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Mai/Jun 2009

Karl P. Sauvant: As lições da crise

Para professor de Columbia, empresas brasileiras precisam desenvolver mentalidade globalizada

Nely Caixeta
Sauvant: mudança de mentalidade para aproveitar as oportunidades abertas pela crise

Ao longo dos 30 anos em que trabalhou para a ONU, até se aposentar, em 2005, como diretor de investimentos da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), o professor alemão Karl P. Sauvant dedicou especial atenção a temas relacionados aos países em desenvolvimento.

Sauvant conhece muito bem o Brasil – e não só por dever de ofício. Além de acompanhar o mercado e as empresas brasileiras há décadas, ele trabalhou sob o comando do embaixador Rubens Ricupero à época em que este ocupou a secretaria-geral da Unctad. Sua mulher, Silvana, é uma mineira de Belo Horizonte, a quem conheceu na ONU.

Idealizador do World Investment Report, relatório anual produzido pela Unctad que é, desde 1991, uma minuciosa radiografia anual dos fluxos de investimento estrangeiro direto em todo o mundo, Sauvant dedicou os últimos três anos ao mesmo tema na Universidade Columbia, em Nova York. Ali, além de lecionar, criou e dirige o Vale Columbia Center on Sustainable International Investment, um centro de estudos conjunto da Escola de Direito de Columbia e do The Earth Institute, mantido pela brasileira Vale.

Nesta entrevista a PIB (cujas seis edições anteriores garante ter lido na íntegra), Sauvant discute os impactos da crise sobre os mercados emergentes, prevê tempos de baixo crescimento para o Brasil e faz um alerta às companhias brasileiras que iniciaram a marcha da internacionalização.

No rescaldo da crise financeira e da recessão – diz ele – podem surgir boas oportunidades para aquisição de empresas no exterior. “Mas é preciso ter consciência de que é bastante difícil fazer uma fusão e aquisição internacional dar certo”, alerta. “Há uma real necessidade de recursos humanos treinados e experientes em mercados internacionais.” Eis a entrevista concedida por telefone a PIB:

Muitos acreditam que a crise financeira poderá servir de atalho para acelerar a inserção das empresas dos países emergentes nos mercados globais. O senhor considera essa avaliação correta ou ainda é muito cedo para saber?
Em princípio, sim. Mas durante uma crise financeira com recessão, é difícil implementar grandes planos de expansão, inclusive para firmas dos mercados emergentes. É verdade que, por um breve período, pareceu que os países em desenvolvimento poderiam se desligar ou se desacoplar do resto do mundo. Hoje, todos sabem que eles também estão sofrendo consideravelmente os efeitos da crise e da recessão. No caso do Brasil, o FMI acaba de estimar que o PIB deve declinar em 1,3% em 2009 (a mesma queda do mundo como um todo). Mas não me surpreenderia se essa taxa, como as demais divulgadas pelo FMI nos últimos meses, seja revista para baixo. Todas as previsões do último semestre foram revistas, a cada dois meses mais ou menos, para valores inferiores.

Essas previsões do FMI deixaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bastante irritado.
A função dele, e dos políticos em todos os países, é ser otimista e fazer o possível para evitar uma recessão mais forte. Estou cruzando os dedos para que ele tenha razão. Todos esperamos que o quadro não se agrave. No nível macro, a crise não diferencia os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. No nível micro, porém, do investimento direto no exterior, posso imaginar que algumas empresas poderiam ter condições de se expandir internacionalmente nas circunstâncias atuais com bastante sucesso – as oportunidades estão aí. Sob certos aspectos, é uma boa hora para ampliar sua presença no exterior. No entanto, para promover fusões e aquisições internacionais ou para se estabelecer fora do país, as empresas dos países em desenvolvimento precisam de capital. E, devido à escassez de crédito, muitas podem ter dificuldade de achar os recursos necessários para fazê-lo.

Que empresas estão conseguindo tirar proveito da crise para ampliar sua presença internacional?
As empresas chinesas, certamente, estão se aproveitando de sua capacidade de se internacionalizar, do seu vigor financeiro e das oportunidades de compra de ativos baratos em outros países. Os investimentos diretos feitos pela China no exterior atingiram cerca de US$ 26 bilhões em 2007. No ano passado, já com a crise instalada, dobraram para US$ 52 bilhões, ao passo que o fluxo dos investimentos estrangeiros diretos no mundo caía cerca de 20%. É importante notar, no entanto, que 80% a 90% de todos os investimentos diretos da China no exterior são feitos por empresas estatais, que não têm problemas financeiros. Para o Brasil e a Índia, a situação é diferente.

