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Mai/Jun 2009

Aposta no vento

Como a Tecsis se transformou em um dos maiores fornecedores de pás de turbinas eólicas do mundo

Vicente Vilardaga
Trabalhador em fábrica da Tecsis, em Sorocaba: bons ventos para a exportação

A Tecsis, empresa 100% brasileira com sede em Sorocaba (SP), fez uma aposta ousada na metade dos anos 1990. Decidiu investir na energia dos ventos, um mercado então insignificante que só chamava a atenção de ambientalistas interessados em fontes sustentáveis de energia elétrica.

A empresa foi criada para investir na produção de pás de turbinas eólicas, aproveitando um momento de mudança de mentalidade e os conhecimentos em engenharia espacial e materiais compostos de seus fundadores.

Não tinha a perspectiva de vender uma só unidade no Brasil — aqui, os ventos são ainda mal aproveitados para a geração de energia —, mas em pouco tempo conseguiu fechar um primeiro contrato na Alemanha e, a partir daí, criar um novo modelo de negócio no setor: a produção sob encomenda voltada para a exportação.


Experiência aeroespacial

Até 1995, a única fabricante do mundo era a dinamarquesa LM Glasfiber, que fazia pás padronizadas para atender seus clientes no mundo. Ao entrar nesse mercado, a Tecsis trouxe inovações para o produto e o processo de produção e conseguiu consolidar-se como um dos líderes globais num prazo de dez anos.

“O mundo ainda tinha uma abordagem simplista da geração de energia eólica, e as pás eram rudimentares”, lembra Bento Koike, um dos fundadores da empresa e seu atual presidente. “Trouxemos a experiência do setor aeroespacial para uma indústria incipiente.”

O diferencial da Tecsis podia ser resumido em duas palavras: conhecimento tecnológico. A empresa foi criada por um grupo de profissionais formados no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos (SP), a cidade que deu origem também à Embraer, o maior fabricante de aviões comerciais de médio porte do mundo.


De 2% a 80%

Ao dar o pontapé inicial na Tecsis, seus fundadores já tinham boa experiência com construção de turbinas eólicas, além de contatos comerciais na Alemanha.

Por volta de 1980, Koike, que havia trabalhado no Instituto de Atividades Espaciais (IAE), do Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA), comandara, pelo lado brasileiro, um projeto de cooperação científica junto com o instituto espacial alemão DFVLR, sediado
em Stuttgart. O projeto, batizado de Debra, envolvia a produção de uma turbina eólica de 100 kW, com pás de 25 metros de diâmetro.

Na época, era um catavento bastante potente, e o projeto introduzia alguns novos conceitos até hoje adotados em turbinas de grande porte. “Os alemães são extremamente técnicos na abordagem, mas conseguimos mostrar a evolução de nosso conhecimento quando fomos buscar negócios lá fora muitos anos depois”, diz Koike.


Na largada no mercado europeu, a Tecsis conquistou um primeiro contrato na Alemanha, pequeno, quase experimental, que correspondia a de 2% a 3% das pás de que o cliente precisava. Rapidamente as encomendas cresceram e, em dois anos, a indústria de Sorocaba atendia 80% das necessidades do fabricante de turbinas.


Segunda no mundo

Para Koike, sua empresa ganhou o mercado demonstrando agilidade, capacidade de inovar e excelente relação entre custo e qualidade. “Aliamos aos projetos o rigor e o controle de qualidade do setor aeroespacial”, diz ele.

A Tecsis é, hoje, o segundo maior fabricante independente de pás para turbinas, com uma participação no mercado mundial de cerca de 20% (só fica atrás daquela empresa dinamarquesa que desafiou há quase 15 anos, a LM Glasfiber).

Nos últimos anos, a demanda por esse tipo de equipamentos cresceu rápido, a uma taxa de cerca de 30% ao ano, principalmente por conta do avanço da demanda nos Estados Unidos e na China.

Em poucos anos, os Estados Unidos conseguiram implantar o maior parque eólico do mundo e reduzir sua dependência de outras fontes de energia poluentes. A Tecsis aproveitou a oportunidade e hoje lidera o mercado norte-americano, onde é responsável pelo fornecimento de metade das pás
em operação.


A Europa
sai na frente

Atualmente, a Tecsis trabalha apenas com três grandes clientes mundiais: um na Espanha e dois nos Estados Unidos, um deles a General Electric.

São clientes chamados de integradores, pois compram as pás e os demais componentes e montam a turbina para o cliente final – uma empresa concessionária de geração de eletricidade. Por isso, os equipamentos da Tecsis estão espalhados pelo mundo, dos Estados Unidos a Europa, Índia e Austrália.

Os primeiros parques de geração de energia movida a vento surgiram na Alemanha e em outros países do norte da Europa há pouco mais de 20 anos em meio à pressão ambiental pelo uso de fontes sustentáveis e pela diminuição da dependência da energia nuclear.

