ambiental da região. Desenvolve projetos como o Bolsa Floresta, que recompensa financeiramente comunidades empenhadas em promover o desenvolvimento conservando a floresta.


Vínculo com o local

Viana nota que muitos produtos exibem a marca Amazônia sem nenhum vínculo com a região ou utilizam apenas porções mínimas de insumos locais. “Mesmo essas pequenas porções muitas vezes são obtidas sem nenhum compromisso com a sustentabilidade”, afirma.

Do lado das empresas que lançam mão do apelo regional, o dilema é reconhecido por algumas. Que o diga a brasileira Natura, que busca associar sua marca a atributos ecológicos e já foi acusada de uso indevido de insumos amazônicos. “Existe certo oportunismo de instituições, e não apenas de empresas, em relação ao uso da marca Amazônia”, afirma Rodolfo Guttila, diretor de assuntos corporativos da Natura.

“Muitas vezes, elas não têm nenhuma ação local nem geram riqueza na cadeia de negócios identificados com a região – fazem apenas marketing oportunista.”


Guttila, naturalmente, sustenta que não é esse o caso de sua corporação.

A Natura, segundo ele, gera riqueza para a região ao usar matérias-primas extraídas de lugares como o médio rio Juruá, no Amazonas, ou por comunidades no interior do Amapá e do Acre. Quanto à dosagem dos produtos, ele responde que essa é uma crítica de quem não conhece os processos da indústria de cosméticos. As frações usadas refletem uma forma de produzir de maneira sustentável, sem desperdícios. “Gastamos as doses necessárias para fazer perfumaria ou hidratação, nem a menos, nem a mais”, diz.

Mas, se há riscos, as oportunidades associadas aos conceitos de natureza e sustentabilidade são provavelmente bem mais amplas, especialmente no mercado internacional.


Preço justo

Um bom exemplo é a Native Original – loja de Manaus que vende móveis e artefatos de decoração produzidos por artesãos do Amazonas com resíduos de madeira, sementes, frutos e fibras da região. Os preços das peças, desenvolvidas pelo projeto Design Tropical da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi) de Manaus, podem chegar a R$ 10 mil.

Rozana Lentz, sócia da Native Original, diz que o consumidor do exterior hoje está disposto a pagar um “preço justo” por produtos capazes de combinar reaproveitamento de resíduos, design cuidado, produção quase artesanal, envolvimento de comunidades e geração de emprego e renda. A Native começou a participar de feiras internacionais no ano passado e já exporta para uma loja espanhola. “Em nossa loja de Manaus, os turistas, especialmente os estrangeiros, são a maioria dos clientes”, diz Rozana.

Outras marcas também ocupam o nicho dos produtos sofisticados com o toque da sustentabilidade. A AmazonLife, por exemplo – marca brasileira hoje arrendada para a fabricante italiana de bolsas Braccialini –, desenvolve produtos cuja principal matéria-prima é um laminado de borracha natural produzido por comunidades locais.

Bolsas e calçados AmazonLife são hoje encontrados em países como Itália, Inglaterra e Japão. No exterior, essas bolsas custam entre € 150 e € 300. “Em todo o mundo, são vendidas mensalmente algo entre 20 mil e 30 mil peças da marca”, diz Angela Hirata, sócia da empresa. Além de licenciar a marca, a AmazonLife vende seu laminado de borracha para outros clientes, como a grife francesa Hermès.

Uma grife brasileira de móveis, a Etel, também entrou nesse mercado e já obtém no exterior algo entre 20% e 30% de seu faturamento, segundo a presidente e fundadora, Etel Carmona. O índice pode crescer, em sua avaliação, pois somente agora os consumidores internacionais começam realmente a valorizar produtos associados à responsabilidade ambiental e social.

“Há oito ou dez anos, essa questão aparecia somente nos discursos dos ambientalistas”, conta Etel. Utilizando apenas madeiras amazônicas certificadas na produção de seus artigos, a Etel mantém uma oficina na cidade paulista de Valinhos e uma planta de produção no município acriano de Xapuri, onde trabalham 13 pessoas.

De acordo com Etel, a valorização de produtos e insumos amazônicos é interessante não apenas do ponto de vista econômico, mas também como fator de preservação da natureza. “A floresta somente será mantida se gerar renda para as populações locais”, diz ela.


