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12/01/2009

Almir Barbassa, da Petrobras: Crédito para os fornecedores na hora do aperto

A empresa é uma correia de transmissão de liquidez para o mercado, diz o diretor

Nely Caixeta
Barbassa: projetos internacionais serão mantidos

A Petrobras quer ser uma das cinco maiores empresas empresas petrolíferas do mundo até 2015 e, mesmo na crise, vai manter a atuação internacional na exploração de poços em águas profundas. A estatal de energia está repassando a seus fornecedores parte dos recursos que levanta no mercado, diz Almir Barbassa, o diretor financeiro da empresa, como forma de ajudá-los a enfrentar a escassez de crédito.  

Como é gerir financeiramente uma empresa nesta era em que o dinheiro sumiu?
Todas as empresas no mundo estão passando por momentos mais difíceis do que aqueles em que vivemos nos últimos tempos. Esta é uma crise muito mais profunda do que as anteriores, quando o sistema financeiro estava pronto para emprestar a quem tinha condições de tomar. Agora o setor financeiro praticamente inexiste. Os bancos perderam muito e foram obrigados a enxugar o mercado.

Qual foi o crescimento da alavancagem do sistema financeiro internacional nos últimos tempos?
Em algumas situações, mais de 30 vezes, em outras, até 90 vezes. Isso é impensável. No Brasil a alavancagem do sistema financeiro é limitada a sete ou oito vezes. Por isso temos um sistema muito saudável. Hoje, as empresas estão enfrentando dificuldades por causa da mudança muito rápida, de uma maneira geral, da falta de crédito. Para uma empresa como a Petrobras, de dimensões globais, as dificuldades são menores. Se existe disponibilidade de crédito, os bancos buscam tomadores que ofereçam menos riscos, empresas mais sólidas. No Brasil, procuram a Petrobras, que repassa recursos para sua cadeia de fornecedores, na forma de adiantamento, a um custo inferior àquele que eles pagariam no mercado.

O senhor está dizendo que a Petrobras, por seu porte e reservas, não está tendo dificuldade para levantar recursos, mas seus fornecedores sim?
Esse é um grande problema. Conseguimos, até nesse momento de grande restrição de liquidez no mercado, captar recursos - coisa que a maioria das empresas não consegue. Assim, somos repassadores para a cadeia de empresas que nos fornece equipamentos, serviços, materiais, obras, empresas de engenharia, empresas de construção... Algumas, que trabalham em obras da Petrobras no Brasil inteiro, têm dificuldades. Antes tomavam empréstimo no banco local, mas agora buscam maior segurança. Desta forma, acabamos nos tornando uma correia de transmissão de liquidez para o mercado. Se puxássemos o freio, haveria um descarrilamento na economia brasileira. Por que estamos confortáveis e mantendo o nosso nível de atividade? Porque trabalhamos com um segmento que, haja o que houver, será necessário. Sempre haverá demanda para o nosso produto, que é a energia. Pode haver uma queda agora ou durante algum período, mas vamos recuperar. Nossos projetos têm prazo de cinco ou sete anos, às vezes até mais tempo. Assim, temos de olhar para o longo prazo. Se existe, agora, uma dificuldade no mercado, temos de fazer uma ponte para vencê-la e continuar nosso ritmo de investimento porque, além dos benefícios para a economia, vamos sustentar o crescimento da empresa. O mundo vai continuar demandando energia, e hoje ainda não existe substituto para o petróleo. Por algum tempo as coisas continuarão assim. Portanto, temos um portifólio de bons projetos que nos asseguram e que nos dão tranqüilidade. Podemos escolher aquele que queremos desenvolver, e ainda manter a empresa rentável e saudável.

Desde que estourou a crise, a Petrobras captou recursos em volume superior ou inferior ao que estava previsto? E a que taxas?
Neste ano, por exemplo, captamos 6,7 bilhões de dólares. Isso condizia, mais ou menos, com o que estava previsto. Tínhamos uma geração operacional de caixa abundante, maior do que a demanda até setembro passado. Uma parte pagava outras dívidas vencidas - não a dívida líquida. A dívida líquida, até setembro deste ano, foi de cerca de 4 bilhões de dólares novos. Mas o total captado foi 6,7 nesse mesmo período.

