Revista PIB

Faça da Revista PIB a sua home page Quarta, 20 de Junho de 2018

 

Mai/Jun 2009

Globalização à espanhola

Como o fechado modelo econômico ibérico se converteu em um celeiro de multinacionais em apenas 20 anos

Arnaldo Comin, de Madri
Bolsa de Madri: investimento popular mesmo na crise

Entre 1940 e 1952, os espanhóis amargaram o modelo cubano de cartilhas de racionamento, falta generalizada de produtos e o retorno da população urbana ao campo em busca de alimentos.

Na dura e deprimida era franquista (1939-1975), a Espanha era um dos Estados mais fechados do mundo, baseado em um modelo simplório de substituição às importações.

Até os anos 1950, quando a Espanha ainda exportava trabalhadores, era comum café feito de cascas de amendoim torradas e coelhos darem lugar às galinhas nas granjas. Tinha até quem conseguisse fazer uma clássica
tortilla
sem batatas ou até mesmo sem ovos.

Nos últimos 20 anos, no entanto, poucos países passaram por uma reforma econômica tão rápida e profunda, levando a Espanha a se tornar um dos mercados mais abertos do Ocidente e um inesperado celeiro de multinacionais.

Companhias até então inexistentes ou desconhecidas no exterior tornaram-se gigantes transnacionais, como Telefónica, os bancos Santander e BBVA, a Inditex (controladora da rede de lojas Zara), a seguradora Mapfre, a OHL (maior concessionária de rodovias no Brasil, dona, entre outras, da Autovias, Vianorte, Autopista Fernão Dias e Autopistas Régis Bittencourt) e as companhias de petróleo e energia Repsol YPF, Gas Natural, Endesa, Iberdrola e Unión Fenosa.


Dinheiro da União Europeia

Vários êxitos combinados explicam o chamado “milagre espanhol” e podem servir de exemplo para economias em ascensão e com declarada vocação internacional, como a brasileira.

O mais importante, diga-se, veio de uma oportunidade que nenhum emergente terá de mão beijada: o ingresso na União Europeia (UE). Admitida ao clube em 1986, a Espanha foi o país que até hoje mais recebeu os chamados “fundos de coesão”, destinados, na maior parte, à infraestrutura e ao fomento econômico.

Foram nada menos que 186 bilhões de euros gastos na construção de estradas, portos e ferrovias. “A Espanha dificilmente teria crescido tanto nos últimos anos não fossem os fundos europeus, principalmente alemães”, disse à PIB a secretária executiva da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal), a mexicana Alicia Bárcena Ibarra. “Isso permitiu que o país reunisse condições para fortalecer sua posição no exterior.”


Privatizações e crédito

A injeção de dinheiro novo, aliada à adesão a novo receituário destinado a modernizar e alinhar sua economia à UE, criou as condições para que a Espanha se internacionalizasse.

Nos anos 1980, o país tinha várias travas econômicas conhecidas pelos brasileiros: excessivo endividamento externo, câmbio desvalorizado e taxas de juro altas. A privatização dos monopólios de telefonia, energia e infraestrutura de transportes criou rapidamente uma nova classe de empresários, beneficiados por um mercado interno cativo e moeda forte.

Outro fator importante que pesou na expansão das companhias da península foi o acesso a financiamento barato. O aumento do dinheiro disponível e a modernização do sistema financeiro deram um grande impulso à Bolsa de Valores de Madri.


Mercado de capitais

Embora a crise mundial tenha derrubado a bolsa espanhola, levando muitos poupadores a migrar para carteiras de renda fixa, investir em ações ainda é uma prática disseminada entre a população em geral.

“Mais de 90% dos investimentos feitos pelas empresas nos últimos anos, sejam elas de capital aberto ou fechado, são de caráter privado”, diz Julio Alcântara Lera, diretor-geral da AIAF, agência que regula o mercado espanhol de renda fixa. “Isso só foi possível graças à reestruturação do nosso mercado de capitais.”

Com a economia reestruturada, fortalecida e com capacidade para investir, a Espanha sentiu-se impelida a ampliar suas fronteiras de negócios, sob o risco de ver suas empresas absorvidas por multinacionais europeias maiores.


Desembarque latino

Mais uma vez, o destino levou o país ao outro lado do Atlântico. “Nos anos 1980, a crise da dívida impulsionou a América Latina a adotar medidas preconizadas pelo consenso de Washington e a se abrir para o mundo, com a privatização de suas empresas”, afirma o economista Ramón Casilda Béjar, autor do livro
A Grande Aposta: globalização e multinacionais espanholas na América Latina. “Amparados por uma moeda forte, os empresários espanhóis se dão conta de que a grande oportunidade está na região. É aí que começa o filme.”

A aposta, de fato, não foi nada modesta: quase 120 bilhões de euros aplicados nos últimos 15 anos na América Latina fizeram da Espanha o segundo maior investidor na região, depois dos Estados Unidos. Somente no Brasil, o investimento espanhol beira os 40 bilhões de euros.