Selo para sustentabilidade

Mesmo empresas que não trabalham diretamente com produtos da floresta recohecem que apoiar a preservação conta pontos na construção de uma imagem positiva. É o caso, por exemplo, do banco Bradesco, que apoia a Fundação Amazônia Sustentável, de Viana. “Todas essas ações agregam valor à nossa marca, pois a sociedade atual cada vez mais reconhece as empresas que fazem algo efetivo pelo social e pelo meio ambiente”, diz Luca Cavalcanti, diretor de marketing do banco.

No Brasil, ao menos teoricamente, não é permitido o uso do termo Amazônia e afins em marcas sem nenhuma associação com a região. A lei veda registros capazes de induzir o consumidor a acreditar na falsa origem de um produto ou serviço.

A legislação, no entanto, não define a natureza dessa vinculação – a produção local ou um percentual mínimo de componentes efetivamente amazônicos, por exemplo – e tampouco exige atestado de compromisso com a sustentabilidade ambiental.

Existem ações destinadas a resguardar de iniciativas aventureiras o valor comercial do apelo amazônico, mas são ainda tímidas e incompletas. Em 2007, uma lei estadual amazonense criou o selo Amazonas Sustentável para destacar empresas do estado fiéis aos requisitos da sustentabilidade.

Mas, como sua concessão não foi normatizada, o selo ainda não foi ainda atribuído a nenhuma companhia. Do lado positivo, além de apoiar arranjos produtivos de artigos como móveis, artesanato e biojoias – peças confeccionadas com insumos biológicos, como sementes –, o governo do Amazonas certifica o processo de produção do cupuaçu, do açaí, do guaraná e do pirarucu (grande peixe amazônico cuja carne costuma ser salgada, como a do bacalhau).

“O guaraná certificado da região de Maués, por exemplo, segue diretamente para cerca de mil farmácias italianas”, conta Marcílio de Freitas, secretário de Ciência e Tecnologia do Amazonas (é também de Maués, a propósito, que provém o insumo utilizado no guaraná Antarctica).


Inspiração amazônica

Ao menos por enquanto, os ativos gerados pela biodiversidade e pelas culturas amazônicas são minoritários na pauta exportadora da região, quase integralmente composta por commodities e artigos industrializados na Zona Franca de Manaus.

Mesmo assim, a região já exporta alguns produtos fabricados a partir de insumos locais; além dos móveis Native e Etel e dos produtos AmazonLife, aparecem entre eles os chocolates e confeitos produzidos com frutos da floresta pela Bombons Finos da Amazônia, hoje vendidos nos Estados Unidos e na Europa.

Segundo Jorge Alberto Coelho da Silva Jr., gerente de marketing da Bombons Finos da Amazônia, a empresa obtém os ingredientes de seus produtos por meio de parcerias com as comunidades locais. Até suas embalagens são inspiradas no artesanato da região. “São diferenciais favoráveis na disputa do mercado internacional”, acredita ele.

Mas a Bombons Finos da Amazônia exporta apenas 2% do que produz, uma vez que são alimentos perecíveis, o que dificulta o acesso ao mercado externo. “Já estamos pesquisando tecnologias capazes de aumentar a longevidade dos produtos”, acrescenta Silva Jr. Quem pesquisa acha novos mercados mesmo para produtos já conhecidos dos consumidores.

É o caso do guaraná, exportado pela empresa amazonense Andirá tanto em pó como numa apresentação desenvolvida e patenteada por ela: o “chá” de guaraná, em saquinhos para infusão. Instalada em uma incubadora de Manaus, a Andirá obtém cerca de 70% de suas receitas da exportação para Estados Unidos, Austrália e Irlanda, entre outros países.

Suas embalagens e materiais de divulgação são bilíngues – inglês e português – e valem-se abertamente da mística da Amazônia. O duplo slogan de seu guaraná é A energia que vem da Amazônia/The energy from Amazon.

“No primeiro semestre de 2009, nossas exportações cresceram 5%”, diz Ana Paula Atroch, sócia da empresa. No portfólio da Andirá aparece ainda uma das vedetes entre os produtos de origem amazônica com demanda internacional: o açaí, fruto associado à energia física e à saúde cardiovascular.

