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Jun/Jul 2008

Tem gente nova no clube

Livro do economista Andrea Goldstein revela o impacto crescente na economia mundial das multinacionais com origem nos países emergentes

Bruno K. Reis e Deborah Camara Batista

O livro Multinational Companies from Emerging Economies - Composition, Conceptualization and Direction in the Global Economy (ed. Palgrave MacMillan), do economista italiano Andrea Goldstein, aborda um dos temas mais candentes da economia política internacional: a questão do Investimento Direto Estrangeiro (IDE) efetuado pelas empresas multinacionais originárias de países em desenvolvimento. Ou, como diz o autor, pelas "novas empresas multinacionais".

Goldstein é economista sênior da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) (em inglês e francês), e se dedica ao estudo do setor privado, com especial atenção aos fluxos de comércio e investimentos globais. A maior virtude da obra é inverter a perspectiva da análise sobre o fenômeno da internacionalização, historicamente tratado sob a ótica dos países desenvolvidos. São raros os estudos que se propõem a enfrentar a questão do ponto de vista dos emergentes, como fez Goldstein.

O autor demonstra que as empresas multinacionais, que até há pouco tempo tinham origem quase exclusivamente em países desenvolvidos, também florescem nas economias em desenvolvimento. E vai além: descreve como essas novas multinacionais estão redesenhando o cenário econômico mundial.

Ainda majoritariamente receptores de investimento, os países em desenvolvimento estão trilhando, pela internacionalização, o caminho já percorrido pelas nações desenvolvidas em seu processo de industrialização. A trajetória que transforma atores regionais em competidores globais de primeira importância deve-se, segundo o autor, a determinadas vantagens competitivas, não necessariamente ligadas ao avanço tecnológico.

Goldstein discute ainda a pertinência das teorias existentes sobre internacionalização das empresas e a necessidade de adaptá-las às realidades da internacionalização das "novas multinacionais". Ao analisar as estratégias adotadas por empresas de diferentes países, Goldstein descreve particularidades nacionais que influenciam sua implementação e seus resultados.

A frenética expansão das empresas asiáticas das últimas décadas - especialmente das companhias chinesas, que hoje são as principais investidoras externas dentre as economias emergentes - é examinada a fundo pelo autor. Ele lembra que, durante a maior parte do século XX, a América Latina liderou o movimento de expansão global entre os emergentes. A ultrapassagem deveu-se não apenas ao apetite asiático. Segundo Goldstein, as sucessivas crises econômicas dos países latinos atrapalharam o processo. Apenas nos anos 1990, com a realização de reformas estruturais, as multilatinas recuperaram o fôlego.

Goldstein exalta a importância das políticas governamentais e exorta os governos a implementar políticas que incentivem a competição como forma de aumentar a produtividade das empresas, assim impulsionando-as ao mercado externo. Mas alerta contra as tendências protecionistas que supostamente favorecem empresas locais, mas que acabam prejudicando a competitividade do país.

Ao fazer uma clara defesa do livre mercado, a obra fornece uma contribuição significativa sobre a necessidade de se preservar a livre concorrência no comércio internacional. Goldstein adverte, na obra, que as economias desenvolvidas dão um tiro no próprio pé quando fecham as portas para empresas originárias dos países emergentes, que por muitos anos receberam os investimentos estrangeiros de braços abertos. Além de injusto, é algo que não faz sentido do ponto de vista econômico.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista exclusiva concedida à PIB por Goldstein, por telefone, de Paris:

O peso das "novas multinacionais"
Podemos dizer que 15% dos fluxos de investimento se movimentam de países em desenvolvimento na direção das economias emergentes, embora não existam dados exatos. A importância desse movimento depende da origem e do destino dos investimentos. Na Ásia, por exemplo, há crescimento do peso das multinacionais em países como China, Índia e Cingapura. Elas atuam tanto como fontes quanto como destinatárias de investimentos no exterior.

