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Ago/Set 2009

O mundo chama

Bancos brasileiros vencem a timidez e começam a disputar espaço nos mercados financeiros internacionais

Cláudio Gradilone
Agência do BB no Japão: remessas para os emigrados

A hora e o local não poderiam ser mais propícios.

Na primeira semana de abril de 2009, nas alamedas ao redor do Palácio Imperial, no centro de Tóquio, observavam-se cerejeiras em plena floração, marcando a chegada da primavera, uma das principais festas populares nipônicas.

Em um luxuoso salão do Hotel Imperial, a poucos metros da residência do Imperador, cerca de 250 investidores japoneses, individuais e institucionais, acompanhavam as apresentações de Roberto Nishikawa, presidente da Itaú Securities, empresa de investimentos vinculada ao Banco Itaú. Seu objetivo era transformar os disciplinados poupadores japoneses em entusiastas do mercado de capitais brasileiro.

Nishikawa e seus funcionários, todos fluentes em japonês, enfeixavam argumentos, já bem conhecidos no Brasil, para provar que o país se tornou, depois de muito esforço, um porto seguro para qualquer investidor: os bons prognósticos da economia brasileira, cujo crescimento está lastreado no consumo interno; a solidez das contas públicas; a tranquilidade fornecida pelo câmbio flutuante e pelas abundantes reservas internacionais.


Investidor global

Tanto esforço para vender a economia brasileira lá fora está sendo bem-sucedido, o que pode ser comprovado pela mudança no perfil do dinheiro investido por aqui.

Segundo Nishikawa, há cinco anos praticamente todos os investimentos estrangeiros no Brasil vinham de fundos específicos, dedicados apenas à América Latina. Isso limitava as captações. Hoje, esse percentual caiu para 80%.

Ainda parece muito, mas a mudança é fundamental. “Cerca de 20% do dinheiro que chega vem de investidores generalistas, que aplicam recursos no mercado como um todo”, diz ele. “Essa fonte de capital é muito maior.”

Os estrangeiros que investem no Brasil deixaram de ser um clube restrito. Hoje, não é absurdo imaginar que o transeunte que caminha numa rua das principais capitais mundiais tenha alguns de seus dólares, euros, libras ou ienes investidos em ativos brasileiros.


Adeus, andorinhas

Os números do Banco Central (BC) mostram o efeito do trabalho de executivos como Nishikawa. Entre janeiro e julho de 2008, quando a crise financeira internacional ainda não havia mostrado toda a sua gravidade, o Brasil recebeu US$ 17 bilhões em investimentos no mercado financeiro, os chamados investimentos em portfólio.

Uma
crise e várias falências bancárias depois, o total ainda chegou a US$ 12 bilhões no mesmo período de 2009.

Não é dinheiro de empresas que constroem fábricas e assumem compromissos de longo prazo, mas o capital arisco de investidores financeiros – aquele chamado, em outros tempos, de capital-andorinha, sempre pronto a levantar voo e fugir ao primeiro sinal de tempestade nos mercados emergentes.

O volume de entrada pós-crise global, ainda que menor em relação a 2008, mostra que o Brasil continua a ser visto como porto seguro. Só o Itaú administra US$ 3,5 bilhões em capital externo. Além de unidades em Nova York e Londres que existem há quase dez anos, recentemente fincou bandeira em Tóquio, Hong Kong e Dubai.


Bolsa internacional

 
“A intenção é acessar mais facilmente as enormes reservas de capital da Ásia e do Oriente Médio”, diz Nishikawa. Os investimentos assumem formas variadas. Podem ser American Depositary Receipts (ADR), que são títulos lastreados por ações brasileiras negociados na Bolsa de Nova York.

Podem ser fundos de investimento que aplicam no mercado brasileiro. Podem ser títulos de renda fixa estatais ou privados, ou mesmo papéis dos próprios bancos, cujos recursos vão financiar o crédito para imóveis e automóveis no Brasil.

Além dos bancos brasileiros, a Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo se movimenta para ampliar sua presença global. Vai abrir em breve um escritório em Londres e já tem representações em Nova York e Xangai.

