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Dez 2008/Jan 2009

A hora e a vez dos emergentes?

O colapso financeiro e a crise nas economias desenvolvidas estariam abrindo uma inédita chance de liderança para os países em desenvolvimento. Será?

Bruno K. Reis

"Estamos em tempo de tormenta e vento esquivo" (Luís de Camões)

Em meio à maior crise econômica e financeira desde a década de 1930, o mundo assiste ao colapso do sistema financeiro nos países ricos e, sobretudo na maior economia mundial, os Estados Unidos. Grandes bancos de investimentos como Merril Lynch, Lehman Brothers e Bear Stearns, outrora símbolos da pujança financeira, foram vendidos, socorridos às pressas para não quebrar ou simplesmente foram à falência.

Grandes bancos comerciais, como o Citigroup, precisaram recorrer a fundos soberanos de países em desenvolvimento e ao suporte do governo para não seguir o mesmo rumo. Indústrias tradicionais como a automobilística correm o risco de desaparecer e o sistema imobiliário, origem do efeito cascata que culminou nessa situação, deverá levar muitos anos para se reerguer.

Países inteiros, como foi o caso da Islândia, simplesmente faliram. Enquanto as economias dos países ricos estavam no epicentro da crise, as economias das nações em desenvolvimento assistiam à tempestade de longe, com inabitual tranqüilidade. Vindas de anos de crescimento sem precedentes, as economias dos países em desenvolvimento cresciam a taxas recordes, puxadas por uma série de fatores, mas sobretudo pelas altas taxas de crescimento da China e de outros países como Índia e Rússia.

Esses países se beneficiavam das exportações para os países ricos e gozavam de dinheiro barato para apoiar financeiramente suas indústrias, seu comércio e sua infra-estrutura. Exportadores de commodities, como o Brasil, beneficiavam-se da alta demanda e dos elevados preços de seus produtos no mercado internacional. Graças a esse conjunto de fatores, houve um forte crescimento das economias emergentes, assim como uma expressiva acumulação de suas reservas.

A situação interna era também favorável, visto que os países emergentes encontravam-se em boa situação econômica em função dos ajustes estruturais que fizeram nos anos 90. Tendo aprendido a lição das crises que sacudiram a Ásia, o México, a Rússia e o Brasil entre 1997 e 1999, iniciaram um processo de redução da dependência externa e de ampliação do consumo interno, baseado em políticas voltadas para a população de menor poder aquisitivo, beneficiados pela abundância de crédito existente no mercado internacional.

Ao contrário dos anos 90, os países emergentes estavam agora mais preparados para a crise. Mas é preciso lembrar que a crise atual, apesar de sua amplitude e severidade, se diferencia das crises anteriores porque teve seu início e epicentro na principal economia do mundo, os Estados Unidos, tendo se espalhado em seguida para os demais países industrializados.

O fato de o olho do furacão estar longe fez crer inicialmente que pela primeira vez as economias emergentes estavam longe da tempestade e do perigo. Vozes levantaram-se para apontar o fim de uma era - da preponderância dos países desenvolvidos - e o início de um novo paradigma nas relações internacionais, no qual os países emergentes, encabeçados pela China, iriam finalmente assumir papel de destaque na economia mundial. Com os principais países capitalistas incapacitados de se manter como a força dinâmica da economia, esse papel seria substituído pelos emergentes, a nova locomotiva do mundo.


Peso na economia mundial

Portanto, vale a pena repetir a pergunta: chegou a vez, finalmente, dos países emergentes? Será que a crise que impactou de forma tão determinante as economias centrais poderá dar aos países emergentes um peso mais decisivo na economia mundial?

Segundo Hélios Herrera, professor de Economia da Universidade Columbia, de Nova York, se a crise provou algo foi que os países desenvolvidos e os Estados Unidos em particular continuam e continuarão sendo o motor da economia internacional. Para o professor, a queda no ritmo de crescimento dos países emergentes - que deverá se acentuar nos próximos meses - deixa claro que parte importante de seu vigoroso crescimento foi baseada no capital e na demanda provenientes dos países desenvolvidos.

Na realidade, a idéia de que os emergentes estariam imunes à crise vai se dissipando à medida que começam a mostrar sinais de contágio. O professor Simão Silber, do Instituto de Economia da USP, acredita que o quadro que emerge da crise revela duas coisas: a primeira é que foi por água abaixo a teoria do "descolamento", segundo a qual as economias em desenvolvimento não seriam atingidas pela crise nos países desenvolvidos; a segunda é que a crise afetará a todos, sem exceção, de forma significativa.

Como é lógico, o impacto não será igual para todos, refletirá as diferentes características dos diferentes países. Para Silber, o que ruiu foi o mecanismo pelo qual os Estados Unidos absorviam as exportações chinesas e os países em desenvolvimento financiavam a dívida americana, enquanto a China e a Índia compravam altos volumes, a preços elevados, de commodities do Brasil e de outros países em desenvolvimento.

Nessa equação entravam também os exportadores de petróleo, que tinham enormes lucros com base nos preços altos e no aumento do consumo mundial. Ao estourar a crise no coração do capitalismo mundial, essa estrutura ruiu e todos foram igualmente afetados pelo cataclismo.

Para o professor Silber, porém, nem tal terremoto deverá causar um reequilíbrio de forças na economia internacional. Mesmo as tentativas de reorganização do sistema financeiro global em torno do G-20 não deverão provocar transformações concretas. O professor Silber acredita que simplesmente não há quem possa ocupar o papel dos Estados Unidos de líder da economia global, e nem há real interesse por parte de qualquer país em assumir o posto.

