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Dez 2009/Jan 2010

O futuro chegou?

Em livro lançado nos Estados Unidos, especialistas avaliam as possibilidades de o Brasil se tornar uma potência mundial

Flávia Carbonari, de Washington

Por várias décadas, os brasileiros escutaram (e às vezes acreditaram) que o Brasil era “o país do futuro” – e sempre seria. Isso hoje é passado. A julgar pelo olhar estrangeiro, representado por algumas das publicações mais influentes do mundo, esse futuro já chegou.

Nos últimos meses do ano, o país foi capa da revista inglesa The Economist, tema de um especial de dez páginas do diário Financial Times e pauta recorrente em jornais globais como o americano The New York Times e o espanhol El País.

Além de ganhar espaço na imprensa internacional, o país viu o presidente Lula receber, em Nova York, o prêmio Woodrow Wilson de Serviço Público por “serviços prestados à democracia”. E, em Londres, ganhar outro prêmio conceituado, da Chatham House, por sua “contribuição para as relações internacionais”. Lula figurou ainda em 33º lugar entre 67 eleitos no ranking de pessoas mais poderosas do mundo produzido pela revista de negócios americana Forbes.

O que significa isso em termos de poder e influência reais no mundo? É a essa questão que um livro publicado recentemente nos Estados Unidos tenta responder – uma pergunta escancarada desde o título O Brasil como uma Superpotência Econômica?*, produzido pela Brookings Institution, um think tank liberal de Washington.

Seu lançamento, na sede do Banco Mundial, na capital americana, reuniu especialistas de diversas instituições para discutir o papel reservado ao Brasil na economia mundial, hoje e no futuro. A obra traz uma série de ensaios que abordam temas diversos: a liderança brasileira no agronegócio e no mercado de energias renováveis, as mudanças e tendências nas políticas comerciais atuais, a presença crescente de grandes empresas brasileiras no exterior e o impacto das políticas sociais voltadas à distribuição de renda.


Respostas em aberto

No livro, a resposta à pergunta do título e a condição atual brasileira permanecem em aberto. “Depende do que consideramos uma superpotência”, ressalva Leonardo Martinez-Diaz, diretor para o Centro de Desenvolvimento Econômico da Brookings Institution e co-editor da obra. Ele vê o país no bom caminho. “Pela ótica de sua influência na economia global e nos centros emergentes de tomada de decisões econômicas, o Brasil está, de fato, no caminho certo para se consolidar como um país de primeira grandeza”, diz.

Porém, segundo Martinez-Diaz, a continuidade da expansão da influência brasileira nessas duas esferas dependerá da capacidade de o setor privado nacional capitalizar as novas oportunidades e de o Estado persistir na busca de uma maior integração na economia global. Como exemplos de oportunidades bem aproveitadas, Martinez cita o desenvolvimento pela Petrobras de tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas, a expansão dos negócios internacionais da Odebrecht e algumas tendências recentes no setor bancário, no qual o Itaú Unibanco assume uma estratégia global cada vez mais sólida e o Banco do Brasil se torna um player regional.

O livro também discute os possíveis caminhos para o Brasil integrar de forma mais firme à economia global. Para alguns dos analistas, a estratégia de priorizar acordos com países em desenvolvimento, fortalecendo as relações Sul-Sul, pode fazer sentido político, mas é questionável em termos econômicos.

Em seu texto, o economista Mauricio Moreira Mesquita, diretor do departamento de pesquisas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), diz que, devido a essa estratégia, o país acaba pagando mais caro que outros, como China e Índia, para entrar nos grande mercados do Norte.

Mesquita sugere que o Brasil reduza e racionalize seu sistema de proteção tarifária. Segundo ele, as taxas nominais de tarifas sobre a importação que impõe estão bem acima das praticadas por outros países emergentes, como China e México.


Otimismo justificado

O livro relembra que o potencial brasileiro já esteve em evidência no passado – no período conhecido como “milagre econômico” dos anos 1970, por exemplo –, mas o Brasil não se tornou uma potência global. No entanto, de acordo com Martinez-Diaz, o otimismo atual se justifica pelo fato de esse salto estar se dando sobre bases mais sólidas. “A democracia estável e o histórico recente de inflação baixa e de gestão macroeconômica conservadora tornaram o país mais integrado à economia mundial do que em qualquer momento dos últimos 40 anos”, assinala.

Outro dado novo é o aumento sustentado na renda das camadas mais baixas da população brasileira. Essa queda persistente na desigualdade tem se mantido tanto em períodos de crescimento quanto naqueles em que o país não avançou.

“Esse traço deve-se à combinação de políticas macroeconômicas que levaram à estabilidade e ao crescimento com políticas sociais de transferência de renda, como o Bolsa Família, que trazem benefícios enormes a custos relativamente baixos”, afirma o economista principal do Departamento do Cone Sul do BID, Bruno Saraiva.

O crescimento acumulado da renda per capita dos 10% mais pobres da população brasileira foi de 57% entre os anos de 2001 e 2006, enquanto, para os 10% mais ricos, esse aumento foi de 6,7%. Há ainda elementos que sustentam o otimismo, mesmo que a classificação de superpotência possa parecer um tanto distante.