Recuperação latino-americana
As operações das empresas são, de alguma forma, predeterminadas pelo crescimento e bem-estar de seus países, e vice-versa. Desde meados dos anos 1970, a América Latina tem alternado ciclos de forte crescimento com períodos longos de recessão ou estagnação. Obviamente, as empresas sofreram as conseqüências disso. Porém, as coisas estão mudando em todo o continente. No Brasil, por exemplo, grandes companhias começam a despontar como líderes regionais e até globais, como Vale, Petrobras, Embraer, Gerdau, Votorantim, CSN, entre outras. Em geral, as empresas líderes são aquelas que foram privatizadas e nas quais o Estado continua desempenhando um papel importante, determinando ou afetando suas políticas e apoiando sua internacionalização.

Mercado inexplorado
É provável que as multinacionais de países emergentes estejam mais bem preparadas ou adaptadas que as empresas já estabelecidas para suprir o mercado que tem como alvo o público da base da pirâmide socioeconômica. Um exemplo são as empresas de telefonia sulafricanas, que atuam com sistema pré-pago, enquanto suas competidoras de origem européia avaliaram mal o mercado e demoraram a adaptar seus produtos à realidade local. Algo parecido ocorreu na América Latina.

Contexto político
É difícil generalizar, mas a América Latina está mais democrática. Muito mais que os países asiáticos em geral. Esse é um ponto a favor para as empresas com origem no continente. Por outro lado, existem governos que não conseguem apoiar da melhor maneira a internacionalização das empresas, às vezes por falta de bons quadros no setor público.

A imagem das multilatinas
Empresas mexicanas e brasileiras são bem-vistas, especialmente nos quesitos de governança corporativa e responsabilidade social empresarial. Isso não significa que sua origem não possa ocasionalmente atrapalhar. É muito difícil uma empresa dissociar-se da imagem de seu país de origem, tanto para o mercado financeiro quanto para o público em geral. Muitas vezes, um setor ou um ponto de origem está associado a determinadas características negativas, mesmo que elas sejam falsas. Reações a certos governos também afetam as percepções. Sendo assim, o fato de que as pessoas gostam do Brasil e do México passa a ser uma vantagem para as empresas desses países.

Desenvolvimento sustentável
O movimento em prol do desenvolvimento sustentável pode abrir oportunidades para as "novas multinacionais". Como são relativamente jovens, essas empresas conseguem reagir mais rapidamente a novos acontecimentos. Isso ocorre mais ainda no Brasil, que goza de uma vantagem natural com o etanol. Na Europa Continental, os consumidores estão mais ligados em assuntos ambientais.

O modelo asiático
Ásia e América Latina possuem diferenças extremas, o que dificulta a adaptação do modelo asiático. De maneira geral, a América Latina costuma ser menos previsível do que a Ásia, o que pode ser ruim para os negócios. Por outro lado, por ser mais democrática, a América Latina tende a corrigir más decisões. A maioria dos países do continente, em especial o Brasil, estão adotando políticas macroeconômicas mais conservadoras, o que é crucial para as empresas, que precisam investir pensando no futuro. Não é mais necessário que elas sobrevivam pensando apenas no dia de amanhã. A Ásia, porém, leva vantagem quando se considera a troca de informações entre o governo e o setor privado. Os países latino-americanos avançaram muito nesse ponto nos últimos 15 ou 20 anos, mas ainda é insuficiente. Uma vantagem das nações do continente, por outro lado, é a aproximação cultural com a Europa e com os Estados Unidos. Na Ásia, grande parte do fluxo externo ocorre no interior do próprio continente. Um latino leva mais tempo que um asiático para conquistar a confiança de parceiros na Ásia.

Diversificação brasileira
Os países emergentes estão conseguindo mais do que a mera especialização em um setor ou subsetor. As grandes economias estão se diversificando, buscando outros caminhos. Sem dúvida, o Brasil tem uma grande vantagem quando se trata de biocombustíveis. Mas também se destaca nos setores siderúrgico e aeronáutico. Até sua indústria automobilística, que não é nacional, supera rivais na Índia e na China em termos de eficiência.



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