Os primeiros a investir pesadamente em usinas eólicas foram a Alemanha e a Dinamarca. Espanha e Portugal, países especialmente beneficiados pela força dos ventos, vieram
em seguida.


A China
acelera

A Alemanha, mesmo não tendo condições privilegiadas de vento, já tem cerca de 7,5% de sua demanda por eletricidade atendida por energia eólica.

Portugal, com grandes projetos, como o do porto de Aveiro, disputa hoje com a Espanha o segundo lugar, atrás da Dinamarca, entre os países com maior participação do vento em sua matriz energética.

Em 2008, segundo o Global Wind Energy Council (GWEC, em inglês), órgão que monitora o setor, a capacidade instalada mundial atingiu 120,8 GW (
veja quadro aqui, em inglês).

Os Estados Unidos são o país com maior potência instalada, mas é a China, mais uma vez, quem mais cresce no setor. No ano passado, quase duplicou sua potência eólica e será até 2010, segundo previsões do GWEC, o segundo maior produtor do mundo.


Patentes internacionais

Nesse mercado em alta, a Tecsis cuida de preservar a propriedade intelectual e seus direitos de inovação. Há cerca de quatro anos, passou a registrar as suas patentes, ligadas à engenharia de materiais e ao processo de fabricação.

Hoje, são mais de 40 patentes registradas internacionalmente. “As pás são os componentes das turbinas com maior conteúdo tecnológico, aqueles que mais fazem diferença no seu desempenho”, diz Koike.

O desenho pode fazer muita diferença na eficiência aerodinâmica das pás, que são feitas de resina plástica com fibras estruturais como o carbono. Tais materiais permitem aliar leveza à geometria complexa e exata.

Quando a Tecsis começou a produzir as primeiras unidades, as pás de turbinas eólicas já mediam 19 metros e pesavam cerca de 900 quilos. Koike lembra que a empresa produzia de 20 a 30 pás por mês sob encomenda do cliente alemão. Hoje, elas medem 50 metros e pesam cerca de 10 toneladas.


Precisão de milímetros

Mesmo imensas, suas dimensões têm de ser extremamente precisas e a margem de erro é praticamente inexistente: uma peça de dezenas de metros tem milímetros de margem de tolerância.

Além da exatidão da peça, a resistência é outro atributo importante – a vida útil de uma pá deve girar em torno de 30 anos. A produção diária atual da Tecsis é de 30 pás por dia. São fabricadas em dez unidades espalhadas pelo município de Sorocaba, que empregam cerca de 4 000 funcionários.

Cerca de 95% da matéria-prima usada pela empresa é importada. A Tecsis não vê a hora de começar a vender suas pás no mercado brasileiro, mas os projetos de usinas movidas a vento ainda são raros e modestos no país.

Segundo o último relatório do GWEC, o Brasil conta atualmente com uma potência instalada de 247 MW, distribuída em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Ceará. “A participação da energia eólica no Brasil é muito baixa, principalmente quando se pensa no potencial local de geração”, diz Koike.


Energia desprezada

O desprezo por esse potencial energético é mais acentuado no Ceará. No norte da Alemanha, a velocidade média anual dos ventos é de 6,5 metros por segundo. Na região de Fortaleza, a capital do Ceará, a velocidade fica entre 9 e 9,5 metros por segundo.

Isso quer dizer que uma turbina em Fortaleza é capaz de gerar, no mesmo espaço de tempo, três vezes mais energia do que outra no norte da Alemanha (a quantidade de energia gerada equivale ao cubo da velocidade do vento).

“No Brasil, a política energética do governo deveria ser repensada em favor da energia eólica, principalmente porque temos condições extremamente favoráveis de vento”, afirma Koike.

A seu ver, o país das usinas hidrelétricas e do etanol de cana-de-açúcar virou uma referência internacional de uso de fontes renováveis de energia e isso acabou levando-o a uma certa acomodação.


Combustível gratuito

A média mundial de uso de energia obtida de fontes renováveis é de 13%. Nos países mais industrializados reunidos na OCDE, por exemplo, essa média cai para 6,1%. No Brasil, atinge 45%.

“Se fosse aproveitada somente a potência eólica total do Ceará, dobraríamos a capacidade instalada de geração de energia do Brasil”, diz Koike. Ele afirma que isso poderia ser feito em um prazo relativamente curto.

Uma das grandes vantagens dos parques eólicos em relação às usinas termelétricas é a rapidez de instalação, além da gratuidade do combustível, o vento. Nos últimos tempos, os custos dos equipamentos das turbinas também caíram substancialmente, tornando a opção pelas usinas eólicas ainda mais interessante.

“Só lamento não ter uma única pá rodando nos cataventos do Brasil”, afirma Koike. “Mas isso é questão de tempo: o mercado mundial vai continuar crescendo no mesmo ritmo e a energia eólica vai acabar sendo mais valorizada também no Brasil”.

fotos: Divulgação



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