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Set/Out 2008

Miguel Jorge: Vamos ocupar os espaços

Há chances bilionárias para as empresas brasileiras nos emergentes, diz o ministro do Desenvolvimento

Nely Caixeta e Armando Mendes
Miguel Jorge: oportunidades na África e América Latina
As empresas brasileiras estão se expandindo para o mundo no rastro do crescimento acelerado dos países emergentes. Mas ainda há muito o que fazer para aproveitar as oportunidades, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Miguel Jorge.

Jornalista de origem e executivo de grandes empresas antes de ir para o governo, o ministro tem sob sua responsabilidade duas entidades públicas que apóiam a internacionalização da economia brasileira: a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Miguel Jorge aponta como exemplos que começam a dar frutos os projetos de cooperação industrial e agrícola desenvolvidos pela ABDI na Venezuela e em Cuba.

Destaca também as ações de empresas brasileiras nas novas nações africanas, onde assumiram atividades de Estado. Essa presença pode render bons negócios para aquelas que forem capazes de desbravar os novos mercados antes das multinacionais dos países ricos. “Nossa intenção é esta: ocupar o espaço para, quando chegar alguém, já estarmos lá”, afirma o ministro em entrevista à PIB.

Que oportunidades o senhor vê para as empresas brasileiras no mundo?
Elas estão em todo canto, mas gostaria de destacar as possibilidades na África e na América Latina. O caso de Angola é espetacular. O governo está fazendo um grande esforço para organizar missões comerciais para esse país e pôr pessoas de lá em contato com empresas brasileiras. Poucos se dão conta do trabalho excepcional que a Odebrecht realiza em Angola. É ela que expede todos os documentos oficiais do país – certidão de nascimento, carteira de identidade, passaporte etc. Como sócia da empresa estatal de diamantes, a Odebrecht faz a gestão completa da operação em Angola – da extração, lapidação, até a comercialização. Quem viu o filme Diamantes de Sangue sabe o que é o Protocolo Kimberley – sistema de certificação que regula o comércio de diamantes brutos na África para evitar que a renda financie guerrilhas. Angola é o sexto maior produtor mundial de diamantes em termos de quantidade, mas o terceiro em termos de valor das pedras, quase todas de qualidade excepcional.

A Odebrecht vem ocupando, então, o papel de braço direito do governo de Angola.
Angola não possui uma distribuição organizada de alimentos. A pedido do governo, a Odebrecht está montando a primeira rede de supermercados do país. Quando estive lá, no ano passado, a empresa já tinha inaugurado 22 supermercados, de um total de 60 que comporão a rede. A Odebrecht cuida de tudo: faz a pesquisa de localização, constrói o prédio, importa os produtos, coloca nas gôndolas, treina as pessoas. Depois de tudo pronto, a Odebrecht entregará o negócio ao governo.

A Confederação Nacional da Indústria chama a atenção para o fato de as grandes empresas mundiais ainda não terem se dado conta do potencial de negócios em partes da África e América Latina. Qual é a estratégia brasileira em relação a esses mercados?
A de ocuparmos espaço mesmo. Quando chegar alguém, já estaremos lá. Deveríamos ter começado esse processo há muito tempo. Esses são mercados – temos de tomar cuidado, porque a palavra pode ser mal interpretada – quase que “cativos” para o Brasil. Mas o que temos ao longo dos 1.600 quilômetros de fronteira com a Colômbia? Nada. Para que ficar tentando exportar para os Estados Unidos se é muito mais fácil exportar para os países vizinhos?

Que exemplos o senhor pode destacar?
Na visita à Venezuela, após dois dias de reuniões, recebemos da ex-ministra da Indústria Cristina Iglesias uma lista de produtos no valor de US$ 600 milhões que gostaria de importar do Brasil. Tinha de tudo na lista, de carne a papel higiênico. Em que lugar do mundo acontece um negócio desses? Distribuímos essa lista, primeiro, para as 140 empresas que participavam da missão comercial e, mais tarde, para as demais. Tempos depois, o Edmundo Klotz e outros empresários de alimentação voltaram a Caracas com essa lista na mão. Ele me ligou para informar que as empresas brasileiras de alimentação tinham fechado contratos de exportação no valor de US$ 1,2 bilhão. Foi montada uma ponte aérea para a Venezuela para transportar leite em pó, leite UHT, etc.

As possibilidades para as empresas brasileiras na Colômbia são uma réplica do que acontece na Venezuela?
Não diria isso. No caso de Colômbia e Brasil, fabricamos praticamente as mesmas coisas. Então há uma dificuldade para exportar, porque um estará concorrendo com o outro. No caso da Venezuela, é diferente. Por causa do petróleo, durante décadas, o país importou tudo de que precisava e deixou de construir uma base industrial diversificada. Agora, junto com os venezuelanos, a ABDI escolheu sete setores produtivos para um projeto de industrialização no país.

Quais são as oportunidades que os brasileiros encontram na Colômbia?
Estamos entrando nas áreas de serviços, de construção pesada. O projeto da ferrovia do Carare, por exemplo, é financiado pelo BNDES. Quem vai construí-la será uma brasileira. Há oportunidades também em mineração. Por causa dessa briga de 40 anos com as Farc, ninguém tinha coragem de ir para o meio da mata explorar uma mina, pois poderia ser seqüestrado ou morto. Assim, há poucos países com riquezas minerais tão virgens como a Colômbia.

Na recente visita do presidente Lula ao país, comentou-se que os colombianos poderiam participar do desenvolvimento de um novo avião da Embraer. O que há de concreto nisso?
É o 390, para substituir os Hércules. É um avião para cargas e passageiros, não é só militar. O presidente dos Correios tem o maior interesse nesse avião, para transporte de malotes de correspondência e de carga. Mas, por enquanto, acho que isso seja mais intenção.