E depois de setembro?
Até o final de outubro fizemos, no ano, dezoito operações de captação. Temos diversas operações com bancos internacionais e com bancos no Brasil. Mas o setor bancário brasileiro estava proibido, pela regulação, a fazer empréstimos diretos à Petrobras. Analisando a restrição com cuidado, percebe-se que ela é um tanto esdrúxula - e talvez por isso tenha sido parcialmente revogada em outubro. O Conselho Monetário Nacional autorizou a Petrobras a tomar até 8 milhões de reais no mercado brasileiro, devido à lei de contingenciamento bancário. Então hoje uma das operações - a mais simples que temos com o setor bancário - é de empréstimo.

A proibição vigorou por quanto tempo?
Acho que do início da década de 90, pelo menos, até agora. Quando eu participava, por exemplo, de uma licitação para adquirir um bloco exploratório... A ANP requer que façamos uma oferta de investimento mínimo naquela área. Como ganhadora, a Petrobras tem que fornecer à ANP uma carta de garantia daquele investimento, uma garantia bancária de que vamos fazer o investimento. E eu não tinha como obter tal garantia de um banco brasileiro para oferecer à ANP. Precisava ir ao exterior, contratar a garantia lá, e então um banco brasileiro a repassava à ANP. Isso discriminava o sistema financeiro nacional também, não é? Sim. Retirava do sistema financeiro nacional a principal empresa brasileira. Agora, em face da crise, facultou-se à Petrobras o mesmo direito que têm todas as empresas brasileiras.

O senhor disse que as restrições foram suspensas parcialmente...
Sim, porque os recursos foram limitados a 8 milhões de reais.

Como está a situação dos fornecedores da empresa?
O problema é o dinheiro, o financiamento, Para construir um equipamento, por exemplo, um fornecedor da Petrobras tem de ir ao mercado e encontra barreiras. Em muitos casos, oferecemos um contrato de fretamento ou de aluguel por muitos anos, para facilitar a negociação com o banco. Mas, neste momento, as entidades financeiras estão muito mais restritivas. Elas exigem de nossos fornecedores uma participação maior de capital próprio. Governos do mundo inteiro estão disponibilizando crédito para suas indústrias, suas empresas, para se prepararem e permanecerem ativos. Porque sem atividade não há emprego, e assim entramos mais violentamente no processo de recessão. O grande drama do momento é esse. Empresas, ás vezes sólidas, não encontram recursos, acabam não podendo fornecer serviços, e desempregam pessoas.

Até agora, qual o volume de recursos repassado pela Petrobras aos fornecedores que encontram dificuldade em obter crédito?
Isso varia muito de acordo com a demanda. Não é muito. Nós disponibilizamos e quem quiser entra no sistema. Funciona de maneira quase automática.

Foi preciso criar uma estrutura para fazer esses repasses?
Não, isso ocorre dentro do sistema de tesouraria. Normalmente, para qualquer fornecedor, o pagamento é feito em trinta dias. Hoje, em vez de trinta o pagamento é feito em menos tempo ? dez, quinze, cinco dias. Com isso o dinheiro vai para o fornecedor, que paga um pouco mais do que o CDI. A Petrobras está exercendo um papel importante para alavancar a economia brasileira neste momento difícil.

O senhor acredita numa depressão mundial?
Já existe. Estados Unidos e Europa estão passando por uma crise profunda.

O Brasil e outros países emergentes têm melhor chance de enfrentar essa crise?
Acho que os países emergentes, particularmente os que têm grande mercado interno, se mantiverem a atividade econômica bem alimentada (mantendo o emprego e a renda), poderão continuar a crescer. Mas isso depende de programas bem elaborados, para manter financiamento para a indústria e outros segmentos que estão carentes, de fato, de dinheiro.

Isso não significa um retrocesso no processo de internacionalização? Quando finalmente a economia estava deixando de ser tão insular as empresas voltam-se novamente para o mercado interno?
O mercado interno é importante para todos os países. Para os Estados Unidos o mercado interno é muito importante. A China, agora, anunciou um investimento interno de 500 bilhões de dólares num ambiente com uma população de, pelo menos, 400 milhões de pessoas com capacidade aquisitiva. Isso é duas vezes ou mais a população que compra dos Estados Unidos. Penso ser este o caso do Brasil também, que tem um mercado que vinha crescendo com aumento de renda, aumento de consumo. Se for mantido o nível de investimento e se a economia for irrigada, a atividade e o crescimento serão mantidos.

Dos recursos previstos no plano de investimentos nos próximos cinco anos, que percentual iria para as atividades da Petrobras Internacional?
Ah, muito pouco; de 13% a 15%.

