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Dez 2009/Jan 2010

Gol contra

Amadorismo, dívidas, marcas pouco conhecidas... Por que o melhor futebol de todo o mundo ainda não é capaz de produzir clubes fortes e respeitados no exterior?

José Ruy Grandra e Marcelo Damato
Kaká no Real Madrid: bom negócio para Berlusconi

Nem mesmo a fúria rubro-negra, embalada pela inesperada conquista do Campeonato Brasileiro de 2009 pelo Flamengo, parece ter bastado. As lojas de material esportivo ainda ilustram com fidelidade o maior paradoxo atual do futebol brasileiro. É rara uma delas mundo afora – seja no Rio, em Londres, Tóquio, Buenos Aires, Damasco, Cape Town ou Nova Dhéli – em que a camisa oficial da seleção brasileira de futebol não figure entre as campeãs de exposição e vendas.

Vencedora de cinco Copas do Mundo da Fifa, nossa seleção é hoje, disparado, a maior grife do futebol mundial. Mais eloquente cartão de visita do Brasil, seu amarelinho é reverenciado por torcedores do mundo inteiro.

Pena que tamanho fascínio não se estenda aos clubes brasileiros. Enquanto as tais lojas vendem às pencas camisas oficiais de times europeus, como Real Madrid, Milan ou Manchester United, equipes nacionais como Flamengo, Corinthians ou São Paulo nem sequer constam de seus estoques. Casa de craque, bola de papel. “Nossos clubes brasileiros abriram mão da internacionalização de suas marcas”, diz o empresário Walter de Mattos Jr., presidente e fundador do diário esportivo O Lance!. “Se as coisas funcionassem direitinho, pelo menos quatro ou cinco deles teriam suas camisas cobiçadas por torcedores de todas as partes do mundo.”

Eis o paradoxo. Em sua própria casa, o melhor e mais inventivo futebol do mundo ainda engatinha rumo à profissionalização. Hoje, enquanto empresas brasileiras como Petrobras, Embraer, Gerdau ou Vale são respeitadas no exterior por sua presença global e gestão consistente, o futebol brasileiro ainda patina num amadorismo movido a dívidas, irresponsabilidade fiscal e, em alguns casos, práticas mais afeitas ao território do crime que propriamente aos gramados.

Tentativas de tirar desse atoleiro o esporte que apaixona o país existiram e existem, mas costumam durar pouco. A mais bem-sucedida, em termos relativos, tem sido a do São Paulo. E a mais recente é o projeto de renovação do Palmeiras, outro dos grandes clubes paulistas – mas este também já esbarra nos limites políticos e culturais que costumam frustrar as iniciativas de reforma das estruturas carcomidas do futebol brasileiro.


Jogador tipo exportação

Voltaremos aos renovadores, frustrados ou mais ou menos bem-sucedidos. Por agora, importa registrar o efeito mais visível desse descompasso: embora produza craques às bateladas, o Brasil não consegue retê-los. Mal começa a brilhar em nossos estádios, a maioria é vendida para clubes estrangeiros. Muitos nem sequer chegam a conhecer a fama em seu próprio país, pois são exportados ainda nas categorias de base.

Inconformado, o próprio presidente Lula declarou: “Estamos vendo nossos jovens saírem daqui com 17 anos de idade e só voltarem a jogar no Brasil com 32. O auge da carreira, eles passam no exterior”.

Desde 1993, quando o Banco Central passou a registrar a venda de atletas ao exterior, essas exportações já somam mais de US$ 2 bilhões. A Europa é o grande mercado comprador. Dos 1.776 jogadores que deixaram o Brasil no ano passado, mais de 40% (762) transferiram-se para o Velho Mundo – 209 deles para Portugal, o maior importador.

Esse êxodo, no entanto, ramifica-se pelos quatro cantos do mundo. Hoje há brasileiros jogando em países como Vietnã, Azerbaidjão, Japão, Emirados Árabes, África do Sul ou Austrália. A presença de nossos craques é tão generalizada que o próprio presidente da Fifa, Joseph Blatter, admitiu temer que, um dia, “todas as seleções do mundo joguem apenas com brasileiros”.

A questão é: esse modelo é bom para o futebol no Brasil? No curto prazo, aparentemente, sim. “Essas vendas aliviam os clubes nacionais, quase todos sufocados por dívidas”, diz a economista Elena Landau, da PUC carioca, uma botafoguense ferrenhamente crítica à atual estrutura do esporte no Brasil. “O problema é que, dessa forma, estamos simplesmen te exportando commodities.”