A intenção da BM&FBOVESPA é promover seus serviços entre os investidores, corretoras, administradores de fundos e outros participantes do mercado, de acordo com o presidente da instituição, Edemir Pinto.


Disputando mercados

Captar dinheiro internacional sempre fez parte do dia a dia dos banqueiros brasileiros, que precisavam abastecer um país carente de capital. Agora, porém, os bancos nacionais estão assumindo um novo protagonismo internacional.

Instituições financeiras privadas e estatais como o Itaú Unibanco, o Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) carimbam passaporte para disputar mercados e apoiar a expansão internacional das empresas brasileiras.

Ao fazer isso, os bancos brasileiros assumem, com atraso, um papel que sempre caracterizou seus concorrentes em países desenvolvidos.

“Quando uma grande corporação começa a atuar fora do país de origem, leva consigo seus fornecedores e seu banqueiro”, disse o então presidente do ABN Amro Real, Fábio Barbosa, em uma apresentação a investidores em 2006. “Bancos não costumam desbravar novos mercados sozinhos – em geral acompanham as empresas.”


Na capital do Mercosul

Para isso, o BNDES inaugurou, no final de agosto, uma filial na capital do Uruguai.

“O escritório de Montevidéu reflete a prioridade do banco com relação à integração regional da América do Sul, especialmente no Mercosul”, diz Maria Isabel Aboim, superintendente da área internacional do banco. “O próximo passo será a inauguração das instalações em Londres, representando o início da nossa presença na comunidade financeira internacional.”

O fato de estar na capital do Mercosul ajuda o BNDES a prospectar oportunidades para as empresas brasileiras. A estratégia do banco vai além do tradicional apoio às exportações – passa ainda pela assessoria de empresas que querem se instalar fora do Brasil.

Nesse sentido, o escritório uruguaio – a primeira unidade do banco no exterior – e o fato de o BNDES ter se associado a organismos multilaterais demonstram a nova orientação.

No primeiro semestre, o banco passou a integrar o Institute of International Finance, uma associação internacional de instituições financeiras e um dos principais fóruns de discussão bancária ao redor do mundo. Suas conferências periódicas reúnem as lideranças do setor e o BNDES será um dos patrocinadores da encontro anual de 2009, que será realizado em outubro em Istambul, na Turquia.


Financiando exportações

Luciano Coutinho, presidente da instituição, declarou publicamente que o banco está analisando projetos de exportação para países da América Latina que somam US$ 15,6 bilhões.

Coutinho informou, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que os desembolsos para a região duplicaram no biênio 2007-2008 em comparação com o período anterior e devem continuar crescendo nos próximos anos, apesar da crise.

Até 2004, o BNDES vinha emprestando em média US$ 550 milhões para a região a cada biênio, valor que subiu para US$ 855 milhões em 2005-2006 e chegou a US$ 1,74 bilhão em 2007-2008.

O apoio às exportações beneficia principalmente construtoras e fornecedores de equipamentos, fabricantes de máquinas agrícolas, de ônibus e de dutos para gás e óleo.

Maria Isabel Aboim diz que a crise não atrapalhou a internacionalização do BNDES. “Ao contrário, agora estamos mais bem posicionados para aproveitar as oportunidades que estão surgindo para o banco e para as empresas brasileiras no mercado internacional”, diz ela.


Prioridade para os vizinhos   

Ao priorizar a América do Sul, o BNDES acompanha a estratégia de internacionalização das empresas e mesmo dos bancos privados brasileiros que partiram para prospectar o mercado externo.

Para qualquer banco brasileiro que queira crescer no exterior, faz sentido começar pelos mercados vizinhos, próximos na geografia, na história e na cultura.

Em 1998, o Itaú mirou na América Latina ao fundir sua unidade na Argentina com o Banco Buen Ayre, movimento que se ampliaria em 2004, com a aquisição das atividades brasileiras do Bank of America.

