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Ago/Set 2009

Clifford Sobel: Bye-bye, Brazil

O ex-embaixador norte-americano acredita que, finalmente, o futuro chegou ao Brasil

Nely Caixeta
Sobel: O Brasil olha para fora mais do que nunca

No final de agosto último, Clifford Sobel devolveu suas credenciais de 53º embaixador norte-americano no Brasil. Muita coisa mudou nos três anos em que ocupou o cargo.

“O Brasil se transformou nesse período”, ele diz. “Tornou-se um líder de importância regional e global indiscutível.” Boa parte dessa liderança, segundo Sobel, deve-se ao carisma do presidente Lula. “Pessoas do mundo inteiro ficaram mais interessadas no Brasil por causa dele”, diz.

O triênio em terras brasileiras bastou, também, para que Sobel e sua mulher, Barbara, se afeiçoassem ao país e à sua cultura. “Amamos a música brasileira, particularmente a baiana”, diz Sobel, fã confesso de Ivete Sangalo e Carlinhos Brown.

Graduado em administração pela Universidade de Nova York, Sobel, 60 anos, possui uma vasta experiência em negócios. Durante os anos 1970 e 1980, fundou e liderou várias empresas. A Net2Phone, última delas, foi a maior provedora de serviços telefônicos pela internet do mercado americano, até ser adquirida pela Cisco.

Embora sua figura lembre vagamente a do ex-presidente Bill Clinton, Sobel é um republicano convicto. Participou da coordenação financeira das campanhas de George W. Bush à Presidência.

Com a vitória deste, foi nomeado embaixador americano na Holanda, onde viveu entre 2001 e 2005. No ano seguinte, assumiu o seu posto em Brasília.

Nascido
em Nova Jersey, casado há 43 anos com Barbara e pai de três filhos – Scott (32) e os gêmeos John e Julie (28) –, Clifford Sobel concedeu à revista PIB a seguinte entrevista exclusiva. Nela, o ex-embaixador analisa o avanço do país em vários setores, a vocação empreendedora brasileira, que considera comparável à americana, e o futuro das relações Brasil-Estados Unidos.


Que impressão o senhor tinha do Brasil há três anos, quando assumiu o cargo, e qual tem agora, ao deixá-lo?
O Brasil de hoje é um país bastante diferente do que era há três anos. Em primeiro lugar porque se tornou muito mais estável, tanto financeira quanto politicamente. Mais do que nunca o Brasil está olhando para o exterior. É um país que abriu mais de 40 novas embaixadas recentemente, que deseja fazer parte do Conselho de Segurança da ONU e que hoje lidera fóruns regionais e globais. Os brasileiros, que sempre foram otimistas, parecem ter se dado conta de que seu futuro, finalmente, chegou. Quando desembarquei aqui, muita gente questionava as relações entre o Brasil e os Estados Unidos, duvidando que estivéssemos comprometidos com ele. Então, em março de 2007, foi assinado o Acordo dos Biocombustíveis – e Lula foi o primeiro presidente latino-americano a ser recebido em Camp David. Isso foi um indicador da relação especial que existe hoje entre os dois países.

Essa nova projeção internacional do Brasil se deve ao avanço econômico ou ao carisma do presidente Lula?
Lula se tornou presidente em um momento muito importante – e conquistou os brasileiros com sua visão. Pessoas em todo o mundo ficaram mais interessadas no Brasil por causa de Lula, que viajou intensamente e abriu tantas novas embaixadas. Além disso, Lula facilitou o acesso da população a habitação e bens de consumo. Em muitos aspectos, ele é um líder inspirador.

O que o senhor acha do “jeitinho brasileiro”?
Prefiro descrever esse traço com a palavra flexibilidade. Ela é um elemento cultural importante associado aos brasileiros. É excepcional a maneira como eles conseguem se adaptar aos ambientes de mudanças. E muitas aconteceram no Brasil nos últimos anos. Se o país já não é o mesmo de três anos atrás, quando cheguei, imagine como era diferente há uma ou duas décadas. Ser flexível também tem a ver com capacidade de inovação. Um elemento importante da cultura do Brasil é a sua capacidade de inovar. Em muitos aspectos, o espírito empreendedor, que inclui inovação, é tão brasileiro quanto americano. É um dos elementos que talvez separem o Novo Mundo da Europa, que não é tão inovadora, flexível e empreendedora. O Brasil é um país onde as pessoas assumem riscos da mesma forma que nos Estados Unidos. Há muitos traços culturais comuns entre os brasileiros e os americanos – e a flexibilidade é um deles.