O caso Zara

É difícil imaginar a Espanha de hoje sem o papel representado pelo mercado latino-americano. Da receita líquida total obtida dentro do Ibex35, o conjunto das maiores empresas cotadas na bolsa, um quarto provém de negócios na região.

O comércio além-fronteiras já representa 60% do PIB nacional – o dobro em relação a dez anos atrás. O sucesso de algumas das empresas espanholas serve de modelo para todo o mundo.

A Inditex, que nasceu como uma pequena rede de moda na Galícia, nos anos 1970, possui hoje mais de 4 000 lojas em 73 países e faturamento anual na casa dos 10 bilhões de euros. É dona de nove marcas importantes, entre as quais a Zara.


Modelos inovadores

O sucesso do empreendimento está baseado em um modelo inovador, que mistura flexibilidade na produção com fabricantes espalhados na Europa e Ásia, e uma estratégia de micromarketing na qual cada loja possui características próprias de identidade visual e oferta de produtos. Tudo isso sob a coordenação do exército de designers que continua na sede da empresa
em La Coruña.

Meno
s conhecido do público, o grupo Gamesa opera no Brasil como fornecedor de componentes para asas dos aviões da Embraer, mas fornece também partes importantes dos jatos da Boeing em Seattle e da Airbus em Toulouse. A empresa tornou-se um gigante também na fabricação de turbinas eólicas.

A Espanha é hoje referência mundial em energias alternativas, sendo, depois da Alemanha, a nação que mais investe no setor – de parque solares e eólicos a geração experimental de energia das ondas do mar Cantábrico.


Médias e pequenas

A Espanha tornou-se muito conhecida por suas grandes corporações, mas pouco se fala do papel da legião de pequenas e médias empresas – conhecidas como pymes
– na internacionalização da economia do país nos últimos anos.

De acordo com estimativas do Instituto de Comércio Exterior (Icex), sediado em Madri, 40 000 empresas realizam exportações regularmente e 3 000 possuem filiais no exterior, sobretudo na Europa e América Latina.

Somente no México, existem aproximadamente 1 500 companhias de capital misto ou comandadas por pequenos investidores espanhóis. Nesse campo há um pouco de tudo, desde produtores de artigos tradicionais, como vinhos, azeites e embutidos, até desenvolvedores de softwares e equipamentos de alta tecnologia.


As multilatinas

Entre os diferenciais, os espanhóis se destacam pela boa capacidade de gestão, bom design reconhecido internacionalmente e fácil assimilação cultural, especialmente no caso latino-americano.

Para o economista Casilda Béjar, as
pymes são uma mancha de azeite que vai se espalhando devagar, sem estardalhaço. Ele acredita que é chegada a hora de a Espanha promover o caminho inverso, tanto para as grandes quanto para as pequenas.

“O desafio agora é trazer a América Latina para a Europa, com as chamadas ‘multilatinas’, que estão crescendo, mas não saem da região”, diz Casilda. “Dado o alto nível de integração que já alcançamos, acredito que a Espanha possa ser a ponte que falta para que elas se estabeleçam na Europa.”


Apoio público

Além dos ajustes macroeconômicos e a fortaleza da comunidade europeia, as empresas espanholas contam também com uma forte política de apoio de agências estatais e políticas de incremento à infraestrutura. A boa combinação entre estratégias públicas e privadas é vista como um dos segredos do sucesso internacional da Espanha.

Nesse aspecto, Alicia, a secretária executiva da Cepal, elogia o esforço do governo brasileiro nos últimos anos para dar suporte às suas companhias transnacionais e à integração econômica com os países vizinhos por meio de projetos de infraestrutura. “Dentro das suas possibilidades, o Brasil começa a cumprir na América do Sul o mesmo papel que a Alemanha teve na recuperação da Espanha”, afirma Alicia.

Leia também:
Dependência da construção civil e baixa inovação são problemas a resolver

fotos: Óscar Muñoz Cuevas (Bolsa Madri) e Divulgação (home)



28/06/2016 -   FIESP destaca a importância da logística para a retomada do crescimento
02/05/2016 -   Movimat divulga detalhes da feira de setembro
31/03/2016 -   Em 15 anos, a Votorantim e a Intercement chegaram ao grupo dos 20 maiores produtores do mundo
03/10/2015 -   A Ásia são muitas
03/10/2015 -   Restaurantes, galerias, praias e parques de Miami
03/10/2015 -   O caminho da diferença
03/10/2015 -   O mundo é Azul
03/10/2015 -   Voando sobre o mundo
03/10/2015 -   De olho no mundo
01/10/2015 -   Um Calatrava no Rio
29/09/2015 -   Passage to India
29/09/2015 -   A bigger share, please?
Totum Editora Revista PIB - 2009 © Todos os Direitos Reservados