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Mai/Jun 2009

Uma nova relação

A crise mundial não ofusca o significado simbólico dos calorosos encontros entre Obama e Lula

Paulo Sotero*
A conversa de pouco mais de uma hora que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama tiverem na Casa Branca, em março passado, e seus encontros posteriores nas cúpulas no G-20, em Londres, e das Américas, em Porto Espanha, em abril, reuniram dois líderes que compartilham ativos políticos raros e, por isso, importantes.

Lula e Obama presidem regimes democráticos nas duas maiores nações das Américas. Ambos desfrutam de altos índices de aprovação popular. Mais importante, eles compartilham trajetórias pessoais exemplares de uma virtude comum a seus países: a capacidade de mudar e incorporar a suas elites dirigentes pessoas oriundas de grupos sociais excluídos até poucas décadas atrás.

O significado simbólico da reunião inaugural dos dois líderes foi claramente percebido por ambos e ficou registrado, senão em palavras, na satisfação que ambos procuraram transmitir um ao outro e, depois, aos jornalistas que os entrevistaram, pelo fato de estarem juntos. Isso, no entanto, não basta para aconselhar prognósticos de grandes progressos no relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos nos menos de dois anos de governo que restam ao presidente Lula.

A crise histórica que eclodiu na economia dos EUA e se irradiou pelo planeta, no último ano da calamitosa administração de George W. Bush, limitou severamente o espaço de manobra de Obama para explorar entendimentos em questões prioritárias para Brasília. O maior exemplo é a conclusão de uma nova rodada de liberalização do comércio internacional.

Como Obama disse a Lula e depois revelou à imprensa, o melhor que o Brasil ou qualquer outro país pode esperar dos EUA nessa matéria é impedir novos retrocessos protecionistas. “Avançar, porém, será difícil”, afirmou ele.

Obama deve retribuir a visita de Lula em meados do ano. Não custa, porém, manter as expectativas baixas. A nova administração já deu sinais de que compreende e aceita que o Brasil é parte da solução da crise financeira que ameaça a estabilidade internacional. A dúvida é se Washington agirá de acordo e focalizará temas nos quais os dois países têm interesses em jogo.

Para o Brasil, o desafio é compreender que a necessidade de Obama de conter a catástrofe interna, que obviamente é também do interesse dos brasileiros, e de repensar o envolvimento dos EUA nas questões externas prioritárias – os conflitos Afeganistão/Paquistão, o Iraque, o Oriente Médio e as relações com a China – introduziu um elemento novo de realismo na maneira de Washington perceber e hierarquizar seus interesses em relação a seus vizinhos no Hemisfério.

Para a nova administração americana, é importante encontrar em Brasília receptividade e disposição de engajamento na busca da solução de problemas concretos e de interesse comum à vista, a começar pela reconstrução do sistema financeiro internacional e a reforma dos órgãos de governança global corretamente pleiteada pelo Brasil.

Dessa agenda faz parte também a negociação na reunião das Nações Unidas no fim deste ano, em Copenhague, de um acordo global para reduzir as emissões de carbono e deter o aquecimento global. Trata-se de um tema em que o Brasil tem soluções a oferecer (produção eficiente de etanol e matriz energética diversificada e limpa) e pode e deve liderar.

Dentre os assuntos de interesse comum, figuram ainda a manutenção da estabilidade política nas Américas, impossível sem o exemplo e a contribuição do Brasil, a luta contra o narcotráfico e a proteção dos avanços sociais alcançados no período de prosperidade recente.

É instrutiva, nesse sentido, a conspícua ausência de propostas de grandes estratégias hemisféricas nos estudos e relatórios sobre a região promovidos em Washington por instituições de debate e reflexão – os chamados think tanks – que atuam como forças-tarefas nos períodos de transição com o objetivo de fazer recomendações à nova administração.

Propostas ambiciosas pontuaram o debate sobre a política regional americana em décadas recentes, com pouco ou nenhum resultado. A crise reduziu o espaço para visões delirantes.

Um relatório divulgado em novembro de 2008 por uma comissão de notáveis reunida pela Fundação Brookings para repensar as relações regionais, por exemplo, começa com a advertência de que não pretende oferecer “um grande esquema para a reinvenção das relações hemisféricas”.

O realismo orientou também a agenda de dez pontos que o Diálogo Interamericano sugeriu em meados de março à administração Obama. O relatório enfatiza que conter a crise econômica e administrar suas consequências sociais e políticas será a mais alta prioridade para os EUA e seus vizinhos das Américas no futuro imediato.

Os demais temas importantes para as relações de Washington com a região, listados pelo Diálogo, são todos de teor negativo – a deterioração da segurança pública no México e outros países, as problemáticas relações entre os EUA e Cuba, a encalacrada reforma das leis americanas de imigração, as políticas desestabilizadoras na Venezuela, o acordo de comércio EUA–Colômbia, que está travado –, com uma única exceção: a crescente influência regional e global do Brasil.

* Paulo Sotero é diretor do Instituto Brasil do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington.

foto: Ricardo Stuckert/PR/ABr


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