Décima maior economia mundial, o Brasil hoje lidera a retomada do crescimento econômico na América Latina. Entre 2008 e 2009, recebeu a chancela de grau de investimento conferida pelas três maiores agências de classificação de risco de crédito do mundo.

Além disso, no campo político, destaca-se em grupos como o G-8 e o G-20 e defende a maior participação dos países emergentes no FMI e no Banco Mundial. Também vem fazendo valer seu nome entre os BRICs, denominação do quarteto integrado por Brasil, Rússia, Índia e China, vistos como as grandes promessas das próximas décadas – estima-se que, até 2050, eles podem se transformar nas maiores economias globais.


O B do BRIC

À época da criação do grupo, a inclusão do Brasil foi vista com ceticismo por muitos. As dúvidas a esse respeito se referiam não tanto ao potencial do país, mas à exatidão do conceito. “A expressão BRIC colocou juntos países com diferenças enormes entre si”, questiona James Ferrer, fundador e diretor do Centro para Estudos Latino-Americanos da George Washington University.

Já Saraiva, do BID, considera a expressão feliz. “Os BRICs levaram o mundo a uma reavaliação do papel dos países em desenvolvimento no cenário internacional”, diz ele. De uma forma ou de outra, hoje o país é um membro de destaque desse grupo.

Analistas apontam a superioridade da democracia brasileira, percebida como um ativo vantajoso. Além disso, a China e o Brasil vêm seguindo trajetórias contrárias no que diz respeito à desigualdade – em alta na primeira e em queda no segundo.

Outras análises frisam que, como o Brasil já passou pela industrialização e urbanização que hoje impulsionam o crescimento de China e Índia, a comparação direta entre a evolução dos PIBs, muito mais explosiva na China, não seria um critério justo de avaliação. Há ainda o consenso de que a nova ordem externa, nas esferas econômica e política, é extremamente favorável ao Brasil.

Segundo livro da Brookings Institution, o aumento da classe média em países como China e Índia deverá continuar sustentando a demanda crescente por produtos agrícolas e outras commodities brasileiras.

O debate sobre mudanças climáticas também deve impulsionar a indústria de biocombustíveis e energia hidrelétrica, setores nos quais o Brasil já é uma destacada potência. Hoje, 46% da energia consumida no país vem de fontes renováveis, contra uma média mundial de 13% e de 6% nos países da OCDE. “O Brasil sempre quis ser líder, mas esse desejo ficava mais no plano retórico. Hoje, com as políticas que vem adotando, está começando a cumprir de verdade essa promessa”, avalia Ferrer. “Agora é preciso usar positivamente sua liderança para influenciar outras nações.”


Liderança regional

Muitos países, em especial os latino-americanos, veem o crescimento brasileiro como uma oportunidade, devido às dimensões de seu mercado. Em 2008, as exportações brasileiras para a América Latina somaram 20% do total vendido ao exterior, contra os 10% registrados uma década atrás (1998).

Mas outros o consideram um competidor. Ainda de acordo com Ferrer, a liderança brasileira na América Latina desperta inveja em certos vizinhos, especialmente aqueles com outras visões políticas e de desenvolvimento. É o caso da Venezuela de Hugo Chávez, que também tenta expandir sua influência no continente.

É importante, salientam os analistas, que essa liderança brasileira gere uma mudança na posição de Washington quanto à arquitetura geopolítica da América Latina. Em artigo publicado na edição de setembro da revista Economia Brasileira, o diplomata Sebastião do Rego Barros afirma que a oposição entre a crescente importância brasileira e o advento do bolivarianismo chavista não permite à Casa Branca lidar com o Brasil a partir de visões simplistas.

Hoje o país exibe não apenas uma maior capacidade de liderança econômica e política, mas, sobretudo, estabilidade institucional, fator vital à nova estratégia dos EUA para o continente, menos intervencionista. “O Brasil tem atualmente uma grande oportunidade de se estabelecer como potência – e, para os EUA, isso é bom, pois traz estabilidade à América do Sul”, diz o congressista republicano Devin Nunes, um dos copresidentes do Brasil Caucus, a frente parlamentar articulada há alguns anos pela Embaixada brasileira em Washington e hoje composta por mais de 30 congressistas.

Tornar-se ou não uma potência é algo que dependerá, entre outras coisas, de como o Brasil vai lidar com obstáculos que ainda entravam seu desenvolvimento, como o déficit de infraestrutura, a desigualdade social e as reformas institucionais pendentes. “Será preciso encarar esses desafios e, ao mesmo tempo, manter a estabilidade macroeconômica, seguindo uma gestão responsável e pragmática, que não crie um ambiente de riscos desnecessários”, diz Saraiva. “Essas questões são fundamentais para que o país possa atingir seu pleno potencial.” Cabe, portanto, ao próprio Brasil decidir a dimensão e a relevância que pretende ter no futuro.


*O livro "Brazil as an Economic Superpower?", de 291 páginas, é editado pela Brookings Institution Press

fotos: Divulgação (livro) e cortesia do Woodrow Wilson International Center for Scholars (capa)



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