A Colômbia não tem uma indústria aeronáutica?
Não, não tem. Os colombianos têm uma indústria naval boa – em termos de qualidade – para navios menores, especialmente navios costeiros, para rios e lagos. Há um grande interesse do Brasil nisso. O presidente Lula disse ao presidente Uribe que queria mandar ver esses estaleiros, pois o governo brasileiro se interessa, caso seja possível, em fazer algo lá.

A indústria brasileira não dá conta de atender à demanda?
No Brasil é tudo oito ou oitenta. Em 1970, éramos o segundo maior produtor de navios do mundo. Aí, acabamos com a indústria naval. Agora, a recuperamos e a entupimos. Ela já não tem capacidade para receber nenhuma encomenda.

Por causa dos pedidos da Petrobras?
Só ela tem 200 navios novos para encomendar, entre gaseificador, petroleiro e navio de apoio. A Petrobras precisará de 38 navios-sonda. O Uruguai tem um ou dois estaleiros que poderiam ser utilizados. A Colômbia também e a Argentina, idem. A Colômbia poderia produzir barcos, por exemplo, para patrulhamento de rios, principalmente nas fronteiras do norte do Brasil. O presidente Lula discutiu isso com o presidente Uribe e pediu que o ministro Nelson Jobim [da Defesa] verificasse a possibilidade de fazer um trabalho conjunto com os estaleiros colombianos.

E na área agrícola?
No sul da Colômbia, já se produz 1 milhão de litros de etanol por dia e 1 milhão de litros de biodiesel. Os colombianos têm um programa de mistura de combustível. Gostaríamos que começassem a importar carros flex fuel do Brasil. Como já têm uma produção interessante de etanol, poderiam rapidamente fazer uma rede de distribuição pelo país. É o que estamos falando também com o Chile. Você importa um automóvel a gasolina e fica cativo desse combustível. Durante os 15 ou 17 anos de sua vida útil, o automóvel vai consumir gasolina. Quanto mais rápido for substituído por um modelo flex, mais liberado do combustível fóssil o consumidor estará. Essa é uma grande vantagem, sobretudo para quem já produz etanol, como é o caso da Colômbia.

A maior parte da população do Chile concentra-se em Santiago, que é cercada pela Cordilheira. O uso do etanol não é uma solução para os chilenos enfrentarem a questão ambiental?
O Chile importa todos os seus carros e é bastante dependente em termos de energia. É grande o consumo de diesel e gasolina. Santiago foi a primeira cidade da América Latina a implementar regras estritas de meio ambiente, porque aquilo é como uma travessa de porcelana – a poluição fica toda concentrada. A indústria brasileira de carros teve problemas para exportar para o Chile. Nossos veículos, que usaram carburadores até meados da década de 1990, não atingiam os padrões exigidos. Com a substituição de carburador por injeção eletrônica, que possibilitou cumprir os limites de emissão, voltamos a exportar.

A Embrapa está virando uma vitrine internacional da moderna agricultura brasileira. De que maneira ela ajuda a abrir negócios?
Em Cuba, a Embrapa está ajudando a avaliar 40 mil hectares para plantação de soja. Havia uma discussão no governo cubano sobre se essa área era ou não apropriada para o plantio. Ora, não se pode discutir isso no governo, mas sim chamar uma empresa de tecnologia agrícola, como a Embrapa, para verificar as condições do solo, do clima etc. Essa iniciativa poderá beneficiar toda a cadeia do agronegócio brasileiro, com a exportação de máquinas, implementos agrícolas etc. A Case já vendeu dezenas de colheitadeiras de cana para os cubanos, que estão felicíssimos, pois cada máquina substitui cinco dos velhos modelos importados da antiga Tchecoeslováquia e da Rússia.

Que outras oportunidades existem em Cuba?
Como se sabe, Cuba está trabalhando num programa de etanol em conjunto com o Brasil. Numa visita ao país, o ministro da Indústria e Comércio Exterior, Raul de La Nuez, esteve em Piracicaba, visitando o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Nessa visita, ficou apaixonado por guaraná. Agora, todos os brasileiros que vão para Cuba levam caixas da bebida em lata. Estamos trazendo vários grupos de cubanos para mostrar as possibilidades de atuar nessa área. Uma empresa brasileira está avaliando a possibilidade de montar uma fábrica em Cuba.

Como figura a Argentina no quadro atual?
Nosso maior fluxo de comércio, hoje, é com a Argentina, que deve chegar este ano a US$ 30 bilhões. Temos procurado aumentar ao máximo o comércio bilateral Brasil e Argentina e o recente acordo sobre a possibilidade de usar pesos e reais para pagamento das exportações é um passo importante para isso, pois facilitará e reduzirá o custo das transações feitas pelas empresas. Outro exemplo importante dessa política de maior intercâmbio comercial com a Argentina é o acordo automotivo, que durante 15 anos era de curto prazo e, recentemente, foi renegociado para seis anos. Após esse prazo, vai ser tudo liberado, e não haverá nenhum imposto, nenhuma barreira. A maior fábrica de calçados argentina, a Indular, foi comprada pela Vulcabrás. Na Argentina, só havia essa grande fábrica. As demais eram pequenas. São sapatos de qualidade, têm maior agregação de valor que os nossos. O pessoal da Indular pretende organizar o mercado na Argentina para chegar a um acordo com os fabricantes europeus. O objetivo é zerar a tarifa de importação para o sapato brasileiro e o argentino em toda a Europa, e não só na União Européia. É uma redução de 8% para zero. Há muitas outras coisas. A Camargo Corrêa, por exemplo, anunciou a possibilidade da construção de uma nova fábrica de cimento na Argentina.



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