Isso se mantém ou o percentual pode cair, com o dólar mais valorizado?
Ainda não revisamos o plano, e é nele que estarão as novas dimensões. Mas o anterior indicava por volta de 13%. A Petrobras é uma grande empresa brasileira porque foi muito bem sucedida no Brasil, onde seu crescimento foi extraordinariamente maior do que fora do país. Tem grandes descobertas, um portifólio invejável. Qualquer empresa de petróleo tem uma coisa que vale muito mais do que dinheiro - as reservas.

A Petrobras já é major player do mercado mundial de petróleo. Que lugar deseja ocupar no pelotão da frente das grandes petrolíferas?
Em nosso horizonte de planejamento até 2012, 2015, quer estar entre as cinco maiores do mercado mundial.

Essa meta pode ser revista?
O planejamento está sob revisão. Estamos todos igualmente sofrendo.

A Petrobras terá melhores condições de dar um salto? Ou as descobertas recentes não terão impacto tão imediato devido às enormes dificuldades de exploração e extração de petróleo nas áreas do pré-sal?
Essas áreas não são difíceis. Já estamos produzindo um poço no Espírito Santo, embaixo de um campo. Estávamos produzindo um campo, aí furaram mais fundo e acharam outro campo muito mais volumoso. Isso tem um valor extraordinário! Dizer que a Petrobras pode ter dificuldades... É só querer que ela arruma o recurso que quiser. Mas essa não é a proposta da companhia.

Pode-se imaginar que a Petrobras alcançará a meta de figurar entre as cinco maiores petrolíferas do mundo antes do que supunha?
Sem dúvida. Ainda não temos como dizer quanto custará a produção do novo petróleo descoberto, e por isso ele não foi devidamente valorizado. Mas espero que quando nosso plano for liberado tudo fique mais claro. Mas chamo a atenção para um aspecto: o custo de produção depende do número de barris que se produz num campo ou num poço. O poço do Espírito Santo, ainda em regime de teste, está produzindo 15 mil barris por dia! A 50 dólares por barril, isso significa 750 mil dólares/dia. Se esse poço custa 60 milhões de dólares, se paga em 90 dias. A produtividade é fundamental para a definição do custo de produção. E um fator que estamos encontrando ali é alta produtividade, o que nos dá uma confiança de que teremos custo de produção muito competitivo.

A atuação internacional da empresa poderá ser revista?
A Petrobras é uma das empresas que melhor dominam o conhecimento de operar em água profunda, por isso é natural que opere nessa a área fora do Brasil. Em qualquer circunstância vamos manter nossa atividade nesse segmento.

Prioritariamente na África?
Na Costa Oeste da África, no Golfo do México, no Mar Negro, na Turquia...

E a respeito de novas aquisições de empresas distribuidoras na América Latina?
Já temos posição na Colômbia, no Paraguai, no Uruguai, na Argentina e no Chile. É uma boa amostra. São operações pequenas quando comparadas com o conjunto de operações da Petrobras.

Com o preço do petróleo em queda, a Petrobras poderá reduzir os investimentos na área de combustíveis alternativos?
Aí há dois segmentos: um é o do álcool. Estamos procurando comercializar o álcool no exterior, disponibilizar meios para o escoamento. Não pretendemos ser produtores. O álcoolduto do sul de Goiás ao litoral de São Paulo continua em nossos planos. E navios também. Não pretendemos operar nenhuma planta de produção. Nem plantar cana - esse não é o nosso negócio. Nosso negócio é fazer comercialização e oferecer a infra-estrutura necessária para o transporte. Outro segmento é o biodiesel. Acreditamos que seja um produto que tem um futuro promissor no país. Ainda existe muita produtividade a ser ganha, o que modificará muito o perfil do produto. Ao produzir o diesel, estaremos disponibilizando um bem de melhor qualidade e substituindo a importação. Estamos desenvolvendo plantas geneticamente melhoradas com a Embrapa e este é um investimento para o futuro.

Mesmo com valor do barril de petróleo mais baixo haverá demanda por combustíveis alternativos? A questão ambiental é tão forte que valida alternativas como o etanol?
Eu acho que sim. Haverá problemas daqui a dois anos quanto a alguns produtos, mas o álcool é competitivo (ao preço que está aí hoje). Vai continuar a crescer. Para o biodiesel o investimento é muito marginal, mas pretendemos vê-lo muito mais importante no futuro.

Um futuro de quanto tempo?
Levará alguns anos para melhorar a produtividade e aumentar a competitividade desse produto.

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foto: Divulgação



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