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Dez 2008/Jan 2009

No olho do furacão

A internacionalização das empresas dá mais poder aos executivos, mas também
os deixa mais vulneráveis

Christine Puleo
Fátima Zorzato: executivo tem o dever de dizer
O mundo globalizado pede executivos brasileiros à altura: preparados para decidir com autonomia e de modo rápido e eficaz, dispostos a assumir riscos cada vez mais altos, habituados a trabalhar sob tensão e capazes de apresentar resultados consistentes. Antes mesmo do início do tsunami que abala a economia mundial, a contratação no alto escalão das empresas já tinha se tornado mais exigente e seletiva, e esse processo se acentuou na crise.

Um bom pacote de remuneração é o prêmio habitual para os escolhidos, mas as altas expectativas do comando das empresas às vezes se mostram excessivas, com desdobramentos dramáticos, como as fantásticas perdas cambiais de grandes grupos brasileiros em 2008. Pode-se creditar à necessidade de causar boa impressão à alta hierarquia pelo menos parte da responsabilidade pelo chamado subprime brasileiro - as operações em que executivos de empresas como Sadia, Aracruz e Votorantim investiram pesado em contratos cambiais, apostando contra o dólar e levando as empresas a amargar prejuízos bilionários quando a moeda americana disparou.


Pressa pelos resultados

Fátima Zorzato, gerente da multinacional caça-talentos Russell Reynolds Associates no Brasil, chama a atenção para o sentido de urgência em torno do desempenho dos executivos no Brasil. "Para ser bem-sucedidos, eles precisam causar impacto cada vez maior e gerar resultados imediatos", diz. "Antigamente, o conselho e os acionistas levavam até três ou quatro anos para avaliar o desempenho de um profissional. Hoje em dia, isso é feito em menos de um ano." A seu ver, no entanto, essa pressão por resultados não pode justificar os erros cometidos pelos executivos envolvidos no subprime brasileiro.

"Eles concordaram com essas apostas financeiras arriscadas e, em muitos casos, parecia que haviam perdido a razão", diz Fátima. "A decisão é da empresa, mas no fim das contas o executivo está lá para orientar o conselho quanto aos riscos. Portanto, a responsabilidade é dele." Com o horizonte da crise ainda indefinido, o clima no mundo do trabalho estressante e competitivo deve continuar por todo 2009.

"A partir de agora os executivos terão de mostrar mais experiência prática e benefícios concretos - aumentar vendas, baixar preços, reduzir custos, negociar cobrança e, no geral, melhorar os resultados", diz Marcelo Mariaca, da empresa de consultoria de RH Mariaca, com sede em São Paulo. No perfil do novo executivo, um traço de personalidade deve ser especialmente valorizado na hora da contratação para cargos de comando.

As empresas, segundo Fátima, precisam de executivos que sejam líderes fortes, capazes de exercer suas funções com habilidade e autonomia suficientes para proteger o bem-estar das corporações até contra a vontade dos acionistas controladores. "Precisamos de pessoas com coragem de dizer 'não' às vezes", diz. "Não é só dizer 'sim, senhor' e receber seu bônus."


Apontando culpados

Os altos executivos da área financeira envolvidos nas apostas cambiais, antes os queridinhos da comunidade corporativa, agora estão sob holofotes indesejáveis. Os acionistas da Aracruz recentemente decidiram processar o diretor financeiro Isac Zagury pelas imensas perdas cambiais sofridas pela empresa. De acordo com um porta-voz do grupo, "os próximos passos serão fixados pelos advogados da Aracruz".

A Sadia também está estudando com cuidado quem, exatamente, deve levar a culpa por seus tropeços financeiros. Quando os prejuízos vieram à tona, a companhia demitiu o diretor financeiro e contratou uma auditoria especial da KPMG, que identificou falhas nos relatórios financeiros. Uma auditoria posterior, a cargo da BDO Trevisan, vai determinar quem é responsável pelas perdas. "Uma vez estabelecidas as responsabilidades, a empresa tomará as providências devidas", diz Alessandra Wolff Terceiro, porta-voz da Sadia.

As más notícias para os executivos acusados de má gestão ou fraudes vêm também de fora. O escritório de advocacia Saxena White, uma pequena mas aguerrida firma dos Estados Unidos especializada em defender acionistas contra supostas falhas de executivos - responsabilizando-os civil e criminalmente - abriu um processo de fraude contra a Aracruz. A alegação, feita em nome de um grupo de acionistas americanos, é de que as apostas contra o dólar violaram a política de segurança da empresa e eram maiores do que o necessário para se proteger da volatilidade do câmbio em operações financeiras normais.


