Revista PIB

Faça da Revista PIB a sua home page Quarta, 23 de Maio de 2018

 

Dez 2009/Jan 2010

Lições de irmã gêmea

O que o Rio pode aprender com Barcelona quando o desafio é preparar uma Olimpíada

Adriana Setti, de Barcelona
Herança dos Jogos de 92 em Barcelona: lazer à beira-mar
Segundos depois que o presidente do COI, Jacques Rogge, anunciou no dia 2 de outubro, em Copenhague, que o Rio de Janeiro seria a sede dos Jogos Olímpicos de 2016, um sonoro pipocar de rojões foi ouvido num lugar pouco provável: a Espanha, justamente o país cuja capital, Madri, tivera seu sonho de sediar os jogos desbancado, na última rodada de votos, pela sedução carioca.

Não eram emigrantes brasileiros comemorando a conquista, mas sim moradores de Barcelona, aliviados por ver sua eterna rival fora de cena pela segunda vez consecutiva. Madri também se candidatou, sem êxito, aos Jogos de 2012, quando Londres ganhou a disputa.

Sede dos Jogos de 1992, Barcelona, a capital regional da Catalunha, manteve sua exclusividade olímpica em território espanhol, algo muito caro ao sentimento nacionalista catalão – que, diga-se de passagem, não deve ser subestimado em hipótese alguma. A Catalunha se considera uma nação à parte no colorido mosaico étnico e político espanhol, e os catalães, com justiça, ainda hoje se orgulham de ter hospedado os Jogos que muitos analistas consideram os mais bem-sucedidos de todos os tempos.

“As transformações feitas na cidade para a Olimpíada passaram a ser vistas como um modelo para outras que desejam iniciar processos de revitalização em larga escala”, diz Stephen Essex, titular da cadeira de Geografia Humana da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, autor do estudo Urban transformation from hosting the Olympic Games (Transformações Urbanas Resultantes de Jogos Olímpicos).


Problemas comuns

A excelência catalã em converter sua capital no palco perfeito para o maior evento esportivo do planeta e, acima de tudo, a capacidade de reverter os investimentos em seu próprio benefício são inspiração para qualquer cidade que se proponha a repetir a façanha. O modelo, aliás, mostra-se particularmente atraente para o Rio de Janeiro – que precisa com urgência melhorar a qualidade de vida da população e tornar-se mais atrativa para o resto do mundo.

A Barcelona pré-olímpica guardava vários pontos em comum com a Cidade Maravilhosa, além do fato de ambas serem cidades à beira-mar e exibir uma notória vocação para o hedonismo e as celebrações.

Entre as obras que devem obrigatoriamente estar concluídas no Rio daqui a pouco mais de 2.400 dias figuram um monumental arco rodoviário, a ampliação do metrô (que deverá chegar à Barra da Tijuca), a reforma do aeroporto do Galeão, a despoluição da Baía da Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas e a construção de uma vila olímpica. E ainda instalações como ginásios, piscinas e outros pavilhões olímpicos, além de um sem-fim de ajustes de menor dimensão. O orçamento previsto é de R$ 23,2 bilhões.

Todos os principais objetivos da empreitada Rio 2016 constavam também do projeto Barcelona 92. Dois cinturões rodoviários, num total de 40 quilômetros de autopistas, foram construídos para aliviar o trânsito que entupia as principais artérias da cidade. O metrô foi ampliado – embora uma parte importante das obras não tenha ficado pronta a tempo – e o aeroporto de El Prat foi expandido para suportar um movimento que, de lá para cá, cresceu de 10 milhões para 35 milhões de passageiros ao ano.

Mais: assim como o projeto carioca prevê a despoluição da baía e da lagoa, Barcelona teve de sanear o litoral, reformar totalmente seu porto decadente e construir praias artificiais, medidas que fizeram com que a cidade novamente voltasse sua face para o mar, recuperando a antiga essência mediterrânea. Até então, Barcelona estava isolada da costa por um porto abarrotado de instalações caindo aos pedaços e suas praias não passavam de vertedouros de resíduos industriais e de esgoto.


Euforia da mudança

Nem tudo é coincidência, no entanto, e alguns graves problemas são próprios apenas do Rio de Janeiro: a violência e a criminalidade, acima de tudo, são uma questão peso pesado a ser enfrentada. Mas, no lado risonho da comparação, o Rio de hoje e a Barcelona de 20 anos atrás compartilham uma euforia típica das grandes e boas mudanças.

Além da perspectiva de abrigar parte dos jogos da Copa do Mundo de 2014 e de ser a primeira cidade da América do Sul eleita para sediar uma Olimpíada, o Rio tem diante de si a privilegiada situação econômica brasileira atual, enquanto Estados Unidos e Europa vivem dias de vacas magras. “Estou seguro de que os Jogos serão um grande êxito, pois o Rio é um cenário magnífico e a emergência do Brasil no campo social, cultural e econômico é uma boa garantia”, diz o arquiteto catalão Oriol Bohigas, responsável pelo projeto mais ambicioso de Barcelona 92: a construção da Vila Olímpica, que fez com que a cidade se abrisse ao Mediterrâneo.

Em 1975, o último dos 36 anos da tenebrosa ditadura franquista coincidiu com uma das crises mundiais do petróleo. A instabilidade agravou ainda mais o estado de precariedade em que se encontrava a cidade, assim como o resto da rebelde Catalunha, devido ao abandono que lhe impusera o governo do general Franco em termos de infraestrutura e políticas sociais.

Com a abertura política e a desestatização que se seguiram, porém, uma grande injeção de capital privado permitiu que Barcelona pusesse em andamento um ambicioso projeto de reestruturação, no qual os Jogos Olímpicos foram uma espécie de cereja do bolo.

