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Dez 2008/Jan 2009

De Guarani para o mundo

Francisco Costa, estilista da Calvin Klein nos Estados Unidos, é um dos talentos exportados pela pequena cidade mineira

Nara Vidal*
Francisco Costa com a amiga Eva Mendes em Madri
Minas Gerais é um estado brasileiro cheio de histórias para contar. Algumas nasceram na pequena cidade de Guarani, na chamada Zona da Mata mineira.

Guarani hoje tem mais de 9.000 habitantes, mas antes da chegada da ferrovia e da emancipação como município, no começo do século passado, era apenas um ponto no sudeste de Minas conhecido pelo pitoresco nome de Espírito Santo do Cemitério. A seu modo, a Guarani de hoje também está representada no crescente processo de globalização e de internacionalização da marca Brasil.

O estilista-chefe da grife Calvin Klein, Francisco Costa, premiado nos dois últimos anos com o CFDA Award, considerado o Oscar da moda nos Estados Unidos, nasceu e cresceu em Guarani. Dedê, como Francisco Costa era conhecido na nossa turma de crianças e adolescentes em Guarani, é certamente a personalidade mais famosa da cidade: o celebrado designer da Calvin Klein impera em Manhattan e tem reconhecimento internacional. Mas quando aportou em Nova York, no início da década de 80, disposto a conquistar a capital do mundo, teve de vencer dificuldades e lapidar seu senso artístico, herdado da mãe, dona Lita.

Proprietária da loja Confecções Marelena, dona Lita foi a maior incentivadora do filho. A “confecção”, como todos se referiam à Marelena, fazia a criançada querer roupas em vez de brinquedos. Sob o comando da costureira-chefe Doryleia, produzia o que havia de melhor em roupas infanto-juvenis na região.


Candidata a modelo

Lembro-me de ter sido requisitada uma vez para fazer provas de conjuntinhos e vestidos, que, meses depois, seriam exibidos em algum desfile no Clube dos Repentinos, o clube local. E recordo-me com um sorriso e um pouco de embaraço de um desfile em que a convidada de honra seria a então apresentadora de TV Elke Maravilha.

Eu tinha uns 8 anos e estava aguardando ser convidada para mostrar as criações da Marelena, mas o convite não vinha, o telefone não tocava. Passava milhares de vezes perto do Francisco Costa e nada... Até que tomei coragem e pedi a minha amiga Liliana que telefonasse para ele “sugerindo” que eu desfilasse.

Ela foi direto ao assunto: “Será que não tem alguma roupa para a Nara desfilar? Ela desfila tão bem!...” Do outro lado da linha, a resposta, e o meu alívio: “Claro! Diga para ela vir ao ensaio hoje”. Pronto, estava aprovada minha participação no desfile da Elke Maravilha, pelo próprio Francisco Costa, uma emoção que nunca mais esquecerei.

Meu trabalho também me levou para fora do Brasil, mas não como modelo. Há sete anos vivo em Londres, onde tenho uma empresa de investimentos imobiliários. Antes de me mudar para o Velho Mundo, pensei em ser paquita, cantora, atriz de TV e de teatro. Felizmente meu “talento” não foi reconhecido no Brasil e tornei-me outra guaraniense expatriada, amadurecida e hoje casada com um charmoso inglês.


Músicos e pintores

Daquela turma de crianças que cresceu em Guarani ouvindo contadores de histórias, de antigas fazendas, que se enroscava em agasalhos pesados embevecida diante das toras de madeira que ardiam nas fogueiras de inverno, saíram outros talentos verdadeiros.

Paulinho Braga era avesso às lições de matemática, mas se destacava pelas batucadas nas carteiras da sala de aulas. Simulou tantas baterias que foi aceito na Lira Guaraniense, a banda local, como o melhor tocador de tarol que a cidade conheceu na época.

Depois foi para o Rio de Janeiro e acabou impondo o seu talento tocando com gigantes como Tom Jobim, Elis Regina, Milton Nascimento, Ivan Lins, Tim Maia e muitos outros. Paulo Braga hoje integra o fantástico Trio Jobim, ao lado do filho e do neto de Tom.

Nas artes plásticas, Guarani produziu pelo menos dois artistas contemporâneos conhecidos e premiados. Um deles é Roberto Ornellas, ex-aluno da Escola Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro. Guarani é seu tema predileto. Tornou-se conhecido no Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro (em 1963), expôs em galerias e museus no Brasil e no exterior e tem obras compradas por colecionadores de várias partes do mundo, da própria Guarani até Israel.

Discípulo de Ornellas, Alexandre Gaudereto – meu amigo Tati – mostra seu talento em litografias, desenhos e pinturas. Em seus quadros de técnica naïf e estilo quase infantil, com cores vivas e tons fortes, cria alma para personagens do seu imaginário ou até mesmo de pessoas queridas. Em abril passado, Alexandre participou de mostras coletivas em Frankfurt, Viena e Varsóvia.

Claro que, dos filhos da cidade, nenhum alcançou ainda a fama de Francisco Costa, no topo da moda internacional. Com seu jeitinho aparentemente tímido e recatado de mineiro, Dedê ainda faz questão de realçar que é natural da pequena cidade de Guarani.

Imagino que para ele nossa pequena cidade seja um porto seguro de afetos e lembranças felizes, um lugar que dá vontade de voltar e rever pelo menos de ano em ano. Guarani nunca terá a badalação de Nova York, onde Francisco vive e trabalha agora. Mas quem sabe um dia o veremos com sua musa e amiga Eva Mendes, a talentosa atriz, passeando pela pracinha depois de comer uma pizza no bar do Cesar?

* Pesquisadora assistente: Alcyone Vidal Neves. Alcyone foi colega de infância de Paulinho Braga, foi professora de Dedê (Francisco Costa) e Tati (Alexandre Gaudereto), é colecionadora de obras de Roberto Ornellas e é mãe da autora deste texto.

fotos: Divulgação



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