Seguro contra erros

Também a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) anunciou a possibilidade de investigar empresas e executivos envolvidos nessas operações. É possível que alguns desses executivos já estejam cobertos por uma modalidade de seguro, comum nos Estados Unidos, que começa a se difundir no Brasil: o Directors and Officers Liability Insurance (D&O), feito sob medida para cobrir custos de ações na Justiça contra prejuízos causados por eventuais erros de gestão (leia mais aqui).

Os especialistas discordam em relação às conseqüências para os envolvidos no tombo. "Se os executivos fizeram apostas equivocadas - principalmente sem a aprovação prévia do conselho ou se aprovaram riscos além de sua expertise ou alçada -, será o fim de várias carreiras. O impacto será duradouro, tanto quanto foram no passado outros casos de fraude ou de desvio ético", diz Mariaca. "Eles precisam ter uma atitude de franqueza, mas também devem esperar avaliações negativas sobre sua capacidade de julgamento, padrões éticos e inteligência."

Gilberto Guimarães, professor do IBMEC-SP, consultor e autor de livros sobre recursos humanos, concorda em parte com essa visão. Ele acredita que executivos despedidos por envolvimento com a crise sofrerão desgaste, mas crê também que eles logo vão se restabelecer. "Não acredito que alguém demitido por causa dessas operações seja punido profissionalmente para sempre", diz. "Não foi má-fé, foi erro de julgamento. E a culpa, se houve, não pode recair sobre uma pessoa só."

Fernando Mantovani, gerente da consultoria de RH Robert Half Brasil, concorda com Guimarães e interpreta as perdas como efeito das condições de mercado. "Estou trabalhando agora mesmo com um executivo de uma das empresas afetadas pela aposta cambial. A empresa que o entrevista está consciente disso e, ainda assim, quer conhecê- lo e talvez contratá-lo."


A boa notícia

Apesar da crise e da redução no ritmo de novas contratações no fim de 2008, a previsão de mercado de trabalho para os executivos brasileiros continua relativamente promissora. Em algumas áreas, o mercado brasileiro tem mais oportunidades do que candidatos qualificados, particularmente entre executivos de alto nível. "Simplesmente não temos a mão-de-obra qualificada de que precisamos, sobretudo nos setores de petróleo, gás, terras, construção e bioenergia", diz Mantovani.

Como se sabe, qualquer mudança - positiva ou negativa - traz novas oportunidades. O professor Guimarães nota uma particular demanda por profissionais com especialização em mudança. "Estamos vendo um interesse crescente em gestão de mudança, pessoas com experiência em reestruturação", diz. "Muitos bancos e empresas estão procurando agora esse tipo de profissional."

Essa função interdisciplinar fica no limite entre TI, gestão e comunicação; de uma forma mais ampla, o papel envolve gestão da mudança e sua subseqüente implementação tecnológica. Outra área de especialização muito procurada é a de fusões e aquisições. A crise, assim como a baixa nos preços das ações, aumentou a possibilidade de fusões no Brasil. Quem tiver experiência no mercado financeiro, principalmente com transações complexas em mercados maduros como Tóquio, Nova York e Londres, será agressivamente procurado.

Apesar de a contratação de estrangeiros ser capaz de suprir o nível de qualificação cada vez mais exigido pelas empresas nacionais, o ambiente ainda favorece o executivo brasileiro, que entende melhor a cultura e o mercado do país. "Ter experiência e sucesso no passado em ambientes difíceis, e mesmo hostis, como empresas iniciantes ou que passaram por turnarounds, contarão bastante", diz Mariaca. Mantovani também vê oportunidades onde outros enxergam somente desastre. "Existe boa oportunidade de trabalhar nas empresas que sofreram com a especulação em moedas", diz. "Os executivos que trabalhavam lá, ou os recém-contratados, têm o desafio de reconstruir essas empresas e vão poder acrescentar isso a seu currículo."

A longa história de instabilidade da economia brasileira pode ajudar os profissionais mais experientes a encarar sem dificuldade os baques recentes. "Os executivos brasileiros são famosos por capacidade de adaptação a ambiente adverso, habilidade no trato com as pessoas, liderança e aprendizado rápido", diz Mariaca. "Aprender com as crises faz parte da nossa história."



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