O que mudou com a eleição de Barack Obama?
Com Barack Obama, os Estados Unidos assumiram uma nova cara, que nos permitiu desenvolver ainda mais as relações entre os dois países e promover as relações regionais. Um exemplo extraordinário foi a Cúpula das Américas. Ela não foi uma reunião entre Norte e Sul, e sim um encontro de países do continente americano para enfrentar seus problemas de forma coletiva. Foi um momento histórico – e acredito que, nos próximos anos, essas nossas relações se estreitarão ainda mais.

O senhor citou o Acordo dos Biocombustíveis. Qual foi, afinal, o resultado prático desse encontro?
Foram muitos. Na verdade, o acordo se divide em três partes. O objetivo era fazer dos biocombustíveis um novo recurso de energia transformador. Para atingir essa meta, nossa primeira ação foi expandir essa tecnologia para outros países, a fim de que eles pudessem desenvolver uma capacidade local na produção de biocombustíveis. Hoje, o Brasil e os Estados Unidos estão trabalhando com outros dez países – nas Américas, no Caribe e até na África, em que o Senegal é um dos parceiros mais recentes. Em segundo lugar, no campo da pesquisa e desenvolvimento, discutimos a construção de uma relação mais estreita de cooperação. Isso já está acontecendo no setor privado. Nossas universidades já estão trabalhando juntas.

O senhor poderia dar mais detalhes sobre essa colaboração entre universidades?
Conversei recentemente com o MIT (Massachussets Institute of Technology), que quer estreitar seus laços com a Petrobras na área de biocombustíveis. Muitas outras universidades – Illinois, Purdue – estão formando parcerias com o Brasil. Em Golden, no Colorado, há o National Institute of Biofuel Research. Lá trabalha uma cientista muito boa, Helena Schulmann, que é brasileira...

Voltemos à pesquisa e desenvolvimento...
Sim. Em pesquisa e desenvolvimento, estamos colaborando de forma mais estreita com instituições brasileiras como a Unica e a Embrapa. Há algumas semanas, houve a conferência da Unica. Os grandes agricultores se reuniram com as grandes companhias norte-americanas que trabalham com processos de última geração em tecnologias celulósicas envolvendo enzimas. Esse encontro foi tão bem-sucedido que a próxima conferência deverá ser realizada em Washington nos próximos meses, sem apoio do governo. Ainda nessa área, a comunidade científica internacional desenvolveu um conjunto de padrões a serem adotados pelos laboratórios na avaliação dos biocombustíveis. É preciso que haja padrões para que os biocombustíveis possam ser comercializados nos mercados internacionais de commodities.

O senhor acha que o mundo usará mais etanol, a ponto de transformá- lo, enfim, numa commodity? Sem dúvida. A energia renovável é o futuro. Não vai acontecer da noite para o dia, será um processo gradativo e difícil. Mas acho que ninguém duvida de que ele fará parte da matriz energética no futuro.

Até que ponto o anunciado apoio de Barack Obama a causas ambientalistas favorece esse avanço?
Ele já declarou seu apoio aos novos combustíveis. Isso não quer dizer que ele vá reduzir as tarifas, pois essa decisão cabe ao Congresso. Mas ele é favorável ao investimento em pesquisa, para que possamos transformar o lixo de hoje na energia de amanhã.

Em uma entrevista recente, o senhor disse que há muitas oportunidades para empresários norte-americanos e brasileiros. Há mesmo?
Existem oportunidades para os dois lados. Prova disso é o equilíbrio cada vez maior entre os dois países. No sudeste dos Estados Unidos, hoje, a maior produtora de cimento é a Votorantim. A maior fornecedora de produtos têxteis para o Wal-Mart é a Coteminas. A Gerdau é uma grande fabricante de aço nos Estados Unidos. Esse equilíbrio está gerando uma parceria cada vez maior. Minha esperança é que, nos próximos anos, Brasil e Estados Unidos trabalhem de maneira estreita algumas questões que facilitarão ainda mais o comércio e os investimentos entre os dois países. É preciso enfrentar questões como, por exemplo, a dupla tributação. Muitos empresários se queixam de que o governo brasileiro reluta em assinar um acordo para investimentos estrangeiros.

O senhor acha que há uma chance de essa posição ser revista?
Um dos problemas de um acordo para investimentos é que o Brasil não concorda com certos fundamentos adotados por alguns países da OCDE. A arbitragem internacional, por exemplo. É difícil ter um tratado de investimentos sem que se tenha a capacidade de arbitragem de disputas. São questões fundamentais que o Brasil vai ter de definir por conta própria. Mas creio que, à medida que as companhias brasileiras buscarem proteção para seus investimentos internacionais, haverá maior ênfase em descobrir como o Brasil pode também atrair mais investimento estrangeiro. Não vai acontecer da noite para o dia, mas espero que daqui a alguns anos possamos ter um tratado de investimentos construído.