Dois anos antes, o banco americano havia comprado os controladores do BankBoston no Brasil. Sem interesse por operações fora dos Estados Unidos, o Bank of America condicionou a venda do Bank- Boston à aquisição, pelo Itaú, de suas atividades no Chile, Peru e pequenos escritórios na Europa.


O Chile como laboratório

Na época, o negócio pareceu não fazer sentido.

“À primeira vista era difícil explicar a razão da compra, afinal o controlador do BankBoston no Chile não estava sequer entre os dez primeiros lugares”, diz um ex-diretor da consultoria McKinsey que atendeu a conta do Itaú por muitos anos.

Qual o significado, portanto? “O Chile era então o único país latino-americano com grau de investimento, daí ter um banco lá seria um excelente laboratório para o Itaú.”

O banco poderia aproveitar a experiência no Chile para aprender a operar em um país de juros baixos e economia estável para, então, disputar o país latino-americano que realmente interessa: a enorme comunidade hispânica nos Estados Unidos.

“Qualquer banco que queira crescer em mercados relevantes lá fora tem de ir além das fronteiras da comunidade brasileira”, diz o consultor. “Os hispânicos nos Estados Unidos somam uma população do porte de um grande país da América Latina, e nenhuma instituição financeira que pretenda ser um parceiro global relevante pode ignorar esse mercado.”


De olho nos expatriados

O peso crescente dos imigrantes e seus descendentes na economia norte-americana atraiu até o conservador Banco do Brasil, que está revendo sua estratégia internacional para se aproximar da comunidade brasileira expatriada.

No dia 31 de agosto, o BB anunciou a criação de uma empresa, a BB Money Transfer, dedicada aos brasileiros que vivem e trabalham nos Estados Unidos. Atuando por meio de correspondentes bancários, como supermercados, açougues e padarias que servem à comunidade, o BB quer facilitar o envio de dinheiro dos Estados Unidos para o Brasil.

“A ideia é que o brasileiro possa enviar dinheiro para a família quando for comprar leite, depois de sair do trabalho”, diz Admilson Garcia, diretor internacional do Banco do Brasil. “O BB fará a conversão automaticamente e depositará na conta do favorecido no Brasil os reais correspondentes aos dólares enviados.”


Estréia no Japão

A meta até o fim do ano que vem, segundo Garcia, é cadastrar uma centena de estabelecimentos próximos aos pontos onde haja maior concentração de trabalhadores brasileiros.

O mercado de remessas é grande. Neste ano, o Brasil deverá receber US$ 7,2 bilhões dos conterrâneos trabalhando no exterior, e 40% desse total deverá vir dos Estados Unidos. “Queremos intermediar um terço dessas transferências”, diz Garcia.

O BB já processa 70% das remessas dos brasileiros que trabalham no Japão, os dekasseguis. “Chegamos ao Japão no início dos anos 90, muito antes da concorrência.”

A atuação de Bradesco e Itaú tem sido tímida por lá. O Itaú só iniciaria sua participação nesses mercados a partir de 2004, pouco depois de o Bradesco ter fechado parcerias com os bancos Daito e UFJ (hoje Mitsubishi UFG) para captar parte das remessas dos dekasseguis.


Mudança de rumo

A decisão do BB de disputar o varejo americano representa uma mudança drástica na sua atuação internacional.

Até há pouco tempo, ele atendia basicamente os brasileiros de alta renda em sua agência em Nova York, na luxuosa Quinta Avenida, ou as empresas que precisavam de apoio em suas operações de comércio exterior por meio de um escritório de Miami.

“Agora, vamos disputar uma fatia do varejo bancário nos Estados Unidos”, diz Garcia. O executivo não descarta sequer a aquisição de instituições em algum país da América Latina. Qual país, Garcia não revela. “Pode elevar os preços”, diz ele.

Se concretizada, a compra seria mais um passo em um novo momento para os bancos brasileiros, que, depois de fazer a lição de casa pós-estabilização, pouco a pouco deixam de lado a timidez e passam a disputar em pé de igualdade negócios em outros países.

fotos: Divulgação



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