A Andirá comercializa o açaí na forma de pó. Já a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), do Pará, criada nos anos 1930 por imigrantes japo- neses, exporta a polpa, um negócio que, no ano passado, rendeu-lhe cerca de R$ 2 milhões no mercado externo. “Exportamos 45% de nossa produção”, diz Francisco Sakaguchi, diretor-presidente da cooperativa.


Medicamento fitoterápico

O açaí é apenas uma das 300 frutas amazônicas comestíveis identificadas pelo Plano Amazônia Sustentável – por enquanto um pacote de intenções recheado com alguma oferta de crédito, lançado no ano passado pelo governo federal para estimular ações econômicas sustentáveis na região.

Ao todo, esse programa estima a existência de aproximadamente 10 mil plantas amazônicas com potencial de aproveitamento econômico na alimentação, nos cosméticos e na indústria farmacêutica.

Nesse filão entra a Natural Amazon Herbs, por exemplo, empresa do município paulista de Louveira que produz e exporta para todos os continentes extratos de ervas e frutos utilizados nas indústrias de medicamentos fitoterápicos, suplementos vitamínicos, cosméticos e alimentos.

Apesar do nome, a empresa trabalha também com insumos vegetais de outras regiões brasileiras. “O extrato do açaí, no entanto, é o atual destaque em nossas vendas internacionais”, diz o diretor Benjamin Yung. Sem revelar valores ou volumes, ele assegura: metade da produção segue para o exterior.

O site da Natural Amazon Herbs tem versões em quatro idiomas: português, inglês, francês e mandarim. Para ampliar a capacidade de aproveitamento econômico da biodiversidade amazônica, o governo federal mantém em Manaus o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), dedicado à pesquisa e à inovação mercadológica.

Embora ainda não funcione plenamente, o CBA já toca projetos conjuntos com entidades como a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Leia mais em Beleza brasileira). É também o CBA que auxilia a Bombons Finos da Amazônia na pesquisa destinada a tornar seus produtos mais duráveis.

Imar César de Araújo, coordenador do Centro, tem um bom exemplo de como o uso da marca Amazônia e seu controle são complexos. “Recentemente, comprei no Chile um guaraná proveniente da Amazônia, padronizado e embalado no Canadá”, ele diz.


Só origem não basta

Uma coisa é certa: ser amazônico e produzido de forma sustentável não garante o êxito no mercado externo: o produto precisa ter o nível de qualidade esperado pelos consumidores.

“Os cosméticos, por exemplo, precisam cumprir o papel ao qual se comprometem – como fazer bem à pele”, diz Silvana Azzellin, executiva da Cognis, multinacional alemã fabricante de insumos para cosméticos e produtos nutricionais com fábrica no município paulista de Jacareí.

Ainda em pequena escala, a Cognis hoje exporta para Itália, Chile, Argentina e Colômbia diversos produtos amazônicos: óleo de castanha-do-pará, óleo de andiroba, manteiga de murumuru e manteiga de cupuaçu, entre outros. Além disso, os produtos precisam cumprir o perfil sustentável prometido.

“Muitos compradores exigem a certificação das informações das embalagens e vários produtores já divulgam até mesmo o nome das comunidades de origem de seus ingredientes”, afirma Gonzalo Enríquez, doutor em Desenvolvimento Sustentável e professor de Economia na Universidade Federal do Pará (UFPa).

“A Bombons Finos é um exemplo.” Atento a essa necessidade, em 2010 o governo amazonense começará a instalar laboratórios destinados a certificar o balanço da emissão de gases nocivos à camada de ozônio das empresas da região.

Para o secretário Freitas, mais que vender produtos e serviços, a Amazônia ajuda a consolidar o conceito ‘EcoEco’ – economia associada à ecologia, em que toda atividade produtiva precisa levar em conta o meio ambiente. O Brasil tem esse grande potencial, segundo Freitas, mas precisa fazer mais. “Também tem de se preparar para aproveitá- lo melhor, capacitando profissionais e desenvolvendo novas rotas tecnológicas”, conclui.

fotos: Pedro Martinelli (interna) e Divulgação (capa)


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