“Depois de um longo período de abandono urbano e repressão, Barcelona vivia um brote convulsivo de desenvolvimento (...); algumas ocasiões oferecem a grande oportunidade de rever as coisas, e isso foi precisamente o que ocorreu em Barcelona após a morte de Franco”, diz o crítico de arte australiano Robert Hughes em seu livro Barcelona, um tratado sobre a cidade e a cultura catalã.


Contas no azul

Qual foi, afinal, o segredo de tamanha reinvenção?“Sem dúvida, a chave do sucesso dos Jogos Olímpicos de 1992 foi sua forma de organização, por meio de acordos entre instituições públicas e privadas e joint ventures, e a excelente capacidade que a cidade teve de estimular sua economia e atrair investimentos”, diz Ferran Brunet, economista do Centro de Estudos Olímpicos da Universidade Autônoma de Barcelona, autor do artigo An economic analysis of the Barcelona’92 Olympic Games: resources, financing and impact (“Uma análise econômica dos Jogos Olímpicos de Barcelona’92: recursos, financiamento e impacto”).

Liquidadas as contas dos Jogos Olímpicos, em julho de 1993, a receita gerada foi de US$ 1,638 bilhão (R$ 2,81 bilhões), enquanto os gastos ficaram em US$ 1,635 bilhão (R$ 2,8 bilhões).Uma Olimpíada no azul, portanto.

Da quantia investida, um terço foi bancado por patrocinadores e outro terço gerado pela venda dos direitos televisivos. Segundo Brunet, esse rateio é o traço mais marcante do orçamento dos Jogos de Barcelona. Comparados aos de Los Angeles, em 1984, os recursos obtidos por Barcelona por meio de patrocínio foram 270% maiores, enquanto os arrecadados com a venda de direitos televisivos cresceram 90%.

O planejamento estratégico e a organização do evento foram fruto de uma ação conjunta da prefeitura de Barcelona, do governo autônomo da Catalunha, do governo central espanhol e dos Comitês Olímpicos espanhol e internacional. Criaram-se núcleos administrativos com integrantes não vinculados à administração pública.

Selaram-se parcerias entre o setor público e privado e foi feita uma separação entre a gestão dos investimentos e a organização dos jogos, entregues a profissionais especializados de cada setor. A administração transparente e profissional desses recursos foi vital para o sucesso dos Jogos, uma receita que bem poderia ser transplantada para o Rio, de maneira a aplacar as desconfianças que cercam o manejo dos recursos públicos que serão investidos.


Vila integrada

Antes mesmo de sediar a Olimpíada, Barcelona havia iniciado um plano de reconstrução encabeçado pela figura carismática do prefeito Pasqual Maragall (1982-1987). As obras olímpicas buscaram se integrar a esse plano, cujos investimentos privilegiaram áreas como a mobilidade, as telecomunicações, o setor hoteleiro, o meio ambiente e a estrutura esportiva propriamente dita.

“Quando se decidiu construir a Vila Olímpica dos Jogos de 92, discutiu-se muito sua localização, e chegamos ao acordo de que ela deveria ficar em um lugar valorizado e, ao mesmo tempo, conflituoso da cidade, para que pudéssemos resolver uma série de problemas que não se resolveriam em outras circunstâncias”, conta Oriol Bohigas em seu livro Realismo, Urbanidad y Fracasos (“Realismo, Urbanidade e Fracassos”).

“O argumento fundamental foi o de que uma vila olímpica longe do centro não teria nenhum sentido para o futuro de Barcelona; não seria nunca um bairro barcelonês, nem aportaria nada para a reforma urbanística da cidade”, escreveu Bohigas.

De fato, a Vila Olímpica catalã integrou-se à cidade. Próxima ao mar e ao Parc de la Ciutadella, a principal área verde do centro de Barcelona, seus apartamentos estão totalmente ocupados, e a área abriga centros comerciais, restaurantes e aparelhos culturais.

Tal integração deveu-se, sobretudo, à sua localização e ao caráter de espaço público com que foi concebida. A Vila Olímpica foi pensada como mais um bairro da capital, ligado ao centro por linhas de metrô e de ônibus.

O trajeto da Plaça Catalunya, marco zero da cidade, à Vila leva cerca de 10 minutos. Além disso, a vila fica próxima do maior presente que a Olimpíada deu aos habitantes de Barcelona: a praia. Com isso, o novo espaço foi acolhido pela população com entusiasmo.

Com a Barra da Tijuca abrigando a Vila Olímpica carioca e outras instalações dos Jogos, seria recomendável que o Rio levasse o exemplo catalão em alta conta. Seria uma boa maneira de assegurar que, passada a euforia do evento, a Vila não fique entregue à própria sorte.

fotos: Tirosme de Barcelona/J. Trullas (interna) e Rio2016/BCMF Arquitetos (capa)



28/06/2016 -   FIESP destaca a importância da logística para a retomada do crescimento
02/05/2016 -   Movimat divulga detalhes da feira de setembro
31/03/2016 -   Em 15 anos, a Votorantim e a Intercement chegaram ao grupo dos 20 maiores produtores do mundo
03/10/2015 -   A Ásia são muitas
03/10/2015 -   Restaurantes, galerias, praias e parques de Miami
03/10/2015 -   O caminho da diferença
03/10/2015 -   O mundo é Azul
03/10/2015 -   Voando sobre o mundo
03/10/2015 -   De olho no mundo
01/10/2015 -   Um Calatrava no Rio
29/09/2015 -   Passage to India
29/09/2015 -   A bigger share, please?
Totum Editora Revista PIB - 2009 © Todos os Direitos Reservados