Estrela sem valor agregado

Elena, sócia do escritório de advocacia Sergio Bermudes, sabe do que está falando. Há cerca de dez anos, foi contratada pelo Atlético Mineiro para reestruturar a gestão do time. O trabalho não foi em frente por conta de desentendimentos internos no clube.

Elena está certa. Quando a pauta de exportação diz respeito às estrelas que brilham entre as quatro linhas do campo, o Brasil ainda opera numa frequência de baixíssimo valor agregado. O ex-são-paulino Kaká, eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo em 2007, é um ótimo exemplo. Quando trocou o São Paulo pelo Milan, em 2003, ele foi vendido por US$ 8,25 milhões. Seis anos depois, o Milan o revendeu ao Real Madrid por nada menos que US$ 100 milhões. O lucro, de quase 1.200%, levou Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano e proprietário do Milan, à loucura: “Kaká foi a maior contratação de nossa história”, disse então Berlusconi, emendando com sua sutileza habitual. “E a preço de banana.”

“O Brasil é absolutamente míope nesse aspecto”, diz o jornalista e apresentador Juca Kfouri. “Em vez de exportar o espetáculo, exportamos os artistas.” Mattos Jr., de O Lance!, endossa a comparação. “É como se a Disney vendesse ao mundo o Mickey Mouse, em lugar de seus desenhos animados, filmes e atrações”.

É incrível que o Brasil tenha avançado tão pouco num campo em que possui vantagens competitivas globalmente reconhecidas. De acordo com Álvaro Antonio Cardoso de Souza, ex-presidente do Citibank no Brasil e hoje diretor da seção brasileira da ONG ambiental WWF, tal atraso se deve, basicamente, a dois fatores. O primeiro: “A economia do futebol no Brasil tem um nível de transparência muito baixo se comparado ao dos mercados de capital e financeiro, que operam baseados em extrema clareza”, ele diz. “Gestões obscuras ou frágeis geralmente espantam os investidores mais sérios.”

O segundo fator, segundo Álvaro, são os obstáculos que nosso futebol enfrenta para deixar de ser apenas um esporte de massas e se tornar também um produto de entretenimento. “Isso implica mais investimentos em segurança, limpeza e comodidade. Na Europa, um jogo de futebol é quase como ir ao teatro”, diz Álvaro, que não chega a ser, exatamente, um pessimista. “Estamos bem melhores que há dez anos, mas o caminho é longo e a evolução, muito lenta. Precisamos acelerar.”

Até porque, em
2014, a Copa do Mundo será disputada no Brasil. E, embora sediar a competição seja uma perspectiva que eletrize torcedores em todo o país, ela também dissemina certos temores entre os especialistas em gestão familiarizados com o futebol.

“Se não houver uma forte intervenção do poder público, que vá muito além da construção e reforma de estádios, a Copa não vai resolver nada”, diz a economista Elena Landau. “O governo precisa estabelecer novas regras que elevem o grau de transparência do esporte no país e de suas competições oficiais.”


Mudanças na gestão

Os clubes brasileiros vivem numa situação semelhante à do mundo diante do aquecimento global. Parte de seus dirigentes já despertou para a gravidade da questão e se deu conta de que são necessárias mudanças profundas na gestão dos clubes.

Mas ainda há muita divergência, as decisões são lentas e, provavelmente, tímidas demais para resolver o problema. “No Brasil os clubes são administrados de forma familiar e investem com pouca racionalidade”, diz o ex-craque e colunista esportivo Eduardo Gonçalves, o mineiro Tostão. “Em geral, seus dirigentes só promovem mudanças quando se sentem ameaçados de perder o poder.”

O grande nó a ser desatado, segundo Tostão, é a própria estrutura política do esporte, baseada na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e nas federações estaduais. ”Não há alternância no poder e os dirigentes se mantêm graças a um conluio que os beneficia”, diz o excraque. As críticas ao modelo atual beiram a unanimidade. “O futebol no Brasil ainda é uma belíssima maneira de ganhar dinheiro por debaixo do pano”, afirma Juca Kfouri. “A CBF é uma entidade quase feudal, sem representatividade e transparência nenhuma”, complementa Elena Landau.

