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Dez 2008/Jan 2009

O remédio da inovação

Laboratórios brasileiros criam produtos de origem natural capazes de ganhar
dinheiro no exterior

Flávio de Carvalho Serpa
Fábrica de Eurofarma em Itapevi: padrão internacional

Nos últimos anos, o Brasil conquistou notável visibilidade nos mercados de alta tecnologia (aviões da Embraer), energia (etanol e petróleo) e design (moda). Agora, o mundo está de olho na biotecnologia brasileira.

Essa notícia, até há pouco, teria como base apenas a reconhecida vantagem competitiva que só o Brasil tem: sua biodiversidade. De fato, a flora e a fauna brasileiras, com mais de 20% dos bichos e vegetais do planeta, são o celeiro cobiçado por pesquisadores de todo o mundo. Mas agora, graças a pesquisas inovadoras de cientistas e farmacologistas brasileiros e ao interesse de novas empresas de biotecnologia, o país "está a caminho de uma transição de imitador para inovador em produtos relacionados à saúde".

Essa é a conclusão de uma extensa análise publicada na revista canadense Nature Biotechnology pelo McLaughlin-Rotman Centre for Global Health (MRC), ligado à Universidade de Toronto. O estudo deu visibilidade mundial à potencialidade brasileira de produzir inovações a um custo substancialmente menor que os das gigantes multinacionais dos fármacos (clique aqui para ler resumo, em inglês).

Todos os casos de sucesso das farmacêuticas nacionais passam pela exploração da ainda quase desconhecida biodiversidade brasileira. Um exemplo disso é o medicamento contra o envelhecimento em pesquisa no laboratório Eurofarma, que licenciou patentes criadas pelo químico André Arigony Souto, da Faculdade de Química da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

A droga terá como base o resveratrol - molécula presente no vinho e no suco de uva que faz enorme sucesso potencialmente com a perspectiva de retardar o envelhecimento. André Arigony foi um pioneiro no estudo da substância, antes de ela entrar na moda.

"Pesquiso o resveratrol desde 1999", diz. "Recentemente a literatura científica mostrou que ele é uma supermolécula com amplo espectro de ação - antioxidante, antiinflamatório, antiviral, cardioprotetor, neuroprotetor, quimiopreventivo de câncer, além de proteger contra infecções e isquemia, reduzir a obesidade e retardar o envelhecimento."


Azeda contra o diabetes

Segundo Arigony, a Eurofarma decidiu pesquisar novas formas de resveratrol e encontrou nas raízes da planta azeda mais de cem vezes a concentração que se encontra na uva. "Essa foi a primeira patente que depositamos", diz. "Outra foi o estudo para evitar a rápida eliminação do resveratrol no organismo. Essa patente é importante, pois visa produzir um medicamento para diabetes tipo II."

A Eurofarma, que licenciou as patentes, pretende colocar o remédio no mercado em 2013. A empresa, 100% brasileira, tem planos ambiciosos. "A meta é cobrirmos 90% do território latino-americano com operação própria até 2015", diz Maria de Pilar Muñoz, diretora de assuntos institucionais da Eurofarma.

Em 2007, a Eurofarma conseguiu para uma linha de produtos o sinal verde na European Medicines Agency, o órgão regulador europeu. "A empresa está se preparando para competir de forma mais agressiva, buscando certificação de órgãos internacionais que vão permitir a exportação dos produtos fabricados no Brasil" explica Pilar.

Nessa estratégia, a bela fábrica construída em Itapevi, perto da capital paulista, às margens da Rodovia Castello Branco, terá papel fundamental. Planejada segundo os padrões da Federal Drug Agency dos EUA, vai atender às necessidades atuais e futuras do laboratório, tanto para abastecimento do mercado interno quanto nos planos de exportação e internacionalização.

A Eurofarma já está testando também seu primeiro fármaco fitoterápico, com efeitos parecidos com os do Acheflan, da Aché. Trata-se do Aleurites, com ação analgésica e antiinflamatória, à base de extrato seco de folhas da Aleurites moluccana, conhecida popularmente no Brasil como nogueira-da-índia.


O látex que cura

O diretor de inovação da Eurofarma, Wolney Alonso, diz que há outros projetos a caminho. "Este é apenas o primeiro de outros que também envolvem a biodiversidade brasileira. Além disso, estamos sempre em busca de novas parcerias com universidades e instituições para o desenvolvimento de pesquisas inovadoras no país", afirma o executivo. Ele calcula que a nova medicação estará nas prateleiras das farmácias em 2012.