Como o senhor avalia o desempenho das empresas brasileiras após a crise?
É muito difícil fazer uma avaliação precisa neste momento, mas receio que estejam tendo dificuldades para levantar recursos para financiar sua expansão internacional. Além disso, muitas tiveram forte queda em sua lucratividade. Falo especialmente de empresas fornecedoras de matérias primas, cujos preços sofreram grandes abalos no mercado internacional. A tonelada do minério de ferro, por exemplo, estava cotada, em maio deste ano, em aproximadamente US$ 60, ante US$ 200 em março de 2008. Isso é menos de um terço do preço de um ano atrás. Tamanha queda de preço, evidentemente, afeta a capacidade das empresas de financiar sua expansão externa.

Em tempos de grande turbulência fora, empresas de países com grandes mercados, como o Brasil, tendem a se concentrar nas oportunidades domésticas. Isso é um erro?
O Brasil possui, de fato, um grande mercado. Mas o mercado relevante não é mais o Brasil, e sim o mundo. A opção de ficar em casa não existe mais em uma economia mundial globalizada. As empresas precisam se estabelecer no exterior, se quiserem se manter competitivas – de fato, uma rede de filiais estrangeiras torna-se uma importante fonte de competitividade internacional para as empresas. Mas as brasileiras têm uma desvantagem competitiva que decorre da ausência de uma política clara de internacionalização por parte do governo. Seria bom que o governo avaliasse, de forma determinada e sistemática, o que outros países vêm fazendo em termos do suporte oferecido à expansão internacional de suas empresas.

Para quais exemplos o Brasil deveria olhar?
Todos os países desenvolvidos têm um arsenal de instrumentos para promover os investimentos externos diretos de suas firmas. O mesmo se aplica a um número (pequeno) de países em desenvolvimento. A China, por exemplo, conta com uma política governamental para treinar gestores internacionais altamente qualificados para que possam administrar competentemente as empresas estabelecidas ou adquiridas no exterior. O país também dá apoio ao investimento externo direto de suas empresas de várias maneiras, inclusive ajudando-as a identificar boas oportunidades de negócios fora. A China também tem mais de cem tratados bilaterais de investimentos para proteger seus investidores. Compare com o Brasil. No começo de seu primeiro mandato, o presidente Lula afirmou que gostaria de ver uma dúzia de multinacionais brasileiras conhecidas. Mas o Brasil ainda não tem uma política consistente para apoiar (e quem sabe até encorajar) a expansão internacional de suas empresas.

O senhor acredita que a falência de tantas instituições financeiras pode representar uma oportunidade para os bancos brasileiros assumirem papel de maior importância nas finanças do mundo?
Os bancos brasileiros são conhecidos pela eficiência e pela capacidade de superar desafios e crescer em tempos de inflação alta. Eles terão boas condições de expandir suas operações no exterior desde que consigam avaliar adequadamente os ativos das instituições financeiras que pretendem adquirir. Neste momento, entretanto, é muito difícil saber quanto valem bancos como o Citibank, o Bank of America ou qualquer outra instituição financeira. Segundo estimativas do FMI, uma quantidade significativa de ativos tóxicos ainda tem de vir à tona. É muito difícil prever quanto tempo será necessário para essa situação clarear.

Isso significa que não se devem esperar grandes movimentações de parte de bancos brasileiros no exterior nos próximos tempos?
Ficaria surpreso se grandes negócios acontecessem agora. O ambiente ainda é bastante incerto. Acredito que muitos investidores ainda serão muito cuidadosos em investir em instituições financeiras no momento – a menos, é claro, que uma empresa tenha um alvo específico sobre o qual tenha relativa certeza de estar saudável e sem problemas. Mas, nesse ponto, gostaria de chamar a atenção para um aspecto que exige bastante consideração e se aplica a empresas de todos os setores – ninguém deveria adquirir um ativo no exterior só porque ele está barato.