Em suma: o maior inimigo do futebol brasileiro na busca de um futuro mais luminoso é seu próprio passado obscuro. É inegável, porém, que se encontra em curso uma mudança qualitativa na postura de alguns dirigentes, mesmo que restrita a poucos clubes. Temas como responsabilidade fiscal e planejamento ganharam força na pauta de algumas diretorias.

O São Paulo, a partir dos anos 1990, foi o pioneiro nesse salto. “Até hoje ele é a principal referência entre os clubes do país”, diz Elena Landau. O sucesso da profissionalização do tricolor paulista – que, só nesta década, já lhe valeu três títulos brasileiros e um mundial – pode ser atribuído a três fatores principais.

O primeiro é a estabilidade do modelo de gestão. “Ela muda muito pouco com a eleição dos novos presidentes”, diz Adalberto Baptista, vice-presidente de marketing do clube. O segundo é a divisão do negócio em três áreas separadas: futebol profissional, estádio e clube social. “Cada uma delas precisa ser superavitária, pois o dinheiro de um lado não pode ser usado para socorrer outro”, afirma Baptista.

O terceiro, por fim, é a transparência dos números e balanços do clube. Outro fato inspirador em 2009 foi a eleição do economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo para a presidência do Palmeiras. Belluzzo tornou-se um fenômeno quase instantâneo de popularidade – algo raro para um cartola brasileiro.


Receita do mercado

Foi tido como a esperança de modernização num clube que, nos últimos 33 anos, praticamente só ganhou títulos enquanto esteve associado à multinacional italiana Parmalat, na década de 1990. Mas 19 anos mais tarde, depois de liderar com folga o Brasileirão de 2009, o Palmeiras perdeu a liderança e fechou o torneio em quinto lugar. Bastou essa derrapagem para que toda a estratégia traçada desabasse. O próprio presidente Belluzzo perdeu a serenidade e, por ter ofendido o juiz de uma partida, acabou suspenso por nove meses pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

Mesmo com seu mentor fora de jogo, o projeto de Belluzzo para o Palmeiras segue a receita do mercado. “Em primeiro lugar, os clubes precisam aprender a explorar seu enorme potencial, pois seus milhões de torcedores são consumidores”, diz Belluzzo. Por outro lado, segundo o presidente palmeirense, é preciso haver racionalidade na gestão. “Não se pode gastar mais do que o arrecadado e é preciso ser eficiente nos investimentos”, afirma. “É inadmissível contratar um jogador e descobrir, um mês depois, que ele não serve. Por fim, tem de haver transparência.”

Devido à sua reputação, Belluzzo também assumiu a liderança entre os clubes para um amplo projeto de reestruturação financeira. Ele hoje preside uma comissão no Clube dos 13 (associação dos maiores clubes brasileiros) que pretende fechar uma proposta abrangente de profissionalização do esporte, a ser negociada com o governo federal.

Sua ideia básica é criar regras que impeçam os clubes de acumular déficits e, ao mesmo tempo, renegociar as dívidas, que hoje giram em torno de R$ 2 bilhões. Boa parte desses recursos viria de uma generosa linha de crédito do BNDES, que muitos analistas comparam a uma espécie de Proer do futebol (o Proer foi o programa do Banco Central que estabilizou o sistema financeiro depois do fim da inflação, nos anos 1990).

“É preciso haver um compromisso dos dois lados”, afirma Belluzzo. “O governo, reconhecendo a importância do futebol para o país, aceita refinanciar a dívida pelo BNDES para que os clubes possam se viabilizar.” Estes, por sua vez se comprometeriam a só gastar o que arrecadam. “Se o déficit persistir não adianta refinanciar a dívida”, conclui ele.


Rentabilidade máxima

Um dos principais projetos da gestão de Belluzzo é a reforma do estádio Palestra Itália. Trata-se da reestruturação completa não só do estádio, mas também de uma ampla área destinada aos sócios, com a construção de edifícios com quadras e departamentos esportivos, há décadas instalados precariamente embaixo do estádio atual.

O projeto, orçado em cerca de R$ 300 milhões e inteiramente bancado pela construtora WTorre, dará ao Palmeiras uma renda extra imediata, que deverá crescer depois de 30 anos, quando a gestão do estádio, compartilhada durante esse período, passará para as mãos do clube.