O senhor acha que os bancos brasileiros têm hoje uma chance de se internacionalizarem?
Essa decisão terá de ser tomada de forma individual, cada banco fará sua escolha, com base em fatores regionais, hemisféricos e internacionais. Essa equação tem muitos fatores. Um comentário importante: o Brasil já teve muita volatilidade em seus mercados financeiros, e acho que aprendeu bastante com isso. Acredito que o Brasil pode ser muito útil para o G20 e outras organizações que estão buscando aprender lições com essa crise financeira. Hoje em dia, o setor financeiro brasileiro é considerado tão forte quanto o de qualquer outra nação. As reservas do Brasil são bem mais altas que as de muitos outros países. A ausência de alavancagem significativa certamente foi útil para o país durante a crise. As instituições financeiras do Brasil atraem grande interesse e são muito admiradas hoje em dia. Antes da última reunião do G20, convidamos um grupo de pessoas muito experientes do Ministério da Fazenda brasileiro para ir aos Estados Unidos conversar com nosso Departamento do Tesouro. Não para sentar à mesa do G20, mas sim para conversar antes da reunião. Queríamos saber quais eram as opiniões do Brasil acerca de muitas das questões que precisávamos solucionar para enfrentar a crise financeira. O setor financeiro brasileiro é talvez um dos componentes mais sólidos do país na atualidade.

Ex-dirigentes do Banco Central do Brasil têm viajado para outros países a fim de difundir o conhecimento que acumularam nos muitos períodos de turbulência enfrentados pelo sistema financeiro do país...
Sem dúvida. Este é um período muito interessante para o Brasil, e também uma oportunidade única para que países como os Estados Unidos definam como podemos formar parcerias em muitas áreas. O momento atual é ótimo para o empreendedorismo no Brasil. A questão, agora, é detectar as oportunidades com base nas quais podemos continuar a construir nossas relações.

O senhor acha que companhias brasileiras e americanas podem vir a atuar juntas na África?
Não é inconcebível que isso aconteça no futuro. A África se tornou a vitrine do interesse do Brasil em cooperar com países em desenvolvimento. Poderíamos trabalhar em parceria com o Brasil no combate à Aids, uma vez que o programa brasileiro contra o HIV é reconhecido mundialmente. Outra grande preocupação da secretária de Estado, Hillary Clinton, e do presidente Obama, que falou nisso recentemente, é a segurança alimentar. Excluindo-se a União Europeia, que é um grupo de países, os Estados Unidos e o Brasil são os dois maiores produtores de alimentos no mundo. O Brasil tem a Embrapa, que é uma grande instituição de pesquisa. Nós temos o ABC, que é uma instituição parecida com o Usaid. Essas duas instituições estão trabalhando juntas em um projeto em Moçambique e podem vir a trabalhar em outros países, como Angola. A meta é criar centros de excelência agrícola, para impulsionar a agricultura local dentro de um programa de segurança alimentar. Talvez possamos fazer o mesmo no Haiti e em outros locais, aumentando a capacidade de produção de alimentos de países necessitados. A segurança alimentar é um ótimo começo para que, nos próximos anos, haja uma convergência ainda maior em termos de cooperação multilateral.

O senhor fez muitos amigos no Brasil?
Sim. Fomos recebidos de braços abertos. Esse é o jeito da sociedade brasileira, aberta e sempre pronta a oferecer as boas-vindas. O Brasil é rico não apenas por suas commodities, mas pelo seu povo. Uma das lembranças mais vívidas que levaremos daqui são as amizades que construímos e que desejamos preservar por muitos anos.

A cultura brasileira também o atraiu?
Ela é muito rica e diversa. A Bahia, por exemplo, é muito diferente de São Paulo, que é diferente do Norte ou de Mato Grosso. São muitas culturas, mas um só país. Muitos rostos, mas uma só família. Mas, apesar dessas diferenças, todos têm muito orgulho de ser brasileiros. O Brasil é tão patriótico quanto os Estados Unidos.

O que mais o fascinou em nossa cultura?
Muitas coisas. Cada estado tem suas festas próprias. Os carnavais de Olinda, Recife e Salvador são muito diferentes. O Boi-Bumbá, de Parintins, é diferente do carnaval carioca. Essa é a riqueza do tecido cultural brasileiro. Eu e minha mulher amamos MPB. Não me importo de dizer que adoro a música baiana, em especial as de Ivete Sangalo e de Carlinhos Brown. Além disso, Barbara, minha mulher, coleciona arte brasileira.

O Brasil figura em seus planos futuros?
Sim. Por enquanto não tenho nada definido, a não ser aguardar o nascimento de meu segundo neto, que deverá ocorrer muito brevemente. Mas estou avaliando as oportunidades que vêm surgindo e, certamente, gostaria muito de manter as muitas conexões que fiz aqui nos últimos três anos.

foto: Divulgação



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