O que deve guiar a decisão de compra desses ativos?
Acima de tudo, eles devem se encaixar na estratégia da empresa. O ativo adquirido precisa fazer sentido para a companhia no longo prazo, no que diz respeito a onde ela quer estar e aos segmentos de mercado que pretende servir. As empresas precisam entender também que é muito difícil fazer fusões e aquisições dar certo, especialmente quando envolvem organizações de grande porte. Esse é o maior desafio para empresas de mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Qual é, precisamente, o desafio?
Muitas empresas não têm experiência suficiente para operar no exterior por meio da criação de redes internacionais de produção integrada compostas de filiais internacionais. Para fazer isso com sucesso elas precisam de um pool de talentos com experiência em mercados internacionais. Muitas multinacionais brasileiras ainda têm dificuldade para internacionalizar seus conselhos de administração e as posições de gerência mais altas. Este é um problema sério, e as empresas deveriam prestar mais atenção nele. Mesmo grandes empresas multinacionais de países desenvolvidos, companhias com muita experiência, têm dificuldades para fazer isso. A aquisição da Chrysler pela Mercedes Benz-Daimler, por exemplo, foi um desastre. Uma operação desse porte envolve questões como adaptação de culturas diferentes, o amálgama de sistemas de produção diferentes e a criação de uma empresa azeitada para a produção internacional integrada. A maioria das empresas brasileiras não tem a experiência de ter feito isso, o que quer dizer que terão de fazer esforços ainda maiores para ser bem-sucedidas em fusões e aquisições internacionais.

O banqueiro André Esteves, que recomprou recentemente o Pactual do UBS, diz que sua ambição é transformar o banco no Goldman Sachs dos mercados emergentes. Isso é factível?
Em princípio, não há nenhuma razão para que um banco ou qualquer empresa limite sua atuação ao país de origem – pelo contrário. Tudo é possível numa economia mundial globalizada. Se Esteves quer mesmo ser ambicioso, não deveria limitar seus objetivos a isso. Deveria querer fazer do seu banco o Goldman Sachs do mercado mundial globalizado. A chave para ser bem-sucedido nisso seria, naturalmente, atrair talentos de todo o mundo, e não apenas do Brasil. Ele deve construir a imagem de um banco de investimento que, de fato, sabe o que está fazendo, que é confiável e capaz de ajudar indivíduos e empresas a obter sucesso.

O que as empresas brasileiras precisam fazer para tornar suas marcas cobiçadas entre os consumidores dos países ricos?
Estabelecer uma marca é um trabalho difícil. Mas pode ser feito. Basta olhar as multinacionais japonesas. Quarenta anos atrás, elas eram conhecidas como fabricantes de produtos ruins. Não eram tidas como empresas sérias. Hoje são líderes de mercado globais em diversos segmentos e têm marcas bem estabelecidas e respeitadas. O mesmo pode ser feito por empresas de outros países. Mas isso requer tempo e esforço. E a condição essencial é ter, de fato, produtos de qualidade superior por preços razoáveis.

Alguns setores da sociedade brasileira se opõem à internacionalização sob o argumento de que as empresas brasileiras estão exportando empregos…
Isso não acontece só no Brasil. Ouvimos o mesmo argumento nos Estados Unidos no fim dos anos 1960 e ainda hoje, quando se fala em offshoring. O mesmo acontece na Europa Ocidental quando se discute a delocalization, a mudança de instalações de produção para outros países. Os governos reclamam que as empresas mudam para o Leste Europeu e o Extremo Oriente. Recentemente, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, até incentivou um importante grupo automotivo a levar de volta algumas de suas fábricas para a França, visando à criação de empregos locais. Entretanto, enquanto houver uma economia mundial aberta, as empresas devem produzir no local onde conseguirem ser mais eficientes. Se não fizerem isso, acabam se tornando menos competitivas e até quebrando. Uma empresa nacional quebrada não é útil ao Brasil nem a nenhum outro país.

Quando o senhor prevê que a economia mundial começará a crescer novamente?
Se eu pudesse responder a essa questão, ganharia o prêmio Nobel ou pelo menos faria uma jogada fabulosa no mercado. Mas não vou me surpreender se não assistirmos a uma recuperação até a segunda metade do ano que vem.

foto: Eileen Barroso/Columbia University



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