Nos moldes dos estádios americanos, a nova Arena Palestra foi projetada para conseguir o máximo de rentabilidade. Essa visão se aplica tanto aos dias de jogos, com a criação de camarotes, setores VIP e áreas de alimentação, entretenimento e compras inéditas no Brasil, quanto em outras datas, com salas e auditórios multiuso, capazes de abrigar reuniões e eventos de diversos portes.

Além disso, o estádio terá um amplo prédio de estacionamento, que atenderá à demanda da região no horário comercial. Todas as suas partes foram desenhadas para receber patrocínio, desde o nome do complexo. O setor de arquibancadas atrás de um gol, por exemplo, poderá ter nome de uma montadora de carros e o lado oposto, de uma empresa farmacêutica. Embora não com a intensidade desejável, os últimos anos trouxeram de volta algumas boas notícias às páginas esportivas.

Uma delas é o crescimento das receitas dos clubes. Mesmo que ainda modestas para os padrões internacionais, elas vêm se expandindo continuamente. Em 12 anos, a venda dos direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro para a TV, a principal receita da maioria dos clubes, saltou de US$ 20 milhões para US$ 170 milhões.

“Comparativamente, ainda é pouco”, diz Mattos Jr., de O Lance!. “No Brasil a venda dos direitos de transmissão dos jogos rende, em média, US$ 10 milhões para cada clube. No futebol inglês esse valor é dez vezes maior.” Mesmo assim, o negócio futebol avança. Novos produtos, como o pay-per-view, vêm alcançando uma rentabilidade inédita no esporte. Nos próximos anos, os clubes pretendem ampliar seu faturamento estendendo a exibição dos jogos para novas plataformas, como os celulares e a internet.


Bilheteria em alta

O valor dos patrocínios cresceu ainda mais. Em 1995, o maior contrato do setor (do Flamengo, com a Petrobras) era de cerca de US$ 500 mil. Hoje bate na casa dos US$ 17 milhões (o do Corinthians, somadas as marcas de sua camisa), um valor que já supera clubes médios europeus.

O Palmeiras, por exemplo, recebe 50% a mais que a equipe italiana Fiorentina para estampar a logomarca de uma empresa em sua camisa. As receitas de bilheteria também exibiram uma alta considerável, especialmente em São Paulo. Durante mais de uma década em que os preços dos ingressos permaneceram congelados, o saldo líquido entre a renda e as despesas dos jogos frequentemente era negativo.

O torcedor, até então, era uma espécie de mal necessário. Na estratégia dos clubes, estádios lotados significavam, mais que qualquer outra coisa, a possibilidade de negociar mais vantajosamente seus contratos com a TV, a fim de, com isso, conseguir mais verbas do patrocinador. Há seis anos, no início do governo Lula, o ingresso de arquibancada custava cerca US$ 3 nos jogos dos grandes times paulistas. Hoje custa US$ 17 – e deve chegar a US$ 30 (R$ 50) nos jogos do Corinthians na próxima Copa Libertadores.

Evidentemente, a valorização do real deu um empurrão importante para o aumento das receitas com base no dólar. Mas ainda é possível (e preciso) gerar muito mais recursos. “Os times brasileiros precisam buscar outras fontes de renda”, diz o analista financeiro Amir Somoggi, da filial brasileira da empresa de auditoria Crowe Horwath RCS, uma das dez maiores do mundo em sua área. Um dos pontos em que os clubes nacionais mais derrapam é a venda de produtos licenciados.

Mesmo nesse caso, contudo, houve avanços. Em 2005, o Corinthians faturou menos de R$ 450 mil nesse front. Em 2010 deve faturar mais de R$ 10 milhões. São valores muito baixos se comparados aos obtidos na Europa. Tome-se o exemplo do Barcelona. Administrado por uma junta diretiva profissional, o time teve um faturamento de € 384,8 milhões na última temporada (2007-2008), dos quais € 117,4 milhões provenientes de marketing – ainda que o time considere sua camisa sagrada e só ceda espaço nela ao Unicef, instituição a que destina € 1,5 milhão anualmente.


Abismo entre dois mundos

Esse abismo entre o Brasil e o Velho Mundo se aprofunda ainda mais se confrontadas as torcidas. A do Flamengo, por exemplo, é hoje a maior do mundo, com 32,6 milhões de aficionados (veja tabela ao final da reportagem). Ou seja: o rubro-negro carioca tem quase tantos torcedores quanto a Espanha habitantes.