Para ele, é também prematuro imaginar uma espécie de Bretton Woods 2, porque o contexto de então e o de agora são totalmente diferentes. A conferência e os acordos financeiros de Bretton Woods foram possíveis no pós-guerra, em um cenário em que a Europa e o Japão estavam completamente destruídos, os Estados Unidos tinham grande quantidade de recursos disponíveis e havia a ameaça da União Soviética na fronteira oriental da Europa.

Tudo isso possibilitou que os Estados Unidos colocassem suas propostas na mesa, e aos demais países ocidentais coube aceitá-las porque não tinham outra opção. Mas hoje os Estados Unidos estão em outra situação e a Europa e o Japão buscam seus próprios meios de contornar a crise.

Outros fatos da vida real tornam frágil a hipótese de os emergentes ganharem preeminência e até compartilharem liderança em meio à tormenta. Os mais evidentes: os países desenvolvidos não querem que os países em desenvolvimento ganhem espaço político; o Japão não gostaria de competir na Ásia com uma China ainda mais poderosa; a União Européia, que busca se fortalecer no âmbito de suas características transnacionais, não pretende perder importância em detrimento do grupo BRIC e demais emergentes.

Resta o fato concreto de que, como lembra o professor Silber, não basta a retórica: um aumento do papel dos países emergentes estaria naturalmente condicionado a um aumento das responsabilidades, como contribuir para a recapitalização do FMI e do Banco Mundial.

Com que dinheiro? Mesmo a China reluta em ter um papel destacado na crise e tem tido atuação extremamente discreta, apesar de suas enormes reservas. Assim, seria mais adequado falar em uma nova cultura de ações coordenadas dos bancos centrais do que de reestruturação do sistema financeiro internacional.


Oportunidades?

Como se diz, crises trazem riscos e oportunidades, mas os emergentes, muito heterogêneos, reagem de modo diferente a ambos. Alguns países já começaram a passar dificuldades: a Turquia tem sentido de forma contundente os efeitos da crise. Países da Europa Oriental como Hungria e Ucrânia tiveram de pedir socorro ao FMI.

Se focarmos apenas no grupo BRIC, para ficar nos emergentes mais importantes, é fácil constatar que também são muito distintos entre si e absorvem a crise de forma diferente. A única coisa que compartilham é a certeza de que nenhum escapará incólume da crise.

Conforme notou o embaixador Rubens Ricupero (leia entrevista aqui), os emergentes já estão sendo atingidos de diferentes maneiras. A Rússia está indo muito mal, com problemas muito graves em razão da vertiginosa queda do preço do petróleo e do gás. A Índia está com problemas em razão de importantes déficits em conta corrente.

O Brasil também não está numa posição brilhante, com problemas no câmbio e sem mercado e preço para suas commodities. Para Ricupero, o único país muito sólido é a China. Por isso, em sua opinião, "emergente só tem um mesmo, a China".

O professor Hélios Herrera acha que, em vez de proporcionar aos emergentes um papel de destaque, a crise vai é pôr à prova sua resistência a crises exógenas - pelo menos a curto prazo. A vulnerabilidade dos países emergentes em relação à retração das economias centrais e sua dependência de alavancagem financeira ainda são importantes, segundo Herrera. E países exportadores de commodities, como o Brasil, são historicamente vulneráveis a oscilação de preços no mercado internacional.

Ricupero lembra que o "Brasil não goza de nenhum excepcionalismo: como os demais países latino-americanos, cresce quando melhoram os preços das commodities em relação aos preços de importação e se retrai quando há queda na demanda internacional". A boa notícia é que a médio prazo os emergentes deverão se recuperar. E, mesmo que não se tornem as locomotivas do mundo, com certeza terão gradativamente um peso mais decisivo na economia mundial.

É um processo inevitável. A crise pode não transformar os emergentes em protagonistas, mas tampouco vai decretar o fim do crescimento desses países. Mesmo que não consigam sustentar as taxas de crescimento dos últimos anos, comparativamente apresentarão taxas mais altas que as registradas nos países desenvolvidos. As elevadas reservas cambiais também contribuirão para a redução de impactos negativos.


Quanto ao Brasil?

Harold L. Sirkin, sócio sênior do Boston Consulting Group, disse em recente seminário realizado em São Paulo que o Brasil se encontrava em posição privilegiada no cenário internacional e será afetado pela crise apenas no curtíssimo prazo.

Para Sirkin, o país conta com abundância de recursos naturais, um parque energético amplo e diversificado - com destaque para o etanol e as recém-descobertas de petróleo na camada do pré-sal - recursos minerais em grande quantidade e a agricultura mais competitiva do mundo. "O Brasil tem o que o mundo precisa", diz Sirkin.

Os gigantes em desenvolvimento como China e Índia, que têm enorme população, continuarão colocando milhares de pessoas no mercado consumidor a cada ano. Essas pessoas terão de se alimentar, contar com uma infraestrutura que comporte esse crescimento. Tal fenômeno, que não deverá ser paralisado pela crise, fará com que o Brasil ganhe gradual importância na economia mundial.

Passada a tormenta, ninguém duvida que o aumento de importância relativa dos países emergentes deverá se intensificar nas próximas décadas. Esse processo, embora contínuo, tenderá a ser gradual, sem reviravoltas no curto prazo.

Os países desenvolvidos deverão permanecer como principais atores da economia mundial - com a inclusão inevitável da China. Se souberem superar os impactos negativos de curto prazo, os emergentes ganharão mais espaço político - pelo simples fato de que continuarão ganhando peso econômico.



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