A biodiversidade brasileira também é inspiração para o sócio e presidente do conselho de administração da jovem empresa Pele Nova Biotecnologia, Ozires Silva. Ex-CEO da Embraer, Varig e Petrobras, Ozires traz toda sua vasta experiência para o mundo farmacêutico focando o aproveitamento de substâncias naturais.

Ozires é um entusiasta dos recursos naturais do país desde que serviu como tenente-aviador em Belém do Pará, no início da carreira. "A biodiversidade brasileira é cantada em verso e prosa no mundo inteiro, mas o Brasil pouco se apropria dela", afirma Ozires. "A Anvisa diz que 90% dos fármacos utilizados no Brasil são importados."

A Pele Nova Biotecnologia foi criada em 2003 a partir do trabalho de dois pesquisadores da USP que descobriram os poderes regeneradores do látex da seringueira nos tecidos do esôfago. O produto, batizado com o nome comercial de Biocure, já tem pedido de patente em 60 países. Aprovado pela Anvisa, a agência reguladora brasileira, tem várias aplicações na cicatrização de úlceras e até de queimaduras graves.

"É um negócio excepcional", diz Ozires. "Abrimos um espectro de produtos absolutamente novos, que em geral são fabricados com tecnologias muito mais caras, com processos não só de pesquisa, mas também de produção extremamente elaborados."


Ciência e política

Há uma vantagem adicional, segundo Ozires. "Nosso produto é natural, o que tem enorme apelo no mercado mundial." Outro grande passo foi dado pelo professor e pesquisador João Batista Calixto, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, que desenvolveu ao cabo de dez anos de pesquisa o primeiro medicamento 100% nacional, o antiinflamatório Acheflan, comercializado pelos laboratórios Aché.

O Acheflan marca também o primeiro grande salto nos planos de internacionalização do Laboratório Aché. O produto vai ser comercializado no Canadá e nos Estados Unidos, numa parceria com a RFI Ingredients. No México, será com a farmacêutica local Silanes, com a qual já mantém parceria desde 2006.

A Aché investiu mais de R$ 190 milhões em um novo complexo industrial, para adequar a produção do laboratório aos padrões internacionais, com equipamentos de última geração e dentro das mais rígidas normas regulatórias. As exportações do laboratório brasileiro correspondem ainda a uma pequena parcela do seu faturamento, algo em torno de R$ 4 milhões anuais, basicamente para vizinhos latino-americanos.

Os obstáculos que restam à definitiva decolagem da indústria farmacêutica brasileira são singulares no entender do co-autor do estudo da revista Nature, o médico Peter Singer. "Ao contrário do que acontece em muitos países, o que está segurando o Brasil não tem nada a ver com a competência científica, que é de classe mundial", diz Singer. "Infelizmente, o que atrasa a transição brasileira é um conjunto de desafios relativamente pequenos", conclui o médico.

Um desses obstáculos é a falta de uma política oficial de financiamento para o setor. Produzir um medicamento realmente inovador partindo de zero exige o investimento de algumas centenas de milhões de dólares.

No radar de Bill Gates

O professor Calixto acredita que a biotecnologia brasileira continuará avançando, contornando obstáculos. Uma das possibilidades mais imediatas é o aperfeiçoamento incremental de medicamentos. "Sempre é possível fazer pequena melhoria em alguma coisa que já está no mercado, um nicho que as multinacionais desprezam", diz ele. "Se há um medicamento que é bom, mas tem alguns efeitos colaterais, podemos melhorar a formulação para torná-lo mais eficaz."

A receita funciona bem no mercado atual, ávido por curas mais naturais. Um trunfo do Acheflan sobre os similares, como o popular Cataflan e suas versões genéricas, é ele ser obtido de extratos de vegetais, e não de substâncias químicas.

Uma venerável instituição pública como o Instituto Butantan, da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, também vem dando sua contribuição para o desenvolvimento de novos medicamentos, com enorme potencial comercial. Nascido como um laboratório de emergência para produzir soro antipestoso num surto de peste bubônica no porto de Santos, em 1889, o Butantan tem uma reputação de competência na área de vacinas que o colocou no radar da Fundação Path, do casal Bill e Melinda Gates.

Com dinheiro da fundação do dono da Microsoft e do National Health Institutes dos EUA, o Butantan está investindo R$ 20 milhões nos próximos dois anos para criar uma vacina contra a dengue, inicialmente produzida em escala-piloto para estudos clínicos. Depois de testada em seres humanos, a vacina contra a dengue made in Butantan será vendida ao Ministério da Saúde, para aplicação gratuita nas áreas de risco no Brasil e, a seguir, exportada em escala comercial para outros países que também participarão dos testes clínicos, como a Coréia do Sul e os EUA.

foto: Divulgação



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