“Uma cifra como essa é um ativo extraordinário em termos de marca em qualquer lugar do planeta”, diz Mattos Jr. “O Manchester United tem apenas 4,2 milhões de torcedores na Inglaterra, mas é o clube mais popular na Ásia, um continente em que seus jogos geram altas audiências e cujos habitantes compram seus produtos feito água.”

Quem sabe agora, com a conquista do título brasileiro e a eleição da primeira presidente de sua história, a ex-nadadora olímpica Patrícia Amorim, essa situação mude. Mas Patrícia já tem obstáculos pela frente. O primeiro deles é o machismo reinante no esporte. “As pessoas subestimam a minha capacidade de administrar o futebol, e vou provar que estão enganadas”, disse a presidente em sua primeira entrevista após a apuração dos resultados.

Infelizmente, o aumento das receitas não se traduz numa melhora equivalente na situação dos clubes. Ao contrário; salvo raras exceções, eles precisam tomar empréstimos bancários para fazer face a necessidades urgentes de caixa e honrar dívidas preexistentes. Portanto, na maioria dos casos, por mais profissional que seja uma gestão, ela sempre herdará um pesado fardo – as dívidas.

Os bancos BIC e Banif são hoje as principais fontes de empréstimos, que têm por garantia de pagamento as cotas dos clubes na venda dos direitos de transmissão à Rede Globo. “É um modelo de gestão amador, sem o menor compromisso com a sustentabilidade”, diz Elena Landau. “Se tirassem o serviço da dívida, grande parte dos clubes hoje teria superávit”, diz o colunista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, do jornal Folha de S.Paulo.

A única saída, na opinião praticamente unânime dos especialistas, seria os clubes deixarem de ser uma eterna fonte de arranjos políticos financeiramente deletérios – e transformarem- se em empresas. “O presidente do Corinthians deveria ter o mesmo salário que o CEO de uma multinacional, bônus pela conquista de títulos e comissões nas vendas de jogadores”, sustenta Juca Kfouri.


Décadas de amadorismo

Tamanha metamorfose, no entanto, ainda parece fora do alcance da maioria das agremiações brasileiras. Décadas de amadorismo não se corrigem da noite para o dia. Pela legislação atual, entre outras regalias, os clubes não podem ter sua falência decretada e têm direito a generosas isenções fiscais e trabalhistas. Mesmo assim, a maioria não recolhe seus tributos. As agremiações brasileiras acumulam um vultoso passivo trabalhista e fiscal, em cuja cobrança o governo, em todas as suas esferas, nunca revelou muito interesse. “É preciso que o poder público encampe essas mudanças e estabeleça novas regras”, diz Elena Landau.

O empresário Mattos Jr. vai mais longe. “O governo federal deveria usar a inadimplência dos clubes e se tornar o indutor de sua transformação em sociedades empresariais.” Enquanto isso não acontece, iniciativas privadas florescem nesse vácuo.

Um grande grupo como o Pão de Açúcar, aparentemente alheio às chuteiras, faz incursões no futebol. A pedido de seu principal acionista, Abílio Diniz, em 2003 foi criado um projeto de futebol dentro do clube dos funcionários, o Pão de Açúcar Esporte Clube – Paec. Depois de promover seleções regulares de jovens talentos em todo o país – uma delas atraiu 72 mil candidatos –, o clube montou times de divisões de base e, com o tempo, um profissional, que em 2010 disputará a segunda divisão do Campeonato Paulista.

Segundo Fernando Soleiro, seu presidente, o Paec coloca os jogadores mais talentosos à disposição de grandes clubes de São Paulo sem cobrar nada, mas retendo 50% dos direitos econômicos (isto é, metade do valor de uma eventual futura negociação).

Num derradeiro, supremo e ligeiramente humilhante exemplo, o próprio Milan fatura um bom dinheiro com o futebol no Brasil. A equipe milanesa empresta sua marca a 11 colônias de férias para crianças e jovens espalhadas por 11 capitais brasileiras. No Milan Junior Camp, como são chamadas, a garotada passa uma semana jogando bola, sob a supervisão de profissionais – e, de quebra, adquire produtos do time, que, embora seja estrangeiro, muitos levam no coração. Ainda temos muito que aprender com os europeus.

*Com a colaboração de Adriana Setti, de Barcelona

Leia mais sobre futebol em Enquanto isso, na Europa...

fotos: Matt Trommer/Dreamstime.com (interna) e Celso Pupo/Shutterstock (capa)



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