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Dez 2009/Jan 2010

O momento mágico

O bom desempenho do Brasil na saída da crise global traz consigo o desafio de lidar com o sucesso

Octavio de Barros *
Octavio de Barros: é preciso criar as condições para manter o crescimento no futuro

Brasil, eleito pelo voto popular dos investidores globais como o país que se descolou do mundo no pós-crise, está diante do inesperado: o sucesso.

Pedindo licença para misturar imagens, voamos em céu de brigadeiro, mas navegamos em mares nunca dantes navegados. Ou seja, achamos tudo isso estranho e exibimos um certo mau jeito diante da situação.

Como lidar com o sucesso? É um desafio que vale para o Brasil atual e, de certa forma, para todos aqueles diante de situações extremamente favoráveis.

Para sermos francos, entendemos mesmo é de crise. Foram tantas que aprendemos a tirá-las de letra. Durante décadas, administramos crises recorrentes.

Ganhamos know-how. Sabemos reagir e, diante da emergência, não piscamos: fazemos o que precisa ser feito, qualquer que seja o governo.

Agora, no momento em que tudo parece caminhar bem, somos meio “pernas de pau”. Por vezes, não sabemos como reagir. Chegamos ao paradoxo de nos perguntar se mantemos o rumo ou mudamos tudo na política econômica.


Onda favorável

O presidente Lula cunhou a expressão “momento mágico” para expressar a convergência de fatores que conduzem ao reconhecimento mundial de que o Brasil, de fato, adquiriu um novo status. Ele capturou intuitivamente a onda favorável na qual o país vem surfando.

“Descolamento” deixou de ser uma palavra maldita. Estavam enganados os que viam no pós-crise um mundo radicalmente oposto ao de antes.

Na fase atual, estamos simplesmente retomando a trajetória exibida até setembro de 2008, quando a economia crescia fortemente. Assim, o Brasil se juntou a uma elite de países que crescem de forma robusta, apontando para algo em torno de 6% em 2010.

Nós, economistas, já achávamos, antes da implosão dos mercados, que o Brasil estava mais bem preparado para enfrentar uma situação global adversa – mas não tínhamos como provar.

A crise veio nos ajudar. Ainda que duramente sentida no seu início, foi logo superada. As razões são várias, porém a mais importante foram os 15 anos consecutivos de amadurecimento macroeconômico. Portanto, estamos falando de um processo cumulativo graças à continuidade sustentada de uma gestão macroeconômica inequivocamente vencedora.


Mais acertos do que erros

As medidas tempestivas tomadas pelo Banco Central e pelo governo ajudaram bastante a mitigar os impactos da crise, mas teriam tido modesta importância caso os fundamentos não estivessem bem assentados.

É o resultado do amadurecimento, tanto econômico como político. Liquidamente, acertamos mais do que erramos nestes últimos 15 anos.

Por isso, os fluxos de capitais abundam, na expectativa de que uma economia mais previsível, mais disciplinada, ambientada por uma democracia considerada entre as melhores do mundo emergente, venha a ser um porto seguro para capitais com perspectivas de longo prazo.

Também por conta da penúria de alternativas no mundo, o Brasil virou foco de interesse global para os negócios. Ou seja, o Brasil melhorou em termos absolutos, mas, em termos relativos, melhorou mais ainda. Outros países andaram para trás.

A vitória na batalha para abrigar os Jogos Olímpicos de 2016 não foi um acaso. Traduz esse processo cumulativo de amadurecimento e, portanto, o novo papel econômico e geopolítico adquirido pelo Brasil.


O Brasil não sabe poupar

Processo similar se deu quando Pequim foi eleita em 2001 para sediar a Olimpíada de 2008. Era o mundo identificando um novo jogador global de peso.

Mas sabemos que o sucesso tem efeitos colaterais. Um crescimento do PIB espetacular como o previsto para 2010 traz perigos a que precisamos estar atentos. Devemos nos perguntar se vale a pena forçar fiscalmente uma expansão muito maior do que aquela que somos capazes de sustentar.

Primeiro, temos de reconhecer que todo esse crescimento, por definição, requer financiamento, e esse financiamento tende a ser majoritariamente externo. Não podemos nos iludir; o Brasil ainda não aprendeu a poupar.

O setor público despoupa e a mobilidade social intensa não incentiva a poupança das famílias. Não temos como bancar tal crescimento sem incorrer em megadéficits nas contas externas. Isso significa que, em conseqüência, a taxa de câmbio tende a se manter apreciada. Nesse capítulo, não há mágica.


O risco do financiamento externo

Ainda que achemos que o Brasil terá como financiar confortavelmente esses déficits, não é demais lembrar que os “momentos mágicos” são transitórios e as crises são recorrentes.

Qualquer novo acidente de percurso no cenário global – incertezas na China, onde o Brasil se plugou para valer, ou dúvidas sobre a continuidade de políticas macroeconômicas dos últimos 15 anos – pode interromper abruptamente os financiamentos hoje abundantes.

É preciso fortalecer nossa capacidade de nos financiarmos domesticamente no futuro. Seria prudente que mantivéssemos uma certa distância em relação ao exuberante momento atual.

Não devemos nos autoenganar e esquecer a gigantesca agenda nacional de reformas que poderá, a médio e longo prazo, fazer com que o Brasil venha, aí sim, a ter taxas de crescimento de 6% sem depender de momentos meramente mágicos.

Afinal, temos desafios na educação, na infraestrutura, nas reformas tributária, trabalhista, na Previdência, no Judiciário e na superação do infindável emaranhado de custos de transação elevados que afetam negativamente a capacidade competitiva brasileira. Agora, com o vento a favor, é a hora certa de enfrentá-los.

 
* Octavio de Barros é diretor de pesquisa e estudos econômicos do Bradesco e organizador, com Fabio Giambaigi, de Brasil Pós-Crise: Agenda para a Próxima Década
(Editora Campus). O livro traz artigos de Delfi m Netto, José Sergio Gabrielli, Luiz Carlos Mendonça de Barros, Sergio Besserman, Francisco Dornelles, Armando Castellar, Gustavo Loyola, José Marcio Camargo, Wilson Ferreira e Glauco Arbix, entre outros. Os direitos autorais foram doados à Fundação Pró-Criança Cardíaca do Rio de Janeiro.

fotos: Clodoir de Oliveira (interna) e Guilherme Gonçalves-CPDoc JB-Folhapress

 



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